segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Divagando, divagando...


O jogo



A beleza do jogo democrático consiste, justamente, na impossibilidade de impedir aliados e adversários de jogar. O que nos obriga a jogar melhor, e cada vez melhor, do que todos eles.

Isso implica, necessariamente, predisposição a alianças e agilidade para desfazê-las e refazê-las tantas vezes quanto necessário.

Requer atenção, para evitar que algum dos jogadores se cacife em demasia. E para aproveitar as oportunidades, decorrentes de fracionamentos nos terrenos alheios.

É preciso, principalmente, saber até onde se pode ir: não se endividar além do cacife de que se dispõe ou de que se possa vir a dispor. Estar atento, não apenas aos novos aliados, mas, também, aos antigos.

É preciso ter em mente, em suma, que os que vieram a este grande cassino, vieram para jogar. Não são anjos, nem demônios, mas jogadores. Todos com pleno domínio do discurso e das manhas da política. Alguns, por vezes, até mais do que nós...

Todos, portanto, entraram no cassino dispostos a conquistar o máximo. E compete à banca, sutilmente, estabelecer até onde podem ir. Não se pode esperar, simplesmente, que parem. Ou acreditar, ingenuamente, que se contentarão ao atingir um determinado volume de fichas. Todos, se puderem, levarão o cassino pra casa.

Cassino algum pode sobreviver na condição de casa da mãe Joana. Mas, também, não sobrevive com apenas um cliente – ou é feito, apenas, para o dono. É preciso, então, ampliar cada vez mais a clientela, para garantir a sobrevivência. Mas, sem que isso implique perder o controle sobre quem é quem e o que faz ali dentro.

Um bom começo é saber que não se está no terreno do sagrado, mas do profano. Apesar dos propósitos do jogo se afigurarem, por vezes, redencionistas.

E compreender que jogadores são pessoas. Com múltiplas facetas e aspirações – tão diversas quanto os seres humanos. É preciso, portanto, conhecer as motivações de cada qual, bem como as capacidades e fragilidades que apresentam. Isso inclui não apenas os aliados e os adversários. Mas, sobretudo, nós mesmos.



Se Ana Júlia tiver isso em mente, já será o suficiente para que possa ensaiar um belo sapateado de catita. E ela vai precisar disso, para o jogo que tem pela frente.

A segmentação petista, por si só, já é capaz de provocar grandes dores de cabeça. O que dizer, então, das alianças que estão postas e das que terão de ser conquistadas, para possibilitar a governabilidade?

Infelizmente, o PT, assim como o PSDB, ainda não conseguiu encontrar um meio-termo entre o pragmatismo e o messianismo – duas pragas que complicam, sobremaneira, a costura de eventuais alianças.

Mas, enquanto o PSDB, apesar do inchaço fisiológico, conseguiu construir uma certa unidade pública, o PT segue a se estapear publicamente. E, na maioria das vezes, acaba se tornando seu maior e mais feroz adversário.

Poder-se-ia argumentar que é assim, porque é um partido democrático. Mas, isso é lári-lári. Porque, quando é preciso, também sabe engolir, caladinho, decisões de cima pra baixo.

Em verdade, a questão central é encontrar os limites éticos e democráticos para a conquista e manutenção do poder. A harmonia entre a nobreza dos fins e os meios – jamais tão nobres assim – que terão de ser utilizados.

É uma lição de casa que o PT ainda não conseguiu fazer. E na qual o partido-irmão, o PSDB, pelo menos no Pará, acabou, vergonhosamente, reprovado.

Torço para que o PT tenha aprendido com os erros nacionais e com os erros do partido-irmão, aqui no Pará.

E para que, um dia, PT e PSDB compreendam o mal que causam à sociedade, com essa disputa feroz e narcisista, que nos impede de avançar em discussões tão importantes, para a cristalização da ética e da democracia na política brasileira.



Não tenho procuração para defender Ana Júlia – nem tenho por que fazê-lo. Afinal, ela é maior, vacinada e possui muito mais poder do que eu, que sou um zero à esquerda no jogo político.

No entanto, fico indignada com algumas colocações que são feitas por aí, acerca do futuro governo dela. Não apenas porque votei nela. Mas, principalmente, porque o ranço machista dessas colocações é ofensivo a todas as mulheres.

Antes de Ana ser eleita, a argumentação dessas pessoas era a de que é despreparada. E eu até já escrevi, neste blog, sobre isso.

Não acho que Ana seja um Einstein de saias – nem perto disso. Mas, burra, ela não é. É sagaz, tem jogo de cintura, o que requer inteligência.

È verdade que poderia ter estudado, lido mais, ao menos para ter mais segurança daquilo que diz. Mas, isso a coloca, apenas, na média dos políticos brasileiros - não abaixo disso. E não é nada assim tão complicado que uma boa assessoria não possa resolver.

Lembro que quando escrevi sobre essas acusações, apontei o machismo nelas contido.

É que de nós, mulheres, se exige, sempre, que sejamos ultra, super e coisa e tal. Como se o triunfo, para nós, fosse, sempre, decorrente de exceções.

Nunca vi alguém chamar de despreparado um triunfante homem médio. Mesmo os francamente imbecis, sórdidos, ordinários, venais, execráveis, canalhas se transformam, magicamente, em excêntricos – não em, ofensivamente, despreparados.

Ou seja: se não formos uma exceção, plástica ou cognitiva, temos mais é de nos recolher à insignificância da “condição feminina”... É o caso de se perguntar: de que árvore caíram esses animais?



Bom, esse negócio de despreparo era antes de Ana ser eleita. Agora, o que se fala é de uma extensão desse despreparo. Diz-se que será refém de Jader, rainha da Inglaterra e etc e tal.

E eu reviro a memória, mas não recordo de uma única vez em que alguém tenha afirmado que o Dudurudu é refém da bancada majoritária, na Câmara, ou de Jatene. Aliás, não me recordo de qualquer prefeito paraense a quem se tenha impingido tal pecha. Muito menos, de um governador de Estado.

Não quero ser maçante, mas tudo isso é grego. Remonta há 2.500 anos, quando a “areté” (mal traduzida por virtude; melhor compreendida por excelência) das mulheres era a beleza e competência doméstica; ao passo que a “areté” masculina era, nos tempos homéricos, aquele conjunto de qualidades que voltaremos a encontrar na idade média: coragem, força, nobreza.

Não vou discorrer, aqui, sobre as mudanças no conceito de “areté”, ao longo da evolução da sociedade grega. Basta que compreendamos que nada disso é novo. O pensamento que está na raiz é, antes, profundamente arcaico. Os papéis sociais, do macho e da fêmea, ali definidos, estão, ainda, profundamente enraizados na sociedade Ocidental.

Logo, quando se faz de Ana Júlia refém de Jader, faz-se dela a “donzela aprisionada na torre”. A Penélope bordadeira à espera de Ulisses. Psicanaliticamente, pensar-se-ia, em seguida, na “espada salvadora”. Ou seja, a fala dessas pessoas é de um primitivismo brutal. Não sei se, de caso pensado, para manipular arquétipos. Ou se, simplesmente, porque ainda se encontram aprisionadas, mentalmente, nos primórdios da civilização.

Enfim, nada de tão espantoso num estado tão machista quanto o Pará.

Num post anterior, aliás, eu já mencionava a nossa falta de “heroínas” – diferentemente do que vemos, historicamente, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, por exemplo.

Nada que não possa ser perfeitamente explicável pela condição de “uso”, que as mulheres, aqui, sempre tiveram. Herança portuguesa? Sei lá. O que causa espanto é ver tal pensamento reproduzido por intelectuais.

Mas isso, talvez, também possa ser compreendido pela falta de leitura de muitos a quem chamamos, aqui, intelectuais. Que, mais das vezes, nunca conseguiram acabar nem livro didático. E do primeiro grau.

Cansei de divagar. Vou tomar uma. FUUUUUIIIIII!!!!!

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Pensando, pensando...

Uma meditação blogosférica!



Acho que preciso resolver a minha relação tempestuosa com este blog. Como todas as minhas relações, aliás.

O blog me atrai e me afasta. Era um amor, um encantamento. Quedou-se em obrigação. Quase um suplício. E eu olho pra ele, ele pra mim... E eu penso: mas, por que, diabos, tenho de bater ponto aqui?

Que compromisso é esse que com os leitores, se pouco sei acerca deles?

Um ou outro, certamente, conheço. Mas, à maioria, nunca disse um “olá”. E, talvez, nunca venha a dizer.

É diferente do jornal. Lá, é o meu ganha-pão. Há uma obrigação profissional a cumprir. Mais não fosse, para garantir o leite das crianças.

No entanto, insisto em vir aqui. Nem que seja para produzir porcarias, como o post abaixo. Com uma edição de última, um poeminha de penúltima e uma seleção musical que parece coisa de bêbada – e o pior é que foi...

É engraçado como criamos laços, mesmo virtualmente.

É engraçado como entabulamos um papo, assim, tão francamente, que até as mesas de bar – e o indefectível barman, o profeta de todos os bêbados – morreriam de inveja.

Será pela ausência do “olho no olho” ? Acho que não. Afinal, já passei pela experiência de conhecer, pessoalmente, a quem só conhecia deste universo virtual. Foi agradabilíssimo – só espero que mutuamente...

