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domingo, 10 de fevereiro de 2008

Pensando, Pensando



Eternamente “Foca”




I


No final de abril, completarei 28 anos de profissão.

Mas, o esquisito, é que, mesmo depois de quase três décadas, continuo uma espécie de “foca”: continuo a sentir a mesmíssima ansiedade de um iniciante, em relação ao “furo”, à notícia exclusiva...

O “furo”, para mim, é meta cotidiana. E não importa o esforço envolvido em obtê-lo: se terei que disparar mil telefonemas, implorar a um e outro, conchavar, ou até me deslocar aos confins do inferno...

Não importa se levará um dia, dois, uma semana, um mês: ao farejar a notícia, obtê-la se transforma em obsessão.

E a ansiedade só cessa, quando, ao ler o jornal do dia seguinte, constato que o adversário “dançou”: quer dizer, foi “furado”. E, de preferência, em letras garrafais, na manchete do dia...

Creio que todos os repórteres, dignos dessa qualificação, somos assim: uns “escavadores militantes e juramentados”...

Vamos fundo na notícia, a tentar obter a informação exclusiva e a tentar abordá-la sob todos os ângulos possíveis, para não deixar espaço de manobra ao adversário.

Creio que a notícia é, para nós, uma espécie de encantamento: o amor que não envelhece, jamais...



II


Estive a vagar, dia desses, pelo site do STF. E, aparentemente, a tendência é que o Supremo venha, de fato, a abolir a obrigatoriedade de diploma específico, para o exercício da profissão de jornalista.

Nada mais correto, frente às exigências democráticas e constitucionais.
Deverá prevalecer, enfim, a Lei. E não, simplesmente, os interesses corporativistas, numa área tão importante para a sociedade, como é o jornalismo.

Mesmo assim, não sou contra os cursos de comunicação per si. Sou contra a obrigatoriedade do diploma, o que é bem diferente.

Creio que os cursos de comunicação são importantes – e eu mesma, apesar de todo esse tempo de jornalismo, na primeira oportunidade que tiver, vou fazer um.

Confesso que, até agora, só não fiz o curso por falta de dinheiro, já que a UFPa está descartada da minha vida, pelas dificuldades de locomoção que tenho.

Mas, essa é uma das metas em minha vida: até porque não quero levar para o túmulo, só para mim, tudo o que aprendi nesta profissão.

Quero ajudar a formar novas gerações de jornalistas. E acho, sim, que a teoria é importante para isso.

Mas, também creio que é preciso que esses cursos não sejam meros caça-níqueis.


III


Todo santo dia eu me pergunto o que é ser jornalista.

E eu fico pensando que esta profissão tem um “quê” de Filosofia.

Afinal, quem se forma em Filosofia é “filósofo” – ou não?...

Jornalista que é jornalista tem de ter “faro” – e essa é condição sine qua non, seja para ser repórter, seja para ser editor, assessor de imprensa, ou o que quer que seja.

“Faro” é a capacidade endógena, genética, para “intuir” o que é notícia.

Mas que, como toda capacidade genética, pode ou não ser desenvolvida, a partir da existência ou não de uma estimulação adequada.

Mas, que é notícia? Que é essa res, essa coisa, capaz de, não apenas “vender” jornal, mas de transformar a realidade?

Que é essa res, essa coisa, que interessa viva e igualmente ao cidadão de Batista Campos e ao “cidadão” do Tucunduba – e que oferece “n” desdobramentos, “n” possibilidades de reflexão societária?

Que é essa res, essa coisa, esse “espelho” que permite à sociedade “se ver” – e corrigir erros e avançar?

Obviamente, os patrões da comunicação diriam que, hoje, essa coisa, essa res, tem a ver com um tripé básico: crimes, esportes e mulher nua.

Porque, no fundo, tudo aí, com a abordagem que é dada, se resume à produção de “apêndices jornalísticos”, para a venda da publicidade.


É como se os leitores comprassem os encartes publicitários – que, aliás, obtêm gratuitamente, em qualquer loja de departamentos...

