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segunda-feira, 30 de julho de 2012

XINGU – Réquiem para uma ilha. Por André Costa Nunes



Arapujá. Nunca soube por que, nem donde vinha esse nome. Nem me lembro, antes de hoje, haver sequer matutado sobre o assunto. Quando nasci, já era. Quando meu pai chegou por aqui, há mais de um século, também.
Acho até que já nasceu Ilha do Arapujá.
Fica bem defronte de Altamira, a qual, já se vê, chegou bem depois.
Divide o Rio Xingu, este, sim, chegou antes, e deve ter sido seu idealizador, arquiteto e construtor. A parte que nos coube é a da margem esquerda, de quem desce o rio, naturalmente. A parte que me cabe, é a que ficou gravada na retina, na mente, no coração. Imagem de menino, de adolescente, de adulto, de velho. Imagem de sempre. Eterna.
Quando criança pensei que nunca ia morrer. Como toda criança. Os mais velhos riam e ensinavam: ninguém vive para sempre. Eles não me entendiam. Isso não valia para mim. Nunca mais falei no assunto, apenas, inventei, para fugir de tão negro determinismo, um vaticínio pessoal. Só meu que não podia ser compartilhado com ninguém:
- Nunca vou ficar velho e só vou morrer quando a Ilha do Arapujá acabar.
Pronto. Não se fala mais nisso. E acompanhei a Ilha, a Ilha seguiu a lua, que seguiu me seguindo.
Naquele tempo havia a beira do rio, onde as mulheres lavavam roupa, as crianças brincavam, nadavam, pescavam. Mandi, cará, freixeira, pacu, branquinha. Já maiores, taludos, ao cair da tarde, era o sítio ideal para confidências de amores, paixões, sonhos e questionamento do mundo. À tarde a Ilha do Arapujá pegava o sol de frente. Ficava como que iluminada. Quando o sol se punha por trás da cidade ela era apenas uma sombra refletida no espelho d'água. Mas sabíamos que sempre estaria lá, ouvindo a conversa. Cúmplice. Confidente. Atemporal.
Para nós outros, os anos passavam. Eles sempre passam. Menos para ela, a Ilha. Continuava a mesma, imponente, majestática e ao mesmo tempo fugaz. Diluía-se na paisagem como para não se fazer notar. Pudor de quem se sabe superior, eterno. Três vezes por mês a Ilha se vestia de gala. Época de lua cheia. A lua cheia para nós durava duas, três, até quatro noites. Era pontual.
Certo dia o Elio Miguez ainda tentou dar uma aula de astronomia. Falou bonito, de poesia, de lua peregrina, de plenilúnio, a tentar convencer-nos que a tal pontualidade nunca poderia acontecer em mais que um dia. Risada geral. Claro que saia sempre no mesmo horário.
Ninguém ali tinha relógio. Ela, a lua é quem ditava a hora. E saía pontualmente à hora que quisesse.
Ficávamos em silêncio apostando quem primeiro via o cocuruto da lua surgindo e vestindo o Arapujá com um manto ouro, prata, púrpura. Um véu de noiva, branco, como uma estrada diáfana, espraiava-se pelo espelho d’água quase até onde estávamos.
***
Escrevo livros, planto árvores, fiz filhos. Os cabelos brancos são uma falácia biológica.
Não fiquei velho. Essa parte do vaticínio, lembra, eu cumpri. Sempre terei a idade do meu neto mais novo.
Cultivo, e por vezes cultuo o passado sem nostalgias. O meu tempo é agora. Sempre o presente. Até quando navego contra o vórtice da idade.
Vejo e sinto com nitidez que o ontem nada mais é do que o presente de então, com sua circunstância, seus conceitos.
O presente é, apenas, o passado do amanhã.
Assim é fácil não envelhecer. Há que entender que a estrada da vida é a mesma. O que muda é a pavimentação. Ora de terra, poeirenta, cheia de buracos, ora plana, lisa, asfaltada. Não sei se é curta ou longa, mas sei que de qualquer ponto consigo, com nitidez, divisar as estações que percorri. Em cada uma delas, alguém ensinou-me alguma coisa. No caminho, sempre tentava transmitir o que aprendera. Alguns ouviram, outros tantos, apenas trocaram de assento.
 Se mais não ensinei terá sido porque pouco aprendi.
