Pode-se não gostar dele; pode-se discordar da sua “metodologia”. Mas isso não altera em nada o fato de que Jader Barbalho é um político extraordinário.
Jader possui qualidades raras: expressão cristalina do discurso político; sintonia fina com o imaginário popular; primoroso uso de uma arma avassaladora – a ironia; antevisão, liderança, impressionante capacidade de articulação.
Mesmo assim – e abstraindo os inúmeros “rolos” em que se envolveu - Jader cometeu pelo menos dois grandes erros ao longo de sua carreira política.
O primeiro foi não ter reagido de forma mais incisiva contra a monumental satanização que sofreu.
O segundo foi ter subestimado o impacto da Ficha Limpa sobre as últimas eleições.
É claro que nem mesmo a melhor pitonisa do Brasil poderia prever as trapalhadas da mais alta Corte de Justiça do País, em torno dessa lei.
Mas para alguém com o brilho intelectual de Jader soa no mínimo estranho que não tenha ao menos considerado o pior cenário possível: a eventual inelegibilidade.
Estivéssemos a falar em guerras, tal cochilo seria comparável ao “esquecimento” de Napoleão, em relação à capacidade destrutiva do General Inverno...
No caso em tela, a chamada “opinião pública”, com todos os ingredientes usados para fabricá-la. Especialmente, a natureza humana.
II
É uma bobagem acreditar que a renúncia de Jader teve algo a ver com os inúmeros processos judiciais a que responde.
Até porque, no Brasil, achar que a Justiça possa resolver alguma parada em apenas dois meses é o mesmo que acreditar em Papai Noel.
Mas é claro que os muitos inimigos do morubixaba peemedebista repisarão este argumento – o de que renunciou para escapar ao julgamento de algum processo pelo STF, repentinamente guindado à celeridade do Papa-Léguas e a uma imparcialidade quase divina...
A manobra, claro está, é uma tentativa de reduzir o impacto do fato político criado pela renúncia de Jader, que obteve, como esperado, ampla repercussão na imprensa nacional.
É um fato que atiça o debate na “opinião pública” acerca de um dos maiores absurdos criados pela aplicação da Ficha Limpa nas eleições deste ano: a claríssima retroatividade dessa Lei, que, na prática, “criminalizou” a primeira renúncia de Jader, ocorrida há dez anos, supostamente para escapar à cassação.
É um bom foco, porque fácil de “vender” para a maioria da população, que se move muito mais pela lógica e pelo bom senso do que por apaixonadas posições político-partidárias.
Daí a tentativa de reduzir o gesto de Jader a uma simples fuga processual, a tentar carimbá-lo como "fujão".
Mas embora forte e fácil de vender, é difícil dizer até que ponto o debate em torno dessa cristalina ilegalidade será decisivo para salvar o mandato de senador do patriarca peemedebista.
Porque, como já se disse aqui, os muitos rolos em que se envolveu são grandes obstáculos a que as pessoas se levantem decididamente em favor dele, mesmo em percebendo que está a ser vítima, sim, de uma violência – e uma violência que abre um precedente perigosíssimo para todos os cidadãos.
III
Mas há outro problema aí, além das muitas acusações que pesam contra ele.
Talvez por confiar demasiado na articulação política e no jogo de bastidores, Jader demorou demais a perceber que o verdadeiro teatro de operações era a chamada “opinião pública”.
Enquanto isso, os defensores da imediata aplicação da Ficha Limpa tomaram conta do campo de batalha.
Até a defesa de algo maior, muito maior do que todo esse imbróglio – o Estado Democrático de Direito – tornou qualquer cidadão passível de satanização.
E mesmo a “opinião pública” – esse processo tão artificial que exige, desde sempre, todo um aparato de propaganda – virou um “fenômeno natural” a serviço da quintessência do “Bem”, que, claro está, não contemplaria quaisquer interesses menores...
A imobilidade de Jader diante da ação desses grupos e da possibilidade de sua cassação é semelhante àquela que tomou conta dele ao longo do processo de satanização que sofreu.
Não que ele seja um “anjo” ou que não tenha feito nada daquilo que todos acreditamos que ele fez.
Mas certamente que também não é esse “ente maligno”, esse “anhanga” que a massiva propaganda de seus inimigos fez acreditar.
Jader é apenas um representante de um tipo de política que não conseguia nem mesmo imaginar a separação entre o público e o privado.
Um tipo de política que fez muito sucesso no tempo dos nossos pais e avós. E que ainda hoje obtém sucesso em muitos pontos do País, não apenas devido à pobreza, à despolitização e à falta de educação formal do povo brasileiro. Mas devido, principalmente, a essa moral lassa, a essa cultura secular de todos nós.
Daí que tão irracional quanto considerá-lo “inocente” é, também, tomá-lo como o grande “satanás” da política paraense.
E o grande erro de Jader foi não ter reagido como poderia – e deveria – a esse processo de satanização que, de tão profundo, faz com que imediatamente acreditemos, sem qualquer sombra de dúvida, em tudo de ruim que se diga dele. E que parece até ter tido o poder de apagar da memória o muito que ele, de fato, realizou.
IV
É claro que o tipo de política representada por Jader não nos interessa: é o passado; tem de ficar pra trás.
É provável, aliás, que já não interesse nem mesmo ao PMDB, que precisará se reinventar se quiser sobreviver em meio aos novos imperativos que avançam, aos poucos, na sociedade brasileira, num processo que talvez venha a ficar conhecido como uma grande virada cultural.
Afinal, creio que é a primeira vez que refletimos massivamente, e de forma duradoura e progressiva, acerca dos nossos horripilantes costumes em relação à coisa pública.
Mas é claro, também, que toda a campanha contra Jader não é movida apenas por esses nobres objetivos, que, aliás, apenas engatinham no Pará.
Fosse assim, teríamos de acreditar que todos os seus adversários jamais se envolveram em rolos tão complicados quanto aqueles em que ele se envolveu.
Na verdade, o que está por trás dessa campanha é a partilha do poder e das verbas de propaganda do próximo governo. E, quem sabe, até a própria estabilidade da futura administração.
Aos tucanos e ao grupo de comunicação que sempre serviu aos tucanos não interessa um Jader senador.
Pelo contrário: o importante é “vendê-lo” como um “político acabado”, ou que nem é lá essa Brastemp, apesar do 1,8 milhão de votos que obteve – um patamar realmente impressionante, tendo em vista o impacto da Lei da Ficha Limpa e de toda a trapalhada do STF.
Só um PT com seus nove deputados estaduais, além de outros três que também devem fincar pé na oposição, e com o apoio do Governo Federal, já será capaz de infernizar, todo santo dia, a dolce vita do tucanato.
Imaginem, então, o perigo de um PMDB monolítico, ou quase isso, com oito deputados sob o comando de seu mais brilhante estrategista, cacifado (e protegido) por um mandato senatorial...
Mas Jader é um sobrevivente. E mesmo sem mandato já conseguiu manter a liderança e a coesão peemedebista.
E se é difícil dizer se conseguirá, de fato, ascender ao Senado - até porque demorou tempo demais para compreender onde a guerra deveria ser travada - o fato é que não será tão cedo uma carta fora do baralho.
Com ou sem mandato.
Muito longe disso.