sábado, 29 de agosto de 2009
Ana Júlia, logo mais, no Jogo Aberto
A governadora Ana Júlia Carepa fala à Rádio Tabajara FM 106.1, neste sábado, de 2 às 4 da tarde, durante o programa "Jogo Aberto", produzido e apresentado pelo jornalista Carlos Mendes e com participação do também jornalista Francisco Sidou.
O assunto é a eleição de 2010. Com exclusividade, Ana Júlia diz como andam as articulações visando reelegê-la e quem subirá em seu palanque. Ela também aborda a disputa de duas cadeiras no Senado e faz críticas aos três senadores que hoje representam o Pará.
O programa também vai falar do fenômeno bullyng - crianças ameaçadas, espancadas e que vivem em constante estado de terror nas mãos de colegas dentro das escolas- e pedofilia, com o senador Magno Malta.
E a campanha do programa continua: cadê o prefeito Duciomar Costa? Por onde anda? O que faz? Por Belém, já se sabe, nada ele anda fazendo.
O "Jogo Aberto" pode ser ouvido, além do rádio e do celular, pela Internet, no endereço www.radiotabajara.com.br
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Na Carreira
Tenho pensado muito em ir-me embora daqui, do Pará.
Na minha cabeça vai se afirmando a certeza de que já não há nada para mim, aqui.
Não há jornais, não há jornalismo.
E eu, quase a emplacar 50 anos, meio século!, não sei fazer nada além disso.
Fico pensando que, se tivesse insistido um pouquinho mais, teria entrado em um dos maiores jornais do Brasil. E até mesmo em um grande jornal do exterior.
Em ambos os casos, passei na peneira da seleção de texto.
Chumbei, no primeiro, por falta de conhecimentos profundos de economia; no segundo, pelo meu paupérrimo inglês.
Mas sei que chumbei, principalmente, por não insistir. Afinal, simplesmente, deixei pra lá...
Porque a verdade é que nunca consegui imaginar a minha vida longe de Belém.
Todas as cidades sempre me pareceram menores; espécie de dejá vu.
Nenhuma com o gosto de um açaí com pirarucu; nenhuma com o cheiro de um tucupi a me fazer quase que levitar em busca de.
Nenhuma com o cheiro de uma maniçoba a transcender a cozinha, a sala, a casa, as ruas.
Nenhuma com as mangas que encantaram a minha infância.
Nenhuma com o cheiro da chuva que aprendi a reconhecer a quilômetros.
Nenhuma com esta beleza infinita da nossa Belém.
Hoje, porém, nem essa beleza me enfeitiça.
Madura profissionalmente, penso que, talvez, tenha chegado a hora de partir. E partir definitivamente.
Penso em São Paulo; mais provavelmente, em Brasília.
Tenho lido o jornalismo que se faz lá fora e sei que posso fazer um pouquinho melhor, especialmente, na área política.
Aqui, já não há nada pra mim.
Poderia voltar à assessoria de imprensa, que sei fazer, modéstia à parte, muitíssimo bem.
Mas essa fase é alguma coisa que deixei pra trás; é um conhecimento interessante, mas, não é o que quero fazer.
Sempre tive com o jornalismo uma relação de amor e ódio.
E, bem vistas as coisas, com quase tudo na vida.
Mas, com quase meio século no costado, tenho de admitir que não vou conseguir fazer mais nada na vida.
Não que não possa: poderia vender comida, ser escritora, consultora de sei lá o quê.
Mas, duvido muito que encontrasse alguma coisa que me desse tanto prazer na vida quanto uma bela reportagem investigativa.
Ou uma bela reportagem, simplesmente.
O que ainda me prende é o blog do Vic.
Estou nervosa, ansiosa.
E, feito menina, vou experimentando todos os vestidos, para a hora em que entrará no ar.
Sempre tenho medo, a cada reportagem, a cada postagem.
Simplesmente, porque nunca consegui aceitar menos que o melhor.
Padeço de uma insegurança braba.
A desvantagem? Sou mais lenta que a maioria.
A vantagem? Difícil contestar o que escrevo.
Leio e releio cada reportagem, para encontrar alguma brecha.
Sofro, que nem sovaco de aleijado, até me certificar, através da publicação dos jornais e blogs, de que foi, realmente, um furo.
Daí que, talvez, entre as centenas, milhares de matérias que publiquei, haja uma ou duas passíveis de alguma contestação.
O perfeccionismo é uma praga, mas chega a ser um dom na reportagem investigativa.
A gente pega e checa duas, três, quatro vezes a mesma declaração e o mesmo documento; tem de saber se é isso mesmo, se não há, pelo caminho, alguma falsificação. Tem de olhar com desconfiança até a fonte, eis que ela tem inúmeros interesses. E tem de avaliar até a nós mesmos, para ver se não estamos sendo suficientemente “frios”; se estamos nos deixando levar por meros sentimentos.
E por que estou apostando no blog do Vic?
Porque decidi apostar na oferta de um espaço livre de comunicação.
Não sei se dará certo e estou nervosa demais, ansiosa demais para afirmar o que quer que seja.
De qualquer forma, sei que tenho de abrir mais esse caminho.
Toda a minha vida tem sido isto: abrir caminhos.
Caminhos por onde, depois, outros enveredam – e eu fico puta, e nem deveria, porque já não me é dado enveredar por tais caminhos, também.
A minha vida tem sido isto: colocar o guizo no pescoço do gato; porque ninguém se habilita; os outros têm vergonha ou medo.
Já abri mais caminhos nesta profissão do que mil diplomas. E nunca vou me conformar por não ter diploma...
O blog do Vic é, enfim, mais um caminho que estou a abrir.
Tem mais um que gostaria de ter aberto: o de uma potente estrutura de comunicação no Nordeste do Pará.
Feito isso, aos coleguinhas e à sociedade paraense, não terei mais motivo algum para continuar aqui.
Vou-me embora, cuidar da minha vida.
À procura de reconhecimento? Talvez.
Mas, certamente, à procura de jornalismo.
À procura, enfim, do meu grande amor.
FUUUUUIIIIIIIII!!!!!!!!
Um esclarecimento
Eu mesma, às vezes, tenho medo deste meu pragmatismo; da frieza com que analiso o quadro político.
Isso tem uma certa vantagem, é verdade, na medida em que nos leva a encarar a realidade “bruta”, apesar dos nossos eventuais interesses.
Mas, às vezes, pode trazer uma certa desesperança à maioria.
E é por isso que gostaria de voltar ao Sarney e a essa evisceração pública do coronelismo que estamos a fazer.
Não posso jamais afirmar o contrário do que afirmei na postagem da semana passada: que Sarney pode até cair, mas que o coronelismo, pela própria permissividade da cultura brasileira, sobreviverá.
Estaria mentindo se escrevesse algo diferente.
Porque transformações culturais não se resolvem assim, magicamente.
Dependem de lutas travadas ao longo de décadas, por vezes, séculos.
Mas, o fato de nos indignarmos com tudo isso; de, ao menos, a elite brasileira se indignar diante disso, já é um sinal alentador de toda a contracultura que conseguimos acumular, desde 1.500.
Há 200, 300 anos é muito provável que nada disso significasse coisa alguma para a maioria dos que estão nos degraus mais elevados da pirâmide social.
Um ou outro levantaria a sua voz, nas ruas, no Parlamento, mas seria olhado como um corpo estranho; seria quase que um extraterrestre.
Hoje, no entanto, o coronelismo, o feudalismo, que desde sempre dominou a política brasileira, já consegue indignar a maioria dos que estão no topo dessa pirâmide social.
É um avanço formidável, numa Nação que já nasceu a parir privilégios.
O tipo de avanço que a Europa levou milênios para alcançar.
Por isso, a lucidez que precisamos ter, no sentido de que Sarney representa apenas a prática corrente de uma cultura, não pode nos levar a imaginar que de nada adianta lutar contra isso.
Pelo contrário: temos a imensa responsabilidade de dar o nosso piteco; de colocar a nossa pedrinha, o nosso tijolinho nessa enorme construção iniciada pelos nossos tatatatatatatatatatatatataravós.
É muito improvável que vejamos “com os próprios olhos” o nosso povo a sair às ruas, indignado, contra o nepotismo.
Mas, certamente, os nossos tatatatatatatatataranetos verão algo assim.
E nós, através dos olhos deles!...
Uns olhos, talvez, até espantados diante de tão extraordinário avanço.
Como veriam os olhos de nossos tatatatatatatataravós a queda de uma ditadura ou de um Collor de Mello...