E mesmo com as pessoas que já conhecia, parece que o depois se tornou infinitamente melhor que o antes. E nem precisei fumar um cigarro. Ou engatar o clássico: “foi bom pra você?”.

Sei lá. Talvez, aqui, exercitemos, mais que nunca, o lúdico. Rimos, falamos mal do mundo. E parece que quase podemos tocar uns aos outros; ouvir as nossas risadas. É como se encontrássemos, enfim, a nossa “tchurma”.

E é por isso que preciso resolver essa relação tempestuosa.

Nunca fui de “tchurmas”. E até morro de medo delas. Sempre gostei de me sentir “babanianamente” independente, se é que vocês me entendem, ó “xentes”!

Sabe, é aquela coisa de achar que você faz e acontece sozinho. Que pode ser mais. Como se fosse o infinito e, não, apenas, parte dele. Com partes e partes entrelaçadas. Por vezes, infinitamente mais belas, necessárias e brilhantes que você.

Será que um blog, afinal, não passa de um grande divã de psicanálise? E quem seriam os analistas? Essa plêiade de leitores tão amalucados quanto nós? (Adesculpem, leitores! Mas é que estou tentando abrir o coração, vocês me entendem?).

Coisa estranha, essa, a sociedade em que vivemos. Não, não é que estejamos ou sejamos sozinhos. É, antes, como se tivéssemos criado todo um novo mundo, para sermos outros.

Não, não se trata de mais uma máscara social ou de um universo paralelo. Afinal, continuamos sendo, concretamente, todos os dias, para toda a anterioridade.

Até que ponto essa experiência nos modifica, isso é papo para trezentas grades – e com o “profeta” de plantão a mediar tais debates.

O que não há dúvida é que esse “Éden” que criamos é profundamente belo; inescapavelmente belo. É nosso. É “nós”. Em duplo sentido...

Somos as comadres do terceiro milênio. Patrulhamos e torcemos os narizes a todos os comportamentos diferentes. Mas, ao mesmo tempo, abrimos um senhor espaço para que a atingida (o) possa rodar a baiana. E até nos levar a concordar – e a chorar – com ela (ele).

Seremos, quem sabe, uma grande ágora. Mas, com uma vantagem indiscutível: aqui, com certeza, não condenaríamos Sócrates a beber cicuta. No máximo, ele esbravejaria de blog em blog. E seria deletado do orkut...

Mas, quem sabe, não iríamos, todo santo dia, ao blog socrático, nem que fosse para a nossa sessão diária de camisa de força? Ou para, numa higiene mental, francamente narcisística, pensarmos: “esse daí pensa que sabe. Eu, pelo menos, sei que não sei. Já tenho uma vantagenzinha em relação a ele, pois”.

E é por isso, repito, que preciso resolver a relação tempestuosa com este blog.

Porque ele me fez gostar e querer sempre mais. Mais, talvez, até de mim.

Já o transformei uma vez. E, talvez, o transforme duas, três, mil vezes.

Vou pensar nisso. Pensemos, não é mesmo?

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Uma noite lisboeta, com certeza!

Ai, Mouraria!

Ai, Mouraria!
Da velha rua da Palma,
Onde eu, um dia,
Deixei presa a minha alma,
Por ter passado
Mesmo ao meu lado
Certo fadista
De cor morena,
Boca pequena
E olhar trocista.

Ai, Mouraria!
Do homem do meu encanto
Que me mentia,
Mas que eu adorava tanto.
Amor que o vento,
Como um lamento,
Levou consigo,
Mas que ainda agora
A toda a hora
Trago comigo.

Ai, Mouraria!
Dos rouxinóis nos beirais,
Dos vestidos cor-de-rosa,
Dos pregões tradicionais.
Ai, Mouraria!
Das procissões a passar,
Da Severa, voz saudosa,
Da guitarra a soluçar.

(Amadeu do Vale, Javier Tamames e Frederico Valério)


Novo fado da Severa

Ó rua do capelão,
Juncada de rosmaninho!
Se o meu amor vier cedinho,
Eu beijo as pedras do chão,
Que ele pisar no caminho.

Tenho o destino marcado,
Desde a hora em que te vi!

Ó meu cigano adorado,
Viver abraçada ao fado,
Morrer abraçada a ti!

(Desconhecido)


Uma Casa Portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa.
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
Que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho á alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol de primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho.
E a cortina da janela é o luar,
Mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
Uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tigela.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho á alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol de primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

(Reinaldo Ferreira)


O Pastor

Ai que ninguém volta
Ao que já deixou
Ninguém larga a grande roda
Ninguém sabe onde é que andou

Ai que ninguém lembra
Nem o que sonhou
Aquele menino canta
A cantiga do pastor

Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
O meu sonho acaba tarde
Deixa a alma de vigia
Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
O meu sonho acaba tarde
Acordar é que eu não queria.

(Madredeus)

Alcoforado

Mariana I

Do alto do convento, da manhã à tardinha,
Os olhos de Mariana eram o céu e o mar.
Da manhã à tardinha, eram ondas a rezar.

E dos muros partiam asas
Entre oceanos, quimeras.

O mundo e um deus reposto,
Das dores cerradas no peito,
Quem dera ao Amor comovessem,
E sangrassem - às pedras, às gentes!...

Mas eram os muros, as grades, as correntes.
O indizível em céu e mar.

E Mariana contentou-se, enfim,
Com o que o Deus lhe dera,
Com que o mundo lhe dera
Com a vida, sempre abençoada.

E seus olhos se fecharam, ao encontro de Deus.

Mas, dizem, inda hoje,
dos muros partem asas.
Da manhã à tardinha,
Entre as ondas,
A rezar, a rezar...

(Belém, 14/11/2006)

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Festa IV

Festa no meu Apê IV




_Comadre, comadre! Você já viu os jornais de hoje?
_E como é eu posso, cumadizinha, com essa festança no meu apê?
_Pois, então, se aprepare...Se assente, que é pra não cair!
_Ué, o que foi que aconteceu já?
_Comadre, a Plebe Rude tomou o poder!
_Que? Me deixe ver esses jornais! Égua!!!... Derrubaram El Rey!!!... “Carruagem vira em Varennes” !!!...“Sovietes assumem o Brejo”!...Sovietes?!!!
_Eles não se esquecem, comadre, eles não se esquecem...
_Caramba!... “Onda vermelha varre a província!”...
_E o príncipe Clean macambúúúzio!...
_Ué? Colocaram a “Beijoca Proletária” no lugar de El Rey?!!! E tem esse modelo já?
_Ô comadre, é a Beijoca repaginada! Arreleve!
_Égua!!!... Nomearam o lorde Sudão pra “Grilo Falante”!... E tem esse cargo?...
_Ô comadre, apare de se atormentá, mais é! O seu problema é “apreguntááá” demais... Se você continuá assim, vão chamá a festa no seu apê de Baile da Ilha Fiscal! Se aquieeete no seu canto!...
_Mas é que eu não tô entendendo nada!!!...
_Mas num é pra intendêêê, comadre! É pra acompanhááá a procissão...
_Mas o lorde Sudão e esses neos, news sovietes não eram inimigos?
_Ô comadre! O seu problema é que você não entende nada de política. Pere aí que vô chamá um especialista! Ô seu Barão, ô seu Barão! Se achegue aqui!

(A iluminação muda. O DJ ataca “New York, New York”. O Barão, de fraque, cartola, bengala e cercado pelas quatro “indaietes”, canta e dança: “Start spreading the news/I'm leaving today/I want to be a part of it/New York, New York/These vagabond shoes/Are longing to stray/Right through the very heart of it/New York, New York/I wanna wake up in a city/That doesn't sleep/And find I'm king of the hill/
Top of the heap/These little town blues/Are melting a way/I'll make a brand-new start of it/In old New York/
If I can make it there/I'll make it anywhere/It's up to you/New York, New York/New York, New York/
I want to wake up/In a city that never sleeps/And find I'm a number one, top of the list/King of the hill, a number one/These little town blues/Are melting a way/
I'm gonna make a brand-new start of it/In old New York/And... if I can make it there/I'm gonna make it anywhere/It's up to you/New York, New York”).
(aplausos)

