sábado, 19 de julho de 2008

Despedida

Pensando, pensando...




Lá vou eu sumir de novo, caro leitor, a passar mais um tempo distante daqui.




Novamente, seremos interrompidos.




E, infelizmente, só disponho de quatro minutos para me expressar.




Pois, que como viajarei de madrugada, preciso, infelizmente, dormir.




Para caminhar, entre as nuvens, no espaço e na vida...




Tão distante de mim, como está cada um de si mesmo...




Ah, a hora da partida!...




Aquela em que arredamos os móveis da porta...




Os móveis com que obstruímos as portas.




Naquele doce tempo em que ainda havia móveis e portas!...



Como se só quiséssemos da vida essa doce ilusão de perenidade!...




Quem levará as estantes?




Os livros, as prateleiras, os bibelôs?...




Quem levará as lembranças – sim, que essas, em qualquer partilha, são o mais importante!...




A quem ficará o vazio, a sensação de insignificância?...



E quem herdará os risos, as mãos-sempre- dadas, o sorvete que se dividiu?...




O abraço, o beijo, a esperança furtiva, desse tão furtivo coração?!!!...




Como repartiremos o que foi comum?




O dito, o não-dito, o mais que dito... O projetado... O que se queria e o que não queria... E, por vezes, a ilusão que a gente teve de engolir...




Quem redescobrirá o amanhã?




E a quem restará a sensação de uma nau à deriva, aquela que apenas busca agarrar-se a qualquer porto?...




Quem se irá como se nunca tivesse chegado?...




E quem ficará como se estivesse ali – à espera... tão somente, à espera...



Como repartiremos os filhos que não tivemos? E os nossos castelos de areia?...




E as ondas e o mar e as estrelas, que nos fizeram partícipes do infinito!... – um do outro... Sim, um do outro!...




Talvez, que digamos, afinal: levarás o castelo; e eu, a estrelas de que foi concebido!...




Para que em ambas as mãos reste, tão somente, o nada...




O nada...




O nada que sempre fomos e seremos nós!...




Um do outro...




Sim, um do outro!...







FUUUIIIIIII!!!!







Lama Nas Ruas


Deixa
Desagüar a tempestade
Inundar a cidade
Porque arde um sol dentro de nós

Queixas,
Sabes bem que não temos
E seremos serenos
Sentiremos prazer no tom da nossa voz

Veja
O olhar de quem ama
Não reflete um drama, não
É a expressão mais sincera, sim

Vim pra provar que o amor, quando é puro
Desperta e alerta o mortal
Aí é que o bem vence o mal
Deixa a chuva cair, que o bom tempo há de vir

Quando o amor decidir mudar o visual
Trazendo a paz no sol
Que importa se o tempo lá fora vai mal
Que importa?

Se há
Tanta lama nas ruas
E o céu
É deserto e sem brilho de luar

Se o clarão da luz
Do teu olhar vem me guiar
Conduz meus passos
Por onde quer que eu vá


Veja
O olhar de quem ama
Não reflete um drama, não
É a expressão mais sincera, sim

Vim pra provar que o amor, quando é puro
Desperta e alerta o mortal
Aí é que o bem vence o mal
Deixa a chuva cair, que o bom tempo há de vir

Quando o amor decidir mudar o visual
Trazendo a paz no sol
Que importa se o tempo lá fora vai mal
Que importa?

Se há
Tanta lama nas ruas
E o céu
É deserto e sem brilho de luar

Se o clarão da luz
Do teu olhar vem me guiar
Conduz meus passos
Por onde quer que eu vá (se há)

Se há
Tanta lama nas ruas
E o céu
É deserto e sem brilho de luar

Se o clarão da luz
Do teu olhar vem me guiar
Conduz meus passos
Por onde quer que eu vá.

(Almir Guineto/Zeca Pagodinho)




E depois de muito buscar, encontrei um hino - meu, mermo!...


Vai Vadiar




Eu quis te dar
Um grande amor
Mas você não
Se acostumou
À vida de um lar
O que você quer é vadiar...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


(Eu quis te dar!)
Eu quis te dar
Um grande amor
Mas você não
Se acostumou
À vida de um lar
O que você quer é vadiar...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


Agora!
Não precisa se preocupar
Se passares da hora
Eu não vou mais te buscar
Não vou mais pedir
Nem tão pouco implorar
Você tem a mania
De ir prá orgia
Só quer vadiar
Você vai prá folia
Se entrar numa fria
Não vem me culpar
Vai Vadiar!...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


Quem gosta da orgia
Da noite pro dia
Não pode mudar
Vive outra fantasia
Não vai se acostumar
Eu errei quando tentei
Lhe dar um lar
Você gosta do sereno
E meu mundo é pequeno
Prá lhe segurar
Vai procurar alegria
Fazer moradia na luz do luar
Vai Vadiar!...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


(Eu quis te dar!)
Eu quis te dar
Um grande amor
Mas você não
Se acostumou
À vida de um lar
O que você quer é vadiar...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


Agora!
Não precisa se preocupar
Se passares da hora
Eu não vou mais te buscar
Não vou mais pedir
Nem tão pouco implorar
Você tem a mania
De ir prá orgia
Só quer vadiar
Você vai prá folia
Se entrar numa fria
Não vem me culpar
Vai Vadiar!...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


Quem gosta da orgia
Da noite pro dia
Não pode mudar
Vive outra fantasia
Não vai se acostumar
Eu errei quando tentei
Lhe dar um lar
Você gosta do sereno
E meu mundo é pequeno
Prá lhe segurar
Vai procurar alegria
Fazer moradia na luz do luar
Vai Vadiar!...


Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!


(Zeca Pagodinho)

terça-feira, 15 de julho de 2008

capitu

Capitu



Capitu não é enigmática: é uma heroína, um herói nacional.



Não é que seja dissimulada: é, simplesmente, a nossa tradução, aquela que não queremos permitir, nem nos permitir, traduzir.


Não é que Machado tenha criado um mistério, uma esfinge.


