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domingo, 1 de junho de 2008

Vale



Você conhece a miséria
produzida pela Vale?




Cabocla, paraense da gema, senti-me profundamente ofendida com toda essa “rastejança” em torno do presidente da Vale, Roger Agnelli.



Fico me perguntando quanto é que ele pagou – se é que não se tratou de puxa-saquismo puro e simples – pelo “mérito” que recebeu da Fiepa, diz que em nome do povo do Pará.



Ora, o que se comenta, nos bastidores da imprensa, é que esse senhor, se pudesse, levaria daqui a Serra dos Carajás, só para não ter de olhar para essa “sub-raça”, que somos nós, os paraenses.



Mal educado, arrogante, sempre olhando de cima para essa “indiaiada braba” daqui, Agnelli parece imaginar que nos faz um “imenso favor” quando nos deixa algumas “miçanguinhas” e “espelhinhos”, em troca das montanhas de riqueza que subtrai ao Pará e aos paraenses.



Lembro que, em 2000 ou 2001, trabalhava na Secretaria Especial de Produção. Na época, os técnicos faziam um esforço tremendo para convencer a Vale a contribuir com R$ 500 mil por mês (vejam só: R$ 500 mil por mês!...), para um fundo de verticalização mineral, se não me falha a memória.



Recordo que não havia o que convencesse a Vale; as propostas iam e vinham, o tempo passava. E olhem que esses R$ 6 milhões anuais representavam, como até hoje representam, uma ínfima parcela dos preciosos impostos que a Vale sonega aos paraenses, porque os nossos governantes permitem que seja assim.



Lembro, também, das 30 mil casas populares prometidas pela mesmíssima Vale. Vejam só: quanto é que dariam essas 30 mil casas? R$ 900 mil? Um bilhão? E de quanto é que foi mesmo o lucro da Vale, só no ano passado, às custas das nossas riquezas?...



Mas, nem mesmo isso saiu. Porque a Vale e Agnelli se sentem tão senhores do Pará que fazem de besta, impunemente, até aos nossos governantes...



Óbvio que o “mérito” conferido a Agnelli foi o desagravo da vassalagem de sempre, pelos recentes bloqueios à ferrovia “dele”, que, por um desses “absurdos da natureza”, passa dentro das terras da indiaiada braba...



É claro que não concordo com as motivações que podem estar por trás desse bloqueio. E, apesar de reconhecer a importância histórica do MST, para quebrar a estrutura latifundiária deste país, divirjo de seus métodos.



Mas, como paraense, naquele caso específico, ao ver aquele bloqueio grandioso, senti uma vontade danada de estar lá, também, devidamente paramentada com as cores da bandeira do meu, do seu, do nosso Pará...



A Vale nos deve muito mais do que “miçanguinhas” e “espelhinhos”, senhor Agnelli! É só dar uma volta na periferia das cidades da área de influência dos projetos da Vale, para se ter idéia do quanto essa empresa nos deve, afinal.



Na periferia dessas cidades, longe da propaganda cara e enganosa da Vale, a nossa gente vive que nem bicho: sem água, sem luz, sem saneamento, sem segurança, sem escolas, sem postos de saúde, espremida em barracos horrendos, que não servem nem para abrigar os bem tratados animais de estimação dos Agnelli da vida!



São paraenses que aqui nasceram ou que para cá vieram, que vivem aquela “vida Severina”, tão bem descrita pelo grande poeta João Cabral de Melo Neto: a vida Severina da qual se morre de velhice, antes dos 30; de emboscada, antes dos 20; de fome, um pouco por dia...



Tal miséria, senhor Agnelli, não nasceu no Pará. Ela vem sendo “importada”, ao longo de décadas, no mesmo trem que leva daqui as nossas riquezas.



É uma legião de deserdados, em busca do Eldorado da propaganda enganosa da Vale, na qual as crianças são todas gordinhas e sorridentes e os trabalhadores têm o respeito que merecem, como acontece em muitos países do primeiro mundo.