Devo, por minha vez, haver, mais do que devia, trocado de lugar. Em cada trecho da estrada sempre havia uma renovação. O termo certo talvez seja atualização. Novos aprendizados que se somavam aos antigos saberes. Desta maneira fui enganando o cronômetro da vida.
Sem essa de Peter Pan ou Dorian Grei. Apenas, as gerações foram passando, e eu me recusei a ir ficando.
A nova beira do rio de Altamira, agora tem uma mureta que a modernidade chama, não sei por que, de cais. A rua da frente, das mangueiras, virou uma ampla “avenida”. Gramados e jardins, por vezes até bem cuidados. E bares. E telões. E caixas de som do tamanho de prédios. Não há música. Apenas som. Se é bom ou ruim é irrelevante.
Não cabe aqui a expressão “o tempora, o mores”, até porque, cada “tempora” há que ter seus “mores”. Às vezes recorrentes ou repetentes. Os “mores”, nunca os “tempora”.
Debruço-me sobre o tal muro baixo que divide a modernosa “avenida” do que restou da beira do rio.
***
Estamos em fins de agosto. Tempo de praia e ovo de tracajá. O rio esta baixo. O muro de arrimo que nada arrima, pois nada havia a arrimar, é bem alto. Há umas escadinhas de cimento estreitas, íngremes, coladas no paredão. Não dá para subir com mercadoria ou mesmo bagagem pessoal.
Nas extremidades da “avenida”, partes menos nobres, há rampas de embarque e desembarque.
Não convém que índios, ribeirinhos e pescadores conspurquem, com seus andrajos, o lócus de lazer da nova elite. Seria no mínimo antiestético.
Perto de onde estou, na extremidade de baixo, há a casa dos índios.
Por vezes os vejo passar. Criaturas estranhas, vestidos como cristãos, mas deselegantes, fora de moda, descalços, ou com sandálias de dedo.
As mulheres arrastando curumins passam cabisbaixas, tímidas, deslocadas, sem fitar as pessoas, meio que apressadas, como a passar por um corredor polonês de olhares e gestos, quando não explicitamente hostis, fingindo indiferença. Creio que os índios, os ribeirinhos, os pescadores, enfim, os despossuídos, só se sentem em casa, quando atravessam a tal mureta e pisam a areia e a grama da beira do rio.
O Xingu é democrata.
Sinto um nó na garganta. Impotência. Vergonha.
***
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A tarde faz pouco se foi. A Rua da Frente é voltada para o nascente.
Não se vê o pôr-do-sol. Embora ainda paire o lusco-fusco, as luzes da cidade já se acenderam, mas ainda dá para divisar a ilha defronte que a estas horas parece que se torna maior, mais alta, pois à sua real dimensão, soma-se o reflexo das águas do rio. Não se distingue onde acaba o vero e começa o virtual. Nem isso tem a menor importância. Não se notam os detalhes, mas também não chega a ser um mancha uniforme.
Aqui e ali, uma copa mais frondosa se destaca contra o céu.
Samaumeira? Talvez.
A Ilha do Arapujá está lá, como sempre esteve, desde que o mundo é mundo. Milagrosamente intocada. Nunca ninguém se adonou dela. Não, que não se houvesse tentado, mas felizmente as investidas não prosperaram.
Arredondada, com um lago no meio, terá, talvez, uns cinco a dez quilômetros de comprimento. Isso também não importa. Quando eu era menino ela era enorme. Fui crescendo e ela diminuindo. Felizmente cedo a gente para de crescer. Em contrapartida é quando as coisas deixam de diminuir. Bom para mim, bom para a Ilha.
O Arapujá, não segue o padrão de toda ilha fluvial onde o caudal castiga a parte de cima, a corredeira escorre pelos lados, e acumula a areia no remanso que se acumula na parte de baixo formando praia rasa.
Como o desenho de um cometa ou de um espermatozóide. Não, ela tinha que ser diferente. A praia que formou fica na parte de cima. A montante.
À noite, não se vêm luzes na Ilha do Arapujá, ao contrário do Morro do Forte e da Pedra no Navio que lhes confrontam a baixo e a cima, onde a cidade já chegou. Olhando-se da beira do rio, têm-se a impressão que o largo na frente da cidade é como um golfo ou um mar interior, mediterrâneo. Todos os largos de rio que conheço têm nomes. No Baixo, são baías. Baía de Souzel, de Porto de Moz, de Gurupá, de Curralinho, de Caxiuaná, do Marajó, de Guajará. Rio a cima chamam-se largos, mesmo. Largo do Souza, da Dourada, dos Mutuns.
