domingo, 20 de abril de 2014

A Incrível História de Onde Judas Perdeu as Botas – Parte 3







Frank Sinatra da Silva Simão era tão canastrão, mas tão canastrão que é mesmo uma pena que tenha nascido em Onde Judas Perdeu as Botas, e não em Bollywood.

O pai batizou-o assim na certeza de que seria um grande artista.

Afinal, previra uma pitonisa engarapada até à alma, em meio à fumaça das ervas adivinhas:

_Seu Isac, o seu filho vai ser o maior artista que já se viu em Onde Judas Perdeu as Botas! Um artista impressionante!...De deixar qualquer um de queixo caído!... Eu vejo, seu Isac!... Tá tudo aqui nas cartas, ó!...
_Mas que tipo de artista ele vai ser? Será que vai ser músico que nem o avô?
_Músico, seu Isac!... Tô vendo aqui, ó: ele vai dar música que é uma beleza!... Vai arrastar multidões, que nem aquele flautista... Aquele tal de Hamelin!...  O seu filho vai cair na boca do povo, seu Isac!...
_Na boca do povo?
_É, seu Isac, ele vai ser famoso demais!... Tô vendo aqui, ó!... Mais afamado do que ele só os últimos dias de Pompeia!... Vai entrar pra história, seu Isac! E não haverá um só ‘caboco’ de Onde Judas Perdeu as Botas que não diga: “Égua, que esse daí é ‘mermo’ um artista!”...

Para dar mais um empurrãozinho ao destino (o que seria de Moisés sem as pragas do Egito, caro leitor?), o pai matriculou o menino no Conservatório da República Imperial.

Mas o Pequeno Sinatra não possuía nem afinação, nem ritmo, nem  significativa extensão vocal. E o timbre, desgraçadamente, também ficara  anos-luz ao de seu homônimo.

Night and day, as professoras agonizaram naqueles trinados por eternos três meses.

Até que, mergulhadas em profunda depressão e transtornos obsessivos (especialmente, súbitos tremeliques), suplicaram que o levassem de lá.

E ainda endureceram as regras de acesso ao Conservatório, naquele que passaria à história como “O Estranho Caso do Pequeno Sinatra de Onde Judas Perdeu as Botas”.

Tristíssimo, o pai viu crescer o moleque sem conseguir imaginar outro destino à altura de nome tão promissor.

Nem jogar bola Frank sabia...

Tampouco se destacava em português, matemática, química, física, história, geografia - ou em qualquer disciplina existente, ou por existir.

Em verdade, só possuía duas grandes aptidões: dormir e pescar.

Além disso, era um mentiroso nato, genuíno, autêntico, verdadeiro, capaz de levar os circunstantes às lágrimas, sempre que desatava a contar os “causos” que inventava – inclusive, para si mesmo.

Os olhos a fitar o além do além, a mão direita a bater no peito e a voz embargada eram capazes de compungir até o mais pétreo coração...

Por isso, o pai até pensou em fazer do filho um pastor pentecostal.

Mas foi aí que teve a ideia que mudaria o destino de Frank e de toda a província:
_Levanta já dessa rede, seu malandro, vagabundo, preguiçoso, que você vai é ser político!

Sábio como todo pai, também quebrou o violão do Sinatra:
_Do jeito que você toca, isso só serve é pra espantar eleitor, seu incompetente!

E depois de obrigar o filho a limpar as inúmeras remelas, levou-o para se filiar ao partido de João Batista, o recém-eleito presidente imperial.
_E trate de fazer com que ele goste de você! Senão eu te jogo é pra fora de casa, seu pilantra!

E, de fato, João Batista adorou Frank Sinatra.

Primeiro pela impressionante capacidade de fazer com que todos trabalhassem por ele.

Manco, pálido, franzino, o rapaz espalhou aos quatro ventos que sofria de grave e intratável doença cardíaca.

Assim, muitos desenvolveram por ele uma espécie de simpatia misericordiosa, já que se encontrava a um passo do túmulo.

Além disso, a relutância coletiva em contrariar um pré-defunto lhe permitiu apropriar-se das melhores ideias alheias; galgar rapidamente os postos de direção partidária e safar-se de vários apuros.

Sempre que se via envolvido em disputas familiares que não conseguia resolver, ou que era encurralado pelos adversários políticos, queixava-se de dores no peito e começava a arfar. Cambaleante, era levado ao hospital - e de lá só saía quando os ânimos serenavam.

