I
É estranhíssima essa opção preferencial da imprensa brasileira pelo deputado federal Jader Barbalho. Não que eu o considere espécie de “querubim ungido”. Mas, também, não é o satanás, o “anhanga”, que adoram apregoar os tucanos – muitos, por sinal, auxiliares dele, em passado recente.
Jader tem qualidades singulares, em relação aos demais políticos. Tanto que passa a impressão de que, nessa área, teria sucesso em qualquer época ou lugar do mundo. É um orador brilhante. E possui, acima de tudo, raríssima antevisão, capacidade de prever o jogo – ou, antes, de dar-lhe a configuração que mais o beneficie...
Além disso, a personalidade forte o carisma, levaram-no a conquistar milhares de adeptos, dispostos a atravessar todos os desertos, na companhia dele.
Nunca esquecerei da convenção estadual do PMDB, em 1998, que cobri pela Província do Pará. Nunca vi nada parecido – e creio que foi ali que percebi o significado de Jader para os seus correligionários do PMDB.
No salão, lotado, havia uma espécie de eletricidade, de frisson, entre os liderados do velho cacique. E a impressão que ficava – como ele mesmo, aliás, admitiu – era a de que não havia possibilidade de se anunciar, ali, outra coisa que não fosse a candidatura dele ao Governo do Estado.
Também não esqueço a pena, a frustração que senti, ao ler aquela peça de oratória brilhante, que foi o discurso de Jader contra Antonio Carlos Magalhães. Na época, trabalhava na Setran, com os tucanos que ainda seriam, por muitos anos, meus companheiros de lutas e de ideais.
E eu lamentei, de mim para mim, como até hoje lamento, que um talento daquele quilate não estivesse, de fato, a serviço da massa oprimida.
Até porque tais qualidades, ao contrário do que pode imaginar o deputado, não são, simplesmente, inatas. São, em verdade, ganhos coletivos, características que só puderam ser desenvolvidas a partir da acumulação de um conhecimento, que é, sobretudo, societário.
Claro está, portanto, que tenho restrições a ele. Mas, sinceramente, não consigo vê-lo com as tintas tenebrosas pintadas pelos tucanos. Para mim, está, apenas, na média dos políticos brasileiros, em termos de telhado de vidro.
II
Dada essa compreensão é que me causa estranheza, como já disse, essa opção preferencial da imprensa brasileira por Jader Barbalho.
Primeiro porque o Pará, com a sua desimportância nacional – que só o nosso bairrismo tenta dissimular - raramente tem direito a pouco mais que o canto de página do sabão Jacaré.
Segundo porque Jader ainda tem de comer muito feijão para se aproximar, em termos de rolos, aos Sarneys e Magalhães da vida.
E a dúvida que fica é o porquê de merecer tal destaque na imprensa nacional.
Até porque a nossa imprensa não é movida, exatamente, por nobres ideais, elevadíssimos interesses societários.
Na verdade, o pudor dos nossos jornalões, revistas e redes de rádio e tv costuma findar na primeira agência bancária da esquina.
Logo, não são rasgos de candura ou himenoplastias morais a mover a nossa imprensa. Mas, sim, o ganho econômico: a verba de propaganda que se fatura - ou que se faturou e se pretende reconquistar.
Nada de anjos ou demônios, bandidos contra mocinhos, elevados interesses, etc e tal.
Simplesmente, o velho e conhecido jogo político, no seu nível mais rasteiro, como parecem apreciar os tucanos, com a sua conhecida virgindade de beira de cais...
III
Um dos mais estranhos factóides que envolvem Jader Barbalho é aquele filme “Manda Bala”, ou algo assim.
Até hoje, não encontro explicação verossímil, além de politicagem, para o fato de um gringo, que ninguém sabe de que buraco saiu, ter cruzado o oceano para contar a história de um ranário, na desconhecida província paraense.
E logo a história do ranário, que, até onde eu sei, não tem rolo. Mas que parece ter o poder de perder o Norte a um político frio e pragmático, justamente por atingir aqueles a quem ama.
Estranha, portanto, essa história da utilização do ranário, como exemplo da corrupção brasileira.
Será que os Sarneys, os Magalhães, os Malufs, todos mais conhecidos e provenientes de estados bem mais importantes não forneceriam exemplos mais demolidores e, sobretudo, verídicos?
