terça-feira, 15 de junho de 2021

Os ataques a Belém: a quem interessa a destruição da cidade? A lavagem de dinheiro por organizações criminosas, a corrupção e a sonegação fiscal têm alguma relação com as manobras para permitir a construção de mais e mais edifícios e “atacarejos”, até mesmo na orla da capital? No Pará, onde até boi avoa, eis que surge uma nova dupla sertaneja, para a desgraceira da população: Maurinho&Pirão.


 

Em setembro de 2013, após a Operação Efeito Dominó, que estourou o Parazão e prendeu 70 pessoas ligadas ao Jogo do Bicho, o Ministério Público do Pará (MP-PA) revelou uma suspeita inquietante: chefões da jogatina teriam adquirido, através de laranjas, uma grande quantidade de imóveis, em prédios de Belém.

A utilização do mercado imobiliário para a lavagem de dinheiro não é novidade.

Em 1999, a CPI do Narcotráfico, realizada pela Câmara dos Deputados, mostrou que a compra de imóveis, em vários estados, era um dos principais expedientes de organizações criminosas, para “branquear” o dinheiro sujo.

Segundo uma estimativa bem mais recente do Grupo de Ação Financeira Internacional contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (GATI/FATF), imóveis representam cerca de 30 por cento dos ativos retomados de organizações criminosas (https://www.folhadelondrina.com.br/imobiliaria-e-cia/lavagem-de-dinheiro-como-combate-la-na-atividade-imobiliaria-2999963e.html).       

O mercado imobiliário é atraente ao crime, organizado ou não, porque, além de um investimento seguro, permite “lavar” grandes somas de dinheiro em cada operação, dizem especialistas.

Não se sabe se o MP-PA seguiu essa linha investigativa, ao descobrir indícios de lavagem de dinheiro, através de imóveis, pelos barões do Jogo do Bicho.

Se não o fez, deveria.

Porque as atividades do narcotráfico e das milícias, por exemplo, cresceram assustadoramente em Belém, nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que também cresceu a especulação imobiliária.

É preciso saber até que ponto a construção dessa enorme quantidade de edifícios de luxo, em uma cidade pobre como Belém, está ou não relacionada com as atividades de grupos criminosos.

E, ainda, com a sonegação fiscal, por grandes empresas e donos de grandes fortunas.

É preciso seguir o dinheiro injetado no setor imobiliário, para que se saiba se atividades ilícitas estão ou não a impulsionar os seguidos ataques contra Belém, objetivando permitir a construção de mais e mais paredões de vidro e cimento, que transformam o cotidiano da nossa população em um verdadeiro inferno na Terra.

O mais recente desses ataques é o Projeto de Lei (PL) 01/2020, que avança sobre áreas de preservação ambiental e de recuperação paisagística da cidade.

Ele permite que grandes grupos empresariais construam monstruosos “atacarejos” e depósitos de mercadorias até mesmo nas orlas dos distritos administrativos do Guamá e da Sacramenta.

Um desastre para a população, sob vários aspectos: o trânsito, que ficará ainda mais infernal, além de mais barulho, poluição, possível sumiço do resto de vegetação dessas áreas e mais obstáculos à visão das águas.

Isso sem falar na expulsão das famílias mais pobres, sabe-se lá para onde, em decorrência da especulação imobiliária.

Mas, é claro, os “atacarejos” serão apenas os primeiros a arrombar a porteira, nesse sonho antigo dos mais ricos de “privatizar”, cada vez mais, até a visão dos nossos rios.

Depois dos “atacarejos” virão hotéis, edifícios e diferentes estabelecimentos comerciais.

Virá, também, o aumento da pressão sobre o centro histórico, para destruir o pouco que resta do magnífico patrimônio arquitetônico desta cidade.

O PL 01/2020 é tão vergonhoso que foi aprovado pela Câmara Municipal de Belém, no final do ano passado, a bem dizer, às escondidas: em apenas 10 minutos e encafuado entre 85 projetos de lei.

Não houve discussão com a sociedade, como determina a legislação. Não houve debate nem mesmo no plenário. Foi vapt-vupt, no vai de embute.

Quem apresentou o desprojeto foi o então presidente da Câmara, Mauro Freitas, do PSDB.

O mesmo que, em 2017, tentou transformar essa aberração dos sons automotivos em patrimônio cultural de Belém.

O PL 01/2020 acabou vetado pelo ex-prefeito Zenaldo Coutinho, que, aliás, é do mesmo partido de Mauro Freitas.

Os vários projetos absurdos desse vereador sempre foram criticados pelo MDB, que hoje, no entanto, cerra fileiras com ele, através do atual presidente da Câmara, Zeca Pirão, para derrubar o veto de Zenaldo.

A desculpa de Maurinho&Pirão, quase uma nova dupla sertaneja, é a “modernização” da cidade, para gerar empregos e atrair turistas.

