quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

As vítimas e os predadores.






No último 8 de fevereiro, uma jovem de 28 anos foi chicoteada com um fio elétrico pelo marido: Clique aqui 

No dia 16, a empresária Elaine Caparroz, de 55 anos, foi brutalmente espancada por um rapaz que ela conhecera nas redes sociais: Clique Aqui 

No dia 18, a aposentada Elza Formighieri Morschheiser, de 66 anos, foi assassinada a tiros pelo ex-marido: Clique Aqui 

Sempre que vemos casos assim, ficamos tentados a perguntar: mas que diabos está acontecendo com esses homens, que começaram, “de repente”, a espancar e a assassinar mulheres?

Tal pergunta, no entanto, parte de um pressuposto falso. Porque não foi “de repente” que muitos homens começaram a agir assim.

Essa violência tem centenas de anos.

Só que hoje há maior visibilidade desse problema, devido à menor tolerância social e legal.

No entanto, persiste a “naturalidade” com que é encarada a violência contra a mulher, em determinadas circunstâncias.

Veja-se o que aconteceu com a empresária Elaine Caparroz.

Durante quatro horas, ela gritou, desesperadamente, enquanto era torturada pelo seu agressor. No entanto, ninguém se dignou a socorrê-la.

E depois da divulgação do caso, algumas mulheres perguntaram, na internet: “Mas por que é que ela saiu com um sujeito que conheceu nas redes sociais?” “O que foi que aconteceu pra ele espancá-la desse jeito?” “O que foi que ela fez?”

A primeira pergunta nos diz o quanto muitas de nós acreditam que esse tipo de coisa decorre de um “mau comportamento” das mulheres.

E esconde uma lógica perversa: a brutalidade que atinge a vítima é uma espécie de “castigo” por ela haver desobedecido às regras de autocastração feminina - não sair para jantar, ou até para transar, com um homem que não conheça de longa data; não usar roupas “provocantes”; não beber até ficar embriagada; não andar sozinha à noite; não contestar o “maridão”.

Para ser uma vítima inocente, a mulher precisa se negar toda forma de querer e de prazer; negar a sua autonomia, a sua individualidade e a maioria dos seus sonhos.

Mesmo que possua independência financeira e já tenha até criado os seus filhos, ela não pode ter uma vida social como bem entender; ela não pode ser livre e feliz.

Mas é preciso também falar sobre a tentativa de autoengano, que está implícita nessa primeira pergunta.

A mulher que a formula se imagina protegida; acredita que não será alvo de qualquer “castigo”, já que obedece a essas regras de autocastração.

O problema é que esse “castigo” é apenas a justificativa social; a forma como a sociedade agride a vítima pela segunda vez; e não o elemento motivador desse tipo de violência.

O homem não está a agredir aquela mulher porque é uma espécie de “vingador social”.

O homem está a agredir aquela mulher para demonstrar poder sobre ela.

E isso significa que mesmo que você seja “uma boa menina”, estará sujeita a ser vítima de um animal desses.

Tais homens acreditam que, por serem maiores e mais fortes, têm o direito de fazer o que bem entenderem com você.

Especialmente se você namorar ou casar com um deles.

Para esse tipo de homem você é apenas uma “coisa” que pertence totalmente a ele, naquele momento.

Exemplo disso é a jovem que foi chicoteada pelo marido.

Sabe qual foi o “motivo” de ela ter apanhado desse jeito?

Ela saiu para passear de barco, com os pais dele, e se atrasou ao voltar para casa.

E mais: essa jovem já suportava, há dez anos, humilhações e pancadas daquele homem, talvez até porque não tivesse como se sustentar; tivesse medo, por causa dos filhos; ou medo pela própria segurança.

Mas o fato é que ela já estava debaixo do pé dele, subjugada, submetida. E nem isso o impediu de chicoteá-la.

E no entanto, ainda houve mulheres que dissessem: “Mas por que é que ela aguentou dez anos de porrada?”; “Ah, essa daí gosta é de apanhar!”

E isso nos leva à aposentada Elza Formighieri Morschheiser.

Durante 40 anos, ela foi casada com o pai de seus dois filhos.

Até que, em novembro do ano passado, ele a agrediu.

Elza, então, registrou queixa na polícia, separou-se dele e obteve uma medida protetiva.

Mas, no último dia 18, ele a matou a tiros e se matou.

Agora, voltemos à segunda e à terceira perguntas, do caso da Elaine: “O que foi que aconteceu pra ele espancá-la desse jeito?” “O que foi que ela fez?”

Bem, a Elaine convidou um sujeito que ela só conhecia das redes sociais, para jantar com ela.

A jovem chicoteada demorou para chegar em casa e ainda por cima aguentou dez anos de porrada.

A Elza se separou do marido depois que ele bateu nela.

E eu fico me perguntando se existe alguém que acredite realmente que esses são “motivos” para a brutalidade que essas mulheres sofreram.

Fico me perguntando se existe, de fato, alguma justificativa, por menor que seja, para esse tipo de coisa.

E fico até assustada ao perceber o quanto algumas mulheres internalizaram o machismo.

É verdade: todos somos machistas; todos tivemos essa cultura empurrada na nossa cabeça, desde a infância.

Mas isso não significa que a gente não possa lutar contra ela, inclusive, dentro de nós.

E o primeiro passo é entender o seguinte: a culpa por uma violência que venhamos a sofrer nas mãos desses homens jamais será nossa.

Nós somos as vítimas inocentes, indefesas, desses predadores.

E sob nenhuma circunstância, não, não é “natural” que eles nos humilhem, espanquem e matem.