Como veriam os olhos dos nossos tatatatatatataravós a luta contra o racismo e, aquela que vai se adensando, pela preservação ambiental.
O que temos de compreender é que nada começa em nós; talvez, quem sabe, nos primeiros homens das cavernas...
Mas, cabe a cada um de nós, que conseguimos trazer essa caminhada até aqui, prossegui-la com a mesmíssima firmeza com que prosseguiriam os nossos tatatatatatatatatataravós.
Mesmo sem o conhecimento – que hoje temos! - da roda “imparável” que é a História.
Pra que a gente nunca
Pra vocês, queridinhos, que andam tão desalentados com todos esses escândalos no Congresso.
Pra vocês, irmãos, companheiros, que chegam até a imaginar que nada adiantou tudo o que fizemos, eis que este país parece “estacionado” na Antiguidade...
Pra que a gente não se esqueça de todos os desertos que este país imenso ousou enfrentar.
Pra que a gente recorde, nem que seja por uns breves minutos, o quanto já avançamos – pelas próprias mãos e pelas mãos dos nossos avós - nessa jornada por um Brasil mais honesto, mais justo, mais democrático.
Pra vocês, a força da arte, das ruas, da esperança, da fé.
A força dessa nossa História, escrita com alma e sangue.
A força desse coração tão profundamente miscigenado que bate em cada brasileiro.
A força dessa nossa extraordinária Nação!...
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
IMPERDÍVEL! IMPERDÍVEL!
http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1264402-5601,00.html
domingo, 9 de agosto de 2009
Divagações inevitáveis
A minoria com complexo de maioria
Numa coisa Renan Calheiros tem razão: o PSDB é, de fato, uma minoria com complexo de maioria.
Nem quando está fora do poder, consegue descer do salto, para buscar, enfim, aquilo que lhe faz mais falta: o apoio da sociedade civil organizada.
O autismo de que padece o partido o impede de ver que as casas parlamentares são, apenas, uma frente de batalha.
Aquela em que se pode, é verdade, andar enfatiotado.
Mas que, ao fim e ao cabo, é infinitamente inferior à grande frente de batalha das ruas deste país.
Falta aos preparadíssimos técnicos e intelectuais tucanos a necessária humildade para ir ao encontro do povo onde o povo está.
Nas baixadas, nas periferias repletas de lama e poeira, onde inexiste o mínimo para a sobrevivência digna de um cidadão.
Falta ao PSDB até mesmo a humildade para acarinhar as poucas lideranças populares que vêm ao seu encontro.
Lideranças que penam que nem sovaco de aleijado, sempre que tentam ponderar ao partido a realidade existente para além desse autismo que o consome.
Ao contrário do PT, o PSDB nunca conseguiu inserir-se no movimento popular, nas associações comunitárias, nos sindicatos, nos clubes de mães.
Pode-se argumentar que o partido padece de um defeito genético, uma vez que galgou o poder pouco depois do nascimento.
Quer dizer: queimou etapas imprescindíveis ao amadurecimento político.
Como a ciência sabe, a genética influi, mas o meio exerce papel preponderante sobre os rumos orgânicos.
E o meio em que cresceu o PSDB, nestes 15 anos, foi o do fisiologismo, do compadrio, da corrupção, do coronelismo.
Ou seja, esse caldeirão do inferno em que se realiza, desde sempre, a política brasileira.
Um caldeirão que também tem feito um mal danado ao PT, o mais partido entre os partidos brasileiros e o único que possui, de fato, “anima” popular.
E é graças a essa “anima” que o PT vacila, titubeia e nunca consegue apoiar, em bloco, as tenebrosas transações da “massa atrasada”.
Em outras palavras, sempre haverá, no PT, liderança sindical ou comunitária a indagar: “Mas o que é que eu vou dizer em casa?”.
Falta ao PSDB esse controle social interno; o controle pelo qual tanto lutou na exterioridade que é o Estado.
O controle que também tem o poder de “levantar as ruas”, quando necessário.
Simples assim.
As lições de Sarney
O Caso Sarney nos deixa a todos, Nação, preciosas e dolorosas constatações.
A mais acachapante é que somos um corpo envelhecido com rosto de menina-moça.
A par de todos os avanços dos últimos 100 anos, somos, ainda, uma sociedade de “coronéis”; a sociedade comandada pelos herdeiros legítimos dos senhores da Casa Grande.
O pior é que a maioria do povo brasileiro sequer se dá conta dessa continuidade; sequer reconhece, sob as novas denominações, as velhas práticas escravistas.
Daí o patrimonialismo (e suas expressões, como o nepotismo) ser encarado como coisa “normal” – e não como o escândalo que efetivamente é.
Daí a persistência de práticas políticas que os jornais de países desenvolvidos têm até dificuldade de explicar a seus leitores, tão surrealistas lhes parecem.
Daí o poder – e democrático – de um partido como o PMDB.
A alma desta Nação ainda vagueia pela Senzala, enquanto suspira pela Casa Grande – e não pela Democracia.
Claro sintoma dessa mentalidade arcaica é que ainda andamos a discutir o fim da prisão especial para diplomados, que perfazem, talvez, nem dez por cento dos cidadãos.
E que essa revogação proposta não se aplique aos políticos e a outras categorias, eis que não se reconhecem – e nem nós as reconhecemos – como “cidadãos comuns”.
Claro sintoma de que ainda permanecemos a suspirar pela Casa Grande é, também, o silêncio das ruas diante da evisceração pública do coronelismo, no Senado Federal.
Tivemos, apenas, a manifestação de 50 gatos pingados convocada, em São Paulo, pelo PSOL e um punhado de mensagens no Twitter e em outros “neoquilombos” da Internet.
Mas, não conseguimos transbordar para as ruas a indignação que estamos a sentir, nós, os “quilombolas”.
A maioria segue a própria vida como se nada disso lhe dissesse respeito.
E, bem lá no fundo, até a considerar que Sarney está é certo. Ou, ao menos, não está tão errado assim.
Porque, para a maioria, é “natural” usar “benesses naturalmente conquistadas” em favor dos seus.
Como se cargo público fosse ou desse direito a “benesses”. Ou fosse “conquista” forjada por mero “valor” individual.
É o suspiro pela Casa Grande, entranhado na alma brasileira.
Uma disfunção cultural que o PMDB conhece e maneja tão bem.
Daí a sua capilaridade.
Daí a conclusão de que Sarney pode até cair, pela ação dos “neoquilombolas”.
Mas o coronelismo, certamente, sobreviverá.
O fio dental da minha xará I
Leitor me pergunta se não vou comentar esse tal projeto que a minha xará, a governadora Ana Júlia Carepa, sancionou e que obriga os restaurantes paraenses a disponibilizarem fio dental a sua clientela.
Em primeiro lugar, agradeço a fidelidade do leitor, que continua a bater ponto neste blog, apesar das minhas ausências.
Em segundo lugar, quero deixar registrado que ainda não entendi a carga que alguns estão a fazer, por conta desse projeto, contra a minha xará.
Se estivesse no lugar da Ana Júlia, também teria sancionado essa história do fio dental.
E por quê?
Porque essa é uma lei tão xexelenta que já nasce morta. E, se alguém resolver cumprir, mal não fará à população.
Daí que não vejo motivo para que a governadora compre briga com a Assembléia Legislativa, com o Joaquim Passarinho e com a bancada do PTB por causa de uma besteira dessas.
E duvido muito que qualquer governador – Almir, Jatene, Jader, Gueiros – armasse um pé- de- vento por causa disso.
Ademais, quem tem de se explicar não é governadora – é a Assembléia Legislativa e o autor de tal projeto.
Tá certo que é um direito democrático do deputado Joaquim Passarinho apresentar qualquer projeto que considere importante para a população – e, pelo visto, ele considera isso importante.
Mas, também é direito democrático nosso, eleitores, contribuintes, considerar que esse é um projeto pra lá de estapafúrdio, diante das enormes carências do estado do Pará.
Ficaria bem lá na Dinamarca ou na Suécia.
Mas, no Brasil, e especialmente em estados paupérrimos como Pará, soa como brincadeira de mau gosto.
Não creio, porém, que esse projeto me autorize a atribuir, per si, “falta de caráter” ao deputado Joaquim Passarinho.
É, antes, enorme leseira dele e “senso de oportunidade” de muitos dos deputados que o apoiaram...
Pelo visto, Joaquim Passarinho não tem sequer noção do Pará existente para além dos muros da mansão em que vive.