Este aqui, não tem nome, por isso, o chamávamos de Mare Nostrum. Na ponta de baixo, onde o Arapujá chegava bem perto do Morro do Forte divisávamos nítidas as Colunas de Hércules. Gibraltar. Subindo o rio, onde a ilha mais estreitava com a pedra do Navio e a ilha do Dimas, era, diz-que, o canal de Constantinopla.
***
Atrás de mim, no gramado do canteiro da “avenida”, o Restaurante Tucunaré arruma as mesas para o jantar.
A brisa sopra morna das bandas da Serra dos Assurinins.
O André, neto da Mãe Maroca, que faz as vezes de garçom, interrompe-me o devaneio e pergunta-me:
- Tio, não quer uma mesa e uma cerveja bem gelada?
 Sorrio e recuso. Peço apenas um copo de cachaça.
- que marca?
- qualquer uma.
- pura?
- pura.
 ***
Devo estar lá pelo terceiro ou quarto copo. A lua saiu. Está quase a pino e não lhe dei a devida atenção. É imperdoável, mas no momento, ela não é o foco das atenções.
Ela não vai morrer tragada pelas águas do lago que se formará depois que barrarem o Xingu em Belo Monte, para, diz-que construir uma hidrelétrica.
Está decidido. Data marcada para morrer. É inexorável.
Não, como a primavera de Neruda determinada pela sazonalidade. Pelas estações do ano, que se sucedem desde sempre. Mas pelo cronograma das empreiteiras.
Divago, sem angústia, sobre o destino da Ilha do Arapujá que um dia elegi irmã siamesa.
As águas subirão lentamente. Como se viu, o veredicto foi dado. Vai morrer. O diagnóstico foi de câncer linfático. Agressivo. Galopante. O mínimo que poderei fazer é sentar-lhe à cabeceira, como um acompanhante de moribundo.
Como não sei rezar, abrirei um livro e o lerei. Ora mudo, ora em voz alta. Prosa, ou verso. Prosa e verso. Mais verso do que prosa. O “verbo” de que fala o Gênesis, eu juro que era um poema. Esse “no princípio era o verbo” nunca me enganou. A Ilha do Arapujá vai morrer.
De câncer. A comparação é inevitável. Quando começarão as sessões de quimioterapia? Os cabelos caem. Morrem. O certo é antecipar-se e cortá-los logo. O mais rente possível. Todo mundo que tem esse tipo agressivo de câncer faz isso.
Deste ponto de observação onde me encontro vou ficar de vigília. Se à boca da noite lendo um livro e ouvindo Vinícius: “…e uma garrafa por perto, porque você pode estar certo, que vai chorar”. Se ao amanhecer, que é quando a azáfama começa, Missa Criolla de Ariel Ramirez. E, assim, ao som de José Carreras, e da Sociedad Coral de Bilbao, ou da Fafá de Belém, Rema, meu mano, rema, do Ruy Barata, verei as balsas saindo, repletas de máquinas, moto-serras e algozes inocentes, partindo para a tosa.
 Em pouco tempo toda a mata estará no chão. Será possível ver através da ilha, a outra margem do Xingu que ela em vão tentou resguardar.
Ela, e os assurinins, nos tempos de guerreiros. Estará pelada. Sem pompa ou circunstância. Sem a altivez de outrora. Humilhada.
Nesta hora deixarei meu posto e farei, a quem de direito, o último apelo: Um funeral decente. Que não se use a hipocrisia de doar a floresta tombada para instituições ditas filantrópicas fazerem, por quaisquer dez réis de mel coado, tábuas de péssima qualidade, ou mesmo carvão para a siderurgia. Que olimpicamente ateie-se fogo à madeira/madeixa e imagine-se, como última homenagem, que seja uma nau viking levando, em chamas, um grande guerreiro para o Valhala.
Ou, mesmo, uma simples pira funerária hindu a espera de ser arrastada e purificada pelo Ganges.
***
Lembra daquele vaticínio de que falei no início? Pois é. Minha parte eu cumpri.
Não fiquei velho.
A Ilha do Arapujá, não cumpriu a dela.
Vai morrer… Vamos morrer.

(http://tipoassimfolhetim.wordpress.com)

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