Alepa

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terça-feira, 21 de maio de 2019

Delegacia intima Perereca em investigação de lavagem de dinheiro. Ué, por que não intimam o Jatene?






Pra você ver como é que são as coisas, caro leitor.

Estava eu aqui neste barraco, que chamo de casa e que nem é meu, quando dou de cara com uma viatura da polícia.

Aí, o investigador, escrivão, sei lá o quê, me entrega uma intimação da delegacia especializada em lavagem de dinheiro, pra que eu compareça pra depor, na próxima quinta-feira, às 10 da manhã.

O documento diz que é pra instruir um procedimento policial, mas não informa o porquê, cargas d’água, de estar sendo chamada pra isso: se sou testemunha, se sou acusada, e do que se trata, afinal.

Diz apenas que tenho de estar lá. E ainda me ameaça de autuação por crime de desobediência, se não comparecer.

Moro em um condomínio. E agora, como é que fica a minha cara (que não tenho o Perobex nem do Zenaldo, nem do Orly), com a delegacia de lavagem de dinheiro batendo na minha porta?

E aí, fico pensando comigo: por que é que esses caras não vão bater na porta da mansão do Jatene, que deixou um rombo de R$ 1,5 bilhão nas contas públicas, segundo o novo governo?

Por que é que não vão bater na porta da mansão do Beto Jatene, que pagou R$ 13 milhões a uma seguradora? (Leia aqui: http://pererecadavizinha.blogspot.com/2018/05/filho-de-jatene-paga-r-13-milhoes-uma.html ).

Por que é que vêm bater na porta deste barraco, que está quase desabando na minha cabeça, de tanta infiltração?

As paredes todas cheias de rachaduras e de reboco caindo; um monte de lajotas soltas e quebradas no piso; forro de pvc todo encardido; 150 paus na conta bancária, e a delegacia de lavagem de dinheiro vem bater aqui.

Deve de ser pra matar o delegado de susto, só pode!

Mas o pior é que vou ter de perder uma manhã inteira de trabalho, pra sair daqui, quase Marituba, pra ir lá em Belém.

E quem é que paga esse prejuízo, já que, se não trabalhar, não tenho dinheiro nem pra comer?

É claro que esse negócio tem a ver com alguma reportagem que escrevi pro Diário do Pará ou até pra Perereca.

E esta é outra coisa profundamente irritante: parece que tudo que é autoridade adora chamar jornalista pra depor.

Tem denúncia? Chama o jornalista! Achou alguma coisa? Chama o jornalista! Não achou nada? Chama o jornalista!

É impressionante isso!

Os caras sabem que nós, jornalistas, temos DIREITO CONSTITUCIONAL a manter sigilo sobre as nossas fontes.

E ainda que não houvesse essa garantia, o dever, a ética profissional, nos obriga a manter o sigilo da fonte, ainda que sob ameaça de bala.

Não tem como revelar fonte! Esse é o tipo de coisa que não se cogita nem nos pesadelos de qualquer repórter realmente digno dessa profissão.

Além disso, todas as minhas reportagens são calcadas em documentos: é balanço geral do estado, é número do SIAFEM, é diário oficial, editais licitatórios, e por aí vai.

Então, por que não requisitar aos órgãos públicos essa documentação?

No fundo, esse depoimento é apenas uma tremenda perda de tempo, tanto pro delegado quanto pra mim.

E ainda tem a chateação da delegacia de lavagem de dinheiro na porta da minha casa – vai virar comentário de tudo que é vizinho fofoqueiro!

É por essas e por outras, caro leitor, que tô tentada a mudar radicalmente a linha das minhas reportagens.

Tô pensando em encher o blog de ariru, como muita gente faz, e começar a escrever um monte de matérias elogiosas, porque assim, quem sabe, até a Academia Paraense de Letras e o Tribunal de Justiça me concedam algum desses títulos aí de benemerência.

Porque jornalismo investigativo no Brasil, e principalmente no Pará, é só dor de cabeça!

É um monte de inimigos poderosos, é intimação da Justiça e de delegado de polícia, é xingamento, é ameaça, é processo até de advogado, e dinheiro que é bom, neca de pitibiriba!

(Se duvidar, já deve de ter por aí até um monte de bonecos meus, tudo espetadinhos com alfinetes...)

Uma vez, entrevistei um cara acusado de chefiar uma quadrilha de fraudadores do DPVAT e que era dono de uma empresa pra quem o Jatene queria entregar um contrato de R$ 200 milhões, pra uns cursos de inglês que só serviam pra desviar dinheiro do FUNDEB (Leia aqui: http://pererecadavizinha.blogspot.com/2018/04/suposta-quadrilha-qual-jatene-tentou.html ).

Aí, o cara disse mais ou menos assim, todo indignado: “Mas vocês não me deixam trabalhar! Vocês não querem que eu trabalhe!”

Pois é. Tenho mais é de tomar vergonha na cara e deixar essa gente “trabalhar”...

FUUUIIIII!!!!!!

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