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domingo, 13 de junho de 2010

O monstro e a menininha



I


Qualquer acusado de abuso sexual contra crianças e adolescentes já estará, a priori, moralmente morto.


Tal se deve não apenas à espetacularização midiática desse tema, a gerar espécie de histeria mundial.


Mas, também, a uma extraordinária característica humana: a identificação com a vítima. E, mais ainda, quando a vítima é um menininho ou menininha indefesa.


A tendência, em tais casos, é colar no rosto do suposto agressor a “máscara do monstro”, a privá-lo de qualquer traço de Humanidade e, por conseguinte, de qualquer direito.


Ao mesmo tempo, transforma-se o relato daquele garotinho ou garotinha em “verdade absoluta”, tornando inadmissível até mesmo a simples dúvida acerca dele.


É natural, é assim mesmo que dividimos o mundo: a quintessência da bondade e a quintessência da maldade; anjos e demônios; o monstro e menininha.


Arquétipos que, afinal, comandam o nosso comportamento bem mais do que imaginamos.


E cuja manipulação é extremamente perigosa, especialmente, nesta Era da Informação e do Espetáculo.


II


Se você não sabe, caro leitor, fique sabendo: especialistas brasileiros acreditam que cerca de 30% das denúncias de abusos sexuais contra crianças, em casos de separações litigiosas, são inverídicas.


Não encontrei números conclusivos em relação a denúncias como a que envolve o ex-deputado Luiz Afonso Seffer:alguns falam em 8% de falsas denúncias; outros, em até 80%.


É um problema mundial: em Portugal, em 2007, 60% das denúncias de pedofilia recebidas pela polícia não tinham qualquer fundamento.


De qualquer modo, a acentuação desse fenômeno pode ser percebida numa rápida busca na internet, onde já há até sites para a defesa de pessoas falsamente acusadas do abuso sexual de crianças, assim como livros e estudos sobre o problema.


Um problema gravíssimo que, no entanto, ainda não foi devidamente abordado pela mídia, talvez, porque não rende manchete.


Mas que causa enormes prejuízos a essas crianças, que acabam desenvolvendo transtornos semelhantes aqueles de crianças realmente abusadas.


E que, é claro, destrói por completo a vida de quem teve o azar de ser falsamente acusado de uma monstruosidade assim.


III


Quero aqui fazer um parêntese explicativo aos leitores da Perereca da Vizinha.


Sou mulher, orgulhosamente mulher. E mãe, orgulhosamente mãe.


Por isso, sinto-me profundamente incomodada ao produzir uma postagem que pode ser interpretada como simples “defesa” do ex-deputado Luiz Afonso Seffer, acusado de um crime selvagem, pútrido, contra uma garotinha que poderia ser minha filha.


No entanto, os comentários que recebi em minha postagem anterior sobre Seffer, praticamente me forçaram a escrever o que estou escrevendo.


Fiquei chocada com a intolerância dos comentaristas.


Em nenhum momento afirmei que Seffer é inocente: disse, apenas, que não estou convencida da culpa dele, porque enxergo lacunas complicadas nesse caso.


No entanto, isso bastou para que algumas pessoas passassem a me atacar, como se fosse “crime” reclamar mais elementos probatórios, antes de condenar alguém.


Na verdade, desde o ano passado que queria escrever sobre o caso Seffer, mas estava temerosa da reação da “galera do polegar pra baixo”.


Tal reação acabou se revelando até pior e mais perigosa do que imaginei, uma vez que as pessoas parecem se sentir “ofendidas” até com uma simples manifestação de dúvida acerca da culpabilidade do ex-deputado.


E isso, me desculpem todos, não é Justiça: é puro e simples justiçamento.


Portanto, “vumbora” gastar cuspe.


IV


A memória, ao contrário do que imagina muita gente, não é um filme de altíssima fidelidade acerca das experiências que vivemos ao longo da vida.


Muito pelo contrário: a memória é uma coleção de fragmentos, de “caquinhos” das coisas que nos aconteceram, que vão sendo amalgamados, e até “enfeitados”, por “cenas” posteriormente introduzidas.


