sábado, 6 de novembro de 2021

Marília Mendonça e a intolerância



 

Confesso que não conhecia Marília Mendonça.

E o “confesso” é preocupante.

Eis que soa a mim mesma como se tivesse cometido algum pecado ou crime.

No entanto, a escolha do verbo foi proposital: ele tem sido usado por várias pessoas que dizem o mesmo que acabei de dizer.

Mas nem esse verbo, com um implícito pedido de desculpas, tem evitado os ataques àqueles que “ousam” dizer que desconheciam Marília Mendonça, ou que não gostam das músicas dela.

Quem “confessa” tais “heresias” é chamado de “metido a sabichão” ou “a inteligentezinho”.

Enfim, um “intelectualzinho” preconceituoso, por seu “desprezo” à cultura popular.

Esse interdito ao diferente tem nome: é intolerância.

Talvez decorrente destes tempos que estamos a viver; talvez inerente ao gregarismo humano.

Afinal, todos somos macacos.

E os nossos primos mais próximos, os chimpanzés, costumam se espalhar em círculo, de forma a que todos possam ver, ao vivo e em cores, o que todos estão a fazer.

Sim, é possível que esse controle social faça parte de nossa essência, assim como a fuxicada que dele, em geral, decorre.

Tenho todo o direito de desconhecer Marília Mendonça, ou até de não gostar da música dela, assim como você tem todo o direito de conhecer e de gostar.

Gostos são como a pele, que a gente mostra por aí todos os dias, quando sai às ruas, mas que continua sendo nossa, e só nossa.

O fato de alguém “confessar” que não sabe quem foi essa moça, ou que não gosta da arte dela, não faz desse alguém um ser “desprezível”, um “exibicionista” que se pretende “superior aos demais”.

É apenas uma questão de gosto – e só!

Você pode adorar aquele filé que postou no Face, acompanhado de uma saladinha.

O outro pode gostar só da saladinha, porque é vegano.

Já eu posso gostar de uma pratada de espaguete à bolonhesa, com feijão preto e um ovo estrelado por cima.

E aí?

O que é que isso depõe contra mim, ou até lhe afeta, se o meu paladar é diferente do seu?

Mas aí você pode dizer: ah, mas você é uma despirocada!

E eu serei forçada a lhe responder: mano, todo ser humano é um despirocado!

A “despirocação” é o resultado necessário desse embate cotidiano e perpétuo entre os instintos, a consciência de si e a cultura.

E a suposta “normalidade” é que esconde muitas vezes aberrações, como é o caso dos psicopatas.

Muitos são considerados cidadãos exemplares, por seu comportamento condizente com o padrão comunitário, até que se descobre o que eles andam realmente a fazer.

É verdade que há intelectuais que desprezam o brega, por exemplo, pela forte carga emocional que ele possui.

Mas isso muitas vezes decorre dessa falsa oposição, dessa falsa relação de excludência, entre razão e emoção.

Hoje a Ciência já sabe que a “racionalidade” precisa desesperadamente da emoção; do bom funcionamento das áreas cerebrais responsáveis pelo processamento das emoções.

Ambas, razão e emoção, têm de trabalhar juntas.

E é a interação entre elas a gerar aquilo que reconhecemos como humano.

No entanto, a existência de tal preconceito não me autoriza a proclamar que qualquer intelectual ou que qualquer pessoa que não goste de sertanejo, brega ou de “sofrência” está sendo preconceituoso, um sujeito “de nariz empinado”.

Perdoe-me, mas esse é um raciocínio tosco. E intolerante. E que também revela a busca de aprovação dos seus gostos pelas demais pessoas.

Nossos gostos iniciais vêm da família e de outros grupos sociais bem próximos de nós.

E talvez por isso mesmo eles possuam uma forte carga emocional, que nos acompanhará pelo resto da vida.

Mas conforme crescemos, esses gostos vão mudando, pela formação, pela diversificação de grupos sociais, e até mesmo com a chegada da maturidade e da velhice.