Machado, simplesmente, com a sua extraordinária ironia, recriou, como também faria, bem depois, Mário de Andrade, a maneira de ser de todos nós.


A sociedade brasileira é capituniana – capitulina? Macunaímica, digamos, assim...


Não, não na capacidade de devorar culturas e arrotá-las num único significado, que a isso demasiado simplificou o grande Mário de Andrade.


Mas, na capacidade de esconder, de dissimular, com “olhos de ressaca”, os próprios males...


De lançar-se sempre à cata de algum bode expiatório, para eximir-se de olhar-se. Como fazem Bentinho e Capitu, quando miram o retrato de Escobar...


Capitu jamais iria numa reta a algum lugar, diz Bentinho, num insight.


Arrumaria bote à frente de bote, ponte à frente de ponte, tudo perfeitamente conectado, para chegar a...


Que extraordinário Machado de Assis!


Não é que um homem apaixonado e demasiado ciumento ou a mulher amada, que talvez nem queira ser amada assim, possessoriamente, sejam, afinal, os protagonistas desse grande romance.


Não é que o “causo” tenha de ser visto com desconfiança, devido ao interesse de convencer – e de convencer-se – do narrador.


Nem é que sejamos, todos, assim, aritméticos ou desaritméticos, diante do amor, que invade o peito.


Pense isso quem quiser, quem quiser projetar-se naquele triângulo inconfessável, pois, que inconfessáveis são todos os triângulos...


Capitu é um ensinamento. É a escola, lá longe, distante e interminável, que faz crescer, de fato, Bentinho.


Capitu é a leveza do brasileiro, que vocifera, enquanto urde, trama; enquanto se recompõe.


Enquanto esconde, entre as palavras, o silêncio que revela.


Capitu não trai, nem deixa de trair; é, simplesmente, Capitu.


Quer um filho? Toma-o!... Haverá de ter, por quaisquer que sejam os meios...


Capitus somos todos nós, todo santo dia.


E Casmurro é a impossibilidade de compreensão de Capitu...



E eu vou dormir porque já enchi demais o saco de vocês, assim como vocês já encheram demais o meu saco, também.


E eu juro que não fumei!...


Mas, deixo uma risada básica pros doutores em Letras da UFPa e da APL...ah, ah, ah, ah...




FUUUIIIIIII!!!!

jeitinho

E já que falei do “jeitinho brasileiro”...




Jeitinho Brasileiro



(Olha o jeitinho brasileiro aí, gente!)


Pra gostar
Bom é o jeitinho brasileiro
Assim entre o sofrido e o catimbeiro,
Feito Ary numa Aquarela
- Mentira há de ser sinceramente,
Topada também toca pra frente -
Gostar, mas de qual delas?

Viver!...
Viver com a pulga atrás da orelha
- Quanto mais coçar, sorrir.
Sambar, ô, ô
Sambar com um prego no sapato pra peteca não cair.
Viver; reviver.
Ver na saudade uma vizinha - Ioiô no quintal! -
Folga pro meu lado, mas canto a marchinha
De um antigo carnaval.


(Vizinhas!...)

Vizinhas, Ioiô morena, irmã da loura Iaiá...
O meu irmão noivou da Iaiá, feliz.
Mas viu na morena, calor de pão, sumo de limão,
Frescor de buritis
E água de riacho rente aos pés,
Um zonzo de zumbido das abelhas, mel dos méis...
Se Iaiá saía, Ioiô vizinha se despia, à flor do quintal!
Meu irmão penava, mas cantarolava
Pra manter sua moral:

Lourinha, lourinha, dos olhos claros de cristal,
Quanto tempo, ao invés da moreninha, serás a rainha
Do meu carnaval.
Lourinha, morena, rainhas do meu carnaval,
Qualquer dia, Iaiá e Ioiô vizinhas vão reinar
Juntinhas lá no meu quintal.

Braguinha, Braguinha,
Braguinha, não me leve a mal
Eu não esqueço a loura e a moreninha,
Pago a tua parte em Direito Autoral.

(João Bosco/Aldir Blanc)

sábado, 12 de julho de 2008

Dantas






Uma voz isolada



I



Não queria me meter nessa polêmica.


Mas, cá com os meus botões, ando a pensar que o presidente do STF, Gilmar Mendes, tem, de fato, razão.


Lembro que, no episódio daquela criança arrastada por um carro em movimento, eu salientava justamente isto: a dificuldade de se ir contra a turba, de contrariar o circo romano, com a sua insaciável sede de sangue...


E eu, que compreendo muitíssimo bem o significado disso, tenho até medo de entrar em debates assim...


Por sorte ou azar, não conheço nem Gilmar Mendes, nem Daniel Dantas.


Sou, como vocês, uma fumadíssima cidadã, cansada de ver os meus suadíssimos impostos escoarem pelos ralos da corrupção.


Esse dinheirinho de imposto, para muitos tão forreca, mas que dá para pagar o aluguel da minha casa, a garantir, ao menos, um teto para a minha filha.


Quer dizer: compreendo muitíssimo bem a revolta de todos.


Até porque, exatamente como vocês, também conheço a situação dos milhões de brasileiros que nem acesso têm à Cidadania. Que morrem de fome e de doenças medievais. Esses milhões de brasileiros que sobrevivem que nem bicho.


É certo, também, que não possuo os altíssimos conhecimentos jurídicos que muitas das pessoas indignadas desse debate, parecem possuir.


Tenho comigo, apenas, esse bom senso básico de cada dia, que é uma dádiva que Deus nos deu.


Sou, apenas, por outras palavras, uma cidadã orgulhosa dessa extraordinária condição de cidadã.



II



Ao que já li, Daniel Dantas é mermo um cidadão complicado...


Um intelecto brilhante, uma inteligência rara, mas, que nenhum de nós gostaria de ter como vizinho...


Porque é um cidadão que só pensa em si mesmo. Que não está nem aí para esta sociedade que o fez cidadão.


Mesmo nadando em dinheiro, se “sentir vontade”, rouba; se “achar bacana”, mata. É espécie de genocida, que incensa o dinheiro e o poder, como tantos que existem por aí.


