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| Jatene em campanha: uma saudade danada do Baronato de Inhangapi... |
Se ainda não vendeu as propriedades que adquiriu, o empresário castanhalense Eduardo Salles deve andar rindo à toa.
O município de Inhangapi, a 90 quilômetros de Belém, diz o jornal O Liberal de ontem (09/04), é uma espécie de novo “Eldorado”: lá, mais exatamente em Vila Pernambuco, o Governo do Estado vai construir um complexo portuário que promete atrair grandes empresas que atuam na Amazônia.
Entre porto, estrada de acesso e distrito industrial, o Complexo Integrado do Guamá poderá consumir R$ 50 milhões dos cofres públicos estaduais.
Very, very good para Eduardo Salles, que parece ter nascido com o rabo virado pra Lua: só na região de Castanhal/Inhangapi, ele adquiriu, entre 1997 e 2001, quase três dezenas de terrenos, situados, na maioria, às margens de estradas e de rios e igarapés.
E tudo a preço de viração: foram 2.700 hectares por declarados R$ 339 mil – ou R$ 125,00 por hectare (dez mil metros quadrados).
Esses R$ 125,00 atualizados pelo IPCA-E, tendo como referência o período entre dezembro de 2001 e o mês passado, equivaleriam hoje a uns R$ 239,00 – o que daria para comprar um celular bem baratinho.
Mas já no primeiro Governo do tucano Simão Jatene, Inhangapi recebeu R$ 6 milhões em investimentos estaduais, que abrangeram até mesmo a recuperação da piscosidade de rios e igarapés.
E tal projeto – vejam só – chegou a ser coordenado pelo sortudo empresário castanhalense, com os seus aprazíveis terrenos à beira de rios e igarapés...
Tudo nos trinques e nos conformes, não fosse por um detalhe: Eduardo Salles é sobrinho em primeiro grau do governador do Estado, Simão Jatene.
E se ainda mantém em seu poder as terras que adquiriu na região de Inhangapi e Castanhal, pode se considerar, desde já, um homem ainda mais rico.
Entre maio e junho de 2006, a Perereca da Vizinha publicou uma série de reportagens mostrando o impressionante enriquecimento de Eduardo Salles, que até 1997 quase nada possuía.
E fez mais este blog: mostrou que, de fato, Eduardo Salles é sobrinho de Jatene, desvendando um segredo até então guardado a sete chaves no coração do poder.
O blog publicou todos os números das matrículas cartorárias dos quase 30 terrenos comprados por Eduardo Salles apenas na região de Castanhal e Inhangapi.
Também mostrou o prédio que Eduardo Salles alugava para a Polícia Civil, em Castanhal (onde funcionou ou ainda funciona a Superintendência Regional do Salgado) e os cerca de R$ 3,5 milhões que a empresa dele, a Engecon, faturou em contratos junto aos governos tucanos.
A Engecon, é claro, estava em nome de laranjas.
Mas o cruzamento de processos na Justiça do Trabalho com certidões cartorárias e diários oficiais do Estado mostrou os laços indisfarçáveis da empresa com Eduardo Salles – ela funcionava, inclusive, na fazenda onde o empresário morava e tinha em seu quadro societário um cidadão que figurou em processos trabalhistas de outra empresa como preposto (representante) de Eduardo Salles.
Na época em que essa série de reportagens foi publicada a blogosfera ainda engatinhava e este blog não possuía nem a metade dos acessos que hoje possui.
Por isso - e tendo em vista o projeto para o porto de Vila Pernambuco - o blog resolveu republicar tais matérias.
E mais: publica alguns dos documentos citados (como certidões cartorárias de compra desses terrenos), já que, naquela época (2006), inexistia a possibilidade da postagem de imagens.
A Perereca faz, porém, duas advertências importantíssimas.
A primeira é que a postagem abrangerá apenas ALGUNS documentos: aqueles que consegui “desencafuar” e escanear na tarde de ontem.
A segunda é que ESSA SÉRIE DE REPORTAGENS NÃO É ATUALIZADA DESDE 2006, quando foi postada.
O que significa que Eduardo Salles pode muito bem já ter vendido boa parte desses terrenos.