E eles muitas vezes são tão voláteis, que mudam até com a ocasião ou com o nosso estado de espírito.

Eu mesma, quando bebia, tinha uma espécie de tara: precisava, desesperadamente, ouvir o Reginaldo Rossi...

Tomei muito porre ao som do “Garçom”!...

Hoje, como não bebo mais, a tara desapareceu.

Fiquei, é claro, um pouco melhor por parar de beber: menos despirocada e diz que um pouco mais “lúcida”...

Mas ouvir ou não ouvir o Reginaldo não me tornou nem melhor, nem pior.

Era um gosto, apenas. E não uma traço de personalidade.

Então, pense duas vezes antes de sair por aí, nas redes sociais, xingando ou depreciando as pessoas apenas por terem gostos diferentes dos seus.

É claro que a música, a poesia, a literatura, as artes de um modo geral, exercem sobre nós um encantamento que só as relações afetivas, com nossos parceiros, filhos, amigos, conseguem também exercer.

Mas isso, em vez de nos colocar em pé de guerra, deveria era ser um motivo a mais para nos tornarmos mais tolerantes.

Afinal, o encantamento que sentimos por isto ou aquilo é o mesmíssimo que o outro também sente por aquilo de que gosta.

E a sua sensação do “não-gostar” é a mesmíssima que o outro sente também.

Respeite o outro: o gosto, a opinião, o espaço, a vida do outro!

Você não é única pessoa inteligente e com direitos neste mundo.

E nem o outro é uma extensão ou uma propriedade sua.

Queria também deixar aqui o meu lamento pela morte da Marília Mendonça.

Não por sua música, que, como já disse, desconheço.

Mas pelo fato de ser uma menina de 26 anos, com idade de ser minha filha, que se foi de maneira tão brusca e prematura.

Lamento por seu filhinho, ao que li, com apenas dois aninhos, que crescerá sem o carinho de sua mãe.

E lamento, sobretudo, pela mãe da Marília, cuja dor, neste momento e pelo resto da vida, é a pior que qualquer ser humano pode sentir...

Tenho certeza de que Deus recebeu essa menina em Sua luz.

E peço que Ele conforte todos aqueles que tanto a amavam.

E que Console os milhões de fãs que viram na história e na música de Marília uma inspiração para as suas próprias vidas.

FUUUIIIII!!!! 

 

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Esta postagem foi corrigida, já que uma leitora do blog me alertou, no Face, que Marília deixou um filhinho, e não uma filhinha como eu havia escrito. Peço  perdão aos leitores pelo equívoco.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Igeprev faz pente-fino e suspende benefícios de mais de mil “fantasminhas”, que causaram prejuízo de R$ 41 milhões. Mas é a ponta de um iceberg: rombo pode ter atingido R$ 252 milhões, entre 2010 e 2018, devido a pensões e aposentadorias irregulares.


 

Mais de mil aposentadorias e pensões de beneficiários já falecidos, mas que continuavam a ser pagas, já foram suspensas pelo Igeprev, o Instituto de Gestão Previdenciária do Pará, do ano passado para cá.

As fraudes foram descobertas graças a um pente-fino que vem sendo realizado pelo instituto nesses benefícios.

A estimativa é que essas mil fraudes tenham provocado um prejuízo de quase R$ 41 milhões aos cofres públicos.

Mas é apenas a ponta de um iceberg: nos cálculos do Tribunal de Contas do Estado (TCE), é provável que diversas irregularidades nos pagamentos de pensões e aposentadorias tenham provocado um rombo superior a R$ 252 milhões, entre 2010 e 2018.

A boa notícia é que hoje o Igeprev está agindo, para eliminar tais problemas. 

Segundo o ex-auditor geral do Estado, Giussepp Mendes, que desde meados do ano passado preside o Igeprev, uma das causas dessas irregularidades, como é o caso dos pagamentos de beneficiários já falecidos, era a falta de atualização do banco de dados de aposentados e pensionistas.