Tanto, que esse projeto parece até coisa de “Maria Antonieta no Tucupi” - o pau comendo, a população sem nem farelo pra botar no prato e ela a recomendar, displicentemente: “que comam brioche!”...
É o retrato da ignorância de boa parte da elite brasileira, acerca da insuportável miséria do nosso povo.
É, portanto, um projeto até emblemático, quanto ao fosso que separa as nossas elites da massa de “descamisados”.
Sujeito que propõe que se disponibilize fio dental em nossos restaurantes não é “ruim” – a não ser, é claro, que possua uma fábrica de fio dental!...
É, antes, um cidadão absolutamente desconectado da realidade, além de muitíssimo mal assessorado.
Porque a idéia é boa: fio dental é, sim, indispensável à higiene bucal.
Mas, só é realmente bacana num país em que as pessoas têm dentes. E, sobretudo, têm o que o comer.
O fio dental da minha xará II
Há outra coisa que gostaria, também, de anotar.
Essa história do “fio dental da Ana Júlia” tem, claramente, um tom sexista, muito parecido, aliás, àquela perseguição que alguns moviam contra a vida sexual dela.
Uma perseguição, como já disse aqui, até ofensiva não só à Ana Júlia, mas, a todas as mulheres – e nós, mulheres, é sempre bom lembrar a uns e outros, somos maioria no eleitorado...
Mas, é até engraçado o aspecto subliminar dessa coisa do “fio dental”.
Afinal, quem projeta Ana Júlia de fio dental a projeta seminua. “Sexy”, portanto.
Quer dizer: essa macharada mal resolvida não consegue sequer dissimular o “tesão reprimido” em relação a uma “mulher poderosa”...
(É coisa meio masoquista – aquele negócio de algemas e chicote, capitchi?...)
Mas, se estivesse no lugar da nossa governadora nem me importaria com mais esse “ato falho”...
Antes, até cantaria, que nem no Diário de Bridget Jones: “Tá chovendo homem, aleluia!”.
São Mário, o Cosanostra e a governadora
Li, não sei onde, que o PT decidiu torpedear o nosso senador-bicheiro, devido aos persistentes ataques à governadora Ana Júlia Carepa.
E o último ataque é demonstração cabal do pensamento machista, hipócrita e tortuoso desse infeliz parlamentar.
Mário Couto criticou duramente Ana Júlia por freqüentar um bar, o Cosanostra; por, como se diz, “tomar uns copos”, depois do expediente.
E a primeira coisa a se perguntar é: o que é que ele tem a ver com isso? Ele, por acaso, pagou-lhe a bebida?
Mas será que um senador da República não tem mais o que fazer?
Será que nós, contribuintes, pagamos seu altíssimo salário apenas para ficar bisbilhotando a vida alheia? Então, melhor é pagar à vizinha fofoqueira, pois não?
Além disso, é o caso de se dizer: melhor beber do que comandar jogatina...
Mas, que nem acionista da Perobal S/A, Mário Couto faz de conta que todos ignoramos quem, de fato, ele é.
E manipula um preconceito imundo contra as mulheres, que, nessa sua visão típica dos “padrinhos”, não podem nem botar a cara para fora de casa, sob pena de serem tachadas de “vagabundas”.
Nunca soube de qualquer crítica desse pitoresco senador às bebedeiras do Hélio Gueiros – que até incorporou essa interessante característica ao seu marketing pessoal... – nem ao uísque fartamente consumido pelo ex-governador Almir Gabriel.
No entanto, Ana Júlia sai para tomar uma cerveja e lá está o “santo” do Mário Couto a apontar-lhe o dedão acusador.
O mesmo Mário Couto que fez fortuna com o jogo do bicho, como toda a população de Belém sabe que fez.
Trata-se, portanto, de uma beata com passado de prostituta!...
Um “santo” que amealhou o dinheiro que possui através da exploração de milhares de pessoas pobres deste estado.
Um “santo” que fez fortuna à margem da Lei, numa atividade ligada ao crime organizado; ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro.
E é no crime organizado, além da miséria da população – dessa mesmíssima população que Mário Couto cansou de explorar – que se deve buscar a causa de milhares de mortes de crianças, adolescentes e jovens deste estado.
É na corrupção, na distribuição de cestas básicas com dinheiro público e objetivos eleitoreiros, que se perpetua essa miséria que estimula a criminalidade.
Não, não é o bar Cosanostra nem nas noitadas da governadora que devem ser buscadas as raízes dessa violência que o nosso senador-bicheiro diz, hoje, abominar.
Não fosse tão hipócrita, Mário Couto faria é um mea culpa, em vez de ficar se aproveitando, de forma politiqueira e nojenta, do cadáver de uma criança.
Porque a culpa pela morte daquele garoto - e de tantos outros milhares de garotos paraenses - é, em verdade, da “Cosanostra”.
Ou seja: de todas as máfias que o Mário Couto, certamente, conhece muitíssimo bem...
Um esclarecimento necessário
Quero deixar registrado que essa defesa da minha xará não significa um “alinhamento”.
Tento, apenas, ser justa.
Além de marcar posição contra o uso dessa politicagem machista contra a primeira governadora do Pará.
Porque acredito que a luta das mulheres por respeito, dignidade, igualdade, não pode estar subordinada aos interesses eleitorais de qualquer legenda.
Nossa luta tem milhares de anos; custou milhões de vidas.
Não pode, portanto, ser simplesmente “rifada” em nome de uma vitória tucana.
De resto, continuo a divergir do atual governo em quase tudo.
Ana Júlia, para mim, foi uma grande decepção.
Pela falta de pulso e de conhecimento da administração pública.
Penso que é saudável o alinhamento ideológico. É qualidade, e não defeito, ser leal a companheiros de uma determinada corrente de pensamento.
Mas, daí a governar apenas para um grupo, há enorme diferença.
Ana e Almir, entre os nossos mais recentes governantes, foram aqueles que chegaram ao Poder mais cercados de esperança.
Almir, até pelo perfil autoritário, conseguiu se impor.
Ana, no entanto, perdeu-se nessa fidelidade canina à Democracia Socialista – esquecendo, talvez, que a sua primeiríssima fidelidade teria de ser é ao povo do Pará.
Infelizmente, a minha xará perdeu-se na ilusão dos projetos juvenis.
Continuou a gritar “abaixo a ditadura” e “o povo unido jamais será vencido”, enquanto, nas ruas, na “vera”, a sociedade avançava por outros caminhos – para alcançar, bem lá na frente, quem sabe, até os mesmíssimos objetivos estratégicos da DS...
Mas a DS não soube fazer a crítica da sua postura. E Ana, como liderança – e apesar do Poder que lhe foi concedido pelos cidadãos – não soube conduzir a sua corrente a essa crítica necessária.
Tornou-se, antes, refém da DS e dos que, inteligentemente é verdade, souberam conquistar o comando dessa corrente.
É uma pena que seja assim.
Com um pouquinho mais de jogo de cintura, Ana poderia ser, hoje, a governadora de todos os paraenses.
Mas, optou por ser, simplesmente, a governadora da DS.
Deu no que deu.
Um novo livro na Praça
O jornalista Lúcio Flávio Pinto está com novo livro nas bancas e livrarias: "A História Censurada (O Pará dos nossos dias)".
Lúcio, como todo mundo sabe, tem sido um batalhador incansável pela liberdade de imprensa e de expressão.
Recentemente, sofreu uma condenação absurda: foi sentenciado a indenizar os Maiorana, proprietários de O Liberal, em R$ 30 mil (há um post neste blog sobre esse assunto).
Em seu novo livro, Lúcio conta as perseguições de que tem sido vítima e critica a promiscuidade entre o Judiciário paraense e os proprietários dos veículos locais de comunicação.
É leitura imperdível, portanto.
E quem quiser ajudar o Lúcio a pagar essa indenização absurda que lhe foi imposta – e que coloca em risco até a sobrevivência do seu “Jornal Pessoal”, um dos poucos espaços realmente livres da imprensa paraense – pode depositar um dinheirinho no Unibanco (banco 409), agência 0208, Conta 201.512-0, em nome de Lúcio Flávio Pinto (CPF 610.646.618-15).
É mais ou menos como naquele filme estupendo: “A Felicidade não se compra”.
Dormindo no ponto
Deve ser touca: até o momento nenhum jornalão do Sudeste se interessou pelas contas de campanha do presidente do Senado, José Sarney, e da filha dele, a governadora do Maranhão, Roseana.