Tudo papo-furado, um tremendo lári-lári.

Quem mais cria empregos são os micros e pequenos empresários: quase 70% dos empregos gerados em todo o Brasil, segundo o Sebrae.

Ou seja: o perfil empresarial daqueles que podem realmente garantir trabalho ao nosso povo é muito diferente daqueles empresários que a dupla Maurinho&Pirão quer beneficiar.

E mais: no balaio daqueles que criam os restantes 30% dos empregos, estão, também, as empresas de médio porte.

Quer dizer: se a gente espremer esse balaio, é provável que os grandes empresários, que adoram mamar nos cofres públicos, criem quase nada de postos de trabalho.

E quanto ao “incentivo” ao turismo?

Outra conversa mole pra boi dormir!

Até parece, né?, que a gringalhada vem a Belém para conhecer “atacarejos” e esses edifícios horrorosos.

Quem vem a Belém quer é ver o Círio de Nazaré e o nosso Ver-o-Peso.

Quer é conhecer as nossas ruas estreitas e a belíssima arquitetura de outrora.

Quer é sentir os cheiros e os sabores das nossas frutas e comidas exóticas, as nossas ervas, os nossos perfumes, e até ouvir a poesia e os falares do nosso povo.

Quer ver o rio, sim, mas não do alto de um edifício tosco.

Quer é sentar-se próximo das águas, e até navegar por elas, vendo uma dança de carimbó, comendo um peixe no tucupi, e até conversando com os nossos caboclos.

E espaços pra isso (bares, restaurantes, hotéis) já existem em profusão em Belém, incluindo a Estação das Docas.

E se os gringos quiserem conhecer a orla do Guamá, da Condor, da Marancangalha, por que é que tem de ser só em hotel e restaurante de rico?

Por que é que a nossa classe média e a população mais pobre não podem atender esses turistas?

Acaso os vereadores de Belém têm vergonha do nosso povo?

Acaso o nosso povo só serve para elegê-los e garantir os seus salários parrudos?

É possível que o problema da dupla Maurinho&Pirão seja o seu padrão brega de qualidade.

Os dois devem achar que chiques são esses edifícios modernosos, cada um mais horrendo do que o outro.

E que a gringalhada que vem aqui, em geral bem mais culta do que eles (o que, por sinal, não é nada difícil) adora é ver esse desmatamento e essa desgraceira arquitetônica de cimento e vidro, bem no coração da Amazônia.

É possível, sim, que não passem de dois sem-noção, como todos os vereadores que apoiam essa bomba de projeto, ilegal, elitista e destruidor.

Mas também é possível que os nossos excelentíssimos tenham interesses outros nessa parada.

E cabe ao Ministério Público e à polícia investigarem tudo isso com rigor.

A começar pelos grupos que mais estão ganhando com essa especulação imobiliária e que, certamente, têm todo o interesse nessas constantes tentativas de agressão à nossa cidade.

É preciso cruzar os dados dos cartórios e da Receita Federal e quebrar os sigilos bancários e fiscais de todos os envolvidos, porque é só assim que essa selvageria acabará.

Lamento, profundamente, ver o MDB de braços dados com os tucanos e até com os bolsominions, na defesa desse desprojeto.

Mas a própria postura do Zenaldo e dos vereadores do PT e do PSOL, que foram muito firmes no combate a essa agressão ao povo de Belém, deixa bem clara uma verdade, que tem de estar no coração de cada um de nós: Belém está acima, infinitamente acima, de todo e qualquer partido.

Belém guarda em seu peito as nossas melhores lembranças: os nossos avós, os nossos pais, a nossa infância e juventude.

Crescemos à sombra de suas mangueiras, embalados por seus ritmos e lendas, embriagados pelo seu cheiro de patchouli.

Quem de nós não sente um aperto no peito, quando tem de se afastar daqui?

Das nossas chuvas, casarões, revoadas de passarinhos, Círio de Nazaré.

Do nosso açaí, tacacá, maniçoba, farinha d’água.

De toda essa morenice, de toda essa caboclice, que é, afinal, o melhor em nós.

Belém está impregnada em nossa alma: ela ajudou a formar a nossa identidade, esse povo maravilhoso que somos.

E nós precisamos defendê-la, para que os nossos netos possam dizer, um dia, o mesmo que dizemos hoje: é nesta cidade que moram as minhas melhores lembranças.

Foi ela que me viu nascer e crescer.

Foi nela que brinquei de pira, de bola, de peteca; que tomei banho de chuva, que chupei aquela manga tão cheirosa, que quase caiu em cima de mim...

Foi nela que dei o meu primeiro beijo.

Foi nela que me casei e tive os filhos que tanto amo.

E é nela, se Deus quiser, que também morrerei, um dia.

À luz de suas estrelas.

Para sempre um encantado, das águas tranquilas de seus rios...