Mas o Censo Previdenciário, que começou em novembro, vai sanar essa defasagem e reduzir a possibilidade de fraudes.

O trabalho já deveria ter sido concluído, mas a pandemia obrigou que fosse interrompido, entre fevereiro e junho deste ano.

Mesmo assim, quase a metade dos 48 mil segurados do Igeprev já foi recadastrada e a previsão é que o censo termine em 30 de dezembro.

Além de dificultar as fraudes, a atualização cadastral também vai melhorar o planejamento do instituto, o que também é fundamental para o bom uso dos recursos públicos, observa Giussepp.

Outra providência é a abertura de processos administrativos e judiciais, para recuperar o dinheiro recebido irregularmente por beneficiários, ou em nome deles.    

Já o pente-fino deve prosseguir até maio do ano que vem.

A auditoria se encontra em sua segunda e última fase, na qual foram detectados 131 pagamentos indevidos, suspensos no mês passado.

Só esses 131 casos somam quase R$ 2,7 milhões.

A lista desses “fantasminhas” foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE), em 1 de outubro.

Ela não traz nomes, mas apenas os números das matrículas no Igeprev.

Na relação, há civis e militares e quase todos faleceram ao longo deste ano.

As exceções são 6 ex-aposentados e pensionistas, que morreram no ano passado, e um aposentado, que morreu em maio de 2018.

Ele é o que registra o maior valor de pagamentos irregulares: quase R$ 265 mil.

Na lista, há pouquíssimos benefícios que chamam atenção pelo alto valor.

O caso mais significativo é o de um militar inativo, que morreu em julho deste ano e recebia R$ 88.811,01 por mês.

Como o pagamento só foi suspenso em setembro, o dinheiro recebido em nome dele totalizou R$ 175.657,02.

No entanto, há vários benefícios de apenas um salário mínimo, ou pouco mais.

O menor era o de um pensionista civil, que morreu em julho último e recebia apenas R$ 905,96 por mês.    

Só com esses 131 “fantasminhas”, os gastos do Igeprev alcançavam R$ 811.445,77 mensais (média per capita de R$ 6.194,24).

Com a suspensão dos pagamentos ocorrida em setembro, serão, portanto, mais de R$ 4 milhões que deixarão de sair irregularmente dos cofres públicos, só neste ano, e já com o 13.

 

 

Trabalho do MPC foi decisivo para conter a sangria

 

É verdade que desde 2019, com o Governo do Estado sob nova direção, o Igeprev já vinha apertando a fiscalização desses benefícios.

Mas também é verdade que o Ministério Público de Contas (MPC) teve um papel decisivo para conter essa sangria de quase uma década.

Quem começou a investigar o caso foi o hoje Procurador Geral de Contas, Guilherme da Costa Sperry, a partir de um processo aparentemente corriqueiro: as pensões deixadas por um servidor público, para a viúva e o filho do casal. 

Sperry descobriu que o rapaz continuou a receber a pensão mesmo depois de atingir a maioridade.

Pior: a viúva morreu em abril de 2007, mas a pensão dela continuou a ser paga até outubro de 2012, o que resultou em mais de R$ 44 mil em pagamentos indevidos.

Na época, as pensões por morte do Igeprev somavam R$ 34,6 milhões e beneficiavam mais de 10 mil pessoas.

E as explicações do instituto, para aqueles pagamentos à viúva falecida, fizeram com que Sparry desconfiasse da existência de outros casos semelhantes.

É que o Igeprev disse que o sistema de gerenciamento, o Sisprev, não suportava a carga automática registrada no sistema de óbitos (Sisobi).

Além disso, alguns cartórios descumpriam a Lei e não atualizavam as informações.

Para completar, o Igeprev realizara manualmente o controle de centenas ou milhares de falecimentos, entre abril de 2009 e dezembro de 2014. 