O problema, queridinhos, é que suamos tanto para construir esse ente chamado “Cidadão”, essa coisa chamada de Democracia, essa coisa chamada “sociedade de direitos”, que me parece, como direi, complexo, rifar tudo isso por causa desse “sociopata aparente”, desse tal de Daniel Dantas.


Lembro que estava em Canaã dos Carajás, num hotel, meio que isolada do mundo, quando estourou aquele caso da menina Isabella Nardoni.


E lembro que apesar de indignada, como todos vocês, com aquela violência, fiquei a pensar: mas, que diabos? Vão decretar a prisão preventiva desses dois para que o processo corra mais rápido? Foi isso mermo o que ouvi, no noticiário da Globo, com o repórter achando tudo isso bacana?


Quer dizer, dois cidadãos serão mantidos presos por causa do emperramento do Judiciário, por causa da incompetência do Estado, foi isso mermo o que ouvi?


Passou-se. Mergulhei no trabalho. O caso arrefeceu.


Mas, até hoje, aquilo ficou martelando na minha cabeça: vamos prender o cidadão, para que o Estado funcione, cumpra o dever para o qual, aliás, é regiamente pago.


A que ponto chegamos neste país, né mermo?, maninhos, nós, os formadores de opinião...


Andamos tão revoltados com a corrupção e com a injustiça que achamos muito natural pegar dois cidadãos e jogá-los no fundo de uma prisão infecta, simplesmente, porque “achamos” que são culpados...


E se, afinal, contra tudo o que vem sendo divulgado, constatar-se que são inocentes?


Quem pagará o que sofreram? – se é que existe alguma coisa, neste ou no outro mundo, que possa pagar...




III



No caso em tela, o do cidadão Daniel Dantas, parece-me que acontece coisa semelhante: vamos mantê-lo preso para que deponha; para pressioná-lo a dizer o que achamos (e esperamos) que venha a dizer...


E mermo que depoimentos, “confissões”, em circunstâncias extenuantes, não tenham esse valor que o nosso ideário judaico-cristão gosta de imaginar...


Ou, pior ainda, vamos mantê-lo preso para que experimente, ao menos que por uma noite, o inferno, embora que melhorado, das prisões brasileiras.


Vamos nos vingar dessa empáfia, desse nariz empinado que parece imaginar-se acima da Lei!...


Afinal, temos milhares, milhões de pretos, pobres e desprotegidos a superlotar as nossas prisões!... Então, que esse Barão, que esse rico, experimente isso, também!...


Mas que raciocínio tortuoso esse!...


Em primeiro lugar, quem foi que disse que a Lei nasceu para ser um mero instrumento de vingança social ou pessoal?


Uma coisa que pudéssemos usar para “restituir” a dor, a mágoa, a raiva realmente sentida, ou até uns meros recalques cotidianos?


Se é apenas para isso que se presta a Lei no moderno Estado de direitos, então, porque não voltarmos à lei de talião?


Aliás, sairia até mais barato queimarmos, enforcarmos, cortarmos as mãos, arrancarmos um olho em praça pública, ali mesmo, na efervescência da multidão, ao invés de mantermos toda essa arquitetura de direitos...


Mas, e se depois descobríssemos que enforcamos, queimamos, apedrejamos, cortamos a mão, arrancamos um olho ao inocente?


Que seria, desgraçadamente, de nós?




IV


Reportagem investigativa é uma coisa complicada e perigosa.


A gente vai ao limite da Democracia e da Justiça.


E é por isso que já ando até querendo deixar disso e ir fazer umas matérias bacanas, do cheiro-cheiroso do Ver-o-Peso.


Nós, os repórteres investigativos, como que conduzimos o sujeito, o cidadão à arena...


Embora que, muitas vezes, até fiquemos insistindo em chamar de indícios o que são, em verdade, provas...


Ou, como me disse, certa vez, um indignado técnico do TCU: “Vocês ficam desqualificando o trabalho da gente, chamando isso de indícios... Mas, isso são provas!... Provas!”


Obviamente, compreendi a indignação dele. Mas, continuei a bater apenas o suficiente, para acionar a Justiça.


Não é bacana aleijar. Bacana é levantar a ponta do véu e permitir o direito de defesa, até o veredicto final...


Mas, isso nem é chamado a essa história...




V




Para mim, o que ocorre no caso desses cidadãos ricos, que são super-expostos com braceletes prateados, é uma inversão de raciocínio.


Ora, pensamos, se tantos milhões de brasileiros pobres passam por isso, por que é que eles não deveriam passar?


Mas, na verdade, o correto seria pensarmos o seguinte: nenhum cidadão inocente pode passar por isso.


Quer dizer, não é simplesmente arrastando os muitos ricos pela lama em que chafurda, há 500 anos, a sociedade brasileira, que vamos, afinal, resolver os nossos problemas existenciais.


Mas, sim, ao garantir que nenhum cidadão, por mais pobre que seja, possa ser exposto a um espetáculo tão deprimente.


E a impressão que me fica, nesse negócio dos “ricos algemados”, é a de duas coisas.


Primeiro a de simplesmente purgarmos, através disso, a nossa inércia diante do desrespeito a que são submetidos, todo santo dia, milhares de cidadãos - e nós mesmos - por sua simples condição social.


Trata-se de coisa meio que psicanalítica: por um momento, nós, os classe média, nós, os intelectuais, nós, os formadores de opinião, nos sentimos como que quites com o mundo, por tudo o que, “sabujisticamente”, suportamos. Afinal, o rico algemado é o chefe imediato, o vizinho, o dono do apartamento, o patrão...


É como se aqueles “belos braceletes”, nem que fosse por um momento, nos redimissem da inércia em relação às nossas próprias vidas e às vidas de tantos milhões...


Em suma, diria alguém: trata-se de mera euforia catártica...


Em segundo lugar, essa “euforia braceletária” ajuda a esconder outra culpa bem mais profunda em nós.


Por que é que existem, no Brasil, tantos daniéis Dantas?