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Um momento único na História de Belém



Fazia tempo que Belém não via uma parceria tão afinada entre o seu prefeito e o governador, em favor da nossa população.

Creio que a última vez em que isso ocorreu (e o leitor me corrija se estiver errada) foi na década de 1980.

Primeiro com Almir Gabriel, que foi nomeado pelo então governador, Jader Barbalho, em julho de 1983, e permaneceu no cargo até dezembro de 1985.

Depois, com Fernando Coutinho Jorge, que comandou a cidade entre janeiro de 1986 e dezembro de 1988, como primeiro prefeito eleito após o fim da ditadura militar.

Jader governou o Pará de março de 1983 a março de 1987. Seu sucessor foi Hélio Gueiros, que administrou o estado até março de 1991.

Foi um tempo bom para a cidade, pelo menos nas áreas centrais.   

No entanto, todos eles (Jader, Hélio, Almir e Coutinho) eram do MDB e possuíam visões de mundo muito parecidas.

Já o governador Helder Barbalho, do MDB, e o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, do PSOL, são de partidos não apenas diferentes, mas até opostos, em seus ideais de sociedade e de mundo.

Além disso, enfrentam uma pandemia, que já ceifou a vida de quase meio milhão de brasileiros; uma gigantesca crise econômica, com recessão, inflação galopante e desindustrialização do país; e aquela que é a maior ameaça da nossa História à Democracia, ao meio ambiente e aos direitos sociais e trabalhistas da maioria esmagadora da população: o bolsonarismo, essa visão do inferno que mistura fascismo e entreguismo; ultraliberalismo econômico e moralismo medieval.

Mas, apesar das enormes diferenças ideológicas e de tempos tão sombrios, Helder e Edmilson têm conseguido trabalhar juntos em favor de todo o nosso povo, e não apenas dos moradores das áreas centrais.

Em vez de perderem tempo tentando empurrar um ao outro a responsabilidade por eventuais desacertos (e eles serão, necessariamente, muitos, tendo em vista as circunstâncias); em vez de tentarem atrapalhar um ao outro, por conta de seus interesses pessoais, partidários ou ideológicos, preferiram dar as mãos.

Com isso, como que nos brindam com uma aula de Democracia e de espírito público.

E isso em uma cidade marcada por episódios violentos, devido às paixões políticas: prefeito “enxotado”, jornal incendiado, banho de fezes em jornalista, e por aí vai.

É, de fato, um momento único, este que estamos vivendo em nossa amada e maltratada Belém.

Foram 16 anos de abandono, a “coroar” décadas de brigalhadas políticas, ou de indolência e incompetência, que deixaram a cidade em escombros, com o lixo e enormes alagamentos a “irmanar” a periferia e os bairros nobres.

Dezesseis anos com toda sorte de manobras para cooptar as instituições e, no fundo, impedir a participação das camadas populares no Poder.

Dezesseis longos anos a tentar impor o silêncio ao nosso povo, como se ele tivesse de se resignar a viver pior do que bicho, em ruas imundas e lamacentas, sem acesso à Saúde, Saneamento, Educação, Segurança, Emprego, Habitação, Lazer.

Curiosamente, tanto Helder quanto Edmilson já foram acusados, pelos tucanos, de autoritarismo e de perseguições políticas a adversários.

No entanto, são eles a demonstrar que é possível, sim, conviver e colaborar, democraticamente, civilizadamente, para a melhoria de vida da totalidade da população, mesmo que se esteja em um campo ideológico tão diferente.

Maturidade? Jogo de Cintura? Necessidade de unir forças contra o inimigo principal, neste momento, que é o bolsonarismo?

Um pouco de tudo isso, sim.

Mas o principal é mesmo a capacidade de respeito ao outro, às pessoas, à população: à infinidade de “cores” que é o coração de toda e qualquer cidade, estado ou país.

E é essa qualidade, infelizmente tão rara, que Helder e Edmilson possuem.

É claro que, mais adiante, eles já não seguirão juntos.

Faz parte do jogo democrático: lá na frente, cada um irá comandar os projetos de seus grupos políticos, para alcançar o poder estadual, ou nele se manter.

Mas são excelentes, para o Pará inteiro, essa capacidade de diálogo e de trabalho conjunto em favor da população, que ambos estão a deixar como exemplo e como herança.    

Pena que estejamos a enfrentar tempos tão difíceis; pena que essa “dupla dinâmica”, como já são chamados por alguns, não tenha chegado ao poder nos tempos áureos de Lula.

Imagine o que teria representado, para o Pará e para Belém, essa parceria, naqueles tempos em que o Brasil crescia e se humanizava a pleno vapor...

Mas não dá para reclamar muito de Deus, não é?

Afinal, há bem pouco tempo e talvez até por intercessão da Nazica, Ele nos livrou de um destino tenebroso: depois de 16 anos de abandono, cairmos nas mãos de um bolsominion, em plena pandemia...

FUUIIIII!!!!!