No entanto, é importante que um maior número de pessoas tenha acesso a essas informações, porque promotores de Justiça, jornalistas, deputados, advogados e outros profissionais podem muito bem atualizá-las, a partir de novas buscas cartorárias.
E é muito importante saber se Eduardo Salles ainda permanece como dono desses terrenos, ou se eles foram vendidos – e para quem.
A blogueira, infelizmente, cada vez mais sem dinheiro, não possui condições financeiras para isso.
Leia abaixo as matérias publicadas naquela época (maio/junho de 2006)
Quarta-feira, 3 de maio de 2006
Exclusivo
Patrimônio de sobrinho de Jatene
cresce sete vezes em cinco anos
Até meados da década de 90, a vida não estava fácil para o empresário castanhalense Eduardo Salles. Além de vender mais da metade de seu patrimônio, dois terços do que restou estavam hipotecados.
Também teve de participar de confissões de dívida, junto ao Banco do Brasil, para que seu pai, José Salles, não perdesse dois imóveis, no centro de Castanhal.
E o residencial Izabel Flambot, erguido por uma de suas empresas, a Ferccon, com recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), vendeu, apenas, 70 das 124 casas construídas. Por causa disso, aliás, a Ferccon acabaria executada na Justiça, pela Caixa Econômica Federal.
A partir de 1997, porém, a sorte de Eduardo começou a mudar. Uma empresa a ele ligada obteve quase R$ 3,5 milhões em contratos com o Governo do Estado, para a recuperação de rodovias e a execução de microssistemas de abastecimento de água.
Um imóvel alugado à Polícia Civil rendeu-lhe, até o ano passado, pelo menos meio milhão de reais – ou, talvez, o dobro disso.
Para completar, recebeu R$ 300 mil em indenizações, quando terrenos de sua propriedade foram rasgados pela linha de transmissão de energia entre Vila do Conde e Santa Maria do Pará.
Hoje, apenas na região de Castanhal/Inhangapi, o patrimônio visível do empresário é sete vezes superior ao registrado há uma década.
Eduardo Salles, um homem de sorte, é sobrinho, em primeiro grau, do economista Simão Jatene, ex-homem forte do Governo do Estado, entre 1995 e 2002, e atual governador do Pará.
Mais de 200 documentos
Nos últimos meses, a reportagem da Perereca obteve duas centenas de documentos que demonstram uma desconcertante coincidência temporal entre a recuperação financeira de Eduardo Salles e a ascensão política de seu tio, Simão Jatene.
São mais de 40 certidões cartorárias, cópias de processos da Justiça do Trabalho, de certidões da Junta Comercial do Pará (Jucepa) e páginas do Diário Oficial do Estado.
O cruzamento da documentação deixa uma certeza: há situações bem esquisitas, para dizer o mínimo, na carreira de Eduardo.
Como, por exemplo, a utilização de um segundo número de CPF, em pelo menos duas ocasiões. Ou o fato de só registrar algumas de suas propriedades até três anos após a data de aquisição. Ou, ainda, a obtenção de dois contratos simultâneos, para um imóvel alugado à Polícia Civil.
Outro fato intrigante é a estreita ligação de Eduardo com uma empresa chamada Engecon Construções Ltda.
Na Jucepa, quem figura como sócio majoritário da empresa é um certo Washington Luiz Antunes da Nóbrega, um paraibano que chegou a Castanhal na década de 80 e foi gerente da filial do Banco Bamerindus.
Em pelo menos dois processos contra Eduardo, na Justiça do Trabalho, Washington figura como preposto do empresário.
Na locação do imóvel à Polícia Civil, a Engecon, que figurava em um dos contratos, foi substituída por Eduardo Salles.
Não bastasse isso, dois endereços da Engecon, na Junta Comercial do Estado (Jucepa) e no Detran, coincidem com aqueles apresentados pelo sobrinho do governador em certidões cartorárias.
Aliás, até o ano passado, a empresa funcionava num galpão, dentro de uma das fazendas do empresário.
Contratos com o Governo de R$ 3,5 milhões
Entre 2000 e 2004, a Engecon obteve contratos, com o Governo do Estado, no valor de quase R$ 3,5 milhões.