Por que é que eles estão ali, ricos, belos e indomáveis, em sua sanha de poder?


Quantas vezes, em nosso cotidiano, não incensamos isso, essa coisa do “jeitinho brasileiro”, essa coisa da “lei do mais forte”, essa coisa da “esperteza”?


Quantas vezes não ajudamos, por nossas crenças, a formar novos e novos daniéis Dantas?


Quantas vezes deixamos de devolver o troco que nos foi dado a mais, pelo rapaz ou pela moça, que imaginamos, por isso, burro?


Ao invés de chegarmos e dizermos aquele cidadão, que, por alguma razão, talvez estivesse meio que “despassarado”: “você me deu dinheiro a mais!”.


Quantas vezes já não pisamos no pescoço da própria mãe, apenas para subir socialmente, “porque não sou burro de não aproveitar essa chance”?


Quantas vezes esse raciocínio já não esteve presente em cada brasileiro?


Quantas vezes já não parimos um Daniel Dantas?




VI



Mas, este post não pretende se apoiar em qualquer falácia, em um apelo básico à piedade, digamos assim.


Quer ser uma coisa lógica.


E coisa lógica é que o cidadão Daniel Dantas, apesar de tudo o que eu penso dele, do que eu imagino dele – que rouba, quando sente vontade; que mata, quando quer; que estuprou a menininha que morava ali embaixo – em verdade, não oferece um perigo objetivo à sociedade.


Até prova em contrário, nunca matou nem estuprou ninguém.


Também, que eu saiba, nem dirige bêbado, nem sai por aí dando porrada nos outros.


E o meu conceito dele, de genocida, tenho de admitir, é meramente subjetivo; uma crença derivada das minhas convicções acerca do uso do dinheiro público.


Mais que isso: assim como os Nardoni, Daniel Dantas não pode ser mantido preso apenas para que o Estado, a Justiça, funcione a contento.


Se a polícia não colheu provas suficientes e as provas destrutíveis que ficaram são tantas que podem até interferir no resultado do julgamento, a culpa é da polícia, não do cidadão Daniel Dantas.


Se ele não fala, apesar de todos os grampos; se, apesar de todas as investigações, não se consegue estabelecer a ligação objetiva dele a um grupo criminoso, a culpa é da polícia, não do cidadão Daniel Dantas.


Se ele oferece dinheiro, propina, suborno a um delegado ou investigador e o agente público aceita, a culpa é da polícia, do Estado, não, apenas, do cidadão Daniel Dantas.


É corruptor? É sim. E tem de pagar por isso, se – e se – tal for provado.


Mas, isso não exime nem mesmo a simples “tentação” dos cidadãos, dos agentes públicos, pagos – e muito bem pagos, para a maioria dos brasileiros.


Se eles se sentem tentados, apesar do que ganham, apesar dos sistemas de controle da sociedade e do Estado que deveriam existir, a culpa continua sendo deles e da sociedade – e não do cidadão Daniel Dantas.


Daniel Dantas não é “O” grande Satã da sociedade brasileira.


Mesmo que fosse, teria de ser respeitado em direitos básicos, como são até mesmo os traficantes, que obrigam o Estado a gastar milhões para os regenerar.


E eu, pragmaticamente, os fritaria na cadeira elétrica, assim como fritaria a todos os Dantas da vida, caso não dessem nem sinal de regeneração.


Porque, assim como não defendo, também não estou para sustentar, indefinidamente, bandido.


Pragmaticamente, faria isso, assim como estou a falar a vocês dos direitos que todos eles têm e que precisamos respeitar.


Não defendo bandido. Mas, defendo, sim, o direito de defesa.


E o direito de os cidadãos, por piores que nos pareçam, não serem simplesmente penalizados pela incompetência do Estado.



FUUUUIIIIII!!!!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Registro



Eu, enfim, jornalista profissional!!!




I



Depois de 28 anos de jornalismo, que completei no último abril, obtive, finalmente, o meu registro profissional.




O processo tramitou rapidamente, cerca de 20 dias, ajudado pela profusão de matérias e de documentos que apresentei.




Afinal, quando iniciei na profissão, boa parte dos jornalistas diplomados ainda iniciava a escola primária...




Recomendo, vivamente, aos demais jornalistas sem diploma que dêem entrada em seus processos de registro, junto à Delegacia Regional do Trabalho (DRT).




O próximo passo é requerer, da Fenaj e do sindicato, o direito à associação e à emissão da carteira de jornalista.




Se tal for negado, cabe mandado de segurança, uma vez que existe liminar, do Supremo Tribunal Federal (STF), garantindo o registro e sustando a exigência do diploma, até o julgamento do mérito da questão.




Torço para que, nesse julgamento, que deve acontecer ainda neste ano, o STF acabe, de vez, com a exigência do diploma, para o exercício da profissão – e creio que as chances, nesse sentido, são excelentes.



II




É certo que os jornalistas diplomados vêm fazendo enorme pressão sobre o Supremo, convencendo câmaras municipais, assembléias legislativas e entidades de classe a se manifestarem favoravelmente ao diploma.




Mas, estranhamente, para quem trabalha com a informação, os companheiros “se esquecem” de informar às câmaras, assembléias e entidades de classe que essa exigência de diploma específico – e até de registro, salvo engano – para o exercício da profissão de jornalista, só existe, mesmo, é no Brasil, entre todas as nações civilizadas, democráticas, do mundo.




Em todos os países democráticos das Américas e da Europa é livre o exercício do jornalismo. E as bases desse direito são as liberdades de informação e de expressão, que precisam ser amplas, gerais e irrestritas.




Não há lógica democrática na exigência da assinatura de um profissional diplomado e registrado, para a publicação de um periódico de um sindicato ou centro comunitário, que busca, apenas, o exercício sagrado dos direitos de informação e de opinião.




Não há lógica democrática nisso, nem mesmo em se tratando dos grandes veículos de comunicação, das assessorias de imprensa e, menos ainda, de sites e blogs – esses últimos, espaços personalíssimos de comunicação.