No entanto, o que mais encantou João Batista foi a capacidade do rapaz de prometer, e prometer, e prometer – e de sempre encontrar uma legião de crentes fervorosos, mesmo que coisa alguma fizesse, ou, ao menos, pretendesse fazer.

Para os ‘cabocos’ daquela ilha, era um gênio da política, um Pequeno Bórgia dos trópicos, cuja iluminação intelectual, quase mediúnica, era a mais extraordinária já alcançada pelo espírito humano.

Em pouco tempo, João Batista fez do rapaz o responsável pelo caixa dois das campanhas eleitorais e por todos os assuntos futurísticos de Onde Judas Perdeu as Botas.

Admirava-o, tratava-o como a um filho e pegava-se até embevecido diante da devoção daquele espírito grandioso, absolutamente desprendido de ambições materiais.

Certo dia, cansado e doente, pediu que Frank o substituísse, para que pudesse retornar mais adiante à Presidência Imperial.

Quase teve de implorar, porque o rapaz afirmava detestar o poder, os salamaleques provocados pelo cargo; a hipocrisia, o puxa-saquismo.

Em verdade, dizia, queria apenas servir ao povo, em prol do Bem coletivo...

No entanto, João Batista acabou por convencer o rapaz, o único em quem podia confiar para guardar-lhe o lugar, eis que uma alma abnegada, luminosa, evoluída.

E foi assim que teve início a mais longa Presidência Imperial de Onde Judas Perdeu as Botas, uma era de pilantragens e patifarias como poucas vezes se viu em qualquer lugar do mundo.

Logo ao assumir o comando da província, Frank tratou de corromper juízes, promotores, políticos e jornalistas, ofertando-lhes centenas de sinecuras, entre outros “agrados”.

Também desencadeou feroz perseguição aos adversários: prisões, demissões, execrações públicas.

Destruiu até mesmo as mais promissoras lideranças de seu partido e de partidos aliados.

“Caboco, preciso de ti”, afirmava, com ar humilde, enquanto encaminhava o desafortunado ao suicídio político, sempre com a desculpa de se tratar de uma “articulação brilhante”, fundamental à manutenção do poder.

Loteou os cargos públicos com parentes, amásias e toda sorte de parasitas.

Roubou, e roubou, e roubou – até que quase nada restasse nos cofres provinciais.

Sob seu comando, Onde Judas Perdeu as Botas tornou-se, mais do que nunca, onde Judas perdeu as botas...

Por fim, e sem precisar de qualquer Salomé, mandou cortar a cabeça de João Batista.

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A Perereca adverte: esta obra é de ficção. Qualquer semelhança entre algum político e o Pequeno Sinatra de Onde Judas Perdeu as Botas é mera coincidência. 

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Pra Vocês!

sábado, 12 de abril de 2014

A Perereca morreu? Viva a Perereca!




Sério mermo que vocês acharam que tinham se livrado de mim?

Égua do pessoal!...

Intonci, vocês acharam mermo que eu aia aficá de fora dessa jogatina?

Mas quandu, mermão!..

Mas se avai assê a maió jogatina que já se aviu no Pará, desdi aquandu eu mi intendu pur genti!...

Ficha por ficha, mano a mano, ou, melhó adizendo: dá-lhe, que eu te arrebento!...

Vai assê aquinem aquele filme do Pacino e do De Niro: Fire contra Fire – i assalve-se aquem apudé!...

E vocês acharu mermo que esta dotôra in beng-beng num aia adá as cara a tapa?

Mas si inté o Jatene e o Orly aiam aficá tristinhos, tristinhos, amacambúzios, acoitadinhos!, a perguntaire a toda gente: mas cadeire a Perereca? Cadeire? Mas assim o jogo não tem graça, ora pois!...

A Perereca da Vizinha volta depois da Páscoa, amantíssimo leitor!

Posso chamá-lo assim, não posso?

Afinal, são oito anos de intimidade, cumplicidade...

É verdade, tivemos muitas idas e vindas...

E você, por vezes, teve de ter uma paciência de Jó!...

Mas tem sido bom pra você também, não tem?

Tanto assim que você continua entrando na Perereca, mesmo com ela paradona (vai que um dia ela acorde, né não?...).

E eu só queria é que você soubesse o quanto a sua companhia é prazerosa.

O quanto eu me sinto até envaidecida em tê-lo aqui neste cafofo.

O quanto me toca e me faz seguir em frente a confiança que você demonstra neste blog.