Isso decorre, entre outros fatores, da extraordinária imaginação humana, que é ainda mais fértil em crianças e adolescentes.


E é essa plasticidade que permite até mesmo a criação de falsas memórias, muitas vezes induzidas por terceiros.


Há um experimento interessantíssimo, porque abrangeu uma família inteira.


Os pesquisadores pegaram e saíram “lembrando” à essa família um incidente que teria acontecido muitos anos antes.


Ao final de algum tempo, a família se “lembrava” do incidente – que, na verdade, nunca tinha acontecido...


Como não poderia deixar de ser, é possível detectar falsas memórias também em supostos abusos sexuais infantis.


Há alguns anos, li, já não me lembro onde, acerca de um caso interessantíssimo que aconteceu nos EUA.


Dois irmãos, de seis e oito anos, se bem me recordo, começaram a freqüentar terapeutas, devido a problemas comportamentais.


Ao fim de algum tempo, começaram a relatar, com riqueza de detalhes, abusos físicos e sexuais que teriam sido praticados por seus pais.


Os pais foram presos e execrados.


E no entanto, com o aprofundamento das investigações, descobriu-se que tais denúncias não eram verdadeiras: as crianças haviam sido induzidas a toda aquela fantasia por uma abordagem complicada dos terapeutas encarregados de tratá-las.


Tal problema é bem mais comum do que se imagina: nas falsas denúncias de abuso sexual infantil que envolvem a disputa pela guarda dos filhos, as crianças, muitas vezes, acabam incorporando tais “histórias” ao seu imaginário – daí a semelhança entre os transtornos que sofrem e aqueles experimentados por crianças verdadeiramente abusadas.


A própria entrevista que se faz com uma criança dessas, se não for adequadamente conduzida pela polícia e pelos psicólogos, pode induzir a uma falsa denúncia de abuso sexual: a criança pode simplesmente começar a responder o que o seu entrevistador quer ouvir, caso perceba a “aprovação” de tais respostas, digamos assim.


Necessidade de atenção, sentimentos como ciúme e frustração, carência afetiva, manipulação mental ou simplesmente mitomania também podem levar crianças e adolescentes a falsos relatos de abusos físicos e sexuais.


E o problema é que mesmo os técnicos que lidam com isso, partem, muitas vezes, da crença na impossibilidade de que a criança esteja a mentir.


É humano que seja assim: pra nós, criança nunca mente – e talvez fosse melhor chamar a isso “fantasiar”.


Além disso, associamos riqueza de detalhes à “verdade”, esquecendo-nos do quanto é fértil a nossa imaginação.


E até mesmo dessa terrível estimulação sexual precoce a que estão expostas as nossas crianças, todos os dias, pelos veículos de comunicação.


V


Não estou dizendo que esse seja o caso do ex-deputado Luiz Afonso Seffer e da garotinha da qual ele é acusado de abusar.


Mas a existência de tais possibilidades obriga, sim, a uma profunda investigação desse caso, antes de condená-lo – mesmo sendo ele rico e poderoso e, portanto, um excelente “exemplo” para o nosso grande circo romano...


Penso que o combate à pedofilia e ao abuso das nossas crianças, seja ele físico, psicológico ou sexual, é uma luta importantíssima das sociedades de todo o Planeta.


Mas em nada ajudará a essa luta irmos deixando pelo caminho um amontoado de cadáveres morais de inocentes.


É preciso fazer Justiça de verdade – e não se faz Justiça de verdade a partir do simples clamor popular.


É preciso, sim, pressionar o Judiciário para que aja com rigor – mas é preciso, também, dar possibilidade real de defesa ao acusado, apesar de tratar-se de um crime tão abominável, tão nojento, que toca fundo no coração da gente.


Especialmente, esse nosso coração de mulher e mãe.


VI


Há exemplos terríveis de vidas inocentes destroçadas, devido a erros processuais em crimes que ensejam forte exploração midiática e clamor popular.


Na década de 80, nos EUA, uma denúncia do abuso sexual de uma criança (formulada pela mãe dela que, por sinal, era esquizofrênica) gerou histeria coletiva, investigação da escola McMartin, onde o fato teria ocorrido, prisão e condenação de vários professores, devassa em escolas e igrejas que também praticariam toda sorte de abusos. E até – vejam só – rituais satânicos...


