O que Trump quer é meter medo nos brasileiros.
Porque o medo é um dos elementos determinantes, em qualquer ação ou reação animal.
Nós já estamos às voltas com as ameaças apocalípticas de certas “igrejas”.
E não podemos ajudar a espalhar, às vésperas das eleições, o medo de uma invasão norte-americana.
As ameaças do Trump não são fáceis de concretizar, como ele tenta fazer crer.
Não estamos no século 19 ou na Idade Média, que é a meta desses bebedores de detergente.
Já não é tão fácil invadir e dominar países, ou promover golpes militares sustentáveis.
Estamos vendo isso com a resistência iraniana.
Vimos isso com o Bolsonaro, cujo objetivo, desde que se elegeu, era um golpe militar.
E tudo o que conseguiu foi colocar contra ele o STF, o Congresso e a grande imprensa, todos desde sempre dominados pela direita, mas que se juntaram à resistência democrática.
Nem mesmo os militares se dispuseram a apoiar um golpe.
E não porque existam expressivas fatias militares “legalistas”, “nacionalistas”, ou sei lá o quê.
Eles não aderiram porque perceberam que não teriam apoio externo e acabariam presos.
Mas e agora, com o Trump como presidente, haverá esse apoio?
Isso dependerá do resultado das eleições de meio de mandato nos EUA, no próximo 3 de novembro, mas não só.
Apostei, e ainda aposto, que o Trump não terminará o mandato.
Penso que ele será afastado por um impeachment, ou até por outros meios.
Nos EUA, houve um processo semelhante ao brasileiro, e talvez até mais célere e de maiores proporções.
Muitos eleitores cativos e alguns senadores republicanos se voltaram contra Trump.
Juízes e militares começaram a resistir às suas ordens ilegais; governadores e prefeitos organizaram protestos enormes contra ele.
O próprio Trump, com as suas alucinações e histórico perverso, contribuiu para erodir o trumpismo: o escândalo Epstein o desgastou fortemente entre os eleitores e senadores republicanos.
Mas hoje o que parece estar sendo mais decisivo é o fracasso da guerra contra o Irã, o custo social da sua política econômica e as ações contra os imigrantes.
Com a guerra contra o Irã, Trump pretendia uma poderosa cortina de fumaça contra o escândalo Epstein.
Mobilizou um exército com táticas convencionais, incursionou pela guerra híbrida, sonhou até com a invasão terrestre do Irã pelo exército israelense.
Mas tudo o que conseguiu foi a humilhante demonstração, ao vivo e em cores, de que nada disso funciona contra um sistema como o iraniano.
Um sistema muito bem armado e de comando repartido em células, em um território que parece geologicamente moldado para repelir invasores e, ainda por cima, dominado por muçulmanos fanáticos, que vêem na morte heróica o portão escancarado do paraíso.
Se tivesse meditado sobre o fanatismo cristão de suas bases e a expansão nazifascista também a partir de células, teria procurado uma cortina de fumaça menos problemática.
Mas isso seria pedir demais a um sujeito com síndrome de deus.
Outro problema é a inflação.
Causada não apenas pela guerra contra o Irã, mas também pela guerra tarifária contra o mundo.
Naquele cérebro de minhoca, todos se curvariam ao seu império.
Mas o resultado dos tarifaços foi, sobretudo, o aumento dos preços dos alimentos e de outros produtos para os cidadãos norte-americanos, como teria previsto qualquer pessoa com um cérebro funcional.
Afinal, que comerciante deixaria de repassar o custo tarifário aos consumidores, ainda mais na “Meca” do capitalismo?
O terceiro problema são as violentas e indiscriminadas ações contra os imigrantes.
Já disse aqui: uma coisa é ouvir falar sobre os métodos nazifascistas.
Outra, é vê-los empregados contra o seu vizinho, seu colega de trabalho, seu “irmão” da igreja, ou uma criança.
Ainda mais quando essas imagens brutais chegam a milhões de pessoas em tempo real.
E se isso afeta até mesmo um norte-americano “raiz” (se é que isso existe), imagine o que faz na cabeça dos milhões de eleitores latinos que votaram em Trump?
Muitos deles, crentes de que só seriam afetados os “criminosos”, quando, na verdade, aos olhos do nazifascismo, todo imigrante pobre é um “criminoso”, especialmente se for latino.
Todos esses desastres devem impactar fortemente as eleições de meio de mandato.
E as apostas são de que Trump perderá o controle do Congresso, com o risco real de um impeachment.
Então, ele corre contra o tempo, na tentativa de entregar o Brasil ao Flávio Rachadinha, seu “agente” de negócios imobiliários futuros.
Ele poderá até fazer incursões, junto com países latinos controlados pela direita, entrando aqui e ali no território brasileiro, como forma de provocação.
Mas não invadirá o Brasil, para tomá-lo.
Porque isso acabaria com qualquer chance de vitória dele nas eleições de meio de mandato.
Então, será preciso muita calma, na hora de responder às possíveis provocações.
Na verdade, o que o Trump e o Rachadinha querem é aterrorizar a população e incitar um golpe militar.
Mas com um Trump enfraquecido, quantos militares se meterão a dar um golpe?
Ainda mais neste momento, quando os destinos das democracias norte-americana e brasileira estão interligados, quem apostará no apoio dos democratas dos EUA a um golpe nazifascista no Brasil, se eles conquistarem o controle do Congresso?