À exceção do Sindifisco (e a gente tem de tirar o chapéu pro Sindifisco) A Perereca da Vizinha não tem a ajuda de ninguém.

Não é badalado pelos jornalões (embora já tenha até manchetado os jornalões...). E, mesmo assim, faz um barulho danado...

Então, é claro que é você o responsável por isso.

Você, amantíssimo leitor, que distribui as postagens deste blog nas redes sociais e através de emails – ou até que reproduz as reportagens do blog em jornais por todo o interior do Pará.

É verdade que, por vezes, eu gostaria de ir embora.

Afinal, às vezes me sinto como se andasse a quebrar uma pedreira...

E aí eu olho para o meu jardim, repleto de borboletas, passarinhos, rosas, jasmins...

E penso que essas cores, esses cantos, esses perfumes são extraordinários demais para que se busque algo além...

Mas aí eu me lembro que essa vitória não me pertence – ela é sua, também.

Ou até principalmente sua, já que você deve ter quebrado muita pedra para tornar acreditado e conhecido um blog jornalístico chamado  “A Perereca da Vizinha”...

E uma coisa a gente pode dizer deste blog, né não?: este nome foi mesmo inesperável...

No entanto, a Perereca não poderá retornar com esse nome.

E essa, confesso, é uma das decisões mais difíceis que já tomei.

Há pelo menos quatro anos, eu sei que não há como tentar garantir sustentabilidade a um blog jornalístico chamado A Perereca da Vizinha.

Simplesmente, porque ninguém vai anunciar em um blog com esse nome.

A exceção tem sido o Sindifisco. Mas, a par de todo o esforço do Sindifisco, essa ajuda não é suficiente.

A Perereca da Vizinha penou nas mãos do PSDB.

Penou nas mãos do PT, e está penando, que nem sovaco de aleijado, novamente, nas mãos do PSDB.

Daí que é previsível que penará, também, nas mãos do PMDB.

Isso porque inexiste maturidade democrática no estado do Pará.

Quem assume o poder, não consegue enxergar  a sociedade como aliada.

E a imprensa, que é a maior fiscal da sociedade – que me perdoe o MP – acaba por ter apenas duas alternativas: ou se corrompe, ou acaba no limbo.

Toda a adiposidade que possuía foi-se embora nesses quatro anos de governo Jatene – não tenho mais, não há mais.

Daí que, qualquer que seja o resultado dessas eleições, haverá diante de mim um deserto para o qual eu já não possuo nenhuma condição financeira.

Além disso, a vida foi me mostrando que determinados atalhos podem até parecer bacanas, mas, ao fim e ao cabo, só te atormentam...

Daí que a principal tarefa que vejo hoje é garantir sustentabilidade a este espaço jornalístico, um dos poucos que, ao menos, tenta ter um mínimo de respeito a você, amantíssimo leitor.

Se eu quero isso? Não. Prefiro mil vezes o cantar dos passarinhos, o bailar das borboletas, o perfume das rosas e jasmins.

Mas este blog – e você que o acompanha desde o começo sabe disso – acabou por assumir uma função que não deveria ser dele: ser quase a única janela escancarada à liberdade de informação neste estado infeliz.

Lamento que seja assim.

Não tenho pinta de heroína e nem acredito em heroísmo – até porque conheço (e penso) a figura do “herói” (leiam, por favor, “O Heroi das Mil Faces”, do Joseph Campbell – é magnífico!).

Além disso, sei que todo homem médio é capaz de atos heroicos em defesa de alguma coisa que ama ou em que acredita.

No entanto, eis-me aqui a lutar, heroicamente, pela liberdade de informação...

É quase cômico... Quase... Evangélico!...Quase... Messiânico!!!...

Mas deixemos as meditações filosóficas para futuramente.

Presentemente, temos é de garantir a sobrevivência deste espaço.

De sorte, que a Perereca da Vizinha ficará apenas para acesso a tudo o que foi publicado até aqui – e tenho pensado em formas de facilitar e de deixar bem explícito esse acesso, especialmente, aos posts de maior repercussão.

O outro blog que lançarei, esse sim, será para as novas reportagens.

Pensei em lançar o blog Pará de Fato – e até registrei e configurei.

Mas acabei por considerar que o blog da Ana Célia Pinheiro ou da Ana Célia será menos traumático.

Até porque o meu nome – embora nunca tenha feito disso cavalo –de- batalha – acabou atrelado à Perereca da Vizinha.