Porque tal exigência é um obstáculo intolerável a direitos constitucionalmente garantidos.




Mas, se o STF não derrubar a obrigatoriedade do diploma específico e do registro profissional, é exatamente isso que acontecerá: até mesmo blogs informativos poderão ser submetidos, no futuro, à exigência da assinatura de um profissional diplomado e registrado.




Quer dizer: o direito à divulgação sistemática de informações e de opiniões ficará absurdamente restrito às entidades que possam pagar pela assinatura desses profissionais.



III



Não por acaso tal exigência nasceu da Lei de Imprensa, da ditadura militar. O registro profissional foi uma das fórmulas encontradas, pela ditadura, para controlar e amordaçar os jornalistas – e, através deles, o conjunto da sociedade.




Pois que a restrição da possibilidade de divulgar fatos e opiniões, tornava essa meia dúzia de cidadãos "registrados" mais indefesos, diante do aparelho estatal.




E esse é outro “detalhe” que muitos diplomados “esquecem” de mencionar às instituições e entidades de classe, às quais solicitam apoio, nessa tentativa inconsciente (na verdade, só se está a olhar os interesses corporativos), de fazer retroceder a democracia brasileira a uma espécie de “Era da Mordaça”.




IV



Essa é uma discussão que interessa à totalidade dos brasileiros – e não, apenas, aos excelentíssimos senhores jornalistas.




E é uma pena que um debate tão importante tenha se perdido em discussões menores e falaciosas, acerca da aprendizagem escolar da ética, como condição sine qua non ao exercício ético da profissão.




Perdeu-se, assim, o foco – ou melhor, desviou-se o foco do principal: a possibilidade de alarmante restrição de direitos pétreos (informação, expressão) frente à Constituição e, mais que isso, às exigências democráticas.




Tal debate que, salvo engano, não foi levado sequer entre os próprios jornalistas, ficou restrito aos tribunais, quando, na verdade, deveria ter sido objeto de ampla mobilização societária.



V



Do ponto de vista estritamente profissional, não creio que o fim da exigência de diploma específico de jornalista seja o “Mal” o “Grande Satã” dessa história.




Para mim, males, na realidade, são os cursos de comunicação de péssima qualidade - que existem, em profusão, em todo o Brasil - que lançam, a cada ano, no mercado de trabalho, essa mão de obra abundante e desqualificada.




Porque é essa massa, em verdade, que permite o achatamento salarial da profissão, na medida em que se sujeita a encarar jornadas extenuantes de trabalho, por qualquer R$ 700,00 ou R$ 800,00, e até sem exigir condições mínimas de trabalho ou o direito legal ao pagamento de horas-extras.




É essa massa despreparada até do ponto de vista político, vez que não possui sequer noção da importância histórica, social do jornalismo, e da necessidade de se organizar para reivindicar direitos elementares, um respeito mínimo dos patrões da imprensa, que contribui, inclusive, por sua omissão, para a censura existente nas redações, entre outras práticas condenáveis, como o assédio moral e sexual. E que contribui, também, para os altos índices de desemprego - que é o verdadeiro motivo dessa tentativa desesperada de fechamento do mercado de trabalho.




Enquanto isso, os cursos específicos de comunicação, que são os grandes vilões dessa história, junto com a totalidade do sistema educacional brasileiro que, decadente, não consegue sequer ensinar a ler – e a prova disso é a massa de analfabetos funcionais, em todos os níveis escolares – ficam como que “protegidos” do olhar crítico da sociedade.



VI



Não creio que o fim da exigência do diploma leve, necessariamente, a uma ampla abertura do mercado.




Até pelo próprio patamar de complexidade que atingiu a comunicação, não acredito que uma empresa prefira entregar a elaboração de um periódico a um cidadão sem o mínimo preparo técnico, ao invés de recorrer aos serviços de um profissional.




E o que combato, repito, é a exigência da assinatura de um profissional com diploma específico, ou até com registro compulsório, como condição necessária à circulação de um periódico, por exemplo.




Aliás, como já disse aqui, também sou contrária aos cursos específicos de jornalismo, no nível de graduação.




Para mim, o lugar do jornalismo é como extensão, especialização dos cursos de graduação em ciências humanas, que proporcionam melhor instrumental teórico para a compreensão da realidade. Isso, certamente, ajudaria a elevar a qualidade profissional.




Aliás, faço essa defesa apesar de contrária aos meus interesses, já que não possuo qualquer graduação – apenas, um elementar “Doutorado em Abandono”, vez que fui jubilada em Comunicação Social, Administração e Filosofia...



VII



No entanto, queridinhos, decidi fazer o curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, independentemente da decisão do STF.




Porque, aos 48 anos de idade, 28 deles de profissão, concluí, finalmente, que nasci para o jornalismo...




E a verdade é que só ainda não fiz o curso por absoluta falta de recursos: há dois anos, passei no vestibular da Ipiranga, mas, não tive dinheiro para me matricular.




Agora, porém, se o sindicato der uma força, talvez que consiga um desconto, para fazer o curso, em obtendo, novamente, aprovação no processo seletivo.




Humildemente, reconheço que necessito de uma reciclagem básica de meus conhecimentos de jornalismo, com a aquisição de novas técnicas de editoração e até de elaboração textual.




Mais que isso, porém, creio que temos, todos nós, os “não-diplomáticos”, os “oitenta e um precários”, a oportunidade de participar, nas salas de aula, da formação desses novos jornalistas, ajudando-os nessa reflexão tão necessária acerca do nosso papel social.




Não quero levar para o túmulo a experiência que acumulei, ao longo de todos esses anos: quero, antes, dividi-la amplamente com esses jovens, que, um dia, ocuparão o lugar que hoje ocupo, quem sabe, até, enveredando pelo jornalismo investigativo.




Melhor que suportar um foca desqualificado numa redação, maninhos, é ajudar a preparar, ainda no decorrer do curso, um grande profissional.




FUUUUIIIIIII!!!!!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Minha alma

Minha Alma

A minha alma
Tá armada e apontada
Para a cara do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo


Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz:
"Qual a paz
Que eu não quero conservar
Prá tentar ser feliz?"...