Ao mergulhar nesse caos, Sparry encontrou até um aumento de R$ 375 mil na folha de pagamentos desses benefícios, apenas com a inclusão de 4 novos beneficiários, entre fevereiro e março de 2017.

Encontrou, ainda, 18 pensões cujos valores líquidos superavam a remuneração dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o limite constitucional para os salários e benefícios pagos pelo Poder Público.

Com base nesses indícios de irregularidades, ele protocolou, em fevereiro de 2018, uma Representação no TCE, pedindo uma inspeção extraordinária.

Os técnicos do tribunal descobriram, então, um fato assustador: um provável dano ao erário superior a R$ 252 milhões, entre 1 de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2018, devido a várias irregularidades.

Mais da metade desse rombo (R$ 135,5 milhões) decorrera de benefícios acima do limite constitucional.

Já as aposentadorias pagas a “fantasminhas” somavam R$ 16,5 milhões.

No entanto, o aperto da fiscalização pelo Governo sinalizava a possibilidade de que o problema fosse ainda maior, o que acabou se confirmando com o pente-fino do Igeprev, que já encontrou mais de mil “fantasminhas”. 

Embora já tivesse sido iniciado pelo instituto, o pente-fino acabou reforçado por uma ordem do TCE.

Em abril de 2020, o tribunal julgou procedente a Representação de Sparry e determinou ao Igeprev um conjunto de medidas para colocar ordem na casa.

Houve conselheiro espantado com o rombo de R$ 252 milhões, em 8 anos.

E o relator do processo, o conselheiro substituto Julival Silva Rocha, externou até uma certa agonia. “Eu não sei como que o Tribunal poderia fazer aqui para provocar, para incentivar, ou para motivar alguma pessoa vinculada ao órgão competente para fazer sua regulamentação, para que isso seja feito o mais breve possível”, disse, à certa altura.

Segundo ele, a maioria dos pagamentos irregulares decorreu de falhas de comunicação, como, por exemplo, entre os cartórios, o sistema de óbitos e o sistema nacional de registro civil.

Em geral, por causa de problemas no RG e no CPF, os dois principais documentos de identificação.

E como cada cidadão corresponde, nesses sistemas, a dezenas de dados, muitos deles falhos, o mar de problemas só poderá ser resolvido com a regulamentação da Lei 9.454/1997, que instituiu o número único de registro de identidade civil.

Uma providência muito acima da esfera de poder do tribunal.  

Naquela sessão, foi dado um prazo de 60 dias para o Igeprev apresentar um plano de ação, com as recomendações do tribunal, para a recuperação desses recursos e o combate às irregularidades.

A montanha de possíveis danos ao erário incluía R$ 37,3 milhões em pensões por morte, R$ 28 milhões em aposentadorias indevidas, R$ 23,8 milhões em pensões que atingiram, em algum momento, o limite constitucional, e R$ 2,2 milhões em reservas e reformas irregulares.

Uma das recomendações do TCE, para evitar novos prejuízos, foi que o Igeprev melhorasse o seu controle de pagamentos, inclusive com o recadastramento dos beneficiários e censos períodos.

Na época, segundo Giussepp Mendes, a melhoria da fiscalização pelo novo governo já havia detectado 350 possíveis fraudes previdenciárias.

“Mesmo antes do julgamento do TCE, já vínhamos adotando medidas para combater esses problemas. Além disso, encaminhamos todas as irregularidades identificadas ao Ministério Público e à Diretoria de Combate à Corrupção (DECOR), da Polícia Civil, para a apuração até mesmo de possíveis organizações criminosas”, afirma.

De lá para cá, o Igeprev também já detectou, e suspendeu, mais de 2 mil abonos concedidos indevidamente a militares, que custavam R$ 5,7 milhões por ano, aos cofres públicos.

 

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Matéria que fiz para o jornal Diário do Pará, publicada no último domingo, 24 de outubro.