E que a notícia, que abre “as páginas de anúncios”, fosse um mero “detalhe”...

Mas, será que nós, os jornalistas, que temos de ter um compromisso visceral com a sociedade – pois, que essa também é condição sine qua non para que sejamos jornalistas – podemos pensar assim, também?

Que nós, que somos como que os “portadores” desse “objeto místico” que é o espelho social podemos nos dar ao desfrute de encarar a informação, a notícia, como uma espécie de “moldura” da propaganda?

Acredito que não. E no dia em que pensar diferente deixo essa profissão – sem a necessidade de pressão de quem quer que seja, aliás...

Virarei empresária, enriquecerei. Usarei meu talento, como já me recomendou até a minha filha, para, simplesmente, ganhar dinheiro...

E passarei, certamente, uns dias bem bacanas... Com os meus cinco ou seis menininhos, de 20 aninhos, lá pras bandas de Algodoal...


IV


Há uns anos, na guerra de mercado das empresas de comunicação, começou-se a enfatizar, sobremaneira, uma coisa chamada de “projeto gráfico”.

Lembro da primeira vez que tive contato com isso, há uns 15 anos.

Como todos os companheiros jornalistas, fiquei extasiada: afinal, era uma coisa lindinha, perfeita. E até – por que não? – “científica”...

O leitor de fora desse universo, certamente, não imagina o que é isso. Mas eu, da baixa da minha incompetência, tentarei descrever.

Era assim: o neto do bisneto do cachorro do primo - em décimo grau - da empregada do Galileu Galilei teve a idéia de dividir, perfeitamente, as páginas dos jornais.

Nada de mais contra isso. É bacana colocar Economia em Economia, Política em Política, Cidades em Cidades, como já fazíamos de há muito, aliás.

O problema é que os projetos gráficos, para além de lindinhos, eram uma espécie de camisa-de-força da informação.

Vamos definir, para melhor entendimento. Informação é a matéria bruta: alguma coisa que aconteceu, acontece ou acontecerá – o fato, pois. Notícia é o formato, a “embalagem” disso. A forma como se repassa o fato ao leitor.

Claro está, portanto, que a notícia tem de condizer com a informação. Ou seja, que o invólucro tem de ser compatível com o que está dentro.

Até para não ofender quem recebe o “presente” - que é o todo.

E nem diminuir a festa que poderia ser feita ao se receber uma mansão em Aruba, embalada em imundície, por exemplo...


V


Lembro da primeira vez que vi um projeto gráfico.
Quem o trazia para Belém era um sujeito do Sul – como sempre acontece, aliás.

Aliás, penso, hoje, que qualquer desses projetos “inovadores”, no Brasil, deveria ser submetido, em primeira mão, a essa “indiaiada braba” daqui.

Afinal, como temos o “nariz furado” e nada das mesuras das bandas de lá, certamente que detonaríamos, sem qualquer problema, com as imbecilidades que surgem neste país.

As imbecilidades que, pela “finíssima educação” dos nossos irmãos do Sul e Sudeste, acabam, infelizmente, por fazer escola...

De sorte que me lembro daquela ocasião.

Lembro que o sujeito chegou diante de nós que nem o patenteador da roda e do fogo, diante de um punhado de ugas-bugas.

As pessoas – vaticinou o indigitado – compram jornal pela beleza.

As pessoas – ensinou o mestre da tapiocaria – não querem ter essa “problemática” de ler: querem o resumo do resumo, que tempo é dinheiro, na “moderna civilização”.

Logo, num raciocínio dedutivo básico, cometeu ele: notícia tem de ser um “pirão” enxuto. No máximo, dois mil toques (qualquer coisa, leitor, como um terço de uma página de papel A4, totalmente preenchida).

Isso porque, argumentava aquela coisa, as pessoas não gostam de ler.

Aliás, depois daquela palestra “brilhante” eu só fico é pensando por que é que jornais e editoras ainda sobrevivem. E, mais que isso, os blogs, que são a nova onda da comunicação.

