sábado, 14 de maio de 2016

Meditações acerca de Deus







É muita pretensão de certos evangélicos acreditarem que Deus só pertence a eles.

Deus pertence a todas as suas criaturas: desde a uma Íris, que se abre apenas por algumas horas, até aos anjos e espíritos, que são eternos.

E Ele não fala apenas ao crente, que anda com a Bíblia debaixo do braço: fala a cada criatura, a cada coração.

Deus não está presente apenas em religiões, igrejas ou templos, por mais suntuosos que eles sejam.

Deus É em cada estrela, em cada planeta; em cada grão de areia, pedra, árvore, animal; em cada gota dos mares imensos que Ele criou.

Deus está em nós, em cada célula do nosso corpo.

E para encontrá-Lo é preciso apenas olhar ao redor, ou até para dentro de nós.

Deus não quer dízimos, oferendas, esmolas, sacrifícios.

Deus não se compraz no ódio daqueles que vivem a acusar os seus semelhantes, buscando condená-los a um fogo infernal.

O que Deus quer de nós é o amor. E o amor não apenas a Ele, mas a todas as maravilhas que Ele criou.

É por isso que esses pastores evangélicos que pregam o ódio em nome de Deus realizam, em verdade, o oposto daquilo que deseja o Senhor.

Deus não é um terrorista, a quem devemos servir apenas por medo de um castigo atroz e eterno.

Também não é um psicopata, capaz de nos condenar a um sofrimento de fazer inveja a um Vlad, o Empalador.

Tampouco é um ser odioso e amargurado, que mais parece um bezerro de ouro, moldado à semelhança desses sepulcros caiados.

Deus é todo amor e misericórdia. É um criador apaixonado pela vida. E o Seu coração jamais será um rio lamacento de intolerância e rancor, como tais pastores insistem em pregar.

Peço que Deus me perdoe por julgar, já que só a Ele compete julgar.

Mas penso que esses pastores nem sequer acreditam Nele. Apenas se utilizam de Seu nome para enganar e enriquecer.

Querem é usurpar o lugar de Deus, certos de que não existe vida após a morte, e de que jamais prestarão contas por todo o mal que andam a semear.

Tais pastores, por onde quer que passem, deixam uma trilha de ódio, violências e perseguições.

Então, como é que podem ser de Deus?

Como é que podem externar a Palavra Divina; estarem repletos do Espírito Santo, quando ignoram o principal, que é o amor?

“Misericórdia quero, e não sacrifícios”, disse o Senhor.

E “pelos frutos os conhecereis”, disse Jesus.

E foi também Jesus quem nos revelou quais os principais mandamentos:Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento; e ao teu próximo, como a ti mesmo”.

E amar alguém como a nós mesmos significa desejar para ele o mesmo respeito e dignidade que queremos para nós. Significa olhar o outro como criatura do mesmo Deus que nos criou, e com o mesmíssimo direito à vida e à felicidade.

Não, meus queridos: quem ama a Deus não vive a incitar o ódio, para se encharcar no sangue de irmãos.

Sangue de gays, perseguidos e assassinados por serem gays.

Sangue de negros, que morrem de fome, diarreia ou “bala perdida”, por vezes, ainda na infância.

Sangue de mulheres, humilhadas, espancadas e assassinadas por misóginos.

Sangue de homens e mulheres, crianças e idosos, trucidados ao lutarem por um pedaço de chão.

É aquilo que fazemos ao nosso semelhante, e a toda a Criação Divina, a testemunhar sobre quão próximos ou distantes estamos do Criador.

De nada adianta viver a gritar “Aleluia” ou até a acompanhar procissões de joelhos, quando se é incapaz de dividir até um pedaço de pão com aqueles que têm fome, ou de respeitar aqueles que são diferentes.

Temos é de compreender que o corpo não passa de uma vestimenta de pó a aprisionar o Espírito; Espírito que terá de seguir de vida em vida, até conseguir postar-se diante de Deus, sem abaixar os olhos de vergonha.

Não, não existe essa coisa de “lago de fogo e enxofre, onde haverá choro e ranger de dentes”.

E se você se chegou a Deus apenas por medo do inferno, está no caminho errado.

Isso não passa de uma alegoria sobre o sofrimento do Espírito, quando se encontra distante do Senhor.

E não porque Deus o torture, eis que Ele também não é um torturador.

Mas porque o Espírito necessita de Deus da mesma forma que o corpo necessita de água e de ar.

Só em Deus o Espírito reencontra a paz. E a ânsia de estar com Ele, de retornar aos braços Dele é, sim, como um “arder em chamas”, um “sofrimento infernal”.

Ao contrário do que imaginam tais pastores, Deus jamais deixará de estender as suas mãos para nós, por mais imperfeitos que sejamos. Ele zela por nós, a nos guardar em todos os nossos caminhos.

É Dele a mão forte que nos levanta, a cada queda tão humana. É Dele a mão terna que nos afaga, quando tudo nos parece dor.

E de nós o que Ele espera, tão somente, é que possamos abrir o nosso coração ao amor, o substantivo de toda a Criação.