E eu só espero é que vocês tenham por esse novo blog a mesma confiança e o mesmo carinho que sempre demonstraram pela Perereca.

Viva a Perereca da Vizinha!

Viva a força da sociedade!

Viva a liberdade de informação!

Pra vocês:








 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ângelo Custódio, 210




Se aquela rua fosse minha, eu mandava ladrilhar.

Com cantigas de roda.

Pessoas sentadas à porta, à noitinha, a conversar.

Ângelo Custódio, meu tapete de Penépole...

Memória e fantasia entrelaçadas.

Fios que teço e desfaço, teço e desfaço, teço e desfaço, para não perder a certeza de mim...

Ilusória? Não.

Mágica, enevoada, e até um coração que não cessa de sangrar.

Mas real.

Dolorosamente, real...

Depois, o casarão da São Jerônimo, 960, já quase a adolescer.

O porão e as celas da escravatura convidavam a toda sorte de assombrações.

No terreno imenso, entre peremas, galinhas e marrecas; entre abacates, cacaus e abricós, a “árvore do enforcado” e um gazebo igualmente assustador...

Belém inteira era um sonho dentro de um sonho.

Princesas morenas, de longos cabelos, que até viravam flor.

Monstros a gritar na escuridão da noite.

Magia recendendo a cupuaçu.

Coaraci, cururu, pitiú: abracadabra, alakazam, amém.

Toda palavra é mágica: a criação do que julgamos ser, a negação do que nos atordoa.

Palavras não apenas exprimem: exorcizam.

Os anjos, os demônios e até esta dor em nós.

A dor de nos sabermos tão sós...

A certeza de que o tempo que vivemos nunca, nunca mais voltará...

E as mangueiras? E as enormes árvores da “Praça dos Leões”?

Na São Jerônimo, Presidente Vargas, Nazaré, centenários casarões enfileirados, em quase toda a extensão.

Matinta-Perêra, rasga-mortalha.

Procissões das almas a inundar a Cidade Velha.

A história a exalar dos casarões.

Os espíritos, um eterno retorno.

As águas – muitas, muitas, muitas águas.

Ao redor e a cair dos céus.

O verde exuberante, o cheiro de fruta.

Como era fértil aquela Belém!...

Mas hoje já não há almas.

Foram-se os casarões, as crianças, os imensos quintais.

O tempo arrastou meu pai, minha irmã, e vai levando, a cada dia, mais um pouquinho da Ângelo Custódio.

Toda a Belém é um turbilhão de edifícios.

Paredes enormes que se erguem a esconder o sol e  obstruir os ventos.

Muros que nos separam cada vez mais, como se não bastassem os muros civilizatórios...

Por toda parte, concreto, vidro e asfalto nos roubam o rosto e a alma.

São os novos anhangas da colonização.

E o medo por nos querermos vivos, embora ninguém saiba exatamente o que é estar vivo...

E chegará o tempo em que nem saberemos quem somos.

Ou o que tivemos.

Ou o que poderíamos ter.

Um tempo em que a Ângelo Custódio, crianças a brincar nas calçadas e o gosto da fruta madura serão, apenas, mais um paraíso a idealizar.

Belém, 17 de fevereiro de 2014.

.......

Pra dona Zenaide e pra Ângelo Custódio:


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

MPE ajuíza Ação Civil Pública para obrigar o Governo a melhorar situação de adolescentes apreendidos em Altamira. Adolescentes ficam alojados “em ambiente visivelmente insalubre, anti-higiênico, sem luz solar e aeração necessária”, diz o MP. E é “péssimo o estado de conservação e limpeza por onde quer que se olhe”.


O Ministério Público ajuizou Ação Civil Pública (ACP) para obrigar o Governo do Estado a melhorar as condições em que são mantidos os adolescentes apreendidos no município de Altamira, que têm de permanecer temporariamente na delegacia da polícia civil daquele município, até que sejam ouvidos pela Justiça.

Na ACP, a promotora estadual de Justiça, Érika Menezes de Oliveira, requer que os adolescentes sejam alojados “em locais salubres, com celas limpas, aparelho sanitário e lavatório, camas, assim como aeração, insolação e condicionamento térmico adequados à existência humana”, informa um texto no site do MPE.

O texto fala apenas em pedido de concessão “de tutela antecipada ‘Inaudita Altera Pars” e omite que se trata de uma ACP.

Mas a informação foi confirmada pelo blog através de telefonemas à sede do MP em Altamira e à Assessoria de Comunicação em Belém.