_É “mermo” um artista...
_E da melhor qualidade, cumadizinha! E da melhor qualidade!
_Do Brejo para o mundo!
_Do Brejo para o mundo!
_Boa Noite, minhas senhoras! Há quanto tempo, não é?
_Mas, como? Faz dois atos que o senhor saiu Hare Krishna e volta, assim, mistura de Fred Astaire com Frank Sinatra...
_São os ventos, minha senhora! Precisamos acompanhar os ventos da mudança!
_Mas ele continua bilezinho!...
_Huuuummm!...Você ainda não viu nada! Espere ele falá do “Gladiadô”...
_Agora mesmo eu comentava, com alguns parceiros, sobre aquela cena nova e extraordinária, daquele filme novo e extraordinário...
_Vixe Maria! Vai começá!...
_Não sei se a senhora assistiu, dona Perereca. Mas é um filme fantástico, sobre a cadeia produtiva da coragem...
_Que diabo é isso já?
_E eu é que sei, comadre! Se você não acompanhá o discurso do ômi, quem é que aconsegue?
_Os gladiadores estão no centro da arena. E soltam os leões...
_Eu diria que até tarde!...
_Pois não é, comadre?...
_E veja só que coisa fantástica, dona Perereca: o líder nem estremece!...
_Não tenho palavras!...
_Nem eu, comadre! Nem eu!...
_E é, então, dona Perereca, que ele – o líder! – diz uma coisa que eu considero fantástica: não podemos nos dispersar! Precisamos estar juntos! Porque, juntos, somos fortes! Somos, verdadeiramente, invencíveis!...
_Comadre, eu vou pegá uma caixinha de Kleenex!...
_Pegue uma pra mim, também, cumadizinha!...E não se esqueça do meu Prozac!...
_A senhora entende a profundidade do que eu estou dizendo?
_Com certeza, Barão!... Estou até me desfazendo em lágrimas!...
_Não chore, minha senhora! Eu sei que eu sou, realmente, algo novo...
_...E extraordinário! Machado de Assis que o diga!...
_Essa cena eu considero, realmente, de uma significância irretocável. O confronto final entre o ser e o parecer!... Não sei se estou indo rápido demais para a senhora...Não sei se a senhora está conseguindo acompanhar a profundidade do meu raciocínio?...
_Com certeza, Barão!...Sou freudiana desde pequenininha...
_Veja: eu sei que há parceiros morrendo de medo, por causa da queda de El Rey. Sabe, é aquela analogia dos gladiadores e dos leões, a senhora compreende?
_Com certeza, Barão! Nem Esopo faria melhor...
_E eu, agora, tenho de encarar o que o destino me reservou!
_É: o destino e seus nomes!...
_Com a queda de El Rey, eu serei obrigado, fatalmente, a arregimentar o nosso exército!...
_E eu avalio o quanto o senhor está sofrendo, não é “mermo”?...
_A senhora é testemunha, dona Perereca, do quanto eu abomino o poder!
_(...)
_Nunca quis nada disso: corte, rapapés...Dinheiro!?...
_(...)
_Mas, eu não sei...Parece sina...Essas coisas me perseguem! A senhora entende, não é, dona Perereca?
_(...)
_No fundo, às vezes, eu acho que só a senhora me compreende!...
_(...)
_Bem, infelizmente, se a senhora me der licença, eu preciso ir. Tenho de consolar os meus parceiros. E fazê-los entender, enfim, essa analogia nova e extraordinária dos gladiadores e dos leões! Adorei a festa no seu apê, dona Perereca. Vemo-nos por aí!
_(...)
_Tome lá, o Kleenex, comadre! Ademorei porque não achei o Prozac. Só tinha essa tal de maracujina, serve?
_(...)
_Ué, comadre, você andou estagiando com o lorde Balloon?
_(...)
_Vixe, mãe do Céu! Você ta engasgada? Apere lá!
_Cof, cof, cof, cof, cof, cof, cof, cof !!!!...
_Credo, comadre, o papo com o Barão foi tão ruim?
_Água, água!...
_Atome lá esse copo de cerveja, mais é! Que você vai ficá belezuuura!
_Ainda pre...(cof, cof, cof, cof) Ainda prefiro o Inri!
_Chamarrr, querrridinhas!
_Ô seu Inri, adeixe a comadre, mais é, que ela ta em estado de choque!...Tá melhó, comadre?
_Peça pra descer uma grade!...
_Credo, comadre! Se eu soubesse tinha ficado conversando com o Barão...
_Ele não conversa. Ele pensa que "adeclama"!
_Vixe, Maria! Olhe só quem ta entrando no seu apê!
_Caramba! Não é o lorde Sudão e a Beijoca?
_Em aliança e poder, comadre! Em aliança e poder!
_Rápido, cumadizinha, vá buscar a minha cadeira de rodas!

_Adianta, não, comadre! É agora que fecham o seu blog!...

(continua)

Aos Xutos e Pontapés!


Nasce Selvagem

Mais do que a um país
que a uma família
ou geração

Mais do que a um passado
Que a uma história
ou tradição

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
Que a uma rotina
ou profissão

Mais do que a um partido
que a uma equipa
ou religião

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

(Delfins)

Cidade Oculta

Ah, saudade dos becos!




Shirley Sombra


Onde anda Shirley Sombra?

Em Naishpur ou Babilônia
Alguma taça, ou amarga ou doce
Verte o vinho da vida, gota a gota
Vão-se as folhas da vida, uma a uma
Ah! Vem, vivamos mais que a vida, vem
Antes que em pó nos deponham também
E sob o pó pousados, pó seremos
Sem cor, sem sol, sem sonho - sem.

(Arrigo Barnabé - recriação de Augusto de Campos da versão inglesa de Edward Fitzgerald do Rubayat de Omar Khayam)



Balada do Ratão


Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita
Indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante

(Arrigo Barnabé, sobre fragmento inicial do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa)



Ronda 2


Na noite alta os ratos rondam
E no asfalto os carros roncam

Bares e clubes luzem, sinais
Gangues de punks lúmpens demais
E prostitutas passam ao léu
E viaturas surgem no breu

Quando nas casas os justos dormem
Quando não matam os brutos morrem

Os seus olhos filtram letras
Luminosos, faroletes e holofotes
Nos seus olhos se reflete
Todo o lume do negrume dessa noite

Cena de bangue-bangue, faróis
Tiras, bandidos, anti-heróis
Tiros e gritos, cante mortal
Cena de sangue, lance normal

E pelas ruas, peruas rugem
Se abrem alas e as balas zunem

De repente você treme
E a sirene passa entre automóveis
Em suspense você pensa
O que pode com o ódio desses homens?

(Arrigo Barnabé e Carlos Rennó)



Cidade Oculta


Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria pela escuridão

Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão

Misteriosamente uma andróide
Gritou docemente
Me mostrou a vida
Me encheu de cores
Desenhando um holograma em meu coração
Com seus olhos foi pintando um dia
Reinventando a alegria, brancas nuvens de verão
E a poesia de repente volta a ter razão

(Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin e Roberto Riberti)

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Eleições 2006

A vitória da alternância!


Só agora, às 2 da manhã, começo a colocar a cabeça em ordem, para digerir esse turbilhão e afastar o sentimento de irrealidade.

Creio que todos nos sentimos assim: vencedores e vencidos.

Nós, porque sabedores da dificuldade de chegarmos lá, contra a máquina rica e azeitada. Eles, por confiarem em demasia no peso dessa mesma máquina.

Mas, para além dessa vitória improvável, pesa nos ombros, também, a responsabilidade que essa conquista nos traz.

As dificuldades que teremos de enfrentar, para melhorar, de fato, as condições de vida do nosso povo, num país e numa região tão desiguais.

Tomara que consigamos construir essas melhorias, na velocidade que o nosso povo espera, precisa e merece.

Que sejamos, de fato, a tão sonhada mudança da realidade paraense, especialmente, para a dona Maria e o seu José.

Não há como negar, porém, o ponto mais positivo dessa vitória: a alternância.

Na democracia, poder algum pode estender-se por décadas, sob pena de viciar comportamentos e corromper as instituições.

A alternância e o respeito às oposições são componentes essenciais à democracia. E esta é, sem sombra de dúvida, uma das maiores conquistas da humanidade, nestes quase sete mil anos de civilização.

Precisamos avançar – não regredir. Precisamos tornar a democracia, de fato, massiva, inclusiva, digna desse nome.

Mas, em nome disso, não podemos eliminar-lhe elementos essenciais, como a tolerância e a renovação. Porque, sem isso, ela não será nada além de um grande circo romano.

É claro que estou feliz (e ponha feliz nisso!) com a vitória da Ana Júlia. Como disse, mais cedo, a um amigo, estamos, todos, de parabéns.

Esta foi, de fato, uma vitória coletiva, como reconheceu a própria governadora eleita. A vitória de uma equipe que jogou no estádio do adversário, contra o juiz, os bandeirinhas, os comentaristas e um time poderosíssimo.

Mas que encontrou, na camaradagem de seus integrantes e no carinho das arquibancadas, a força e a fé para seguir em frente.

Que equipe maravilhosa, essa, que conseguimos construir! E que conquista extraordinária, essa, que, pingando de suor, conseguimos alcançar!

Que, no entanto, só não me deixa mais feliz porque tenho muitos e bons amigos entre os tucanos. E eu imagino como eles devem estar se sentindo: exatamente como eu me sentiria, se estivesse a falar não da vitória, mas da derrota.

Todos apostamos alto nestas eleições. Vencedores e vencidos, demos a cara à tapa; o pescoço à guilhotina. Neste pleito acirradíssimo, nenhum de nós pôde colocar-se à margem, fingindo neutralidade. Todos fomos à luta. E é claro que a vitória traz, também, um certo alívio: afinal, seríamos levas e levas ao cadafalso...

No entanto, mesmo estando ao lado dos vencedores – e tendo feito aqui preciosos companheiros - não posso esquecer de quem sou.

Trabalhei vários anos com os tucanos, por acreditar no projeto tucano e por ter um coração amarelinho.

Fiz, também, entre os tucanos, alguns dos melhores amigos que jamais sonhei conquistar ao longo da vida.

Por isso, não posso deixar de apresentar a minha solidariedade aos vencidos.