No entanto, dez anos depois, todos os acusados acabaram inocentados.


Em 1994, aconteceu um caso muito parecido em São Paulo: proprietários, funcionários e pais de alunos da Escola Base tiveram suas vidas devastadas, devido a falsas denúncias de abusos sexuais contra crianças.


Também nesse caso, foi preciso uma batalha judicial de dez longos anos para que, enfim, eles fossem absolvidos.


Aqui mesmo, no Pará, há um exemplo terrível dessa Justiça à base de “clamor popular”.


Em Altamira, vários cidadãos foram acusados de pertencer a uma “seita satânica”, que emasculava crianças.


Vários deles foram condenados a longas penas de prisão – e, se não estou enganada, alguns ainda permanecem presos.


No entanto, um psicopata, Francisco das Chagas, confessou a autoria desses crimes, todos semelhantes às atrocidades que cometeu, também, no Maranhão.


VII


Quanto mais abominável o crime, maior tem de ser o cuidado ao investigá-lo e noticiá-lo.


Afinal, quem pagará a dor, o sofrimento, daqueles que foram injustamente condenados, especialmente, em casos que envolvem o abuso de criancinhas?


Repito: não digo e nem afirmo que o ex-deputado Luiz Afonso Seffer é inocente.


Apenas, não estou convencida de sua culpa, devido às lacunas que vejo nesse caso. Lacunas sobre as quais falei, na postagem anterior.


Penso que é preciso investigar mais a fundo tudo isso.


E buscar bem mais que o testemunho dessa garotinha, por mais dilacerante que nos pareça.


E penso que até a sua condenação em definitivo, a não ser que cometa algum crime, Seffer deve, sim, ser mantido em liberdade – até porque todos sabemos o que o aguarda na prisão.


Lamento se desagrado ou decepciono a alguns.


Mas prefiro mil vezes ver em liberdade um culpado do que contribuir, de alguma forma, para a prisão de um possível inocente.


Esse peso, definitivamente, não quero em minha consciência.


FUUUUIIIIIIII!!!!!!!

17 comentários:

Bia disse...

Bom dia, Ana:

discordamos na frase final: eu prefiro ver um culpado na prisão e inocentes em liberdade.

Nas prisões do pará, 58% dos presos sequer foram julgados e talvez já tenham cumprido suas penas em dobro. Jamais contaram com assistência jurídica, esta que Sefer tem desde que nasceu, sempre que precisasse.

Abastado, conceituado, pode cercar-se de todos os instrumentos do direito e das brechas da lei, tanto que continua em liberdade, após um julgamento que determinou sua pena a 21 anos de reclusão.

Apesar das suas explicações sobre os devaneios e surtos que um suposta vítima pode ter, é impossível, Ana, que a criança vitimizada tenha inventado ou sido induzida a criar sofrimento e torturas com aparelhos ginecológicos, tão apropriadamente usados pelo médico Sefer.

Há também outras pesquisas que desenham o padrão do estuprador e dos pedófilos: pessoas bem postas na sociedade, conceituadas, acima de qualquer suspeita.

Fico com este padrão, além dos depoimentos, de um inquérito e de um processo conduzidos com a máxima cautela. Principalmente porque o acusado é considerado por alguns um "homem de bem".

Abração.

RS disse...

Uma das mais coisas que mais temo no meu trabalho é cometer injustiças. Morro de medo, por exemplo, de fazer matéria sobre erro médico porque exige uma avaliação técnica que eu, confesso, não tenho. Alem do que tenho um profissional desses na família. Esse preâmbulo é apenas para dizer o seguinte: eu li os autos, depoimentos, laudos e, sim, estou mais que convencida da culpa do ex-deputado. Parece-me que a Justiça também já que ele foi condenado e está livre apenas porque tem direito de recorrer em liberdade.

Anônimo disse...