A Perereca, no entanto, ainda não conseguiu cópia da ação. 


Até limpeza é precária


O processo, que foi ajuizado ontem, também requer que o Governo seja obrigado ou reformar a área da delegacia onde permanecem os adolescentes, ou a construir um novo espaço com essa finalidade.

Segundo o texto, a promotora sustenta que  “o Estado do Pará não vem assegurando serviços relevantes à proteção dos direitos da criança e do adolescente quando da necessidade de apreensão, ainda que temporária, de adolescentes que necessitam ser custodiados na delegacia de polícia de Altamira, em decorrência da prática de ato infracional na cidade”.

Ainda de acordo com o site do MP, Érica disse que “há cela especial disponibilizada a esse público específico em Altamira, a fim de que não seja encarcerado junto com os demais presos de justiça, e se encontra em condições operacionais precárias, em péssimo estado de conservação e limpeza, por onde quer que se olhe. Sejam quanto à pintura, higiene, instalações hidráulicas e elétricas”.

A notícia acrescenta que os adolescentes “ficam apreendidos e alojados em ambiente visivelmente insalubre, anti-higiênico, sem luz solar e aeração necessária”.

A promotora disse ter enviado vários ofícios (o texto não diz, mas presume-se que foi ao Governo), para que o problema fosse resolvido. 

Porém, “passados mais de sete meses, a situação ainda permanece”.

A multa diária por descumprimento requerida na ACP é de R$ 10 mil.

Há pedido de liminar.

Conselho de Arquitetura aponta discrepâncias entre propaganda do Bechara Mattar Diamond e informações da Prefeitura e IPHAN. Dúvidas e receios da sociedade são pertinentes, diz parecer técnico. Diamond pode impactar patrimônio cultural e ultrapassar altura permitida por lei. É preciso Estudo de Impacto de Vizinhança, para dirimir a questão.


(Ilustração do blog Casarão de Memórias)



As dúvidas e temores em relação ao Bechara Mattar Diamond são pertinentes e é necessário um Estudo Prévio de Impacto de Vizinhança (EIV), para esclarecer o caso.

A conclusão é do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Pará (CAU/PA), em parecer encaminhado à Associação Cidade Velha-Cidade Viva (CIVVIVA) e ao Ministério Público Federal.

O Diamond é o “shopping-que-não-é-shopping” que a família Bechara Mattar pretende construir no Feliz Lusitânia, área histórica do centro de Belém.

O projeto arquitetônico é do secretário estadual de Cultura, Paulo Chaves, e foi aprovado pela Prefeitura e pelo IPHAN.

Mas, para o CAU, são tão grandes as diferenças entre o material de divulgação do Diamond e as informações fornecidas pelo IPHAN, que se chega até a duvidar que se trate do mesmo projeto. 

 “Conforme o exposto fica evidente na análise realizada, que há muitos itens a serem esclarecidos à sociedade sobre o projeto em questão e sobre seu processo de aprovação, tornando pertinente, portanto, todas as dúvidas e receios da sociedade e, especialmente dos moradores do bairro da Cidade Velha, os quais encontram-se extremamente preocupados com os impactos a serem causados na vida do bairro e  em seu patrimônio histórico”, diz o parecer.

E acrescenta: “Desta forma, concluímos que o instrumento mais adequado para dirimir quaisquer dúvidas e garantir à sociedade o conhecimento e os esclarecimentos a que esta tem direito sobre o projeto, seus possíveis impactos e as ações necessárias para mitiga-los ou compensá-los é a elaboração e discussão do EIV/RIV, garantindo a realização de audiências públicas e o acesso aos processos de aprovação do mesmo nos órgãos competentes”. 


Contradições 


O parecer é assinado pela conselheira do CAU Alice da Silva Rodrigues Rosas, que percebeu várias contradições ao comparar os esclarecimentos enviados à CIVVIVA pelo IPHAN e FUMBEL (a fundação cultural de Belém) com a aparência final do Diamond, mostrada no jornal Diário do Pará e, ainda, com imagens do Google Maps.

Alice observa, por exemplo, que o prédio de esquina (e que dará lugar ao Diamond) já ocasiona “grande interferência na escala e configuração da paisagem” e contrasta com o entorno, devido às dimensões que possui.

Mesmo assim, como se percebe nas imagens, ainda ganhará mais um pavimento, “com paredes e cobertura translúcidas, o qual aumenta, portanto, a interferência visual já existente”.