E de manifestar a esperança de que o governo de Ana Júlia seja, de fato, um governo pacificador.

Por não querer ver sofrer pessoas a quem amo. Mas, também, porque acredito visceralmente na democracia.

Mas, principalmente, porque não perco de vista que a política é feita por gente de carne e osso; por pessoas iguaizinhas a mim. Com os mesmos sonhos e esperanças. Pessoas que amam e são amadas...

E agora, me dêem licença, que preciso bebemorar em paz.

Parabéns, camaradas, companheiros, queridinhos! Vocês não imaginam o orgulho que sinto por ter lutado ao lado de cada um de vocês!

Vejam só: as lágrimas, finalmente, estão começando a escorrer...

sábado, 28 de outubro de 2006

Que vença o eleitor!

Chegou a hora que todos aguardávamos: a hora da decisão.

Creio que não há mais nada a fazer, a não ser desejar boa sorte a todos.

De qualquer partido, de qualquer lado...

Afinal, todos fizemos o melhor que poderíamos; demos o melhor de nós.

Todos merecemos, enfim, a alegria da vitória.

Em ambos os lados, há guerreiros valorosos, extraordinários.

Gente que luta, com garra e muita fé, por aquilo em que acredita.

É da democracia que seja assim: que existam os prós e os contras.

E é preciso, portanto, que saibamos nos respeitar mutuamente.

Apesar das bicudas que, como acontece em toda guerra, é preciso desferir...

É claro que torço pela vitória da Ana Júlia e acredito nisso, sinceramente: acredito que vamos chegar lá.

E que o Pará, de ponta a ponta, nessa noite de domingo, será uma grande estrela vermelha!

Mas tenho a certeza, também, de que, qualquer que seja o resultado, o grande vencedor terá sido o povo do Pará.

Afinal, ao longo desses meses, lutamos batalhas memoráveis. Mas conseguimos mantê-las dentro dos limites do jogo democrático.

É claro que não faltarão queixas de um lado e de outro. Mas o fato é que nenhum de nós terá feito alguma coisa, que o outro também não fizesse, se surgida a oportunidade.

E, o mais importante: conseguimos conter nossas “tropas”, a fim de evitar episódios complexos.

Estamos todos, portanto, de parabéns – o “sarampo” e a “febre amarela”. E só espero é que consigamos manter tal postura nesse domingo, quando os nossos corações estarão pra lá de acelerados.

E espero, também, que, terminada a guerra, seja quem for o vencedor, saiba tratar com dignidade, com respeito, com espírito verdadeiramente democrático, o lado vencido.

Porque, em toda guerra, há o tempo de desembainhar, mas, também, o tempo de guardar as espadas, para que possa vicejar o tempo da negociação.

É só assim que conseguiremos, de fato, construir uma vida melhor para o nosso povo: com equilíbrio, com respeito às oposições, com visceral apreço pelo direito de divergir.

E porque, também, há, nas vidas de todos nós, muito mais que disputa política.

Há as alegrias do cotidiano. As pessoas que amamos. A esperança daquilo que buscamos ser e realizar.

Há todo um universo à espera dos nossos corações, quer estejam vermelhos ou amarelos.

Há toda a beleza que a vida nos oferece e que ansiamos abraçar.

Esta guerra, portanto, não é um nem um fim, nem um começo: mas, uma partícula de poeira cósmica no infinito que somos.

A todos, vermelhos ou amarelos, boa sorte. Que Deus esteja conosco e que
vença o eleitor!



Vermelho


Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor (vermelho!).
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor.
(Meu coração!)

Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar!
Tudo é garantido após o sol vermelhecer!

Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor (vermelho!).
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor.
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor.
(Meu coração!)

Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar!
Tudo é garantido após o sol vermelhecer!

Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória vermelhou.

(Chico da Silva)

(Não é casuísmo, não. É que adoro essa música...)



Redescobrir


Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta, memória
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia

(Luiz Gonzaga Jr.)



Aquarius



When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!

Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golding living dreams of visions
Mystic crystal revalation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!

When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!

Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golding living dreams of visions
Mystic crystal revalation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!


(Hair – Trilha Sonora)

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Sobre o palanque paraguaio da bondade

A Honestidade de R$ 1,99


Sinceramente, não sei se rio ou se choro dessa mania tucana de satanizar os adversários. Quem não conhece os meandros do tucanato paraense, acaba até acreditando que está diante da quintessência da Moralidade: é tudo querubim ungido!

Mas, no que consiste, de fato, essa “ética” tucana?

É fato que o palanque paraguaio da bondade deles tem bem poucos algemados. Mas também é fato que eles ergueram, em 12 anos, uma autêntica muralha de impunidade, a impedir a investigação de inúmeros escândalos.

Veja-se o exemplo de Eduardo Salles, o sobrinho do governador Simão Jatene, com a fortuna que acumulou à sombra do tio – e cuja reportagem completa, aliás, está arquivada neste blog.

Vejam-se os mais de 20 parentes de Jatene, nomeados para o Governo do Estado, num autêntico “condomínio de contracheques”, como classificou um advogado.

Veja-se a Prev Saúde, a empresa da mulher e do filho do secretário de Saúde, Fernando Dourado, com os quase R$ 8 milhões que já faturou junto ao Executivo, justamente, na área da Saúde.

Vejam-se as denúncias de superfaturamento de remédios pela Sespa – e só a Controladoria Geral da União, na única inspeção realizada ali, flagrou um rombo de cerca de R$ 14 milhões.

Vejam-se os R$ 10 milhões adquiridos pela mesma Sespa junto a KM Empreendimentos, uma empresa enrolada até o pescoço, nas investigações sobre a máfia dos sanguessugas.

Vejam-se as inúmeras denúncias de superfaturamento de obras públicas, como a Estação das Docas e o Centro de Convenções – cujo metro quadrado, a R$ 3.400,00, é seis vezes mais caro que o mais alto custo do metro quadrado do país.

Veja-se o Hospital Metropolitano, cuja construção consumiu R$ 28 milhões, o dobro do inicialmente previsto, e onde só uma pracinha ficou em quase R$ 1 milhão.

Veja-se o caso Cerpasa – e só aí “sumiram” R$ 45 milhões em dívidas fiscais.

Veja-se a Clean Service, ligada a Marcelo Gabriel, filho do ex-governador Almir Gabriel, que já faturou, pelo menos, R$ 15,1 milhões junto ao Governo do Estado.

Veja-se o autêntico “laranjal” do empresário Chico Ferreira e os contratos milionários que abocanhou, nos últimos 12 anos, também do Governo do Estado – e que ultrapassam, largamente, os R$ 50 milhões.

Vejam-se os R$ 450 milhões da venda da Celpa, que até hoje os paraenses se perguntam onde foram parar.

Mas, de quanto é que estamos falando, mesmo? Qual o total de recursos públicos que desapareceram em tais escândalos?

Será que o saque se torna “menor” porque praticado pelo “Midas da Moralidade”?

Será que a impunidade torna o infrator menos rapace?

Ou será que falta é a Justiça agir, de fato, como Justiça?

Quantas algemas os “mocinhos”, os querubins ungidos desse palanque paraguaio da bondade estão a merecer?

Mas permanecem, todos, livres, leves e soltos, não é mesmo? A apontar o dedão acusador para tudo e todos, acionistas que são da Perobal S/A.

E seguem assim porque a “ética” que apregoam é, simplesmente, a da varrição da sujeira para debaixo do tapete. É o amordaçamento das instituições que têm a obrigação de acabar com essa festança.

No fundo, a “ética” do tucanato tem por alicerces a censura, o aliciamento e a perseguição. É um autêntico Bataclan, no qual se corrompe, até, o chefe de polícia. Daí inexistirem, entre os tucanos, as algemas que tanto aplaudem nos pulsos alheios.

Falam em despreparo de Ana Júlia. Mas, quem tem preparo? Valéria Pires Franco? Vic?

Falam em palanque da maldade. Mas, quem são os mocinhos deles? Marcelo Gabriel? Chico Ferreira? Eduardo Salles? Fernando Dourado? Raimundo Santos? Duciomar Costa? O algemado cidadão Flexa Ribeiro?

É engraçado. Nesse palanque paraguaio da bondade, nessa honestidade de R$ 1,99, há gente acusada de ligação com o crime organizado, de envolvimento no escândalo dos sanguessugas, de receptação e até de estupro e de corrupção de menores. Há bacanagens para todos os gostos: todo tipo de fraudes licitatórias e de malversação do dinheiro público que se possa imaginar.

No entanto, dizem eles, os bandidos somos nós. Vai ver que é porque se esqueceram de olhar de perto a própria latrina.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

The Lest

De volta ao começo



Como chegaram a esse ponto? Ela tentava, mas não conseguia compreender. Parecia que não havia palavras. E quando as havia, elas morriam no peito sufocado.

Não, não havia gestos, nem olhares. Eram muros e muros de pedra, erguidos, sabe-se lá por quem.

Desertos? Antes fossem!... Pois, que haveria esperança de chuva. Mas era o desespero puro e simples. Um frio que se impunha, entre abismos e abismos e abismos que os olhos não conseguiam alcançar...

Procurou um tempo passado. Mas os pretéritos se perderam no presente e no futuro.