Que brincadeira de mau gosto com a miséria da nossa gente!... Esse universo bonitinho só existe lá em cima, na Serra, no “admirável mundo novo” criado pela Vale, para apartar os “eleitos” da convivência com o “povinho do nariz furado”, que somos todos nós...



É por isso que me sinto profundamente ofendida com essa homenagem a Roger Agnelli. E creio que nós, os paraenses, deveríamos até encaminhar abaixo-assinado a Fiepa, a dizer-lhe isto: que não autorizamos, de maneira alguma, a concessão, em nosso nome, de qualquer honraria - qualquer que seja! - a esse cidadão e a essa empresa.



E penso mais: penso que os paraenses deveríamos, sim, começar uma campanha, via internet, do tipo “Você conhece a miséria produzida pela Vale?”



É anexar fotos das periferias das cidades da área de influência da Vale e fazer correr o mundo, para mostrar ao mundo que enquanto essa empresa lucra bilhões e bilhões as nossas crianças morrem de fome.



Que, enquanto essa empresa extrai toneladas e toneladas de minério daqui, as nossas florestas vão sendo destruídas pela pobreza, que é território fértil da manipulação e da ignorância; e pela ambição ensandecida da bandidagem latifundiária, que age livre, leve e solta, porque faltam recursos para incrementar a fiscalização da floresta – e boa parte dos recursos públicos que serviria para isso é engolida pelas isenções fiscais concedidas a empresas como a Vale.



A Vale e outras de seu perfil são empresas socialmente parasitárias. É como parasitas sociais, portanto, que devem ser tratadas. E não como merecedoras de algum “mérito”.



Aliás, fico imaginando o Agnelli, lá na casa dele, no Sudeste do país, longe das câmeras: como não deve ter gargalhado do “latãozinho” que lhe foi concedido, com toda a pompa e circunstância, pela vassalagem...



Para ele, todo aquele beija-mão e salamaleques e rega-bofe deve ter saído bem mais barato do que se fosse obrigado a devolver uma parcela decente da riqueza que subtrai daqui.

5 comentários:

Anônimo disse...

Nós, paraenses, precisamos continuar lembrando para essa turma da Vale do Rio Doce, uma só frase:
Sem o Pará, a Vale não vale nada.
Vic Pires franco
Deputado Federal

Raphael Teixeira disse...

Esperava mais da governadora no que diz respeito a Vale (e a muitas outras coisas também!), especialmente depois do seu voto pela reestatização no referendo extra-oficial feito por movimentos sociais. Sinto falta de informação em relação a quanto o estado perde com os subsídios burros que dá a essa empresa, como se ela tivesse condições de sair com a serra dos Carajás na cabeça se assim o desejasse.

Ana Célia Pinheiro disse...

Deputado:

Agradeço a sua visita, que muito me honra. E o senhor tem razão: quem vale, não é a Vale – é o Pará. O estado e o povo do Pará.

Confesso que, como muitos cidadãos paraenses, desconhecia a situação em que vive boa parte das populações das cidades da área de influência da Vale.

Sabia, é certo, pelo “ouvir dizer”: pelos números, estatísticas, estudos, aos quais tive acesso.

Mas, uma coisa são os números. Outra – muito mais pungente – são as gentes de carne e osso.

Muito antes do “latãozinho” da Fiepa, já havia resolvido escrever sobre isso.

Porque me ficaram impressas na alma as conversas com essas pessoas e as “paisagens” que vi: na verdade, uma antevisão do inferno.

E, de jornalista para jornalista, acho que é por isso que gosto tanto de reportagem: isso me dá a possibilidade de conversar com essas pessoas, de ver como vivem. E, de alguma forma, colocar-me a serviço delas.

É bom sentir que a gente consegue – nem que seja de vez em quando - devolver à sociedade um pouquinho do muito que ela nos deu...

Dê lembranças, um forte abraço, na colega Valéria.

E diga-lhe que eu, cidadã, espero, apenas, a hora de votar nela.

Porque tenho certeza de que Valéria fará muito pela nossa Belém.