A minha alma
Tá armada e apontada
Para a cara do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo


Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz:
"Qual a paz
Que eu não quero conservar
Prá tentar ser feliz?"...


As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa
Prisão...


Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar
Na poltrona num dia
De domingo ...


Procurando novas drogas
De aluguel
Nesse vídeo coagido
É pela paz
Que eu não quero seguir
Admitido...


Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz:
"Qual a paz
Que eu não quero conservar
Prá tentar ser feliz?"...


As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa
Prisão...


Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar
Na poltrona num dia
De domingo ...


Procurando novas drogas
De aluguel
Nesse vídeo coagido
É pela paz
Que eu não quero seguir
Admitido...


É pela paz
Que eu não quero seguir
É pela paz
Que eu não quero seguir
É pela paz
Que eu não quero seguir
Admitido...


(Marcelo Yuka)

Profundamente

Profundamente


Por que tanto medo de sentir?
Sentir profundamente...
Como se, de repente,
Tudo ao redor se dissolvesse
E ficasse de nós, simplesmente,
Um sentimento em estado bruto.


Sem pele, sem sangue, sem músculos!


E a alma a mergulhar nos abismos
Imponderáveis da existência!...


Por que essa ânsia daquilo que é certo?
Essa busca do “equilíbrio dos imortais?”...
A vida que começa e termina
Na reta que é comum...


Como quem reescreve, infinitamente,
Um belo discurso.
Apenas para deixar à posteridade
Um belo discurso!...


Como quem bate o ponto, manhãzinha.
E volta a bater na hora da partida.
Com o mesmo rigor profissional...


E a alma apresada
Amordaçada,
No relato impessoal de um capataz.


A alma apresada,
Amordaçada,
Sem poder, como é dado às almas,
Voar!...E voar...!


E quando alguém nos diz:
_Olha só que horizonte!
Olha só que azul a chamar!...


_Olha as flores, os passarinhos,
E o mar e as estrelas e o sol e o luar!...


Ficamos com a mesma sensação do passante
Diante de um profeta enlouquecido.


E a vida se vai, incompreensível e repentina.
Na ata da reunião, no livro de ponto.
No relato impessoal do capataz.


Mas, os vermes e o túmulo, certamente,
Dirão ao futuro:
_Esse daí?... Esse, sim, foi, de fato, um justo!...



Belém, 08 de julho de 2008.




Pesadelo

Quando um muro separa, uma ponte une.
Se a vingança encara, o remorso pune.
Você vem me agarra, alguém vem me solta.
Você vai, na marra, ela um dia volta...
E se a força é tua, ela um dia é nossa!
Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando...
Que medo você tem de nós!...
Olha aí!...


Você corta um verso, eu escrevo outro.
Você me prende vivo, eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo,
Perturbando a paz, exigindo o troco!...
Vamos por aí, eu e meu cachorro,
Olha o verso, olha o outro,
Olha o velho, olha o moço chegando...
Que medo você tem de nós!...
Olha aí!...


O muro caiu, olha a ponte,
Da liberdade guardiã.
O braço do Cristo, horizonte,
Abraça o dia de amanhã!
Olha aí!...


(Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro)

domingo, 6 de julho de 2008

Sublime!

Finalmente!...



Vou Festejar



Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar
Mas chorar!


Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar...


É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...


Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...
Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...


Mas chora!
Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar...


Mas chora!
Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar...


É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...


Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...
Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...


Laraiá Laraiá!
Lá Laiá Laiá!
(Fala, Cacique de Ramos!)
Laiá Laiá!
Laiá Laiá!
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...


(Vamo no pé, gente!)
Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...
Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...


( Neoci / Dida / Jorge Aragão)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Apesar da juíza!

Apesar De Você



Amanhã vai ser outro día
Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia


Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?


Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.


Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.


Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.


Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
De “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.


Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.


Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.


E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa.
Apesar de você


Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.


Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você


Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….


(Chico Buarque)

Jeso

Aviso aos navegantes



Este blog, como todos os blogs – e essa é a definição de blog – não é nada além de um diário, um espaço de reminiscências e opiniões pessoais.


Mas, nestes tempos bicudos de censura aos blogs - como se a Constituição, em cláusulas pétreas, admitisse tal tipo de censura, ao invés de resguardar a liberdade de expressão - creio que se faz necessário esse tipo de esclarecimento.


Data vênia, creio que os caríssimos magistrados que cometem tais sentenças, cometem um crime contra a Constituição que juraram defender.


Blog não é jornal, não é rádio, não é televisão. Não é veículo de comunicação de massa. É, por definição, um cafofo, um espaço personalíssimo. Algo muito distante do “Domingão do Faustão”...


Em blog, vem quem quer. E diz o que quer – embora a gente, por uma questão de ética, evite publicar comentários ofensivos a outrem, sem que as pessoas se identifiquem.


Até porque quem quiser ofender alguém tem, sim, de ter a coragem, primeiramente, de se identificar.


E de permitir, então, que o ofendido possa se defender, como deve de ser – e aqui já nem se trata de democracia, mas, da boa e velha educação... E, por que não dizer?, até de caráter...


Mas, o que eu acho mais esquisito em tais sentenças é que nem no TSE e no Supremo o tratamento a ser dispensado aos blogs, pela Justiça Eleitoral, é ponto pacífico.


Talvez, até, por uma questão territorial.


Ora, se o meu blog estivesse hospedado no exterior, como eu poderia ser submetido às leis de outro país? (E isso é, sim, uma sugestão, querido e amordaçado Jeso...)


O que é que eu faria em relação a isso? Iria, digamos assim, adotar a “solução” chinesa?


Mais importante, porém, é que, como se trata de um espaço pessoal, de expressão e opiniões pessoais, como posso censurá-lo sem ofender a liberdade constitucional de expressão?


Quer dizer: se amanhã eu resolver sair pela minha rua ou pelo meu bairro, divulgando os “causos” de um candidato e dizendo que votem em outro, vão me amordaçar, e multar e prender e arrebentar? E olhem que a minha casa é como o meu blog: todo mundo sabe onde é que fica, né mermo?