De que morrera, afinal, tal sentimento? O mais profundo do coração não saberia dizer. Certo dia foi-se, simplesmente. Quem sabe, rendeu-se ao ciclo da vida. Esperando que, lá adiante, houvesse quem o compreendesse. Os filhos, os netos, os bisnetos, enlevados por essa coisa que, distante do chão, convidava a voar sobre todos os universos.

Mas isso seria, quem sabe, o futuro. A recompensa havida, mas que não se veria, afinal. Seria os genes, o sangue, que espalhara pelo mundo. Mas e ela? Viveria em função disso, seria, apenas isso? Uma promessa? Um futuro incerto? Um desejo irrealizado por gerações?

Queria abraçar-se à noite. Novamente, abraçar-se à noite. Como coisa que ouvisse, impunemente, todos os segredos. Queria arder em vida. Ser um átomo decomposto em zilhões de gentes. Queria sangrar por todos os poros, mas indo adiante.

Ao invés de se acabar em desespero, nessa estação enlouquecida, queria recuperar as rédeas da própria vida. Domá-la, como já a domara um dia. Ser além.

Ousar, mais que todas as mulheres do mundo, por gerações. Erguer-se, como quem, de fato, jamais se verga. Ser o rio, jamais um afluente.

Não, não: quem nasceu pra sol, jamais será a sombra, por mais que tente. O adjetivo, por mais que se busque, será sempre no feminino. Impossível tentar não ser.

E o que vier, além disso, será o “ia”: o que poderia, o que haveria, o que seria.

Não, como ele haverá outros homens – sempre os há. E se não houver, haverá, por certo, outras gentes.

Afinal, a mão que corre o corpo, que afaga os cabelos, é, simplesmente, a mão...

Mais importante é ser o que se é, enfim. Olhar-se ao espelho e amar-se, não pelos olhos alheios, mas pelos próprios.

Mas, depois de tanto discurso, continuo pensando: caralho, o que foi que aconteceu?!!!

domingo, 22 de outubro de 2006

Festa no Apê III

Festa no meu Apê III


(Abrem-se as cortinas. E o Príncipe Clean, de topete e roupa branca justíssima, tendo em uma das mãos uma vassoura, e na outra, um aspirador de pó, desata a dublar:

It's now or never/come hold me tight/Kiss me my darling/be mine tonight/Tomorrow will be too late/
it's now or never/My love won't wait./When I first saw you/with your smile so tender/My heart was captured/
my soul surrendered/I'd spend a lifetime/waiting for the right time/Now that your near/the time is here at last./It's now or never/come hold me tight/Kiss me my darling/be mine tonight/Tomorrow will be too late,
it's now or never/My love won't wait.)
(aplausos)

_É só comigo que acontecem essas coisas, é só comigo!... Parece que eu tenho o dom de atrair maluco! Agora, fica o Príncipe Clean, limpando o meu apê. E ainda por cima imitando o Elvis Presley...Só pode ser macumba mal feita, só pode...
_Adeixe o ômi, mais é, comadre, que a limpeza vai ficá belezuuuuura! O Príncipe é o maior especialista do Brejo! Varre pra cá, aspira pra lá, ajunta pra acolá! E quando a gente vê... Some tuuuuuuudo! E é próprio Houdini, comadre: não tem algema que lhe assegure!
_Xiiiiiiii! Ele vai ligar o aspirador. Ai, meu Deus, não vai dar pra ouvir mais nada!
_Pere lá que eu vou falar com ele. Ô seu Príncipe, ô seu Príncipe, achegue aqui!
_Boa noite, minhas senhoras! Dona Perereca! Querida correspondente! Muito obrigado pelo convite para esta festança. Que apartamento maravilhoso! Confesso que estou até emocionado!
_Ué, por que seu Príncipe?
_É que nunca encontrei tanta sujeira!
_Pera lá!... Tá certo que o meu apê é bagunçado... Mas, sujo, não!!!
_E como é que a senhora explica essas toneladas de papéis por todo canto? E que papéis! Tem de tudo: superfaturamento, pagamento em duplicado, dispensa de licitação, contratos ilegais. Tem até o lorde Comissário comprando passagem aérea por debaixo do pano! Tem pracinha a R$ 1 milhão!!!... É bem verdade que eu já fiz melhor que isso: já vendi banana a preço de salmão... Mesmo assim, há armações magníficas aqui! Quem diria, né, dona Perereca! A senhora engana direitinho...
_Ê, pere aí, seu Príncipe: isso daí não é da comadre, não! É que ela trabalha com esses trecos de reportagem investigativa!
_Quer dizer que a senhora não fez nada disso? E eu pensando que havia encontrado a minha alma gêmea!...
_Que é isso, seu Príncipe? Isso daí é tudo do pessoal da Corte, que a comadre investigou! Tem coisa do conde de El Dorado, da Barbie Princesa e até, sabe, do “D”...
_Do “D”???!!!... Bem que eu fiquei desconfiado! Veja isso daqui!... Não é coisa de amador?
_Ué, quem é o “D”? É o Duzinho?
_Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!
_Vixe Maria, que o ômi pirou! Ô comadre, não fale nesse nome perto do Príncipe!
_O quê? Duzinho?
_Aaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!
_Credo, comadre! Se cale, mais é, senão o ômi acome os papéis todinhos! Adeixe comigo que eu vou falar com ele! Seu príncipe, seu príncipe... Inspire, expire e diga: AUUUUUMMMM!
_AUUUUUMMMM!
_Vamo lá de novo: AUUUUUMMMM!
_AUUUUUMMMM!
_OOOOMMMM!
_OOOOMMMM!
_Acenda, rápido, uns incensos, comadre, e vá tocando a sinetinha! E agora, seu Príncipe, arrepita comigo: eu sou o maior!
_Eu sou o maior!
_(triiimmmm)
_Eu sou espetacular!
_Eu sou espetacular!
_(triiiimmmm)
_Comigo ninguém pode!
_Comigo ninguém pode!
_(triiimmmm)
_Alimpo o meu, o seu, o nosso!
_Alimpo o meu, o seu, o nosso!
_(triiimmmm)
_Papai!
_Papai!
_(triiiimmmm)
_Amém!
_Amém!
_(triiimmmm)
_Tá melhor, seu príncipe?
_Muito melhor, querida correspondente! A senhora, como sempre, é fundamental! Uma hostess! E quanto à senhora, dona Perereca, fique sabendo que só não lhe expulso do Brejo, por causa dessa lady extraordinária. Você, querida, é maior que a eternamente Marilda! Beijos!
_Obrigada, seu Príncipe! Vá pela sombra, viu! E não alimpe as ruas! O lorde Tirésias aprecisa também!!!...
_Mas será que eu não dou uma dentro?
_Ô comadre, o problema é que você só fica fechada neste seu apê! Você precisa aprender a linguagem da Corte! Arrepita comigo: Bufunfa!
_Bufunfa!
_Inexigibilidade!
_Inexigibilidade!
_Superfaturamento!
_Superfaturamento!
_Sou venal, mas quem não é?
_Ei, ei, ei, ô animal? Que história é essa? Sessão de auto-ajuda pra riba de muá? E ainda por cima nesses termos?!!!...
_Ô comadre, é só pra relaxar!...
_E como é que eu posso relaxar, com esse bando de doidos no meu apê? Já vomitei duas vezes. O Barão acabou com os peixes do meu aquário. E, agora, estou até ameaçada de expulsão do Brejo! Pra completar, ainda tem aquele maluco do Inri...
_ Xi, comadre! Falou no Diabo, apareceu o rabo!
_O quê?
_Olhe lá quem ta entrando, de novo, no seu apê!...

(As luzes começam a piscar. Trovões. As luzes estabilizam, mas a iluminação é especial. Começa a tocar a Aleluia, de Handel. Mas, súbito, aparece o lorde Balloon, no meio do palco, que faz gestos irritados para o DJ e manda parar tudo. Sempre por meio de gestos, manda trocar o fundo musical. Descem do teto equipamentos de discoteca. O DJ ataca “Dancing Queen”, com os Abba. Aparece o Inri, sem barba e de cabelo vermelho, vestido a drag queen, cercado por quatro moças, também, com roupas coladas, brilhantes e penacho, como o dele. Os cinco dublam “Dancing Queen”. Todos dançam no apê:

You can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen

Friday night and the lights are low
looking out for the place to go
where they play the right music
getting in the swing
you come to look for a king

Anybody could be that guy
night is young and the music’s high
with a bit of rock music
everything is fine
you’re in the mood for a dance
and when you get the chance

You are the Dancing Queen
young and sweet only seventeen
Dancing Queen
feel the beat from the tambourine, oh yeah
you can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen

You’re a teaser, you turn ’em on
leave ’em burning and then you’re gone
looking out for another
anyone will do
you’re in the mood for a dance
and when you get the chance

You are the Dancing Queen
young and sweet only seventeen
Dancing Queen
feel the beat from the tambourine, oh yeah
you can dance, you can jive
having the time of your life
see that girl, watch that scene
dig in the Dancing Queen).

(continua)

domingo, 15 de outubro de 2006

Deu chabu! I

O Pará merece uma eleição como esta: sentida, sofrida, suada. E que só será decidida, de fato, no último minuto do segundo tempo.

Para mim, não apenas jornalista, mas, sobretudo, cidadã, este é um momento extraordinário. E estamos, todos, de parabéns: tucanos, petistas, peemedebistas, pefelistas... E os mais que compreendam o significado da política, no cotidiano social.

Não acredito que estejamos separados por muitos pontos percentuais. Para mim, estamos embolados. E assim seguiremos, até o final. Daí a emoção desta partida, tão inusitada, diga-se de passagem.

Enquanto escrevo, tenho a informação de que, na cidade, há carreatas de petistas, a comemorar o Ibope, e de tucanos, a comemorar o Vox Populi. Quer dizer: deu chabu!

E é muito bom que seja assim. Porque demonstra, que, todos os que estamos na linha de frente, temos uma percepção muito correta da realidade. E que lutaremos até o fim, por aquilo em que acreditamos. Com a agilidade que uma “guerra” como esta requer.


Mais que isso, porém, é preciso considerar o recado da sociedade paraense nestas eleições: está dividida, é plural, evoluiu muitíssimo e espera de nós – todos – justamente essa compreensão.

Se Almir ou o PT entenderão isso, são outros quinhentos. Porque, nós, caro leitor, (e que ninguém nos ouça) sabemos bem o quanto eles são semelhantes na intolerância, na arrogância, nessa incapacidade perniciosa de conviver com o diverso.

Tenho para mim, porém, que o poder vem sendo uma experiência pedagógica considerável, aos companheiros petistas. Está lhes mostrando que, entre o branco e o preto, existe a imensa zona cinzenta. Humana. Intrínseca e despudoradamente humana. E com a qual, para além do sonhado paraíso, é preciso lidar.

Já Almir tem contra ele a cristalização do que é. O tempo que formatou comportamentos e certezas, que dificilmente serão modificados. Em relação a Jatene, representa um claro retrocesso, em termos de convivência democrática.

Já admirei – e quem sabe ainda admire – profundamente, o “velho”. Mas, não perco de vista o Eclesiastes: tudo tem seu tempo sobre a Terra...

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Deu chabu! II

Deu chabu, e aí? Bem, podemos nos quedar, perplexos, diante de tudo isso. Ou considerar mil teorias conspiratórias. Ou, ainda, buscar uma compreensão mais fria desse baralho, aparentemente, enlouquecido.

Por sorte, passei umas boas horas, na tarde de hoje, conversando com um bom amigo, de lucidez estonteante. Que, igual a mim, é claro que joga. Mas busca, sobretudo, observar e compreender os diversos jogos.

Depois de muito conversar, chegamos à premissa do embolamento. Estabelecida, pelo que estamos vendo. Muito além dos números, que sabemos de “pronto a servir”.

De um lado, o desespero, para superar o prejuízo, que o salto alto deixou atrás. Do outro, a tentativa, igualmente desesperada, da transferência de votos.

Nenhum dos lados cantando vitória, mas batendo e se defendendo, como Deus possa permitir. E até apelando. Uns, para o descolamento do picolé de “chuchumbo”, no dizer do Zé Simão. Outros, a depoimentos de chorosos “iludidos”.

Ambos, certamente com base em pesquisas internas, evitando perpetrar milímetro de erro. Pau a pau. Enquanto preparam, é claro, a tão esperada caixinha de maldades, para a reta final. Mas se estudando, para perceber onde dá para quicar.

Vale salientar que é nos programas eleitorais que desembocam as certezas. Ainda que restritas a uma ou duas pessoas da produção. Ou que cheguem em linguagem cifrada...

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Deu chabu! III

É claro que o primeiro ponto a considerar - manifesta aquela premissa - é a hipótese de um “acordo nacional”, digamos assim. Mas, mesmo em tal caso, é impossível não pensar, também, em “afagos” locais. Afinal, a “nossa dama” não se deixa levar por acordões. Quer o michê taludo depositado na própria conta. Vai daí que o noivado já pode ir de vento em popa. Sem, necessariamente, o conhecimento de muitos...

Mas, nos coloquemos em ângulo diferente: sejamos, a mulher traída.

Bem, se quiséssemos detonar o indigitado, bastaria trair – publica, ou, restritamente, a quem nos interessasse.

Mas, se quiséssemos detonar a amante, faríamos dela a infiel, com provas, aparentemente, cabais.

O problema é que a segunda hipótese é um jogo perigosíssimo: e se a amante conseguisse comprovar a inocência e, entre a profusão de lágrimas, despejasse, sobre o “marido”, todo o seu ardor?

E, no primeiro caso, se não quiséssemos afastar o indigitado de vez, por que o trairíamos publica ou restritamente, antes de um compreensível e firme recado?

Parece-me mais lógico, então, o “acordo nacional”. E com juras de amor eterno, a nível local...

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Deu chabu! IV

Se for assim, o jogo se torna mais complicado. Suponhamos que a mulher traída nem suspeite. E lá continue, com todas as forças, a acarinhar animal. Crente de que, através dele, alcançará todos os sonhos possíveis. Mesmo que eles incluam, lá para a frente, descartar-se de criatura tão complexa.

Novamente, teremos, pelo menos, dois cenários hipotéticos. Mas, adivinhem leitores? Novamente, já bebi muito – e quero beber em paz. Além disso, cansei de dar uma de pastor: pensem vocês! Mas, não esqueçam dos outros jogos: do Barão de Inhangapi e do Comendador das Àguias. E da Barbie Princesa, que é bem mais esperta do que parece. Virem-se. FUUUUUUUIIIIIIIIIIIII!!!!!!

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Em tempo: a cidade foi agitada por boatos sobre a apreensão do jornal oficial, por força da liminar que impedia a divulgação da pesquisa do Ibope – liminar solicitada, vejam só, pela União pelo Pará. A boataria foi afastada, por advogados e repórteres que correram a cidade, sem encontrar vestígio disso. Mas permanece a dúvida acerca do que acontecerá, ao fatal encontro das carreatas amarelas e vermelhas. Espero, sinceramente, que todos consigamos manter o principal: juízo.


E para comemorar! Ou: eles pegam e depois a gente ajeita!



Vermelho


A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante,
Vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor: vermelho!
A cor do meu batuque tem o toque e tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante,
Vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor
Meu coração!
Meu coração é vermelho!
De vermelho vive o coração!
Tudo é garantido após a rosa vermelhar
Tudo é garantido após o sol vermelhecer
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore
Avermelhou.
Vermelhou a paixão, o fogo de artifício da vitória
Vermelhou.
Vermelhou o curral, a ideologia do folclore avermelhou.

sábado, 7 de outubro de 2006

Dominum

Um excelente Círio a todos vocês!



A Perereca, em clima de Círio, presta homenagem à Divindade. E se curva, como todos devem fazer, enfim.

Mais, ainda, porque já passou pela experiência de quase morte. E sentiu a mão Dele, a resguardá-la.

Aliás, antes daquele acidente, eu nem acreditava em Deus. Depois, soube, constatei, que, de fato, Ele existe.

Este é, enfim, o tributo necessário Aquele que me protegeu na hora mais difícil da minha vida.

E que decidiu me conceder mais alguns anos de vida.

Não sei bem o porquê. Mas Ele sabe, não é mesmo?


Adeste Fideles

Adeste, fideles, laeti triumphantes;
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte Regem angelorum.

Venite adoremus, venite adoremus,
Venite adoremus, Dominum.


Salmo 91

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.

Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nEle confiarei.

Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.

Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro: a sua verdade é escudo e broquel.

Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia, nem peste que ande na escuridão,

nem mortandade que assole ao meio dia.

Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.

Somente com os teus olhos olharás, e verás a recompensa dos ímpios.

Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio, o Altíssimo é a tua habitação.

Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará a tua tenda.

Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.

Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.

Pisarás o leão e o áspide, calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.

Pois quem tão encarecidamente me amou, também Eu o livrarei.

Pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome.

Ele me invocará, e Eu lhe responderei.

Estarei com ele na angústia, livra-lo-ei e o glorificarei.

Dar-lhe-ei abundância de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Do front

Uma Perda Tremenda!



A Perereca presta homenagem sentida a duas guerreiras extraordinárias: Araceli Lemos e Sandra Batista.

O fato de não terem sido eleitas é uma perda imensa para as oposições, o Pará e o Brasil.

Divirjo tanto do PC do B, quanto do PSOL. Mas respeito o que projetam para o mundo. Pela sinceridade e idealismo de seus militantes.

E penso que Araceli e Sandra são guerreiras honradas, destemidas e fundamentais. Pena que o Pará seja este atraso que todos conhecemos.

Mas, tenho certeza, vocês continuarão em frente. Até porque não é um percalço desses que vai derrubar os mulherões que são vocês!



O Bêbado e a Equilibrista


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona dum bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram marias e clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar

(João Bosco e Aldir Blanc)

domingo, 1 de outubro de 2006

Dividindo Angústias II

Uma noiva perereca



Após a totalização dos votos, não há dúvidas que, em se confirmando o segundo turno, o PMDB terá sido o grande vencedor das eleições paraenses. Passe ou não para o segundo. Porque será a noiva mais cobiçada dos últimos 12 anos. Com direito a toda sorte de denguinhos. E a questão é saber se essa noivinha perereca conseguirá não apenas parecer, mas, principalmente, ser honesta...

Dividindo Angústias

E vamos nós, outra vez!


Se o Ibope e as ORM confirmam segundo turno, quem sou eu para duvidar? Vou é relaxar e tomar mais uma. Porque esses 29 dias serão cruéis.

No segundo turno, a máquina será levada a pleno vapor. E por um comandante cerebrino. Capaz de bancar, no perobal, todos os michês.

Todas as capacidades serão acionadas, mesmo em outras esferas de poder. Vai correr sangue, muitos cairão.

Mas quero é ver como ele vai solucionar a questão mais complexa: a indisfarçável, inelutável, insofismável incapacidade de o “velho” terminar o mandato. E de assumir, no lugar dele, quem, todos sabemos...

Com mais quatro anos pela frente, a partir de 2010, diga-se de passagem. Queira ou não o cerebrino comandante da máquina. Até porque, certamente, será o primeiro a enfrentar o exílio...


Priante ou Ana Júlia, quem seria o melhor, pelas oposições? Confesso, que nesse sentido, permaneço na legião dos indecisos. Logo eu, que formo opinião...E que detono de meia dúzia pra cima. Sorrindo...

De um lado, Priante, talvez, possua maior capacidade de agregar forças ao centro e de debater com o “velho” – se conseguir dosar a agressividade.

Mas Ana é do PT. E não, apenas, do PT. É de corrente minoritária, que amarga essa condição porque inflexível a determinados comportamentos, digamos assim. E que, também, tem trânsito e jogo de cintura.

E eu fico pensando até que ponto essa história de a Ana ser despreparada e “fraquinha” não é puro machismo. Afinal, ela não é filha de sicrano, nem mulher de beltrano. É Ana Júlia e ponto. Uma mulher que cavou o próprio espaço político, numa sociedade historicamente dominada por homens.

Os gaúchos e paulistas têm heroínas avassaladoras. Mas, nós, paraenses, que heroínas temos, afinal? Bom, se alguém gritar Severa Romana, eu vou ali e já volto...

Por que se exige das mulheres uma capacidade infinitamente superior a de qualquer homem? Por que temos de ser semidivinas, sempre que tentamos alcançar o espaço amplamente dominado pelo grande macho branco?

Por que não podemos aparentar medos, inseguranças, absolutamente normais a todo e qualquer ser humano?

Se um homem gagueja, é porque se confundiu. Mas, quando gaguejamos, é como se o mundo viesse abaixo.

Se um homem não tem resposta imediata, bem que pode culpar a própria assessoria. Mas, se nós, mulheres, cometermos um erro assim, seremos carimbadas como despreparadas...

Ana Júlia é uma pessoa. Como toda e qualquer pessoa.

Amanhã, decido se lhe dou ou não um crédito.
E sei que há muito tucano por aí pensando, exatamente, do mesmo jeito...


Uma Experiência



Vou repartir com os companheiros tucanos uma experiência.

Trabalhei com Valéria, por mais de um ano. Não me posso queixar de sua amabilidade, educação, simpatia. É uma dama.

Lembro que Valéria chegou a me dizer, certa vez, que eu pertencia a equipe dela – e não do governo.

E lembro das tentativas dela e de vários assessores – com efetivo poder de mando – para que nos aproximássemos.

Mas nunca me permiti isso. Porque sempre compreendi que, um dia, estaríamos em campos opostos.

Gosto de Valéria. Acho que é uma pessoa extremamente sagaz, gentil, educada – e essa é uma qualidade que aprecio muito. A capacidade de dizer obrigada, sempre. De tratar bem à senhora do cafezinho e de não descontar nela os males do mundo.

Mas há, aqui, um problema de fundo. De compreensão da realidade. Que não nos faz nem melhores, nem piores. Nem anjos, nem demônios. Mas que é um problema de concepção a considerar.

Para Valéria e o PFL, de um modo geral, distribuir óculos e cestas básicas é algo meritório. É bom. Para além da sagacidade política, existe uma espécie de cumprimento do dever. É, talvez, uma certa mentalidade cristã. De ajudar o “pobrezinho” porque, de alguma forma, culpado dessa condição.

Daí o Presença Viva, um programa essencialmente assistencialista, ter se tornado o carro-chefe da Seeps. Ele dava consultas médicas, óculos, certidões, sei mais o quê. E, certamente, nunca passou pela cabeça de Valéria questionar se tudo isso que se estava “dando” não era, simplesmente, um direito...

Nós, tucanos – e também o PT, se quiser sobreviver – temos de ter infinita capacidade de compreensão diante de tal raciocínio. Nós, tucanos e petistas, já estamos muito pra cá da Revolução Francesa e do nascimento do Cidadão: já discutimos a factibilidade democrática; os desvãos da democracia; os limites da tolerância.

Mas a direita brasileira permanece, ainda, no tempo do direito divino dos reis. Distribuem-se “favores”, simplesmente. Não há impostos, direitos, deveres, bens socialmente produzidos – e que precisam, portanto, ser socialmente repartidos. Há uma riqueza magicamente produzida por capacidade solitária. Inexiste, enfim, o pressuposto societário daquilo que pode vir a ser considerado humano.

Mas a direita representa uma fatia considerável do pensamento brasileiro. Então, não é possível, simplesmente, excluí-la: é preciso lidar com isso. Porque, a alternativa, é o autoritarismo.

É preciso, então, uma ação pedagógica. Que começa pela sociedade. Para empurrar essas pessoas, esses cidadãos, a uma outra compreensão do mundo.

Sinceramente, já bebi muito – até comemorando o segundo turno. Raciocinem vocês, daí pra frente. Vou mais é encher a cara. FUUUUUIIIIIIII!!!!!!

PS: Viva Aécio!!!!!!

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Sobre o Debate


Raimundo para Presidente!



Depois de assistir ao debate de ontem à noite (forçada, diga-se) cheguei a uma conclusão determinante em minha vida: vou votar em Edmilson Rodrigues. Para que participe de todo e qualquer debate, seja ou não candidato, ao que quer que seja. Ed roubou a cena. Nunca esquecerei o olhar do Raimundo, chamado a mediar o debate. Era o olhar do sofrido retirante nordestino diante de um novo Conselheiro: não sabe se estrangula ou se estapeia...

Edmilson é um intelectual enlouquecido: leu tanto, conhece tanto, que não consegue concentrar-se no específico. Daí o olhar desesperado do Raimundo, ante às divagações do candidato. Ed é o orador que acredita no próprio discurso. Mas, com tal veemência, que colocaria Cícero para correr – de vergonha ou de medo, sabe-se lá... Pobre Raimundo, que prometeu firmeza! Os padins Cíceros deles, nunca foram páreo aos nossos Angelins....Nem aos Baratas que nós, paraenses, insistimos, tão ciosamente, em acalentar...

Almir está velho. Tem indisfarçáveis falhas e confusões de memória. Passa credibilidade, é verdade. Mas deixa a “sensação de insegurança” acerca de quem terminará o mandato. Ao vê-lo, tem-se a impressão de que acabará como o rei George, a vagar ensandecido pelos corredores do poder, amparado por eminentes membros da Corte. E o problema é que não vivemos, exatamente, numa Monarquia, apesar de tudo o que os tucanos já intentaram nesse sentido...

Almir é a prova viva de que o tempo é, de fato, o grande senhor do mundo. De nada adianta nos projetarmos mais, nos querermos mais: o físico tem limitações que a mente jamais conseguirá superar. É o ciclo da vida cobrando o seu quinhão. Principalmente, daqueles que viveram intensamente...

Por isso, é claro, que, aos tucanos que assistiram o debate, faltou a agilidade mental e ironia do Barão, capaz de transformar água em vinho, pedra em pão...Jamais se deveria ter permitido que Almir participasse de debates. Ficou claro que a sua vice assumirá, se ele for eleito, cada vez maior projeção, com vistas a 2010. Mesmo que o “velho” e os tucanos de puro-sangue não o desejem. Ela será a nossa Roseana! E eu, a cada dia que passa, me convenço de que tenho, de fato, uma boa estrela...

Priante precisa parar de assumir a postura de galinho de briga, a cada vez que olha para Almir. Precisa compreender que, se armar para a guerra diante de um Príamo, não revela, exatamente, coragem. O contraste requer certa doçura e condescendência. Especialmente, de quem se orgulha de ter criado passe livre, nos ônibus, para os idosos...

Priante precisa aprender a controlar a impaciência e a ira, que o levam a remexer-se na tribuna. Nem que tenha de tomar uma tonelada de Lexotan. Agressividade é muito bem-vinda, diante de ameaças concretas ao povo que se pretende defender. Mas, para além do concreto, existe o aparente. E um ancião – por mais astuto que seja – nunca passará, a quem assiste, tal capacidade ameaçadora. A cara nova precisa demonstrar, enfim, maior equilíbrio emocional...

Ana Júlia é fashion. É a nossa Ciccareli guaribada. Apanhada na praia, tem savoir-faire para gritar: “andaram me clonando!!!”. Ou, para jurar de pés juntos que foi a gêmea – apesar de ser filha única... Tem ensaiado o que significam 10 ou 30 segundos. E que sorrir, sempre, vale mais que dez granadas. Agradabilíssima e certeira, a nossa senadora. E, quem sabe, futura governadora...

E mais não digo, nem me foi perguntado. E eu vou é tomar em paz essa duas que me restam – se é que vão me deixar tomar, ao menos, essas duas em paz... FUUUUUIIIIIII!!!!!!!!!!!

domingo, 24 de setembro de 2006

Desabafo


Resposta à gentalha



Sinceramente, ando me sentindo algo que, indignada, com alguns comentários que tenho recebido.

Apesar do meu espírito democrático – e, quem me conhece, sabe da enormidade da minha tolerância – creio que há sorte de gentalha extrapolando.

Tais excrementos insinuam, de todas as maneiras, que devo algo a alguém. Mas, a quem, afinal?

Ao que me recordo, vi-me em uma cadeira de rodas, durante sete meses, levando bicudas de todos os lados. Porque essas coisinhas imaginavam que, em cadeiras de rodas, eu estaria indefesa. Avalie! Nem dormindo...

Lembro-me de bater à porta de colegas e de amigos e de não obter, sequer, resposta aos telefones que dei.

Lembro-me de pedir, implorar, contemporizar, como é, aliás, desse meu infeliz feitio.

Lembro da minha filha, então com 13 anos, angustiada.

Lembro de não saber como pagar o aluguel do apartamento onde moro.

Lembro das panelas e panelas de comida que tive de aceitar de minha mãe, para não passar fome.

Lembro do medo, da angústia que me consumiam, diante do fato de não ter como conseguir emprego, em tais condições.

Porque as ameaças eram permanentes: eu seria atirada, literalmente, na rua da amargura, em cadeira de rodas.

E não havia porta que se me abrisse. Nem sombra de misericórdia. Porque todos os caminhos haviam sido fechados por um encosto, uma espécie de exu das sete encruzilhadas...

É engraçado: eu, muitas vezes, ao disparar um míssil, senti pena. Confesso que, em várias ocasiões, minha mão quase tremeu...

Mas, não me parece que essas criaturas “angelicais” tenham sentido o mesmo.

Pelo contrário: se não fizeram mais, foi porque EU jamais permitiria que fizessem mais!

Contemporizo, peço, imploro, deixo até pisarem em mim, quando se trata de manter a paz.

Mas, em declarada a guerra, não esperem de mim a mínima piedade.

Agora, choram. Esperavam o quê?

Vivo do meu trabalho e sei que tenho um talento nato para fuçar, para investigar. Não preciso de muito: bato os olhos em uma informação e sei o quanto é importante. Tenho o faro que todo o repórter deveria ter em relação à notícia.

Esperavam o quê?

Estão se queixando de quê?

Noticiei alguma coisa errada? Por favor, se for assim, me digam – e comprovem. Porque eu provo. Com carradas de documentos oficiais.

Queriam o que, as santas, as puras, as donzelinhas de beira de cais?

Queriam que passasse quatro anos me fingindo de morta, como fizeram tantos?

Mas, por quê?

Sou, por acaso, alguma imbecil ou incompetente, que precise apelar a tal coisa?

Desde quando a minha integridade, a minha honra, foi posta nas rifas da canalhada?

Traí a quem? Escalei o poço sozinha! E ainda hoje estou tentando reconstruir a minha vida; retomá-la do ponto em que se encontrava, quando sofri aquele acidente, em outubro de 2002.

Até hoje, vejam só a enormidade do estrago!

Não pedi emprego a ninguém do Governo: quando me preparava para deixar o governo – porque havia recebido proposta de trabalho do Diário do Pará e de mais duas assessorias – fui CONVIDADA a permanecer. E, burra que sou, com essa minha mania de conciliação, aceitei.

E vêm essas bestas-feras, esses protozoários que se imaginam gente, essas aberrações da natureza tentar me impingir defeitos de que jamais padeci: trairagem e covardia.

Logo eu – e essas peças sabem bem –, que abomino linchamentos. E que, se vivesse nos tempos da Inquisição, teria sido, certamente, queimada viva, por defender quem estava sendo mandado à fogueira.

Logo eu, que sempre dei a cara à tapa, quando a ratalhada se escondia.

Logo eu, que padeço de fidelidade canina, pelas causas que abracei ao longo de toda a vida e que não tenho um palmo de terra no cemitério.

Logo eu, que tive a coragem de sustentar ser tucana, mesmo me abrigando entre petistas e peemedebistas, ou me filiando ao PSB.

Quem, dentre esses cacetes, tem tal cacife?

Quem tem essa coragem, vamos lá!

Mas, não esperem pena; não me venham com apelo à piedade: esqueçam o chororô. Aliás, recentemente, troquei meu 38 por 50 bazucas. Levo, agora, 25 delas em cada mão...

Então, façamos assim.

No fundo, no fundo, vocês têm de entender o seguinte: o pior caminho é tentar me ameaçar. Essa coisa de me ofender, só desperta o meu lado escorpiônico – contra o qual eu luto, desesperadamente, todo santo dia.

Portanto, eu não chamei vocês de protozoários, de aberrações da natureza e de donzelinhas de beira de cais – ou vocês querem mais do meu amplo repertório? E vocês não ficaram tentando me transformar em traíra e covarde.

Convivamos, não é mesmo? Civilizadamente.

Porque, se não, vocês vão ouvir. Mesmo no anonimato. E, tenham certeza, eu consigo ser mil vezes mais virulenta do que todos vocês reunidos. Principalmente, se resolver abrir a minha caixinha de recordações. Até porque não vou mirar NC. Vou mirar quem deveria controlar a troupe, não é mesmo? FUUUIIIIIIIIII!!!!!!!!!!

Uma pausa na guerra.



A todos os guerreiros no campo de batalha. Qualquer que seja o sonho! A fé! O partido!...
A tudo o que ansiamos, cada um de nós, no mais profundo dos nossos corações!
Não importa o revólver fumegante. A dor que deixamos para trás. A misericórdia que desejamos ter...
Nem esse frio no estômago – pois, que se anuncia a batalha final!...
Que Deus nos permita ser tudo o que imaginamos!
E, se for para cair, que saibamos cair de pé!
Pelo que acreditamos!
E que Deus abençoe cada um de nós!...


Carmina Burana


Fortuna, Imperatriz do Mundo


Ó Fortuna,variável como a lua!
Cresces sempre ou diminuis,
Detestável vida!
Hoje maltratas,
Amanhã lisonjeias.
Brincas com os nossos sentidos;
A miséria e o poder
Fundem como gelo em ti.
Destino cruel e vão,
Roda que giras,
A tua natureza é perversa,
A tua felicidade, vã,
Sempre a dissipar-se.
Pela sombra e em segredo,
Aproximas-te de mim.
Apresento o meu dorso nu
Ao jogo da tua perversidade.
Felicidade e virtude são-me,
Agora, contrárias;
Afecções e derrotas estão
Sempre presentes.
Nesta hora,
Sem demora, pulsai as cordas,
Posto que o bravo,
Derrubado pelo destino.
Chorai comigo!


Choro as feridas da Fortuna


Choro as feridas
Causadas pela fortuna
Pois, rebelde,
Retoma os seus dons.
Na verdade, está escrito
Que a cabeça coberta de cabelos
A maior parte das vezes revela-se,
Quando a ocasião se apresenta, calva.
No trono da Fortuna sentei-me,
Com orgulho coroado,
Com as flores variadas da prosperidade.
Floresci, então, feliz e abençoado.
Eis-me, agora, caído do cume
E privado de glória.
Gira, roda da fortuna!
Eu desço e pereço.
Outro é levado para cima;
No cimo de tudo senta-se o rei, no vértice:
Ele que se guarde de cair!
Porque, sob o eixo da roda, lê-se:
Rainha Hécuba.

(Carl Orff)

E essa é pra desanuviar os arraiais. Com uma recomendação expressa: ouvir com Dominguinhos, Sivuca e Oswaldinho, em “Cada um Belisca um Pouco”, da Biscoito Fino. Égua do forró arretaaaaaado!!!!! Alevanta defunto!!!!!


Feira de Mangaio


Fumo de rolo arreio de cangalha
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Bolo de milho, broa e cocada
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pé de moleque, alecrim, canela
Moleque sai daqui me deixa trabalhar
E Zé saiu correndo pra feira de pássaros
E foi pássaro voando em todo lugar

Tinha uma vendinha no canto da rua
Onde o mangaieiro ia se animar
Tomar uma bicada com lambu assado
E olhar pra Maria do Joá

Tinha uma vendinha no canto da rua
Onde o mangaiero ia se animar
Tomar uma bicada com lambu assado
E olhar pra Maria do Joá

Cabresto de cavalo e rabichola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Farinha rapadura e graviola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pavio de candeeiro panela de barro
Menino vou me embora tenho que voltar
Xaxar o meu roçado que nem boi de carro
Alpargata de arrasto não quer me levar

Porque tem um sanfoneiro no canto da rua
Fazendo floreio pra gente dançar
Tem o Zefa de purcina fazendo renda
E o ronco do fole sem parar

Mas é que tem um sanfoneiro no canto da rua
Fazendo floreio pra gente dançar
Tem o Zefa de purcina fazendo renda
E o ronco do fole sem parar

(Sivuca/Glorinha Gadelha)