Tenho certeza de que a sensibilidade, a inteligência, a autonomia de Valéria, essa “catitinha” bacana, ajudarão a trazer de volta a esperança a esta cidade tão sofrida.

Se estaremos juntos, daqui a dois, três, quatro, seis anos, isso é outra coisa, né, deputado? Como o senhor bem sabe, aliás...

Mas, neste momento, estou convicta de que Valéria é o melhor para Belém: a força e a doçura capazes de derrotar essa quadrilha, esse câncer, que se apossou da nossa amada cidade...

Sou voto cativo. Não faço propaganda. Apenas, cidadã, expresso, orgulhosamente, meu voto. E assim, quem sabe, serão todos os votos, quando o Brasil for, de fato, uma democracia.

Como mulher, sinto um orgulho danado de ter um mulherão no comando no meu estado. E quero, sim, ver outro mulherão no comando da minha cidade.

Adoro vocês, homens: ao longo da minha vida vocês têm sido, realmente, a minha perdição...

Mas, tenho cá com meus botões que nós, mulheres, até por uma questão biológica, somos infinitamente mais inteligentes. E isso inclui, é claro, a política.

Vocês preferem, de pronto, a guerra; nós, fazemos o possível e o impossível para unir, para agregar.

Vocês precisam sempre provar que são machos. Nós, definitivamente, não precisamos provar nada a ninguém.

Vocês querem ser os maiorais, os bonzões. A nós preocupa, antes, os nossos meninos e meninas.

Temos, até por uma necessidade de sobrevivência da espécie, muito mais pendor para olhar ao redor, para ver as necessidades do mundo em que vivemos.

O nosso olhar está sempre aprisionado no outro, mas, não para guerrear: antes, para proteger, para colaborar.

E sempre nessa perspectiva, já que não possuímos a força bruta, mas, inteligência: como poderemos negociar isso?

Bacana viver para ver o meu estado e a minha cidade comandados por mulheres. Principalmente neste Pará, onde as mulheres, infelizmente, ainda são vistas como “coisas” a usar...

Óbvio que não estarei na equipe da Valéria, caso ela ganhe a Prefeitura: ela se cerca tanto de mulheres que chega a me dar alergia...

Mas, reconheço que ela tem razão. Na equipe dela até o pessoal de planejamento e finanças veste saias. E isso é bacana. Pra lá de bacana...

Ana Célia Pinheiro disse...

Oi, Raphael:

Obrigada pela visita, sinta-se em casa e volte sempre.

Também acho que é preciso repensar essa história da privatização da Vale. Aliás, há pouco, conversava sobre isso com alguns amigos.

Nunca engoli essa história de privatizar, por um dedal de mel coado, uma empresa como a Vale, que sempre foi superavitária.

Principalmente, porque, mesmo depois de privatizada, ela manteve privilégios de exploração mineral, que deveriam ter sido submetidos a processo licitatório. E talvez que isso trouxesse ao Pará os benefícios que hoje vive de mendigar, para fazer frente aos graves problemas sociais oriundos da atividade mineradora.

Desconheço esse voto da Ana. Mas, se foi assim, creio que é preciso cobrar dela uma posição sobre isso.

Para mim, o que não dá mais é a continuidade dessa postura acachapada. Os minérios estão no Pará; é no Pará que se instala a miséria gerada pela exploração mineral. Então, que se devolvam ao Pará recursos suficientes para fazer frente às demandas sociais criadas por isso.

Estava olhando para toda essa miséria, Raphael, e pensava: bastaria um bocadinho só de ordenamento dessa ocupação territorial, para que não tivéssemos as dramáticas resultantes que temos.

É verdade que o fluxo migratório é enorme: a população do Pará, se não estou enganada, cresce o dobro da média nacional, justamente em decorrência da migração.

Mas, com um bocadinho de planejamento, daria para ir pegando essas populações e ir assentando em conjuntos habitacionais, com água, luz, saneamento. Daria, em suma, para de alguma forma ordenar esse crescimento. O que seria mais barato do que fazer subir água e luz para os morros, por exemplo, e pulverizar escolas e postos de saúde de menor porte.