Para mim, confunde-se um fato ( o analfabetismo strictu ou latu sensu da sociedade brasileira; é assim que se escreve?) com outro fato: a ânsia de saber, que é intrínseca ao animal humano.

Óbvio que esse saber não é o saber científico. Mas, vai além do mero intuir...

As pessoas querem saber por que é que o posto de saúde não funciona. Por que é que as ruas enchem, se transformam em rios, em dias de chuva. Querem saber por que é que a vizinha ou os vizinhos se comportam dessa ou daquela forma – e por que isso é certo ou errado e por que é que elas não podem, talvez, se comportar assim, também.

Muitas vezes, quando não sabem ler, ou quando não possuem “competência” para decifrar aquilo que lêem, pedem a um amigo ou vizinho que leia.

E compreendem, pois – que a inteligência, no mais das vezes, permanece intacta; falta é a possibilidade de decifrar os signos que chamamos “comuns”.

Mais ainda: o público dos jornais e dos blogs tem, sim, competência lingüística.


VI


Égua, manos, vou parar por aqui, que estou enchendo a cara.

Que, nos últimos tempos, tenho enchido muito a cara.

É que estou sem ter o que fazer. E isso me faz um mal danado...

Pra mim, esse negócio de férias é pra doido, ou pra quem tem muito dinheiro.

Pra uma fumada como eu, inatividade é castigo.

Mas, maninhos, quem gosta de geladeira é pingüim...

Daí que vou começar uma nova fase na minha vida.

Já calcei as chuteiras e tenho passado os últimos dias a experimentar a camisa – que, certamente, vou honrar!...

Mas, hoje, caí na rede, no fundo da rede. Dormi, de dia, coisa que não me acontece.

Durmo umas quatro ou cinco horas – não consigo dormir, mais do que isso.

E nem sequer cochilo: da feita que acordei só vou dormir, novamente, no dia seguinte.

Mas, hoje, dormi, e enrolada no lençol e quase que em posição fetal.

Mas, fiquei a racionalizar: o pior da guerra é o silêncio que a precede.

O tempo em que pensamos as estratégias, enchemos o “paiol” e estabelecemos as linhas de abastecimento.

O tempo em que tratamos de “desumanizar” o outro, o adversário.

Pois, que desde os primórdios da Humanidade é preciso estabelecer o território do “nós” e do “eles”...

É o básico da antropologia.

E eu estou a tentar meter isso na cabeça...

Porque, numa guerra, a gente não pode mirar a perna: a gente mira – e acerta! – o fígado...

E não há esse negócio de “laços” de “emocional”: a gente faz o que é preciso fazer, sem pestanejar.

Porque, pestanejar, numa guerra, significa, quase sempre, derrota.

A gente bate, bate e bate, até o sujeito cair...

Não tem piedade. Não tem essa coisa de dizer: “somos amigos!”.

Quem não tem estômago, não deveria entrar nessa coisa de política.

Mesmo eu, que evito criar laços, como se fosse um mero “condottieri”, agora, fraquejo...

Então, política é para os fortes. A gente faz o que é preciso. Sempre!...

E eu penso: a equipe se partiu. Agora, vamos ver quem é quem...

Vamos, eu contra vocês, né mermo?, meninos...

Eu, novamente, com a minha baladeira velha. E vocês, agora, com “todo o poder”...

Vejamos!... Vamos ver!...

FUUUIIIII!!!!

Um comentário:

Luciane Fiuza disse...

Caramba, se continuares escrevendo (e filosofando) assim desejo que sejas eternamente foca. Sorte da "indiaiada" se nossos jornais tivessem pelo menos 50% do seu quadro de jornalistas, focas do seu porte. E se enchendo a cara deu nisso tudo, vou começar a apurar meu gosto pelo álcool.

Como se diz no meio teatral, desejo muita meeeeerda na próxima focagem. Foca, mira e atira bem.

Abs!

Lu.