Mas, que diabo de democracia é essa, em que inexiste o básico, a liberdade de opinião e de expressão?


Aliás, isso parece mesmo coisa de ditadura: para que me serve pensar, se não posso dizer? É como naquela música do Chico Buarqe: eu vivo atormentado pela possibilidade de surgimento do monstro da lagoa...


Mas, vamos um pouco mais fundo nessa discussão.


Digamos que eu seja dirigente de uma associação de bairro.


Se, por acaso, eu resolver distribuir uma circular recomendando aos meus associados e à comunidade abrangida pela minha associação, que não votem num ladrão, que não fez nada pela gente, mas, que votem em alguém comprometido com a melhoria da nossa condição de vida, eu terei cometido um crime eleitoral?


Mas, novamente, além da liberdade de opinião e de expressão, temos aqui outro problema igualmente importante: para que servem as associações, as entidades da sociedade civil?


Se elas não servem nem para, num momento tão importante quanto o das eleições, dizerem, à comunidade que representam: “aquilo é um bandido, ratazana de dinheiro público, de dinheiro de imposto, de hospital, de posto de saúde, de escola, de rua, de estrada”, então, para que servem, afinal?


Quer dizer, a sociedade civil virou mera fantasmagoria, um mero ente figurativo, é? E quem foi que “escrevinhou”, afinal, essa tal de Constituição?


E se eu, cidadã, quites com os meus impostos e as minhas obrigações eleitorais, perfeitamente identidade, “qualificada”, como se diz, resolver escrever e mandar imprimir um jornal, um panfleto, pedindo votos para um candidato e detonando outro, estarei cometendo crime eleitoral?


Mas, então, onde fica a minha liberdade de ser, pensar e expressar?
A minha cidadania, constitucionalmente garantida, haverá de ser tragada, consumida por uma legislação menor?


Quer dizer, então, que a minha participação se reduz ao ato de votar?

Quer dizer que me basta saber apertar duas teclas coloridas para ser cidadão, é?


Que é ser cidadão, senhores magistrados? Que é Cidadania? Que é essa res, chamada Democracia?


Resumindo e concluindo, viramos um país de mudos. Ou, melhor dizendo, de amordaçados. E sem nem mesmo aquela linguagem bacana das mãos, que essa, também, pode virar, de repente, crime eleitoral...


Por que, simplesmente, não se deixa à Justiça Comum a decisão acerca disso?


Quer dizer, se, num blog, num panfleto, circular ou jornal de associação, eu, cidadã, chamo alguém de ladrão, de bandido, de ratazana, de chefe de quadrilha, por que me negar a oportunidade de provar aquilo que estou dizendo? E a oportunidade, é claro, do ofendido de me fazer engolir tais afirmações?


Vejam bem: não estamos a falar dos veículos de comunicação de massa, que sobrevivem da propaganda, às vezes até camuflada de “matérias pagas” – e que nem têm a dignidade de informar que são pagas.


Mas, de espaços pessoais – blogs, panfletos, circulares, jornais de bairro – que são espaços conquistados pela sociedade democrática, a partir da acessibilidade das tecnologias de comunicação.


E que nos levam até a pensar, filosoficamente, naquela bela expressão socrática: não sou grego, nem ateniense, mas, cidadão do mundo!


A se persistir no caminho de alguns magistrados, que, por tais sentenças, sequer fazem jus ao cargo que ocupam, daqui a pouco se estarão censurando até cartas e telegramas.


Aliás, por que não começar censurando a propaganda da Justiça Eleitoral?


Afinal, ela conclama à participação.


Quer dizer, é essencialmente subversiva.


Então, aos costumes!...



FUUUUIIIIII!!!!!!



(Pra terminar, uma musiquinha bacana por Jeso)


Acorda Amor


Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão



Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão



Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer



Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão


(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)



(Do Leonel Paiva e do grande “Julinho da Adelaide”)

Pai d'égua

Eu sou Belém, eu sou pai d’égua!!!



Pai d’egua é ter saúde e educação. Pai d’égua é ter emprego, casa boa, comida, dinheiro no bolso, pra gente gastar.


Pai d’égua é ter criança na escola - e não por aí, cheirando cola...


Pai d’égua é a gente cuidar da nossa cidade, como cuida dum filho da gente.


A gente pega o filhinho no colo, trata, alimenta, cheira, beija... A gente envolve nos braços, com todo o amor do mundo!


Pensando bem, a gente “mermo” é que é muito pai d’égua!...


Quando se compromete com o destino da nossa gente. Com o futuro da nossa cidade.


Nós - nós todos! - somos é muito pai d’éguas!... Nós, os belenenses...


Nós, que saímos do ventre desta Belém danada de pai d’égua!...


A Belém dessas mangueiras majestosas, que nos viram nascer e crescer.


Chorar o primeiro choro, sorrir o primeiro sorriso, para a mãezinha que nos acalentou...


Falar, andar, brincar de peteca.


Empinar uma curica, sujar os dedinhos de tinta.


Segurar aquela coisa esquisita chamada de lápis.


E apagar com aquele objeto mágico que é a borracha...


A Belém da chuva certa, que sempre cai na merma horinha.


E a gente tudo de sombrinha!!!...


Pois, que a sombrinha é nossa, como a caba, a bacaba, e tantas outras palavras que herdamos ou cunhamos, sabe-se lá de onde.


A Belém desse cheiro inebriante de tucupi!...


A Belém da pupunha quentinha, com manteiga e café...


Bairrista? Bairrista é o pai e o tio e o avô!...


Eu sou é belenense, belenense da gema, belenense com um orgulho danado de ser belenense!


Belenense daquelas que querem tudo no mundo, menos deixar de ser belenense!


Já vi muita cor, já senti muito cheiro. Já vi até palácios, daqueles em que dormiram os reis, assabe, sumanu?


Mas, confesso, nunca vi, em nenhum lugar do mundo, as cores, os sabores e os perfumes que a gente tem aqui.