Só da Caemi – Mineração e Metalurgia, empresa controlada pela Vale, Roseana recebeu R$ 1,3 milhão e Sarney outros R$ 400 mil.
E, fato curioso: a exceção dos comitês financeiros únicos do PMDB, no Amapá, e do antigo PFL (hoje DEM), no Maranhão, a Caemi encabeçou a lista do financiamento de campanha tanto de Sarney, quanto de Roseana.
Aliás, a Caemi, através de três CNPJs, doou quase R$ 15,5 milhões a 152 candidatos de vários partidos (PT, PMDB, PSDB, DEM, PV, PP, PL, PSB, PPS, PDT, PC do B e por aí vai), nas eleições de 2006.
Mas, nenhum candidato recebeu tanto da Caemi quanto Roseana e José Sarney.
Na prestação de contas de campanha de Roseana também figuram várias construtoras, entre elas a Camargo Correa, além de outras empresas.
É pegar tais contribuições e verificar se os doadores não “conquistaram” algum contrato no Maranhão ou no Amapá, através da “mão amiga” dos Sarney.
Simples assim.
CPI da Petrobras
Atenção, pessoal da CPI da Petrobras: não deixem de passar o pano na Delta Construções, empresa que está bamburrando no PAC e em obras de engenharia aqui, no estado do Pará (tem matéria sobre isso, neste blog, nos arquivos do primeiro semestre – em abril ou maio, se não me falha a memória).
A Delta, que é a campeã de verbas do PAC, adquiriu, em setembro de 2008, a empresa Sigma, que presta serviços nas áreas de engenharia, construção, montagem e manutenção no segmento de petróleo e gás.
E adivinhem só os três grandes clientes da Sigma...
Um doce para quem falou Petrobras, Transpetro e BR Distribuidora.
Fui e não FUI
Como todos vocês já devem saber, me mudei de mala e cuia para o Blog do Vic, que já estreou no Twitter e deve começar a operar, a todo vapor, no final deste mês.
Com isso, a Perereca, como já disse aqui, ficará, apenas, para as minhas bebedeiras, “produção literária”, digamos assim, comentários e para uma ou outra nota.
O grosso da minha produção – principalmente reportagens – irá para o Blog do Vic, do deputado federal Vic Pires Franco.
Espero, sinceramente, que vocês gostem desse novo espaço da internet, que pretende fazer aquilo que quase não temos mais, no Pará, mas que tanto almejamos: jornalismo.
E jornalismo investigativo de boa qualidade.
Gostaria, é claro, de ter um espaço só meu. Mas, como todos vocês estão cansados de saber, não tenho condições financeiras para isso.
Já pensei até em mudar o nome deste blog, para poder captar anúncios – afinal, vamos e convenhamos, ninguém vai querer anunciar num blog chamado “A Perereca da Vizinha”. Por motivos óbvios, pois...
Se calhar, mais adiante, até faço isto: troco o nome do blog, vou em busca de anunciantes e passo a fazer o que mais amo – jornalismo investigativo para vocês, queridinhos!...
Até lá, vou ficando com o Vic, que, até agora, não me colocou qualquer restrição a qualquer tipo de matéria.
Nesse um mês e meio em que funcionei como editora de conteúdo do seu Twitter, pude selecionar um monte de matérias, sobre os mais diversos assuntos, sem que o deputado, uma única vez que fosse, me pedisse para tirar ou não colocar alguma coisa no seu blog.
Pelo contrário: Vic até tomou a iniciativa – talvez até para evitar meu constrangimento – de colocar, ele mesmo, no Twitter, matéria do Congresso em Foco em que era citado como beneficiário da “farra” das passagens aéreas, na Câmara dos Deputados.
Gostei dessa atitude dele. É bacana, em vez de simplesmente censurar, permitir que os cidadãos tomem conhecimento das acusações, ao mesmo em que se “gasta cuspe” com a própria defesa.
Creio que é por aí que a gente pode, de fato, “fazer” Democracia.
Da mesma forma, também gostei do fato de ele ter me chamado para trabalhar, nesse novo blog.
Alguns acham que isso significou, apenas, reconhecimento à minha competência profissional.
Mas, eu, particularmente, vejo isso antes como sinal de uma poderosa tolerância democrática da parte dele.
Porque outro, no lugar do deputado Vic Pires Franco, talvez preferisse é passar com o carro por cima de mim, tendo em vista as matérias que escrevi a respeito dele – todas de conhecimento público, porque devidamente assinadas – e até devido às discussões acaloradas que travamos na blogosfera...
Não sei se essa experiência dará certo – e creio que nem ele sabe se dará...
Mas, rezo para que dê; para que possamos, enfim, concretizar um veículo de comunicação democrático e com um padrão de qualidade bem superior ao que hoje existe no estado do Pará.
Somos, é claro, pessoas muito diferentes, em todos os sentidos – e, principalmente, em termos ideológicos.
Mas, quem sabe, não será justamente essa diferença, permeada pelo respeito democrático, que nos levará, afinal, a produzir, com todo o carinho do mundo, o jornalismo que vocês, de fato, merecem.
Torço para que seja assim.
Porque, de minha parte, o que me move, neste grande cassino que é a política, não é poder, fama ou dinheiro.
É, simplesmente, a possibilidade de servir à sociedade que tantas magníficas oportunidades me deu.
É, em suma, a oportunidade extraordinária de servir a cada um de vocês!...
FUUUIIIIII!!!!!!!!
terça-feira, 21 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
Juvêncio
Em memória de Juvêncio Arruda
(13 de julho de 2009)
Confesso que nem sei o que dizer...
Afinal, o que pode haver para dizer numa hora assim?
Desde a notícia, no Espaço Aberto, acerca da doença do Juvêncio que já sabia da gravidade de sua situação.
Sabia que era, apenas, uma questão de dias.
Por isso, nem me atrevi a escrever coisa alguma.
Apenas, pedi a Deus, no fundo do meu coração, para que não sofresse...
Hoje, ao saber que a “indesejada das gentes” foi, finalmente, bater-lhe à porta, fiquei a meditar acerca da fragilidade dessa coisa a que chamamos vida.
E pensei, cá com meus botões, que Deus deve estar é querendo inaugurar uma blogosfera do lado de lá.
Eis que levou-nos, de forma igualmente abrupta, há pouco tempo, o Lauande.
E agora nos leva o blogueiro-mor do coração de todos nós...
E eu quase posso ler a edição celeste do Quinta Emenda, com o Juvêncio a reclamar das inundações provocadas por São Pedro e da quantidade de anjos empregados no Paraíso.
A baixar o sarrafo nas benesses da “corte” divina, eis que bem poucos sabem baixar o sarrafo tão bem, nas benesses de todas as “cortes”...
Tenho pra mim que o Quinta Emenda vai ser tão lido lá em cima como foi aqui embaixo.
Vai ser leitura obrigatória de todos os arcanjos e querubins, como foi leitura obrigatória de todos nós.
Mas Juvêncio não era, simplesmente, as informações do Quinta Emenda.
No Quinta, que era a minha primeira leitura diária assim como de todos vocês, havia alma - e uma alma belíssima.
Uma alma gentil, cortês.
Incisiva, sim, quando necessário. Mas, sempre, belíssima.
Havia uma alma boa, fraterna.
Porque, no Quinta, para além de trabalho, Juvêncio derramou o próprio coração.
E eu penso que há, de fato, alguns dentre nós que parecem destinados a peitar essa “indesejada das gentes”...
Essa “indesejada” que chega de repente e se abanca em nossas casas como se fosse a “dona do pedaço”.
Há alguns que dizem, corajosamente, a essa “indesejada”: podes levar-me este corpo feito de pó...
Esta casca, este farrapo que tão facilmente se desfaz...
Mas não podes levar-me a vida imensa que semeei!...
O amor, a amizade, a solidariedade, as enormes florestas que plantei!...
Não podes levar a esperança que fiz brotar em tantos corações!
Não podes levar os caminhos que abri e que estarão, sempre, muito além de ti!...
E eu penso que, afinal, não perdemos o Juvêncio – muito, mas muito pelo contrário!...
Juvêncio apenas atravessou esse portal mágico que todos atravessaremos um dia.
Mas deixou conosco o melhor dele.
Juvêncio nos deixou o coração.
Deixou-nos esse carinho, essa lembrança, essa memória, essa história imensa que estará conosco todos os dias.
Até que nos tornemos, também, assíduos leitores do Quinta Emenda celeste...
