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terça-feira, 23 de maio de 2006

Especial 22 de Maio - II

Inhangapi: mais de R$ 6 milhões em
investimentos valorizam terrenos



Em língua indígena a palavra Inhangapi significa “Caminho do Diabo”. Ao contrário do que reza a denominação, porém, o município paraense de Inhangapi, a 90 km de Belém, vem se transformando num local cada vez mais aprazível, graças aos investimentos do Governo do Estado.

Com pouco mais de 8 mil habitantes, o município ganhou, no ano passado, um hospital com 11 leitos, que consumiu cerca de R$ 1,7 milhão. Teve asfaltada a rodovia que o liga a Castanhal e está sendo alvo de projeto para a recuperação, com espécies nativas, da piscosidade de sua rede fluvial.

São excelentes notícias para o empresário castanhalense Eduardo Salles, sobrinho do governador Simão Jatene, que, ao longo de 1997 e 2001, adquiriu, só ali, quase três dezenas de terrenos - cerca de 2.500 hectares - muitos deles situados às margens da rodovia Castanhal/Inhangapi e de rios e igarapés.

Dos 27 terrenos agrícolas, em Inhangapi, já registrados pelo empresário – e alguns só foram legalizados até três anos após a aquisição – nada menos que 11 estão localizados ao longo da estrada asfaltada pelo Governo.

Trata-se de um subtrecho da PA-136, rodovia considerada estratégica, pela administração estadual, para o desenvolvimento turístico do Nordeste paraense.

No rumo norte, a PA-136 segue de Castanhal a Terra Alta e Curuçá, possibilitando o acesso a vários recantos ecoturísticos.

Já no rumo Sul, a partir de Castanhal, a 136 leva apenas e tão somente a Inhangapi.

São 16 quilômetros, repletos de chácaras e fazendas, nos quais a Secretaria Executiva de Transportes (Setran) afirma que gastou cerca de R$ 2,7 milhões.

Além da estrada e do hospital, o Governo do Estado ainda inaugurou, em fevereiro de 2005, uma escola de ensino médio para 900 alunos – um investimento de R$ 1 milhão.

Nada mal para um município situado a apenas 16 quilômetros de Castanhal, uma das locomotivas da Região Metropolitana. E cujo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é superior aos de 83 municípios paraenses. Muitos de difícil acesso e população bem superior a de Inhangapi.


Uma chance para poucos

Há mais, porém. Em Inhangapi, o Governo do Estado também está colocando dinheiro no Projeto Propirá, baladíssimo em sites dedicados ao meio ambiente e ao ecoturismo – aí incluída a pesca esportiva, um dos filões mais lucrativos, dados os valores deixados por seus praticantes, nos locais onde a atividade é desenvolvida.

Idealizado pelo governador Simão Jatene e coordenado por um empresário castanhalense chamado Eduardo Salles, segundo notícias veiculadas pela imprensa, o projeto Propirá pretende recuperar os estoques nativos de pescado de Inhangapi.

Afirma-se que beneficiará algumas centenas de famílias de pequenos pescadores. E provoca tamanho entusiasmo no Governo, que, durante programação da entidade que organiza esses pescadores, teria dito o presidente da Emater, Eduardo Kataoka, conforme o relato de um jornalista: “Aproveitem bem essa chance, porque ela é única. Muitas associações de municípios sonham com um apoio como esse que o Governo do Estado está dando a vocês”.

Novamente, a sorte parece sorrir para o empresário Eduardo Salles, o sobrinho do governador: de seus 27 terrenos em Inhangapi, 11 estão situados às margens do rio Inhangapi e dos igarapés Bacuri e Catendeuaçu – e alguns confrontam, a um só tempo, também, com a estrada asfaltada pelo Governo.

Com repasses de FPM (Fundo de Participação dos Municípios) que atingiram, em 2005, apenas R$ 1.694.000,00, o município de Inhangapi tem a sua atividade econômica fortemente baseada na agropecuária e na extração vegetal.

Cultiva pimenta do reino, arroz, mandioca, milho e frutos regionais, sobretudo o açaí, dos quais é um dos produtores mais expressivos. De acordo com o IBGE, possuía, em 2001, apenas seis empresas de transformação e duas ligadas à agropecuária e extração vegetal. Em 2003, sua frota era de apenas 142 veículos.

E embora ainda viva a placidez dos pequenos núcleos interioranos, já começa a sentir o peso da infra-estrutura, com a elevação dos preços de seus imóveis rurais.


“Não tem terra barata lá”

Hoje, dificilmente o empresário Eduardo Salles conseguiria adquirir propriedades pelos preços que declara ter pagado, em 1997 e 2001 – R$ 339.000,00, por 2.700 hectares de terras, além de terrenos grandes de medidas irregulares, nos municípios de Inhangapi e Castanhal.

Sem me identificar, pergunto a um corretor de imóveis de Castanhal, de origem nipônica, o preço de um hectare de terra agrícola em Inhangapi.

Digo que me interessei pelo negócio por ter um amigo que alega ter comprado terrenos a R$ 5.000,00 e até a R$ 1.000,00.

A resposta, embora em um português quase ininteligível, é bem elucidativa: “Não tem terreno barato lá, não; R$ 5.000,00 só com muita sorte. Primeiro tem que examinar a documentação, ver se tem o terreno. Um lote lá (25 hectares) tá uns R$ 25.000,00 ou R$ 30.000,00. No interior é mais barato, mas, em beira de estrada, não é esse preço, não; é mais alto”.

Faço a mesma pergunta a outro corretor de Castanhal e a resposta vai pelo mesmo caminho: “R$ 5.000,00?!! Por 100 hectares?!! Barato, muito barato. Mas, às vezes, tem colono que não sabe o preço e vende muito barato”. Segundo ele, um lote agrícola – ou seja, 25 hectares – gira em torno de R$ 20.000,00, “se tiver igarapé”.

No Incra, no ano passado, a informação era a de que os valores de referência, para o hectare de terra nua (ou seja, 10 mil metros quadrados sem benfeitorias) estavam em R$ 120,00 (o mínimo), R$ 215,00 (o médio) e R$ 315,00 (o máximo).

Porém, quais as características que determinam o enquadramento da terra no valor mínimo? Um técnico, que pediu para não se identificar, responde: “uma característica seria, por exemplo, a dificuldade de acesso. Outra, a qualidade da terra – topografia, fertilidade e a não existência de aguadas - rios, igarapés e lençóis subterrâneos passíveis de utilização”.

O técnico salienta a infra-estrutura do entorno: “Não adianta nada uma terra que tenha tudo, mas que não tenha como chegar ou sair, ou escoar a produção”. E acentua que os valores fornecidos são apenas uma referência, porque, no final das contas, quem determina o preço é o mercado. Além disso, mesmo os valores do Incra sobem, com benfeitorias, para R$ 175,00 (o mínimo), R$ 320,00 (o médio) e R$ 465,00 (o máximo).

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