Perereca Ana Célia,
Você não é loki e nem pode ser falta do que comentar. Nem é tempo mais para post estilo meu querido diário não cola. Daí que o seu novo post sobre o caso Seffer, que repete o anterior com um dedinho a mais de má prosa aqui e ali, só pode ser um visão totalmente equivocada tanto do ponto de vista moral, quanto do ponto de vista jornalístico.
Infelizmente não existe outra conclusão a ser chegada sobre o ato de alguém escrever sobre assunto tão grave, e na busca de por suspeição sobre uma investigação, um processo policial, judicial e político sequer demonstrar que deu-se ao trabalho de buscar a consulta dos autos do processo.
Depois trazer como anteparo para seus argumentos estatísticas que você não faz referência a fonte ilumina de modo vergonhoso uma idéia mal concebida.
O amontoado de lugares comuns que você publicou confirmam apenas o óbvio de que opinar sem conhecimento é tão impertinente quanto conversas de comadres em porta de vila, lugar de excelência para a lavra do besteirol. Não é isso que os teus leitores esperam de uma jornalista com a estrada que você já percorreu.

Anônimo disse...

Se o teu caso é IBOPE conseguiste, mas deverias continuar deitada na tua cama que terias pelo menos a nossa piedade. Jamais desejarei que uma parente tua sofra qualquer tipo de abuso, mas a tua posição bem que merece. Fui!!!!!

Anônimo disse...

Perdestes uma grande oportunidade de ficar calada. Aconselho a você dar uma olhada nos autos e nas provas lá contidas, de todos os tipos. Embora esteja sob segredo de justiça, procure um dos advogados. Você tem certeza que é mãe?

Anônimo disse...

Égua, desta vez te superaste. Trabalhas para ele?

Anônimo disse...

Quanto foi a ponta?

Anônimo disse...

Só queria ver sua opinião se esse fosse pobre e sem influência politica. É sempre assim com os ricos... Dessa forma ele voltará pelo voto, pois já começam as defesas dele.

Anônimo disse...

Queria ver esta tua defesa se ele tivesse estrupado a sua filha! Na proxima passeata deste bandido tu deverias subir em um trio elétrico dele e bailar. Estou te desconhecendo! Aliás depois daquele cafe com pão com a Governadora não fostes a mesma!

Anônimo disse...

Perereca, e o caso do João Carlos Carepa? não vais comentar? Também que é invenção da vitima? Aliás você como jornalista deveria denunciar,pois estão abafando, ninguém mais fala nada, nem essa CPI, jornais, nada!!!o que acontece? será por que ele é irmão da governadora, todos tem de calar esse absurdo!!!

Anônimo disse...

Isso tudo é pra voltar em alta com o blog? gerar polêmica, enfim...Se isso não é defesa não sei mais o que significa essa palavra. A sra foi infeliz não só na forma como comentou esse caso, mas também quando se referiu as crianças de altamira, Cruz credo!

Anônimo disse...

E o que não deixa se ser um também é achar que as nossas crianças não aprendem matemática por defeito genético.
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SEM HABILIDADE COM NÚMEROS
Junia Oliveira, O Estado de Minas, 08/06/2010

http://wwo.uai.com.br/EM/html/sessao_18/2010/06/08/interna_noticia,id_sessao=18&id_noticia=141062/interna_noticia.shtml
Consta em http://www.exkola.com.br/scripts/noticia.php?id=34579041

Anônimo disse...

envia pra mim um e.mail , vou te retornar com um material de bomba educacaoooooooooooooooooo
EETEPA

vamos lá querida---
fabiofranly@gmail.com

abracos

Anônimo disse...

Cara Perereca, é o que dar não ter emprego fixo! Freelance da nestas coisas!

Anônimo disse...

Queria ver se ele tivesse comido uma parenta tua de menor se tu estavas a defender este crapula!

Ananindeua Debates disse...

Nossa madrinha a senhora está melhor, a blogesfera precisa muito dos seus post.
abraços e saúde.

Anônimo disse...

Lamentável, inesquecível(ops) teu post, alías o que te garante que o psicopata não tenha mentido, pago ou não apra isso? Ti viste as fotos das crianças de Altamira, procura ver e aí pode ser que voltes a pensar duas vezes antes de escrever o que escreves.Traidora de crianças pobres e inocentes. O que não faz a necessidade? Estás na vala.