Mas, para mim, ainda mais pai d’égua é o nosso povo.


Essa mistura encantada do negro, do branco e do índio.


Essa mestiçagem que corre nas minhas veias e nas veias de cada um de vocês.


E que nos torna uma invenção especialíssima das mãos do Criador...


Esse nosso povo, danado de honesto e trabalhador. Que acorda cedinho o Ver-o-Peso, os barcos, as velas, as águas que se perdem de vista do rio Guamá...


Esse povo tão sofrido e lutador. Que não se cansa de semear, com o braço forte, a esperança de uma vida melhor!...


Um povo que também já nasceu, assim, meio que sentido com o mundo...
Afinal, por que é que Deus só deu pra gente a enormidade desta Belém?!!!...


Avaliem o que é que é um sujeito que não sabe o que é o cheiro da graviola madura, que a gente tem de “adisputá” à tapa com as formigas?!!!...


E os passarinhos que deixam a gente tudo doidinho, manhãzinha, com um canto e uma cor que não é nem de filme, nem de foto, nem de música alguma deste mundo...


Mas, uma experiência, uma vivência que fica ali, guardinha, bem no fundo do fundo do coração!...


Pai d’égua é tudo isso, esse universo que Deus nos deu, a nós, os belenenses.


Como se tivesse passado horas a recortar um infinito à altura da alma do nosso povo...


E é por isso que eu nunca vou cansar de repetir: eu sou Belém! Eu sou é muito pai d’égua!!!...


Porque trago nos olhos este céu estrelado da minha Belém!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Voltei!



(Essa sessão de três posts, inclusive a crônica-teatral, digamos assim, é dedicada a alguns dos mulherões mais porretas que já conheci ao longo da minha vida: Deury, Sílvia, minha mãe espiritual, Eneida; Helpinha, Beth, Izabel, Janice, Fatinha, Rose, Suleima, Valéria, Mainha... Vamos lá, caruaaannnaaassss!)



Bom dia, Belém!


Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida


Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração
Tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar...


Porém! Ai, porém!
Há um caso diferente
Que marcou num breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de Carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém
Que não me lembro anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou...


Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar

Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar!

(Paulinho da Viola)

Eleições

Boa sorte, queridinhos!




Para mim há bem poucos momentos tão pai d’éguas quanto este: o período eleitoral.


Creio que todos os agentes políticos nos sentimos assim, contentes à beça, que nem pinto no lixo...


É o momento em que a simples preparação do jogo ficou para trás. É quando, de fato, entestamos os times, para ver que bicho vai dar.


E é muito bacana essa “tchurma” que participa desses campeonatos.


Conheço boa parte, boa parte me conhece. Em alguns momentos, até já jogamos juntos, na mesma equipe. E creio que aprendemos o principal: a nos respeitarmos.


Porque, no fundo, todos queremos a mesma coisa: queremos fazer valer idéias que consideramos as melhores para a sociedade.


Mas, não queremos fazer valer isso de qualquer jeito: queremos fazer valer isso democraticamente. Pela publicidade, pelo conhecimento, pelo convencimento.


Sou apaixonada, encantada, pela democracia – e sei que vocês também são.


Se não fôssemos, iríamos simplesmente cuidar das nossas vidas; fazer coisas bem menos complexas – abrir uma quitanda, uma sorveteria, uma panificadora - em vez de entrarmos nessas guerras extenuantes, que trazem tanta ansiedade e que até branqueiam nossos cabelos...


Talvez que muita gente possa até imaginar que aquilo que nos atrai é a grana que rola, farta, nesse meio.


Mas, eu penso que não. Afinal, há muitos outros meios em que a grana também rola fartamente. E, no entanto, tais meios não exercem sobre nós qualquer atração.


Temos, queridinhos – e essa é que é a verdade - aquela essência de “urubu do Ver-o-Peso”: a gente gosta, mermo, é dessa sacanagem...


E eu fico pensando na importância que todos temos para a sociedade: vocês já pensaram o que seria da democracia e do jogo político se, simplesmente, perdêssemos o interesse em jogar?


Haveria um vácuo imenso em relação a essa geração que ainda está se preparando para ocupar os lugares que hoje ocupamos.


Um vácuo complicadíssimo para a democracia que vamos, arduamente, construindo, neste que já é - ou que vai se tornando - o mais longo período democrático da sociedade brasileira.


Do arraial em que me encontro, olho os arraiais que vão se formando, aqui e ali.


E me sinto irmanada a todos vocês, nos mesmos sonhos. Na mesma ansiedade. Na mesma esperança. Na mesma determinação. No mesmo desejo de vencer.


E é por isso que eu quero desejar aqui, como já fiz outras vezes, boa sorte a todos os jogadores – companheiros ou adversários – na abertura de mais um período eleitoral.


Que Deus nos dê força, garra, coragem, discernimento, o bom senso nosso de cada dia!...


Que saibamos respeitar aquela que é a nossa própria razão de ser: a Democracia.


E até – por que não? – que Deus nos ajude a driblarmos bacana esses grandes juízes que têm sido o Ministério Público e a Justiça Eleitoral.


Afinal, esse é um dos sonhos de todos nós...


É claro que a Justiça Eleitoral e o MP têm um papel importantíssimo nesse jogo: sem eles, certamente, seria a barbárie.


É bom que eles estejam aí para nos lembrar, a todo instante, que há regras, sim, a respeitar.


Mas, o jogador que disser que nunca sonhou em dar uma bela quicada que passasse em branco ao juiz tem de voltar, merecidamente, ao banco de reserva. Para aprender a não usar, tão abundantemente, o perobal...


Por isso, queridinhos, boa sorte, força, garra – um belíssimo jogo, aquela coisa de craques - a todos vocês!


E, mais uma vez, que vença o melhor, a melhor proposta, para a nossa cidade, o nosso estado, o nosso País!


FUUUUUIIIIIII!!!!!




Sonho Impossível



Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão



(J. Darion/ M. Leigh. Versão: Chico Buarque/Ruy Guerra)