terça-feira, 6 de outubro de 2026

Precisamos falar sobre o povo brasileiro e os nossos erros de comunicação

Sei exatamente como você está se sentindo: angustiado, “decepcionado” com o povo brasileiro e com medo desse abismo, do qual a derrota no primeiro turno aproximou o Brasil.

Mas veja: o segundo turno é uma nova eleição.

Além disso, duas semanas são um tempo extraordinário, em política.

Também sei que esse resultado do primeiro turno foi surpreendente.

Mas em vez de ficarmos chorando ou xingando o eleitorado, precisamos é refletir sobre os nossos erros, para que possamos colocar a campanha presidencial nos eixos.

Vamos falar, em primeiro lugar, sobre o nosso povo.

Por que é que você acha que o “jeitinho brasileiro” e o “rouba, mas faz” são tão normalizados pela nossa população?

Por que é que você acha que a nossa população chama logo de “doutor” a qualquer pessoa que domine a linguagem oral ou escrita, ou que tenha uma postura e vestimenta que aparente um status um pouco melhor?

Você já parou para observar o incômodo de uma empregada doméstica ou de um pedreiro, quando é convidado a comer da mesma comida e na mesma mesa que você?

Você tem realmente noção do que significam R$ 100,00, em pão, farinha, arroz, feijão, ovos, para quem sustenta a família com salário mínimo, enquanto que nós gastamos muito mais do que isso em uma simples ida a um bar, em um final de semana?

Nunca é demais lembrar: este é um país escravocrata desde sempre.

E a nossa população teve de compreender como funcionam o pensamento e o comportamento dos seus “senhores”, para conseguir sobreviver.

Além de ter desenvolvido um profundo sentimento de inferioridade.

E de ter internalizado que se rebelar não vale a pena, devido à repressão sangrenta a movimentos populares, às ações violentas da polícia nas ruas e bairros periféricos e à falta de acesso à Justiça.

Nosso povo percebeu que os senhores da Casa Grande são, em geral, aves de rapina, canalhas, perversos, mentirosos, devassos, esnobes e desqualificados.

Infelizmente, parece ter também entendido que isso são “características naturais” desses senhores, quase que “privilégios”.

Daí nem se espantar quando roubam, mentem ou se envolvem em surubas: tudo isso é exatamente o que se espera deles.

Por isso, se metem a mão no erário, sugam os trabalhadores até o tutano, cheiram droga ou traem a esposa, tudo isso é “perfeitamente natural”.

Assim, quando constroem duas ou três praças e jogam uma água de asfalto nas ruas, ganham um diferencial: encheram o bolso “como todos eles fazem”, mas ao menos fizeram alguma coisa.

É uma naturalização da imoralidade que foi estendida a qualquer um que ocupe uma posição de mando.

Daí ter sido só mais um passo para que também se estendesse à bandidagem miliciana.

Afinal, se pago propina, dou um “agrado” ao policial, ao juiz, ao funcionário da repartição, por que não pagaria as “taxas” das milícias que “garantem a segurança”?

A maioria do nosso povo não tem noção do que é o Estado: para que serve, que está, ou deveria estar, em todo canto, que deveria ser probo, que deveria ter serviços minimamente qualificados, até porque é construído e administrado por todos.

E muito menos sabe o que é Democracia, que, para o nosso povo, se resume ao dia da eleição: ao fato de poder trocar o prefeito “que não está fazendo nada”.

Nosso povo é prisioneiro de uma ignorância imposta, há séculos, pelos detentores do Poder.

Ele desconhece a relação entre Estado Democrático de Direito e o preço da cesta básica, a qualidade da escola, o saneamento básico, a água na torneira, a luz elétrica na rua da sua casa, o policial que conversa, em vez de bater.

E se é assim, para que votar ou se preocupar com a Democracia, ainda que diga, em pesquisas, que prefere a Democracia?

O mesmo vale para a Soberania.

Afinal, que diferença faz a Soberania a um povo para o qual o Brasil sempre se pareceu muito mais com a madrasta da Branca de Neve, do que com uma mãe gentil?

Um povo desde sempre apartado da esperança de melhorar de vida?

Um povo que, de geração em geração, é ensinado a agradecer, com as mãos para o céu, pelos ossos que recebe dos banquetes da Casa Grande?  

A verdade é que todos falhamos, miseravelmente, na educação política do nosso povo.

Não lhe explicamos tim tim por tim tim o que é Democracia.

Não lhe explicamos que essa dominação em que vive não é natural.

Não lhe explicamos que é Cidadão e possui direitos.

Não lhe explicamos o básico: que somos nós, os trabalhadores, que criamos toda a riqueza da Sociedade.

E das poucas vezes que tentamos fazê-lo, usamos uma linguagem que impossibilitou que a comunicação se concretizasse, porque o cara lá da ponta não entendeu o que estávamos tentando dizer.

Parece que no processo de burocratização das esquerdas e, mais ainda, com o salto para as redes sociais, esquecemo-nos de toda a nossa experiência de panfletagem e de reuniões comunitárias e sindicais.