A culpa por essa violência é única e exclusivamente deles.

A culpa é desse ódio mal disfarçado que eles sentem a todas as mulheres, porque não passam de uns falhados, uns frustrados, uns perdedores, uns covardes.

E nós, mulheres, precisamos é ter solidariedade entre nós, em vez de ficarmos procurando justificativas para esses animais.

Não podemos passar a vida inteira nos castrando, nos patrulhando, para que sejamos respeitadas e reconhecidas como vítimas inocentes, dessas criaturas.

Nós temos DIREITO a esse respeito e a esse reconhecimento, porque somos cidadãs, porque somos seres humanos.

Quanto a esses predadores, eles é que têm de viver enjaulados - e não nós.

Eles têm é de enfrentar os rigores da Lei e o nosso total repúdio, até que aprendam a conviver conosco em um patamar minimamente civilizado.


FUUUIIII!!!!!

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A República do Bundão






Conta um manuscrito do Rio Amazonas que, no ano de 2.518 de Nosso Senhor, o Brasil resolveu mudar de nome e passou a se chamar República do Bundão.

A decisão foi precedida de acalorados debates entre os bundões, o novo gentílico daquela pitoresca nação.

Mas não pense o leitor que tal se deveu a alguma comparação maledicente.

Em verdade, o gentílico que antecedeu a República apenas traduziu uma condição literal: um belo dia, todos os habitantes daquele país acordaram transformados em um bando de bundões.

Por algum fenômeno genético ou vingança divina, perderam todo o resto do corpo, que foi sintetizado em enormes bundas.

O fato atraiu cientistas do mundo inteiro, que se dispuseram a estudar, “de grátis”, o intrigante fenômeno: é que também havia a preocupação de que fosse contagioso e acabasse provocando uma “bundástica” planetária.

O que mais impressionava os cientistas era que os bundões continuavam a viver normalmente, embora com as necessárias adaptações: se locomoviam aos pulos; pensavam, falavam e excretavam pelo mesmíssimo tubo intestinal.

Tais adaptações, é claro, trouxeram alguns inconvenientes.

Lideranças políticas e religiosas passaram a “agraciar” a plateia com frequentes banhos de merda, esguichos tão aguados e fedorentos que mais pareciam saídos das profundezas infernais.

No entanto – e isso também intrigava os cientistas – quanto mais pútrida e caudalosa a merda, mais os bundões admiravam o orador.

Extasiados, saltavam de um lado a outro, em coreografias tribais e peidorreiras, a clamar por mais e mais fezes.

E depois de certo tempo, já habituados à coprofagia, até elegeram presidente o mais “prolífico” de todos eles.

O bundão-presidente não perdeu tempo em presenteá-los com merdas da melhor qualidade: todos perderam seus direitos trabalhistas; agora, feito escravos, teriam de trabalhar de sol a sol, nos 400 dias do ano, e com salários que não pagavam nem mesmo um pum. E quando envelhecessem, teriam de mendigar pelas ruas.

O país retrocedeu 500 anos em 5, tornando-se um imenso laboratório para todas as forças intestinais do universo.

E no entanto, os bundões pareciam felicíssimos com tudo aquilo, tanto que os cientistas começaram a especular se a nova condição glútea não lhes havia prejudicado o funcionamento cerebral.

A única coisa que realmente incomodava os bundões era a diversidade das bundas que tinham de encarar.

A maioria, é verdade, eram bundas-moles convictas: raquíticas, tristonhas, sem umidade ou frescor.

Outras, eram típicas bundas-sujas, cuja ignorância e presunção chegava a assustar.

Porém, também as havia rosadas e rechonchudas, vivazes, selvagens, indomáveis, a convidar à vida e ao prazer.

Diante delas, os bundões religiosos se remexiam incomodados, como a contemplar o fruto proibido.

E os “bundões de bem” afirmavam que aquelas bundas eram um perigo às suas abundantes famílias, principais e secundárias, que mantinham debaixo de chineladas.

Formaram-se, então, grandes pelotões de patrulhamento pela Tradicional Família do Bundão (TFB).

Os pelotões passaram a perseguir pelas ruas as bundas vivazes, selvagens, indomáveis, para espancá-las, interná-las em hospícios, convertê-las à religião dos bundões, e até mesmo matá-las.

Fossem seres humanos, talvez alguém reagisse, gritasse: parem! Não façam isso!

Mas eram apenas bundas. E só.

E enquanto se ocupavam dessa perseguição, mais e mais a República do Bundão foi se assemelhando a um ânus escancarado: nações mais desenvolvidas enfiavam-lhe, a seco, toda sorte de retrocessos.

Os bundões perderam suas florestas, rios, bichos, petróleo, minérios.

O que as grandes multinacionais não puderam levar, foi destruído pela exploração predatória e pelos venenos que comercializavam para serem pulverizados sobre as plantações.

A paisagem, dantes verdejante, repleta de vida e de águas cristalinas, foi substituída por grandes desertos e rios de lama. E entre as árvores mortas e retorcidas já não se ouvia um único cantar.

O próprio coração dos bundões tornou-se árido.

A hipocrisia, a ignorância, pastores endemoniados e a violenta repressão ao prazer os haviam transformado em seres amargurados, cruéis, possessos de ódio, para os quais nem Deus já suportava olhar.

Mas tudo o que importava era que haviam se livrado daquelas bundas vivazes, selvagens, indomáveis.

Agora, todos se vestiam de rosa ou azul e se calavam diante das humilhações e chineladas.

E na República do Bundão reinava, enfim, a paz.