Quanto custou aos paraenses, em termos de verbas de propaganda, tal inserção?
Mas, se tal diretor, tomado de súbito amor pelo Pará e pelo povo paraense, queria mostrar o que sofremos por que, então, não optou pelo antológico Marcelo Gabriel?
Afinal, Almir foi eleito, em 1995, com a bandeira da moralização administrativa. E, no entanto, o honestíssimo Marcelo, filho dele, em companhia do mais que probo Chico Ferreira foram flagrados, pela Polícia Federal, a pilhar o INSS – e justamente o INSS, com os seus velhinhos e aposentadorias parcas.
As empresas ligadas ao honestíssimo Marcelo, como noticiou o Diário do Pará, faturaram cerca de R$ 70 milhões, junto ao Governo do Estado, entre meados de 2000 e setembro do ano passado.
Quer dizer: é bem provável que, ao longo de todo o reinado da esfuziante dupla Almir & Jatene, as empresas do honestíssimo Marcelo e do mais que probo Chico Ferreira tenham levado para casa a mixaria de R$ 100 milhões.
Querem exemplo mais acachapante – e verídico – para o “clássico” Manda Bala?
Mas, se a questão era o Pará, nós, paraenses, ainda poderíamos oferecer “de grátis” ao imaginativo diretor um clássico do surrealismo: o convênio entre a Funtelpa e a Tv Liberal.
A transação, que o MPE, a PGE e o insuspeito deputado Vic Pires Franco classificaram como ilegal, faria a delícia dos intelectuais de todo o mundo.
Por mais que quebrassem a cabeça, não conseguiriam entender como uma empresa privada pode receber R$ 35 milhões do Estado, para usar bens públicos, em benefício próprio, por anos a fio.
E no entanto, apesar do convênio da Funtelpa, da dupla Chico&Marcelo e de tantos outros “fenômenos” – como o Hangar, Centro de Convenções, o mais caro do País; mais caro até que o ultra-moderno Embratel Convention Center, de Curitiba, e isso num estado como Pará, no qual um terço da população sobrevive na indigência – o imaginativo diretor norte-americano, de forma absolutamente desinteressada, optou pelo ranário, que nem falcatrua de verdade é...
Talvez porque em Jader Barbalho tudo cole. Sobretudo, em decorrência da mão aberta dos tucanos, quando se trata de propaganda paga com dinheiro alheio – ou seja, com recursos públicos.
Aliás, foi a partir de tal liberalidade que os tucanos, em parceria com a nossa honestíssima imprensa, conseguiram construir, para gringo ver, essa enternecedora imagem de carmelitas descalças...
IV
Agora, pouco depois do ranário, a imprensa brasileira vem de explorar mais um factóide, dessa feita envolvendo a RBA.
Veja, Globo, Estadão, Folha – não faltou nenhum – manifestam aquela tão conhecida indignação, que todos os leitores atentos já conhecem de longa data, contra o que seria mais um rolo do cacique peemedebista, aliado de Lula.
É engraçado isso. Não apenas Jader, mas, também, Ana Júlia, vêm senso vítimas de um massacre sistemático da nossa honestíssima e indignada imprensa. E longe de mim imaginar que isso se trate de campanha orquestrada...
Apenas, acho engraçado porque testemunhei – ninguém me disse! – o silêncio desolador dessa honestíssima imprensa, diante do nepotismo desenfreado do ex-governador Simão Jatene, que parecia imaginar o Estado como mera extensão da bucólica Inhangapi.
Lembro que investiguei a história dos mais de 20 parentes de Jatene, aboletados no Governo, assim como as mumunhas do sobrinho dele, Eduardo Salles.
Mandei matéria para todos os grandes veículos de comunicação do País: Folha, Estadão, o Globo, Rede Globo, JB, Isto É, Época. Um repórter da Veja, aliás, chegou a vir ao meu apartamento, para pegar o CD contendo as centenas de documentos que comprovavam essas nomeações e até o aluguel de um imóvel, ao Estado, pelo Eduardo.
Mais: a documentação mostrava a ascensão salarial dos parentes de Jatene, a partir de 2003. E todos, saliente-se, eram documentos inquestionáveis: cópias de diários oficiais, de certidões cartorárias, devidamente seladas, e da Junta Comercial do Pará.