E dessa blogosfera extraordinária que ele foi preparar, no lado de lá, para todos nós...
Obrigada, Juvêncio!
Obrigada, queridinho!...
Muito, muito obrigada.
FUUUIIIIIII!!!!!!
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Lúcio
Recebi e publico a carta que me foi enviada pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, acerca de sua mais recente condenação pela Justiça paraense.
Não posso deixar de manifestar a minha solidariedade ao Lúcio, por todas as perseguições que tem sofrido nessa luta incessante por um bem tão precioso a todos nós – a liberdade de informação.
Lamento a condenação que lhe foi imposta pelo meritíssimo juiz Raimundo das Chagas, o qual, com o devido respeito, parece-me rigorosamente despreparado para o exercício da Magistratura.
Não pode um juiz pisotear a Constituição e impor a censura prévia, como fez o senhor Raimundo das Chagas em relação ao jornalista Lúcio Flávio Pinto.
Não pode um juiz, no Estado Democrático de Direito, condenar alguém a um silêncio obsequioso, típico das ordens sacerdotais.
Não pode um juiz simplesmente ignorar as provas trazidas aos autos, no afã de transformar a vítima em algoz.
Não pode um juiz esquecer a importância do serviço que presta à coletividade – e não, simplesmente, a alguns.
Não pode um juiz agir como agiu Raimundo das Chagas, quando, por exemplo, condenou o Jornal Pessoal a pagar uma indenização de R$ 30 mil aos irmãos Maiorana.
Porque o fez apenas por “intuir” a “boa lucratividade” do Jornal Pessoal, apesar de não possuir mísera prova a sustentar essa imaginada capacidade financeira do veículo em questão.
Em outras palavras: o senhor Raimundo das Chagas, ao estabelecer tal penalidade, baseou-se tão somente no mais deslavado “achismo”, que até a um rábula pareceria constrangedor.
Estivesse no lugar do Lúcio, não hesitaria em levar esse caso escabroso ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), uma vez que o senhor Raimundo das Chagas parece não fazer jus à confiança que lhe foi depositada pela coletividade.
Com todo o respeito ao douto magistrado, a sentença que exarou me parece, no mínimo, cínica e abusiva.
E, por isso mesmo, passível de análise pelo órgão de controle do Judiciário, para que sejam revelados, enfim, os interesses que, eventualmente, esteja a ocultar.
Foi-se o tempo que nós, os “cidadãos comuns”, tínhamos de simplesmente abaixar a cabeça às decisões, por vezes insanas, dos ilustres magistrados.
Hoje, com o crescente controle da sociedade sobre o Judiciário, os doutos magistrados têm de internalizar a condição precípua de cidadãos; têm de se lembrar a quem servem, afinal.
E, exatamente como qualquer de nós, os “cidadãos comuns”, têm, sim, de prestar contas de seus atos.
A quem tudo lhes deu e fez deles o que são.
Abaixo, a carta de Lúcio Flávio Pinto.
AO CARO LEITOR
Li com estupefação, perplexidade e indignação a sentença que ontem me impôs o juiz Raimundo das Chagas, titular da 4ª vara cível de Belém do Pará. Ao fim da leitura da peça, perguntei-me se o magistrado tem realmente consciência do significado do poder que a sociedade lhe delegou para fazer justiça, arbitrando os conflitos, apurando a verdade e decidindo com base na lei, nas evidências e provas contidas nos autos judiciais, assim como no que é público e notório na vida social. Ou, abusando das prerrogativas que lhe foram conferidas para o exercício da tutela judicial, utiliza esse poder em benefício de uma das partes e em detrimento dos direitos da outra parte.
O juiz deliberou sobre uma ação cível de indenização por dano moral que contra mim foi proposta, em 2005, pelos irmãos Romulo Maiorana Júnior e Ronaldo Maiorana, donos da maior corporação de comunicação do norte do país, o Grupo Liberal, afiliado à Rede Globo de Televisão. O pretexto da ação foi um artigo que escrevi para um livro publicado na Itália e que reproduzi no meu Jornal Pessoal, em setembro daquele ano.
O magistrado acolheu integralmente a inicial dos autores. Disse que, no artigo, ofendi a memória do fundador do grupo de comunicação, Romulo Maiorana, já falecido, ao dizer que ele atuou como contrabandista em Belém na década de 50. Condenou-me a pagar aos dois irmãos indenização no valor de 30 mil reais, acrescida de juros e correção monetária, além de me impor o pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, arbitrados pelo máximo permitido na lei, de 20% sobre o valor da causa.
O juiz também me proibiu de utilizar em meu jornal “qualquer expressão agressiva, injuriosa, difamatória e caluniosa contra a memória do extinto pai dos requerentes e contra a pessoa destes”. Também terei que publicar a carta que os irmãos Maiorana me enviarem, no exercício do direito de resposta. Se não cumprir a determinação, pagarei multa de R$ 30 mil e incorrerei em crime de desobediência.
As penas aplicadas e as considerações feitas pelo juiz para justificá-las me atribuem delitos que não têm qualquer correspondência com os fatos, como demonstrarei.
O juiz alega na sua sentença que escrevi o artigo movido por um “sentimento de revanche” contra os irmãos Maiorana. Isto porque, “meses antes de tamanha inspiração”, me envolvi “em grave desentendimento” com eles.
O “grave desentendimento” foi a agressão que sofri, praticada por um dos irmãos, Ronaldo Maiorana. A agressão foi cometida por trás, dentro de um restaurante, onde eu almoçava com amigos, sem a menor possibilidade de defesa da minha parte, atacado de surpresa que fui. Ronaldo Maiorana teve ainda a cobertura de dois policiais militares, atuando como seus seguranças particulares. Agrediu-me e saiu, impune, como planejara. Minha única reação foi comunicar o fato em uma delegacia de polícia, sem a possibilidade de flagrante, porque o agressor se evadiu. Mas a deliberada agressão foi documentada pelas imagens de um celular, exibidas por emissora de televisão de Belém.
O artigo que escrevi me foi encomendado pelo jornalista Maurizio Chierici, para um livro publicado na Itália. Quando o livro saiu, reproduzi o texto no Jornal Pessoal, oito meses depois da agressão.
Diz o juiz que o texto possui “afirmações agressivas sobre a honra” de Romulo Maiorana pai, tendo o “intuito malévolo de achincalhar a honra alheia”, sendo uma “notícia injuriosa, difamatória e mentirosa”.
A leitura isenta da matéria, que, obviamente, o magistrado não fez, revela que se trata de um pequeno trecho inserido em um texto mais amplo, sobre as origens do império de comunicação formado por Romulo Maiorana. Antes de comprar uma empresa jornalística, desenvolvendo-a a partir de 1966, ele estivera envolvido em contrabando, prática comum no Pará até 1964. Esse fato é de conhecimento público, porque o contrabando fazia parte dos hábitos e costumes de uma região isolada por terra do restante do país. O jornal A Província do Pará, um dos mais antigos do Brasil, fundado em 1876, se referiu várias vezes a esse passado em meio a uma polêmica com o empresário, travada em 1976.
Três anos antes, quando se habilitou à concessão de um canal de televisão em Belém, que viria a ser a TV Liberal, integrada à Rede Globo, Romulo Maiorana teve que usar quatro funcionários, assinando com eles um “contrato de gaveta” para que aparecessem como sendo os donos da empresa habilitada e se comprometendo a repassar-lhe de volta as suas ações quando fosse possível. O estratagema foi montado porque os órgãos de segurança do governo federal mantinham em seus arquivos restrições ao empresário, por sua vinculação ao contrabando, não permitindo que a concessão do canal de televisão lhe fosse destinado. Quando as restrições foram abolidas, a empresa foi registrada em nome de Romulo.
Os documentos comprobatórios dessa afirmação já foram juntados em juízo, nos processos onde os fatos foram usados pelos irmãos Maiorana como pretexto para algumas das 14 ações que propuseram contra mim depois da agressão, na evidente tentativa de inverter os pólos da situação: eu, de vítima, transmutado à condição de réu.
Todos os fatos que citei no artigo são verdadeiros e foram provados, inclusive com a juntada da ficha do SNI (Serviço Nacional de Informações), que, na época do regime militar, orientava as ações do governo. Logo, não há calúnia alguma, delito que diz respeito a atribuir falsamente a prática de crime a alguém.