Passamos a usar, cada vez mais, uma linguagem acadêmica, em um país onde apenas 11% possuem uma graduação, e mais de 60% concluíram, no máximo, o antigo primeiro grau.

Não bastasse isso, perdemos um tempo danado falando em escândalo do Banco Master, quando, para o nosso povo, isso é apenas “mais uma coisa de rico” ou de “celebridades”.

Nem mesmo as surubas ou a preferência por “novinhas” no Banco Master importam para o nosso povo, a não ser como “fofoca”, do mesmo tipo que se vê em Casos de Família, ou até menos “empolgantes”.

A preferência por “novinhas” é “natural” aos ricaços e patriarcas em geral.

É como que um “direito” deles, entendem?

Especialmente, se a esposa silencia ou até “perdoa”.

Ficamos tão fixados na falsa moral de 30% de bolsonazistas, que nos esquecemos do que realmente importa para 70% da nossa população: a sobrevivência.

Esquecemos de ancorar a campanha no cotidiano da população, comparando os preços do feijão, do arroz, da carne e tudo o mais, antes e durante Bolsonaro, e agora com o Lula.

Esquecemos de mostrar o quanto o Bolsonaro subiu os juros, impactando o cartão do crédito e o orçamento familiar, e o quanto o Lula tem lutado para amenizar isso.

O quanto Bolsonaro dificultou a compra da casa própria e o quanto Lula fez para melhorar isso.

A diferença que fazem o SUS e a Farmácia Popular, que o PT criou, e o que o Bolsonaro fez para sabotar isso.

A diferença que fazem os direitos trabalhistas, para que você tenha umas férias, nem que seja para arranjar um bico; a diferença que faz o seguro desemprego ou a licença remunerada de saúde, quando você perde o emprego ou fica doente.

A diferença de ter uma aposentadoria, quando você estiver velho e cansado.

A diferença de ter o décimo terceiro, nem que seja para comprar uma carne melhor, no final do ano, e pagar as dívidas.

As melhorias nos transportes, com BRTs e ciclovias.

A redução dos preços da gasolina e do óleo diesel.

O aumento quantitativo e a melhoria da qualidade das escolas e postos de saúde.

As ações para reduzir a violência nas cidades e contra as mulheres e as nossas crianças.

O BPC ajudando a que velhinhos e portadores de deficiência não morram de fome.

A luta pelo fim da escala 6X1, nem que seja para arrumar a casa ou arranjar um bico.

O impacto do aumento do salário mínimo e das aposentadorias, na vida das pequenas empresas e dos “empreendedores”.

O link: mais dinheiro no bolso dos trabalhadores é mais dinheiro no seu bolso também.

É essa melhoria do cotidiano que precisamos resgatar, em contraposição ao sufoco, medo e instabilidade em que as pessoas viviam, na época do Bolsonaro.

Quanto aos formatos, penso que temos de privilegiar vídeos e até podcasts, com o povo falando para o povo e com chamadas atraentes: “idosa chora ao lembrar da tragédia”, para falar sobre uma velhinha que passava fome, por exemplo.

E se preferirmos textos, que sejam pequenos, em linguagem simples, com frases curtas, diretas e sem intercalações.

Porque só nós mesmos, maníacos por leitura, é que ainda lemos textos longos.

As redes sociais estão destruindo a nossa atenção, o nosso foco, a nossa capacidade de memorização.

E só o que ainda consegue prender as pessoas e fixar informação são vídeos e podcasts.

Então, temos que dar uma virada nessa campanha, que está toda errada. Por “N” fatores, mas o fato é que está toda errada.   

Tente imaginar a dificuldade das famílias de quatro pessoas que sobrevivem com até uns 4 salários mínimos, o que deve ser a maioria esmagadora da população.

Tente imaginar o que é que realmente faz diferença na realidade delas, se não bebem detergente.

É esse que precisa ser o nosso ponto de partida, para tudo o que criarmos e compartilharmos, nas redes sociais - e sindicatos, associações de bairro, rádios comunitárias e tudo que é veículo de comunicação.

São esses os temas que as nossas “formiguinhas” precisam levar, nas conversas de pé de ouvido, em tudo que é canto.

Porque são as pessoas “normais”, não capturadas pelo bolsonazismo, que precisamos atrair em peso para as urnas, para votar no Lula, mostrando o que ele já fez, o quanto o Brasil já melhorou, o quanto ele pretende melhorar muito mais o cotidiano delas, e o perigo que o Bolsonazismo representa para tudo isso 

Se der, podemos também falar de Soberania e de Democracia, mas sempre de forma bem simples e linkada ao cotidiano.

Do contrário, isso não terá efeito nenhum, porque esses temas permanecerão quase que como miragens, já que a maioria da nossa população nunca viveu uma Democracia de verdade e não tem nem ideia do peso da Soberania na sua sobrevivência.

Os únicos temas que vi tratados de forma boa na campanha foram a questão das Bets, com depoimentos mostrando a destruição das famílias, e o caso de Nossa Senhora Aparecida.

Quanto ao resto, precisa melhorar urgentemente e muito.

FUUUUIIIII!!!!!


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