Amar a Deus, por toda a Sua glória, pode parecer fácil.

Mas não há como amá-Lo de verdade, sem amar ao nosso semelhante e a tudo o mais que Ele criou.

E esse, em verdade, é o grande desafio que se coloca diante de nós.

E que se coloca, inclusive, entre nós e o Criador.

FUUUUUIIIIIIII!!!!!!!!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Obrigada, mamãe!






A maior herança que minha mãe me deixou foi a solidariedade.

Quando criança, cansei de ver mendigos batendo na porta de casa. E nunca vi nenhum deles sair de lá sem um prato de comida.

Mamãe era assim: solidária e temente a Deus. E também caçoísta e teimosa como ela só...

Penso que foram tais características que a ajudaram a superar, sem um pingo de amargura, os inúmeros obstáculos que enfrentou.

Papai morreu muito cedo e mamãe teve que criar sozinha os sete filhos, alguns, então, crianças ou adolescentes.

Para aumentar o caixa, fez até um curso por correspondência e passou a fabricar perfumes.

Era uma mulher muito inteligente, que poderia ter sido muito mais, se tivesse estudado.

Mas os pais dela investiram apenas na educação dos filhos homens – os dois cursaram Direito. Já as filhas mulheres foram preparadas apenas para casar.

É claro que isso criou muitos pontos de atrito entre mim e minha mãe, já que me recusei a seguir por esse caminho.

Nunca quis ser apenas a mulher de alguém; a dona de casa dos chazinhos beneficentes; a esposa de algum “doutor”.

Mas ao longo do tempo a gente foi se aceitando. E ela até brincava dizendo que eu era “uma viúva de dez maridos”, quando se referia a essa teimosia que também me legou.

Mamãe adorava política e continuou a votar ainda bem velhinha, mesmo quando já nem precisava mais.

Há uns anos, minha irmã, Tita, costumava rir quando eu chamava mamãe de primeira dama de Anajás.

Meu pai foi prefeito e, talvez, o único deputado estadual eleito por aquele município, até hoje um dos mais miseráveis do Brasil.

E eu brincava com mamãe, convidando-a para que fosse comigo até Anajás, a fim de recuperar a “herança política” do papai...

Tita morreu em abril de 2012.

Sílvio, outro de meus irmãos, em 2014.

Foram duas perdas, de uma dor lancinante, que abalaram um bocado a eterna primeira dama de Anajás.

Ontem, ela partiu, deixando para trás a menina caçoísta que, afinal, nunca deixou de ser.

A menina que a vida maltratou tanto, mas que, um dia, deve ter sonhado todos os sonhos do mundo...

Nos banhos de rio... Nas árvores em que subia, para saborear a fruta no pé... Nos quintais onde corria, com o vento a lhe acariciar os cabelos negros e ondulados...

Não, em verdade aquela menina não partiu.

Ela vive em mim e em cada um dos filhos que gerou.

Vive nos netos e bisnetos. Vive em todos aqueles que a sua bondade, um dia, encantou.

Aquela garota apenas fez uma breve parada nos braços de Deus, o Deus que tanto amou.

E, quem sabe, voltemos a nos encontrar em outras vidas, a correr por campos a perder de vista, a sonhar todos os sonhos do mundo no perfume de uma flor.

Siga em paz, mamãe!

E muito obrigada por me fazer quem sou.

Pra senhora, até que a gente volte a se encontrar:


quarta-feira, 4 de maio de 2016

O direito à cusparada



A inversão de valores é tamanha neste Brasil que há gente mais indignada com cusparadas do que com um golpe de Estado e com o avanço do fascismo.

Aconteceu primeiro quando Jean Wyllys cuspiu em Bolsonaro:  muitos reclamaram da cusparada, mas se “esqueceram” da homenagem de Bolsonaro a um torturador.

Acontece agora com a cusparada de José de Abreu: novamente, muitos reclamam do cuspe, mas se “esquecem” das ofensas dirigidas ao ator (e a mãe e a mulher dele) pelo digníssimo casal.

Aqueles que reclamam do cuspe fingem não ver que esse golpe de Estado reúne tudo o que de pior existe no Brasil: racistas, homofóbicos, misóginos, pentecostais endemoniados, ruralistas e delegados que pretendem resolver à bala todos os problemas sociais.

Gente que não se contenta com simples cusparadas: quer é colocar no pau de arara todos aqueles que “ousem” defender a Democracia.

Gente que, há anos, incentiva o ódio e é corresponsável pelos espancamentos e assassinatos de centenas, milhares, de mulheres, negros e homossexuais, em todo o país.

Bem vistas as coisas, as cusparadas dos democratas têm sido até muitíssimo civilizadas, perto do ódio que se alastra em nossas ruas.

São adolescentes, mulheres, jovens, idosos, cadeirante, levando socos, pontapés, quando participam de alguma manifestação, ou simplesmente quando usam alguma coisa vermelha, ou expressam uma opinião.

É mãe, com bebezinho no colo, levando pedradas e ouvindo toda sorte de palavrões, só por usar um sling vermelho.