Quanto ao ânimo do texto, é evidente também que se trata de mero relato jornalístico, uma informação lateral numa reconstituição histórica mais ampla. Não fiz nenhuma denúncia, por não se tratar de fato novo, nem esse era o aspecto central do artigo. Dele fez parte apenas para explicar por que a TV Liberal não esteve desde o início no nome de Romulo Maiorana pai, um fato inusitado e importante, a merecer registro.
O juiz justificou os 30 mil reais de indenização, com acréscimos outros, que podem elevar o valor para próximo de R$ 40 mil, dizendo que a “capacidade de pagamento” do meu jornal “é notória, porquanto se trata de periódico de grande aceitação pelo público, principalmente pela classe estudantil, o que lhe garante um bom lucro”.
Não há nos autos do processo nada, absolutamente nada para fundamentar as considerações do juiz, nem da parte dos autores da ação. O magistrado não buscou informações sobre a capacidade econômica do Jornal Pessoal, através do meio que fosse: quebra do meu sigilo bancário, informações da Receita Federal ou outra forma de apuração.
O público e notório é exatamente o oposto. Meu jornal nunca aceitou publicidade, que constitui, em média, 80% da fonte de faturamento de uma empresa jornalística. Sua receita é oriunda exclusivamente da sua venda avulsa. A tiragem do jornal sempre foi de 2 mil exemplares e seu preço de capa, há mais de 12 anos, é de 3 reais. Descontando-se as comissões do distribuidor e do vendedor (sobretudo bancas de revista), mais as perdas, cortesias e encalhes, que absorvem 60% do preço de capa, o retorno líquido é de R$ 1,20 por exemplar, ou receita bruta de R$ 2,4 mil por quinzena (que é a periodicidade do jornal). É com essa fortuna que enfrento as despesas operacionais do jornal, como o pagamento da gráfica, do ilustrador/diagramador, expedição, etc. O que sobra para mim, quando sobra, é quantia mais do que modesta.
Assim, o valor da indenização imposta pelo juiz equivale a um ano e meio de receita bruta do jornal. Aplicá-la significaria acabar com a publicação, o principal objetivo por trás dessas demandas judiciais a que sou submetido desde 1992.
Além de conceder a indenização requerida pelos autores para os supostos danos morais que teriam sofrido por causa da matéria, o juiz me proibiu de voltar a me referir não só ao pai dos irmãos Maiorana, mas a eles próprios, extrapolando dessa forma os parâmetros da própria ação. Aqui, a violação é nada menos do que à constituição do Brasil e ao estado democrático de direito vigente no país, que vedam a censura prévia. A ofensa se torna ainda mais grave e passa a ter amplitude nacional e internacional.
Finalmente, o magistrado me impõe acatar o direito de resposta dos irmãos Maiorana, direito que eles jamais exerceram. É do conhecimento público que o Jornal Pessoal publica – todas e por todo – as cartas que lhe são enviadas, mesmo quando ofensivas. Em outras ações, ofereci aos irmãos a publicação de qualquer carta que decidissem escrever sobre as causas, na íntegra. Desde que outra irmã iniciou essa perseguição judicial, em 1992, jamais esse oferecimento foi aceito pelos Maiorana. Por um motivo simples: eles sabem que não têm razão no que dizem, que a verdade está do meu lado. Não querem o debate público. Seu método consiste em circunscrever-me a autos judiciais e aplicar-me punição em circuito fechado.
Ao contrário do que diz o juiz Raimundo das Chagas, contrariando algo que é de pleno domínio público, o Jornal Pessoal não tem “bom lucro”. Infelizmente, se mantém com grandes dificuldades, por seus princípios e pelo que é. Mas dispõe de um grande capital, que o mantém vivo e prestigiado há quase 22 anos: é a sua credibilidade. Mesmo os que discordam do jornal ou o antagonizam, reconhecem que o JP só diz o que pode provar. Por assim se comportar desde o início, incomoda os poderosos e os que gostariam de manipular a opinião pública, conforme seus interesses pessoais e comerciais, provocando sua ira e sua represália. A nova condenação é mais uma dessas vinganças. Mas com o apoio da sociedade, o Jornal Pessoal sobreviverá a mais esta provação.
Belém, 7 de julho de 2009
Lúcio Flávio Pinto
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Couto
Essa coisa da possibilidade de candidatura do cidadão Mário Couto ao Governo do Pará é um dos maiores acintes já vistos aqui e em toda a Nação.
É como se o Fernandinho Beira-Mar resolvesse se candidatar à Presidência da República.
É preciso por os pingos nos is. E já que não há macho nesta terra que se habilite a fazê-lo, eu vou me habilitar.
Colocar o cidadão Mário Couto no comando do Governo do Pará significa colocar o Estado e as nossas polícias sob o comando do crime organizado.
É, em suma, entregar a nossa PM, a nossa Polícia Civil e até a nossa Justiça e o nosso Ministério Público a um “Comendador Arcanjo” mal disfarçado.
Não há pedra no estado do Pará que ignore as ligações do cidadão Mário Couto ao jogo do bicho.
A mansão que ele tem lá no Parque Verde, os terrenos, os veículos e tudo o mais que obteve ao longo da vida – tudo! – veio do jogo do bicho.
E ao jogo do bicho, se a gente duvidar, deve o cidadão Mário Couto até mesmo o mandato de senador.
Mas, nem culpo apenas ao cidadão Mário Couto pela ousadia de tentar comandar o Pará.
Culpo, em primeiro lugar, a todos nós, sociedade, com essa nossa permissividade, com essa nossa complacência em relação ao jogo do bicho.
À nossa complacência em relação a uma contravenção penal ligada a crimes pesadíssimos como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro.
O jogo do bicho é a grande fortaleza visível das drogas e da lavagem de dinheiro, que tantos males ocasionam a este estado e a este país.
Assim, o jogo do bicho é um dos grandes responsáveis por essa violência que vemos, todo santo dia, nas nossas ruas.
Eis que uma parte significativa dos roubos e furtos que presenciamos, e que formam o grosso das ocorrências policiais, não deriva, apenas, da pobreza.
Deriva, na verdade, da luta pela venda e pelo acesso às drogas.
E, sem querer parecer tatibitati, isso quer dizer que colocar o cidadão Mário Couto no comando do Pará agravará ainda mais essa situação.
Quer dizer: se hoje já saímos com medo às ruas, sequer poderemos colocar o pé fora de casa, caso o Pará caia nas mãos desse senhor.
É preciso acabar com essa coisa de ficar apenas cochichando tudo isso pelos corredores da corte.
A gente tem é de escancarar essa discussão.
Porque diz respeito a todos nós, aos nossos filhos, aos nossos netos.
O Pará é um ponto privilegiado à passagem das drogas e armas traficadas pela bandidagem.
É daqui para o mundo!...
E é claro que essa bandidagem vai tentar, sempre, colocar a cara pra fora do esgoto, para colocar o Estado a serviço dela.
Cumpre a nós, sociedade, mandar essa bandidagem de volta ao esgoto, de onde nunca deveria ter saído, aliás.
Cumpre a nós, sociedade, dar um basta nisso, dizendo-lhes: aqui, vocês não passam!
A meu ver, o ex-governador Almir Gabriel, em sua velhice espiritual – que é muito pior que a física, diga-se de passagem – não odeia apenas Simão Jatene: Almir odeia é ao povo do Pará, uma vez que pretende nos entregar a todos nas mãos de um cidadão ligado ao crime organizado.
É como se Almir dissesse: “Tirei vocês da mão do Jader e vocês me rejeitaram. Por isso, vou entregar vocês nas mãos de um sujeito muito pior!...”
Só que, ao contrário do que pensa o cidadão Almir Gabriel, aqui há cidadãos, sim, capazes de resistir ao império dessa bandidagem.
Lembro de um promotor que me comentava essa história da candidatura do Mário Couto a governador.
“E quem é que vai ser o vice dele? – perguntava o promotor – Vai ser o Bosco Moisés, é? E o senador vai ser o Luizinho Drumond, é?”.
Todos os que lidam com o combate ao crime organizado sabem muitíssimo bem a ameaça que Mário Couto representa para este estado e para este país.
E eu só espero é que o pessoal lá de São Paulo e até lá dos Estados Unidos não demore a perceber o perigo que representa um ponto de passagem ao tráfico de drogas e de armas, como é o Pará, nas mãos de um cidadão com o prontuário de um Mário Couto.
E pode me processar, senador!... Me processe à vontade!...
Mas, eu lhe garanto: a mim o senhor não cala!
E, se depender de mim, aqui o senhor não passa!
Nem o senhor, nem os seus comparsas do crime organizado.
FUUUIIIIII!!!!!!
Sarney
O apoio do PT a Sarney não deveria surpreender as esquerdas brasileiras.
Afinal, não é de hoje que rifamos nossos sonhos. E que, até certo ponto, nos igualamos a tudo o que pretendíamos combater...
A luta pelo Poder, para conquistar e manter o Poder, tem nos levado a escolhas de que jamais suspeitaríamos, há uns 30 anos.
O tempo, impiedoso como ele só, nos mostrou que por mais que vendêssemos camisetas e brochinhos jamais conseguiríamos bancar as milionárias campanhas eleitorais.
Ensinou-nos, em suma, a intransponível necessidade de uma “acumulação primitiva não-contabilizada de capital”...
Nada assim tão diferente do que se poderia imaginar num país dominado por oligarquias; num país escravagista como é o caso do Brasil.
Tal processo, é claro, teve, também, bons momentos.
Pois, que também nos mostrou a necessidade – essa sim democrática – de negociarmos com os diversos partidos e o empresariado.
Afinal, todos eles democraticamente representativos de parcelas da nossa população.
O que me preocupa, no entanto, são os limites dessa caminhada, se é que os conseguimos enxergar.
Ora, lutar pela Democracia numa ditadura é infinitamente mais simples.
Numa ditadura, um amplo leque social tem o mesmíssimo objetivo imediato e a própria conjuntura restringe as alternativas de negociação.
Em outras palavras: além de termos uma convergência de ideais, o leque de passos que teremos de dar para trás, para avançarmos dois ou três mais adiante, é bem mais restrito.
Numa Democracia, no entanto, os ideais imediatos se pulverizam e o leque de movimentações, tendo em vista o futuro, o objetivo maior, é quase infinito.
E o meu medo é justamente este: que neste “meião”, em que lutamos por um “objetivo maior” acabemos por perder toda noção de ética, de honestidade; os parâmetros comportamentais que, afinal, fazem a diferença entre “nós” e “eles”...
É certo que temos de negociar com essas oligarquias, como os Sarney e os Barbalho.
Pragmaticamente, temos de negociar...
E não me venham dizer que elas resistem, apenas, pela pobreza e ignorância do nosso povo.
Pera lá!... Há bem mais aí do que pobreza e ignorância.
Na base de sustentação dessas oligarquias há, sim, pobreza e ignorância.
Mas, há, também – e, talvez, principalmente – um elemento não perfeitamente definido que parece ter a ver com carências da própria espécie humana.
Afinal, se o problema fosse apenas pobreza e ignorância não teríamos o sucesso dessa fórmula do “paizinho” do “chefe-durão- mas- que- cuida- de- nós” mesmo nas nações com muito maior experiência democrática que a nossa.
E tal sucesso não teria a universalidade que, de fato, tem. Nem a constância histórica que, de fato, tem.
Então, há alguma coisa aí, sim, de simbólica, de “arquetípica”.
Quer dizer: os Sarney e os Barbalho não encarnam, apenas, um papel contemporâneo de dominação. Na verdade, resgatam necessidades ancestrais por um “guia”, um “Messias”, um “Protetor”...
(Égua, eu tô voando alto, né?... É a cachaça, maninhos!...)
É certo que já conseguimos lidar com esses arquétipos; que já conseguimos, através do marketing, adentrar no imaginário coletivo, para realizar a mesmíssima manipulação das massas que as oligarquias realizam.
E isso nunca deixou de ser problemático, uma vez que nos pretendíamos “pedagógicos”, né mermo?
Ou seja: essa já foi uma concessão e tanto; transformar o “companheiro” Lula em mais um “paizinho” já foi uma concessão e tanto das esquerdas brasileiras.
Assim como foi uma concessão e tanto administrarmos, tucanos e petistas, o “apetite” dessas oligarquias, eis que jamais conseguimos prescindir delas, para a conquista e manutenção do Poder.
E o que me preocupa é até onde poderemos ir.
Deixando de lado a hipocrisia e essa briga infantil do PSDB com o PT pelo troféu do “mais-mais da Ética”, a verdade é que, se estivessem no governo, os tucanos estariam fazendo a mesmíssima coisa que os petistas, nessa coisa (que dá até uma dor no peito!) de apoiar o Sarney.
Fosse o Fernando Henrique, o Serra, o Aécio, no lugar do Lula ou da Dilma, o resultado seria o mesmíssimo: o oligarca José Sarney, que representa o que de pior existe neste país, estaria recebendo todo tipo de afagos e de solidariedade.
Louve-se, portanto, a clareza desses cinco companheiros petistas do Senado que têm batido o pé contra esse “pragmatismo” – ou seria entrega? – de todos nós.
Louve-se a firmeza com que esses cinco companheiros têm tentado encontrar esses limites de que falei.
Se irão até o fim é uma incógnita – afinal, os interesses partidários sempre se sobrepõem às convicções individuais...
Mas é de extrema importância que pelo menos alguns de nós comecem a perguntar, em alto e bom som: até onde podemos ir?
O que, afinal, podemos negociar, sem que isso implique negociar tudo o que sonhamos para este Pará e este Brasil.
FUUUUUIIIIIII!!!!!
domingo, 21 de junho de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Jatene1
JATENE ABRE O JOGO
Em entrevista exclusiva à Perereca da Vizinha, ex-governador do Pará fala sobre o racha do PSDB e a queda de braço entre o MPF e os pecuaristas. Critica o governo petista e o crescimento dos gastos com o custeio da máquina. E assume: poderá, sim, disputar a convenção do PSDB com o senador Mário Couto.
“Sou, geneticamente, músico. Tentei ser intelectual, mas, acabei virando político”. É assim que se define o economista Simão Jatene, ex-governador do Pará e provável candidato do PSDB, novamente ao Governo do Estado, nas eleições do ano que vem.
Aos 60 anos, Jatene vive, talvez, a vida que pediu a Deus: ensina Economia Amazônica e Economia Política na Universidade Federal do Pará; estuda temas áridos, como o meio ambiente. Mas, sobretudo, se dedica a sua grande paixão: a música.
Mestre pela Unicamp, ele recebeu o blog para uma alentada entrevista, na tarde de quinta-feira, 18.
Falou sobre tudo: a política paraense, o racha do PSDB, a sua pré-candidatura ao Governo, as relações entre tucanos e petistas, o imbróglio entre o Ministério Público Federal e os pecuaristas, a administração do PT, a opção tucana pelas Organizações Sociais (OS), os avanços do Pará ao longo dos doze anos de tucanato.
Por muito longa, a entrevista foi dividida em 16 posts. Todos podem ser lidos a seguir.
Jatene2
Sobre Almir: “É uma avaliação injusta e equivocada”
Perereca: O senhor traiu o doutor Almir Gabriel e o PSDB?
Jatene: Com absoluta certeza, não. E mais do que qualquer palavra que possa dizer a respeito disso, acho que as pessoas que participaram, desde o início, da criação do partido, como o Paulo Chaves, o Paulo Elcídio, a Ana Diniz, a Adelina, o Zé Augusto Afonso; essas pessoas que viveram, desde o primeiro momento, todo esse processo dificilmente estariam ao lado de alguém que tivesse traído o partido. Acho isso uma avaliação equivocada, injusta, que me entristece.
Perereca: A que o senhor atribui, então, o fato de o ex-governador Almir Gabriel ter dito que o senhor fez “corpo mole”, nas eleições de 2006? O senhor fez, realmente, “corpo mole”?
Jatene: Acho que a avaliação do ex-governador Almir Gabriel, como a avaliação de qualquer pessoa, merece de mim todo o respeito.
Agora, não tenho como concordar quando não corresponde à realidade e aos fatos.
Corremos este estado, estivemos em vários municípios - e veja, de novo, uma indicação: você acha que alguém pode fazer corpo mole sem que as pessoas percebam?
E por que é que essas pessoas, que são fundadoras do partido; por que é que os deputados, que viveram a campanha também de forma muito direta, continuam tendo uma clara indicação a respeito de uma candidatura nossa? Esses deputados jamais estariam conosco se, efetivamente, tivessem percebido algo assim.
Além disso, você acha que alguém que pretende, por alguma razão, ver um aliado derrotado; alguém que está no governo e que terá o seu governo, no período seguinte, olhado com lentes de todas as formas por um partido historicamente opositor, teria feito algo assim, sem, no mínimo, procurar uma tribuna para se defender? Não faz sentido isso, não é? Porque se, na verdade, existisse alguma intenção desse tipo, não seria razoável que eu tivesse buscado um mandato para, pelo menos, supostamente me proteger?