A maior parte deles com a Secretaria Executiva de Transportes (Setran), que tem como titular, desde o Governo Almir Gabriel, o engenheiro Pedro Abílio Torres do Carmo, que foi adjunto de um ex-concunhado de Jatene, o atual secretário de Desenvolvimento Urbano, Haroldo Bezerra.
Outros contratos foram firmados com a Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Na época em que Jatene era o titular da Secretaria Especial de Produção, à qual a Sectam está subordinada.
Natural do Estado do Acre, 50 anos, Eduardo Salles, à semelhança de seu tio governador, é amante da pesca esportiva e tucano de carteirinha.
De origem sírio-libanesa, o avô de Eduardo (Simão Abrahão Jatene) foi um dos comerciantes pioneiros de Castanhal, na década de 50.
Abrahão possuía casa e comércio num mesmo endereço, o cruzamento da avenida Barão do Rio Branco com a antiga Lauro Sodré, hoje rua Maximino Porpino.
De família grande, era um empresário remediado, até porque o município, à época, também era pequeno.
O próprio economista Simão Jatene, aliás, durante a campanha de 2002, chegou a lembrar, em depoimentos exibidos no horário eleitoral, que teve de se sustentar ainda jovem, tocando na noite de Belém.
O pai de Eduardo, José Salles – que era conhecido, em Castanhal, como o “seu Zezinho da farmácia”, também não parece ter sido um empresário de posses.
Casado com uma irmã mais velha do atual governador, Reny Maria Jatene Salles, seu José teve, apenas, dois imóveis registrados em seu nome.
E mesmo esses, até 1998, estiveram hipotecados, por mais de uma década, junto ao Banco do Brasil.
Juntamente com o filho, seu José aparece em cartório, ainda, como sócio ou ex-sócio das empresas Ferccon – Ferro, Comércio e Construção Ltda. e Agrosalles – Agropecuária Salles Ltda. Em decorrência da primeira, aliás, acabou executado, junto com a mulher, o filho e a nora, pela Justiça Federal.
2.700 hectares em Castanhal e Inhangapi
Os ventos só começaram a soprar a favor de Eduardo a partir de 1997, atingindo o pico em 2001, às vésperas da eleição de seu tio para o Governo do Estado.
Nesse período, registrou em cartório mais de 2.700 hectares de terra, apenas nos municípios de Castanhal e Inhangapi.
Cerca de um terço desses registros diz respeito a terrenos situados às margens da rodovia Castanhal/Inhangapi, um subtrecho de 15 quilômetros da PA-136, cuja pavimentação, inaugurada, no ano passado, pelo governador Simão Jatene, custou ao Estado quase R$ 3 milhões.
Nos círculos palacianos mais bem informados, consta que Eduardo Salles seria a face financeira visível de seu tio, Simão Jatene, com quem costuma pescar nos finais de semana.
Comenta-se, também, que ele, com uma rede de vereadores que ajudou a eleger no Nordeste paraense, é o articulador eleitoral do tio, naquela região.
Em outra ponta de sua história, o número 64 do boletim eletrônico Expresso Vida, do MST, datado de 16 de abril de 2001, dá conta de ameaças de morte feitas a integrantes da entidade, por um líder da UDR de Castanhal.
Na ocasião, sustenta o boletim, as ameaças do pecuarista tiveram a cobertura de 15 soldados da Polícia Militar, que estavam em companhia de um certo Eduardo Sales, que se apresentou como assessor do então governador Almir Gabriel.
Na série de reportagens que você vai ler, a partir de hoje, a Perereca traz, com exclusividade, a história da estonteante recuperação financeira de Eduardo Salles e dos laços que a ligam ao atual governador.
Mata o pau e mostra a cobra...
A Perereca se dispõe a fornecer cópias dos documentos que tem em mãos, todos oficiais, a juízes, promotores, deputados, senadores, jornalistas, Receita Federal, Polícia Federal e a quem interessar possa. Só pede que paguem o custo das fotocópias. Entrem em contato pelo e-mail do blog. Ou escrevam para anaceliapinheiro@hotmail.com.
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