Apesar dos interesses econômicos dos EUA, os democratas norte-americanos estão lutando pelo próprio pescoço.
O Brasil é o maior e mais influente país da América do Sul e um dos últimos que ainda resiste a essas hordas.
Que não são simplesmente “conservadoras” e “de direita”, mas nazistas e reacionárias.
Elas não querem “conservar” coisa alguma: querem destruir tudo, principalmente as conquistas iluministas.
São uma ameaça à república, à democracia e até à sobrevivência da espécie humana.
E isso os democratas norte-americanos já devem ter percebido.
Mas e se o Trump ganhar as eleições de meio de mandato?
Bem, aí teremos realmente um assanhamento da milicada.
Mas ainda assim, haverá outros fatores a considerar.
Como a reação dos democratas e a postura dos republicanos.
Afinal, trata-se de um país dividido ao meio, com uma grande quantidade de armas em circulação e com forças armadas que não se comportam como as brasileiras, diante de um sujeito como o Trump.
Além da questão dos EUA, há os interesses da China, para quem o Brasil é essencial à multipolaridade, além das democracias europeias, também a lutar contra essas hordas.
Vale sempre repetir: o Lula não é Nicolás Maduro.
Lula é uma das mais importantes lideranças sociais-democratas do mundo.
Tanto assim, que, quando venceu as eleições de 2022, o Biden e os líderes dos principais países europeus se apressaram em reconhecer a vitória dele, para desencorajar qualquer tentativa golpista.
II
Bem mais provável, a meu ver, é uma tentativa de impeachment do Lula, daqui a uns dois anos, ou a sangria do governo dele, pelos próximos quatro anos, para impor uma derrota acachapante às esquerdas, em 2030.
Mais ou menos como ocorreu no golpe contra a Dilma, só que agora sem o fenômeno Lula, que possibilitou a recuperação do poder pelas esquerdas em pouco tempo.
Penso que as lideranças bolsonazistas sabem que dificilmente vencerão as eleições presidenciais deste ano.
E o que esperam é manter algum poder de barganha.
Porque esse engalfinhamento entre as lideranças da direita tradicional tende a se acentuar após as eleições.
E a “pacificação” só ocorrerá após a escolha de uma liderança que atraia os direitistas que se bandearam para a frente democrática, mas também mantenha os votos bolsonazistas.
Mais ou menos como aconteceu no estado de São Paulo, só que, desta feita, com menor influência dessas hordas.
Isso garantirá à direita tradicional, ou até à centro-direita, o apoio da quase totalidade da imprensa e dos tribunais superiores, que desenvolveram quase que uma ojeriza ao bolsonazismo, e também de boa parte dos empresários e partidos.
Para que isso dê certo é preciso que a direita consiga manter ampla maioria no Congresso Nacional.
Já para os bolsonazistas, o importante é eleger as suas lideranças mais barulhentas e com maior capacidade de mobilização, para que consigam negociar as suas pautas e mantenham alguma expectativa de poder.
Não creio que o objetivo da direita tradicional seja o impeachment de ministros do STF, para libertar os presos bolsonazistas.
Ela pode até imaginar o impeachment de ministros, mas para se livrar das investigações sobre o orçamento secreto e as emendas pix.
Para a direita tradicional, incluindo o Centrão, essas questões de costumes, de perseguição aos gays, às feministas, aos pretos, nunca tiveram maior importância.
Para ela, o que realmente importa é a privatização do Estado, a superexploração do trabalho, a dificuldade de acesso da população a uma Educação de qualidade, a apropriação das nossas riquezas, o desmantelamento dos sindicatos e dos movimentos que lutam pelo acesso à terra.
O que ela quer é “conservar” a desigualdade brasileira, para que os trabalhadores continuemos a sustentar uma cambada parasitária.
O que ela quer é fazer as suas negociatas em paz.
E para essa direita é muito mais fácil negociar o arquivamento de uma investigação, do que bater de frente com ministros do STF, que sempre foram seus apoiadores.
E se ela mantiver ampla maioria no Congresso, fará da vida do Lula um inferno muito maior do que nestes quatro anos, a fim de desgastá-lo.
Para que tenha condições de, eventualmente, afastá-lo, caso ele reaja à continuidade do sequestro orçamentário; ou para que ele chegue ao final de seu mandato com capacidade mínima de fazer o sucessor.
Essa parcela da direita tradicional que se aliou ao bolsonazismo nunca foi bolsonazista.
Essa aliança foi apenas para sobrevivência política, em meio à onda reacionária que se espalhou na sociedade brasileira.
Quando foi que vocês viram, antes disso, algum direitista gritando “Deus, pátria, família”?
Eles “apenas” desidratavam as políticas públicas e deixavam que a sociedade brasileira, machista, racista e homofóbica, agisse livremente.
Então, a gente precisa, sim, reeleger o Lula e fazer a maior quantidade possível de senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais.
Mas também precisamos manter o sangue frio ante o terrorismo trumpista, para que possamos desconstruir essas ameaças e tranquilizar a população.
E, sobretudo, reconstruir as bases populares.
Porque governo de esquerda sem bases populares azeitadas não chega a lado nenhum.
FUUUIIII!!!