Agora, não posso deixar de dizer uma coisa: quando começamos a conversar sobre essa entrevista, eu lhe disse que não quero, porque acho que não agrega nada na discussão deste estado, ficar nisto: “mas a avaliação de fulano foi nessa direção”; “mas o que pensa sicrano nessa direção”...
Acho que a sociedade tem uma avaliação dessas coisas; os fatos se impõem aos discursos.
O que me preocupa muito, neste momento, com todo o respeito que tenho por todas as avaliações que possam fazer, é que estamos vivendo um momento crítico, neste país, e, particularmente, na Amazônia e no Pará.
Estou preocupado é com a necessidade de formatarmos um projeto de saída para isso.
O mundo vive um momento muito especial. Essa questão ambiental está na ordem do dia. Ninguém imagine que isso é um modismo, uma coisa passageira – não é; veio para ficar.
A Amazônia está no olho desse furacão; o Pará é, sem dúvida, a melhor síntese disso na Amazônia. E eu espero que as lideranças políticas comecem a discutir isso, porque, no ano que vem, vamos ter de escolher um governador e ele terá de se posicionar nessa questão.
Perereca: Mas, se não houve essa traição, esse corpo mole, por que, na sua opinião, o doutor Almir, que foi seu amigo durante 30 anos, tem essa leitura? O senhor acha que ele se equivocou na leitura de alguma coisa?
Jatene: Não tenho nenhuma dúvida de que a leitura dele, além de equivocada, é injusta. Mas, não tenho como responder o porquê dessa leitura.
Mas, quero dizer uma coisa, reafirmando o que já disse a respeito disso: isso não muda um milímetro do meu respeito por ele. Não muda um milímetro da avaliação que faço da importância política que ele teve no estado do Pará. Não muda um milímetro da avaliação que faço dos oito anos de governo do Gabriel. Ou seja, os conceitos que construí, durante anos, não são alterados por uma entrevista, por um equívoco, por uma avaliação divergente daquela que considero a correta.
Porque isso está sendo dito, concretamente, para quê? Para explicar o resultado das eleições. E eu acho que o resultado das eleições não se encontra aí.
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Perereca: Mas o senhor não acha que o resultado teria sido diferente se o senhor tivesse sido candidato, em vez de abrir mão em favor do doutor Almir?
Jatene: Mais uma vez vou dizer as razões disso.
Eu sempre disse – e não é agora, tampouco às vésperas das eleições passadas – que me preocupava muito o estatuto da reeleição, no Brasil.
Preocupa-me muito a reeleição num país cujas instituições ainda são muito frágeis e os partidos políticos estão muito distantes daquilo que sonhamos.
Sempre digo que um partido político é, acima de tudo, um educador coletivo, que tem uma tarefa dificílima.
De um lado, ao mesmo tempo em que ele rompe com os limites externos do cidadão, capacita o cidadão para se impor os seus próprios limites. É a questão dos direitos e deveres. Se não, você cai numa coisa muito complicada, que é a história de achar que todo mundo só tem direitos.
Mas, voltando à história que você perguntou: no Brasil, os partidos são muito pouco programáticos. Por isso, a reeleição acaba impregnada por um personalismo muito grande.
E como sempre apostei em projeto coletivo, não podia imaginar a reeleição a não ser excepcionalmente, no caso de não se ter uma candidatura alternativa, à altura de garantir a continuidade de princípios postos no governo.
Mas, esse não era o caso: tínhamos uma pessoa com uma história; um ex-governador que fez um belo trabalho e que se dispunha a ser candidato.
Então, por quê?
Se, na verdade, você pode brigar pelo Poder por três grandes motivações: para TER – são aqueles que acham que, na verdade, o Poder é a porta da felicidade e da riqueza; para SER – são aqueles que são um poço de vaidade e, por causa disso, precisam ter o Poder para que as pessoas fiquem lhes rendendo homenagem; e para FAZER.
Se você briga pelo Poder para FAZER, é o projeto que motiva, mais do que essa questão de quem é o ator principal.
Vamos ser francos: isso é absolutamente coerente, razoável – e essa foi a razão.
Se teria sido diferente, se a população teria feito outra leitura?... Não sei.
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Perereca: Desculpe a franqueza, a pergunta: o senhor não recuou, em 2006, na sua candidatura, por medo de entrar em bola dividida? Por medo de ter de disputar a candidatura, na convenção, com o doutor Almir?
Jatene: De jeito nenhum! Mas, de jeito nenhum!...
É gozada essa coisa da política: ela tem umas coisas fantásticas, mas tem, também, umas coisas muito perversas.
Uma delas é, exatamente, esse sentimento.
Se você se desvia um pouco do que, supostamente, é o que as pessoas vislumbram como sendo “o caminho natural”, você tem de achar uma pitada de canalhice para botar naquele desvio, porque não pode ser por um gesto dessa natureza. Ninguém pode abrir mão dessa coisa fantástica que é a possibilidade de manter o Poder, por um ideário superior.
Ora, se tem alguém que pode tocar o projeto com qualidade, com compromisso, e os princípios serão mantidos; e se, filosoficamente, no caso específico das sociedades em que os partidos são frágeis – não é a democracia, a reeleição pela reeleição – mas se, nesses casos, eu discordo da questão, acho que a reeleição não é uma boa alternativa, qual o problema?
Então, não foi por esse negócio de “bola dividida”, não. Pelo contrário: foi a valorização do projeto coletivo, foi a valorização do Poder para fazer. Foi a compreensão clara de que mais importante do que quem está sentado na cadeira é o projeto que está sendo executado e que, necessariamente, só se realiza como fruto de um esforço conjunto.
Perereca: Então, o senhor está disposto a bater chapa, na convenção do ano que vem, com o senador Mário Couto, caso ele não recue?
Jatene: Deixe eu lhe dizer uma coisa: espero que não precisemos fazer isso. Mas, já disse isso em mais de uma oportunidade: eu não inventei essa história da minha candidatura – não inventei, mesmo!
Ela foi se forjando, nestes dois anos, como fruto de apelo, de muita discussão com lideranças políticas. E eu lhe diria que, nos últimos tempos, sobretudo fruto de uma enorme manifestação das ruas.
Eu ando nas ruas: não tenho motorista, não tenho seguranças; vou ao supermercado, fazer as compras de casa; vou ao shopping, como todo mortal... E encontro com as pessoas. E o sentimento das pessoas, o apelo das pessoas, é que está na raiz da minha candidatura.
O partido tem dez deputados estaduais – e os dez são favoráveis a ela; tem três deputados federais – e dois são favoráveis a ela; entre os prefeitos, a grande maioria, inclusive municípios como Abaetetuba, Paragominas, Altamira são favoráveis. Então, o que é que pode mudar isso? É o partido dizer que fez uma avaliação de que não é assim. Por que, se não, qual o sentido do discurso coletivo?
Não quero porque quero ou porque já fui e quero ser de novo, ou porque o cavalo está passando selado... – isso, para mim, não é um jogo, não! Isso, na verdade, é um enorme desafio, que precisa ser assumido em toda a sua extensão, mesmo!
Formatar um projeto de Estado, neste momento, é um grande desafio.
Perereca: Então, o senhor vai até o fim na sua pré-candidatura?
Jatene: Já lhe disse isso: se for o desejo do partido e o sentimento da população, eu seria absolutamente incoerente, estaria negando toda a minha história se não fosse.
Para mim, a questão central é esta: por que é que você quer ser candidato?
Primeiro, porque as pessoas têm uma avaliação, do que está aí, de profunda decepção.
Eu quero porque as pessoas estão me dizendo que se sentem enganadas, que se sentem frustradas e que acham importante a gente retomar isso.
Quero porque a classe política considera isso importante; tem uma avaliação muito semelhante a essa da população.
Então, isso não é um jogo, não é uma disputa pela disputa. Não é porque não tenho nada a perder que sou candidato – não existe isso.
Sou candidato porque acho que todos nós temos muito a perder neste momento.
A minha pré-candidatura está colada pelo muito que este estado está perdendo e pode continuar perdendo. É isso que, na verdade, está por trás dela.
Também não sou nenhum “Messias”, tenho essa clareza.
Não é nada “Messiânico” isso, não.
É uma coisa muito pé-no-chão, de perceber que esse é um sentimento que está posto na sociedade, nas lideranças políticas. Então, paciência.