E isso, assinala, contradiz a afirmação da FUMBEL de que a altura do Diamond não vai ultrapassar o limite que a lei impõe naquela área.

Outro problema é que a obra foi enquadrada como reforma, apesar de prever expressiva modificação da fachada e desconsiderar a harmonia com os prédios ao redor. 

Segundo Alice, percebe-se claramente que "a escala e o ritmo da composição do conjunto de fachadas foi rompida, já que a solução arquitetônica não levou em consideração a inserção da fachada no conjunto edificado".

Daí a constatação: “O documento da FUMBEL afirma que o bem é de RENOVAÇÃO e que, como o projeto se constitui em REFORMA, deverá haver o aproveitamento da estrutura existente, a qual deveria ter um tratamento que a reinserisse no contexto urbano, fato que não ocorreu (...)”.

E, como além de mais um andar, a obra também prevê a utilização de áreas livres do terreno, Alice deixa as seguintes perguntas: “Considerando que a edificação, na forma como se apresenta hoje, representa uma desconformidade com a legislação que rege os parâmetros de controle urbanístico, vigentes na área, e afeta a configuração da paisagem tombada, é lícito permitir sua ampliação, visto que esta significa a “ampliação de uma desconformidade”? E ainda: Como permitir que esta ampliação ocorra ferindo ainda mais os parâmetros legais estabelecidos?” 



"Shopping de Charme"


A FUMBEL também afirma que o Diamond não será um shopping center – por isso, não precisaria de um Estudo Prévio de Impacto de Vizinhança (EIV).

No entanto, observa Alice, foram os próprios donos do empreendimento a afirmar, no material de propaganda divulgado pelo Diário do Pará, que o Diamond será um “shopping de charme”.

E a lei considera todo shopping center um empreendimento de impacto, que depende, sim, de EIV.

E, no caso do Diamond, acredita Alice, o EIV é duplamente necessário.

Porque, além de shopping, trata-se de um projeto “que claramente poderá causar impacto na paisagem urbana e no patrimônio cultural”. 




E leia as reportagens da Perereca sobre o Diamond: 

30 de setembro de 2013 - “Empresário quer construir shopping center no Feliz Lusitânia e contrata Paulo Chaves para elaborar projeto. “Shopping de Charme” revolta internautas. Filho de Paulo Chaves seria diretor da Seurb e responsável pela liberação de projetos desse tipo”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/09/empresario-quer-construir-shopping.html 

2 de outubro de 2013 -  “Associações pedem informações ao prefeito de Belém sobre o shopping center que será erguido em plena Feliz Lusitânia, área histórica de Belém” : http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/associacoes-pedem-informacoes-ao.html 

3 de outubro de 2013 – “OAB poderá ingressar na Justiça contra a construção do Diamond. “É uma coisa medonha”, diz a presidenta do CIVVIVA sobre o “Shopping de Charme” projetado pelo secretário estadual de Cultura. Caso já se encontra nas mãos do promotor de Justiça Benedito Wilson”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/oab-podera-ingressar-na-justica-contra.html 

4 de outubro de 2013 - “MPF deverá investigar construção do Diamond. Paulo Chaves manda dizer que não vai se manifestar. Seurb e IPHAN ainda não forneceram informações públicas pedidas pela Perereca”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/mpf-devera-investigar-construcao-do_4.html 

7 de outubro de 2013 – “IPHAN responde à Perereca e Sandra Batista quer que Câmara Municipal peça a suspensão da licença de construção do Bechara Mattar Diamond‏”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/iphan-responde-perereca-e-sandra.html 

9 de outubro de 2013 – “MPF abre inquérito civil para investigar construção do Diamond. Resposta do IPHAN repercute na blogosfera. Fábio Castro aponta leitura tendenciosa da lei. Ex-governadora Ana Júlia constata: o assustador é a relação entre Paulo Chaves, o autor do projeto do Diamond, e o diretor de Análise de Projetos da Seurb, que seria filho dele. Jorge Amorim fulmina: é “o direito que nasce da delinquência”:  http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/mpf-abre-inquerito-civil-para.html 

29 de outubro de 2013: “Zenaldo manda às favas Lei da Transparência e entidades civis: prefeito não fornece documentos sobre construção do Diamond e não manda representante à audiência no MPF. Edmilson requer audiência pública na Alepa. Bordalo pede ao MP suspensão das obras e investigação de nepotismo na Seurb”: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2013/10/zenaldo-manda-as-favas-lei-da.html