Até hoje, espero, devidamente sentada, a publicação desse material. Fiz telefonemas, recebi telefonemas – e nada. E olhem que tentei vender esse material quando a cruzada anti-nepotismo se encontrava no auge.
Uma revista até preparava matéria sobre o nepotismo, focando a Região Norte. Tinham até encontrado um “Rei do Nepotismo”, em estado vizinho. No entanto, o dito cujo não era páreo para o nosso Jatene. Ofereci meu material. A matéria nunca mais que saiu. Por que será?
Mas, longe de mim imaginar que essa omissão da nossa proba imprensa possa ser creditada aos R$ 40 milhões da propaganda dos governos tucanos.
Aliás, jamais me passaria pela cabeça pensar que os bem intencionados Globo, Estadão, Folha, Veja trocaram o silêncio complacente, por cadernos e mais cadernos, páginas e mais páginas, anúncios e mais anúncios custeados com dinheiro público, pelos tucanos paraenses.
Eu, jamais, seria capaz de dizer tal coisa. Até porque imaginar isso significaria comparar a nossa imprensa a verdadeiros sepulcros caiados: belíssimos por fora, mas repletos de toda a sorte de imundície...
Ou, pior que isso, imaginar que os nossos jornalões, revistas e redes de Tv se assemelham às meninas alegres do Beiradão do Jarí...
E no entanto, até hoje, permaneço sem explicação convincente para essa omissão, talvez causada por um jornalista neófito.
Sei, apenas, que Ana Júlia foi massacrada por uma cabeleireira; Jader, pelo ranário.
E que, no entanto, os eduardos salles da vida seguem serelepes, lindos, cevados e soltos, talvez à espera da restauração da lambança...
V
Não tenho procuração para defender Jader Barbalho e nem pretendo fazê-lo. Até porque ele sabe se defender sozinho e tem muito mais poder para isso.
No entanto, creio que devia este post a todos os companheiros do PMDB e do PT, que suaram as camisas, nas últimas eleições.
Afinal, lembro de, à certa altura, ter escrito sobre o palanque paraguaio dos tucanos e a honestidade de R$ 1,99 que vendiam à sociedade.
Nem conheço Jader direito, a não ser de entrevistas. Mas conheço, muitíssimo bem, cada um de vocês. Por isso, não poderia, simplesmente, silenciar quando nos encontramos debaixo de bala.
Orgulho-me de cada companheiro, ao lado do qual lutei. E se me fosse dado escolher, novamente escolheria esse timaço, mesmo que esperando a derrota, como, aliás, todos esperávamos.
Construímos, juntos, a última vitória eleitoral. Com as nossas qualidades e defeitos e contra os milhões da propaganda, conseguimos mostrar ao eleitor que, afinal, não éramos os bandidos.
E de uma coisa tenho certeza: podemos não ser nenhuma Brastemp, mas faremos um governo bem melhor do que aqueles que nos antecederam.
Porque, ao contrário deles, da arrogância deles, temos a humildade de reconhecer que somos, apenas, cidadãos tentando acertar.
Guardei este post por vários dias. Até porque, ao escrevê-lo, tinha plena consciência das críticas que receberia. Não importa. O importante, de fato, é que estamos juntos. E que já era tempo de cortar o cordão.
Então, que os corretíssimos tucanos – que sempre imploraram pelo apoio de todos nós, aliás – atirem a primeira pedra. Ou, melhor dizendo, que esses publicanos de araque vão cantar em outra freguesia.
E já que é assim, voltarei, ainda nesta semana, para falar, especificamente, sobre a reportagem de Veja. Chega de demonstrarmos medo diante dessa quitanda mal dissimulada que é a Veja.
Querem vir pra cima? Vamos pra cima!
Quantas páginas eles estão dispostos a gastar conosco? Mas, nós, temos um jornal inteiro – e páginas e páginas que podem ser reproduzidas em todos os jornais do mundo. É tudo questão de articulação. Que o diga a própria Veja.
Vamos lá. Vamos ver quanto foi a bufunfa que lhe pagarem e se isso justificativa o risco. Qualquer que seja. Não temos nada a perder, diante dela. Por isso, recuar, jamais!