Mas, para isso seria preciso ter gestores eficientes. E como ter gestores eficientes, fazer disso uma exigência básica, neste mar de ignorância gerado, justamente, pela miséria?

Por outro lado, seria preciso criar “barreiras” de contenção para esse fluxo. É claro que o ir e vir é livre, em todo o território nacional. Mas, me parece que seria mais inteligente colocar assistentes sociais nos pontos de desembarque dessa massa de desvalidos, para, se fosse o caso, mandá-la de volta, com passagem e cesta básica, como fazem muitos prefeitos que a mandam para cá...

Isso, aliás, foi pensado pelo Haroldo Teixeira, na Seteps, mas não foi adiante, infelizmente.

Vou tentar ir atrás dessa informação sobre os subsídios de que você fala, e que, aliás, no caso da Vale, são anteriores a Lei Kandir.

Creio que precisamos, sim, fazer esse balanço.

E ver o seguinte: a Vale é uma empresa privada, né? Os recursos minerais estão no Pará, né? Os problemas sociais são gerados aqui, né? Então, por que não fazermos uma concorrência para a exploração desses minérios, contemplando, justamente, maiores benefícios para a nossa gente?

Ora, o PT governa o Pará e o Brasil. Qual o problema, então?

Ou será que a Vale tornou-se um monstrengo tão poderoso, um Estado dentro do Estado, que faz tremer a tudo e a todos?

Se assim for, mais uma razão para cortar-lhe as asas. Porque a nenhuma empresa, numa democracia, é justo, é lícito ser maior que o Estado.

Lembro de que, há uns anos, discutia com um amigo a possibilidade de fazermos o seguinte documentário: pegaríamos o trem da Vale, em São Luís, e viríamos acompanhando duas ou três famílias, até o desembarque no Pará.

Faríamos a expectativa e a frustração dessa expectativa: a miséria que aguardava essa massa de fumados, neste “paraíso” chamado Pará...

Veríamos a busca de um lugar pra morar dessas famílias, e aquelas periferias horrorosas onde elas teriam, enfim, de se abrigar, apesar de toda essa propaganda enganosa da Vale.

Pensei até em fazer desse documentário uma obra de arte, sabe, Raphael? Alguma coisa que até fosse feita em preto em branco, para transmitir mais profundamente o sentido de toda essa viagem infernal.

Mas, sabe o que foi que esse amigo me disse? Que não dava para buscar financiamento para isso no Brasil. Simplesmente, porque não haveria ninguém com coragem suficiente para enfrentar a riquíssima Vale.

E, se houvesse, no caso do financiamento, não haveria ninguém para exibir – e muito menos para divulgar isso.

Porque a Vale COMPRA todos – e são TODOS – os veículos de comunicação do País.

Quer dizer, para mostrar os malefícios da Vale, que devem se estender, mesmo ao campo ambiental – quantos acidentes não terão sido escondidos ou minimizados pela imprensa? – é preciso recorrer ao exterior.

Vejam só, a que ponto, nós, paraenses e brasileiros, chegamos!...

Então, é preciso, sim, “podar” as asas da Vale. E fazê-la tornar-se uma empresa socialmente contributiva – e não parasitária, como é hoje.

Mas isso só acontecerá se fizermos disso um compromisso de todos nós.

Os meios, nós temos, que são as novas tecnologias de informação.

Falta, apenas, que tenhamos a determinação de agir.

Mais uma vez, obrigada pela visita, Raphael!

Anônimo disse...

Oi Ana Célia,
Obrigado por suas palavras. Você disse tudo, e mais um pouco. Falou com o coração, o que é bem melhor do que com a razão. Vem da alma.
Quem vai ficar mais feliz ainda é a Val, por suas lindas palavras.
Sou suspeito, mas sempre digo que amar a Valéria é muito fácil.
Um beijo carinhoso, e logo logo nos encontramos pela vida...
Vic