É médica se recusando a atender bebê, só porque a mãe dele é petista.

É criança de vermelho sofrendo bullying na escola.

É sede de partido de esquerda sendo depredada.

E os atentados ocorridos, ou em gestação, contra dezenas, centenas, milhões de brasileiros?

Como o projeto aprovado em Alagoas (e com similares em vários estados e até no Congresso) proibindo professor de emitir opinião em sala de aula.

Como o Estatuto da Família, que nega aos homossexuais (e às crianças que eles adotam) o direito básico de ter família.

Como o projeto que pretende obrigar mulher a ter filho até de estuprador.

Como a redução do conceito de trabalho escravo, para que trabalhadores sejam submetidos a jornadas exaustivas e a condições de trabalho degradantes (ou seja, colocados a trabalhar 14, 16 horas por dia; a viver em cubículos, sem condições mínimas de higiene; a beber da mesma água que bois e cavalos; a trabalhar por um prato de comida).

Como o fim do processo de licenciamento ambiental, que tende a provocar desastres inimagináveis, até maiores do que Mariana.

Como a terceirização da atividade-fim das empresas, que reduz salários e suprime direitos.

Como o desconto salarial até da pausa do trabalhador para ir ao banheiro.

Para os indignados com as cusparadas, porém, tudo isso parece “menor”.

Grave mesmo é cuspe na cara, “violência insuportável e covarde”.

Mais do que jogar pedra em mulher com criança de colo. Mais do que espancar cadeirante. Mais do que tentar linchar adolescente. Mais do que escravizar trabalhador. Mais do que submeter homossexuais a toda sorte de violências e humilhações.

No fundo, o que tais indignados gostariam é que aceitássemos passivamente tudo isto: porradas, xingamentos, subtração de direitos, avanço do fascismo, golpe de Estado.

Só assim, aos olhos deles, seríamos “dignos”, “nobres”, “educados”.

Até porque, só assim, eles não teriam de revelar a sua verdadeira face; o tipo de sociedade que, no fundo, estão a defender.

É que o fato de reagirmos os obriga a tomar posição. E eis que todos os veem a marchar lado a lado com Bolsonaro, Eduardo Cunha, Michel Temer, Malafaia, Ronaldo Caiado, Marco Feliciano.

Pois é: a indignação com as cusparadas é apenas um jogo de cena, um subterfúgio.

Porque o que os incomoda de verdade é o retrato, já agora sem máscaras, que deles ficará para a posteridade.

Afinal, vamos e convenhamos, bem mais preocupante seria a lei de talião.

Por isso, queira Deus que a reação a tamanha violência continue restrita ao simbolismo de uma bela cusparada.

FUUUUUIIIIIII!!!!!!

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Há pouco, noticiam as redes sociais, uma manifestante foi baleada, durante ato do MTST, em São Paulo. O tiro foi disparado pelo motorista de um carro que passava no local.

Mas isso, é claro, também é bem menos grave do que as nossas cusparadas, não é? 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Jatene faz palestra para o MP e defende punição exemplar para corruptos. Logo ele, né?



(Foto: Antonio Silva/Agência Pará)


A atuação do Ministério Público no combate à corrupção é o tema do congresso que reúne promotores e procuradores de Justiça, de toda Região Norte, em Belém.

O governador do Pará, Simão Jatene, proferiu, ontem, a palestra inaugural do encontro.

Falou sobre a relação entre ética e política.

Logo ele, acusado pelo próprio MP de receber propina da Cerpasa.

Logo ele, acusado pelo próprio MP de turbinar a concessão de cheque moradia, para se reeleger. 

Logo ele, que tem entre os seus especialíssimos assessores até pessoas condenadas a devolver milhões aos cofres públicos.

Coragem? Cinismo?

Bem mais que isso, a certeza de impunidade.

Afinal, ele distribui assessorias e favores a rodo, justamente para que as instituições, que nem cadelas amestradas, comam em suas honradas mãos...

Daí que não é nem de estranhar o suposto estilo kamikaze de Jatene, ao defender punição exemplar para todos os envolvidos em corrupção.

Sabe que não pega nada com ele, nem com o seu todo poderoso sobrinho, Eduardo Salles, dono de impressionante fortuna, cuja origem, a bem dizer, é o Vigésimo Segredo de Fátima...

Ainda mais estarrecedora, porém, foi a reação do presidente da Associação do Ministério Público do Pará, Manoel Murrieta, às declarações de tão enrolado governador.

“Ele (Jatene) nos traz informações da situação do Estado e da crise nacional brasileira, e isso traz para o congresso mais uma provocação para a nossa formação e desafios”, afiançou.

Por isso, caro leitor, não estranhe se, no próximo congresso, o Ministério Público convidar como palestrante o deputado Eduardo Cunha ou até o Fernandinho Beira- Mar.

Ambos, certamente, também trarão muitas informações e provocações para a formação e desafios do nosso tão vigilante MP.

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Confira nos quadrinhos (clique em cima deles) a veracidade desse surreal acontecimento: