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domingo, 6 de abril de 2008

ET 3

O ET de Inhangapi(3)



(Ashtar Sheram, também vestido com uma roupa prateada, está embaixo, ao pé da escada do disco voador. Olha para um lado e para outro, como se não estivesse entendendo nada)

_Ô comadre, asserá que eu atô aficando mais doida? Esse daí não é o seu Sudão?
_Em aliança e poder, cumadizinha!... Em aliança e poder!...
_Acredo, comadre, mas o que é que o ômi atava fazendo num disco avoadô? Asserá que ele afoi abduzido?
_Por que é que você não vai lá perguntar pra ele, cumadizinha?
_Huuummm!... E avô, mermo, comadre!... E avô mermo!... Tá pensando que eu assô que nem você, é?, que afica aí se atremendo toda só por causa desse seu emprego velho na Gazeta de Arribação?
_Então, vá lá, cumadizinha!...
_Olhe que avô mermo!...E avô mermo!...(puxando a Perereca pro lado)... Comadre...O que é que você acha da gente adisputá isso no palitinho?
_Não tem palito!...Ademais, cumadizinha, a dona do blog sou eu. Logo, “mim” mandarrr e “you” obedecerrr...
_Huuummm!...Mas acomo é que você atá aficando, né, comadre? “Ulha”, “ulha” que esse negócio da Gazeta de Arribação num atá lhe afazendo bem, visse?...
_Ô cumadizinha, você vai lá ou não vai?
_Avô, comadre, avô... Mas, adepois, se o ômi arreclamá, não me avenha ademitir de novo, que eu aceito aquela proposta do Washington Post, “visse”!...(vai para o centro do palco) Ô seu Sudão, o seu Sudão, se achegue aqui!...
_Boa noite, querida! Há quanto tempo, não é isso?
_Adesdaquela festança no apê da comadre, né, seu Sudão?
_E que festa de arromba, não é isso? Confesso que desde aquela festança, certo?, tenho me sentido como se tivesse escapado da ilha de Elba e entrasse, triunfante, em Paris!...
_Num abrinque, seu Sudão? Aqué dizê que o sinhô num atem mais trauma de bastidô, é?
_Depois daquela sua terapia da rã, certo?, confesso que me tornei um homem renovado... Zerinho, zerinho, não é isso?...
_Égua, seu Sudão, num abrinque, que eu avô é apatentear essa terapia! É melhó que botox, ué!...E o sinhô asseguiu ela direitinho, é?
_Todos os dias, não é isso?, todos os dias!...Primeiro, comprei dez mil rãs e espalhei pela casa toda, certo?
_Acerto!...
_Aí, chamei um pai-de-santo, não é isso?, pra defumar as minhas rãs e espantar o mau olhado, certo?
_Acerto!...
_Também comprei um incensório, com aquela mistura de abre-caminho e comigo-ninguém-pode que você recomendou, certo?
_Acerto!...
_No início, devo confessar que a minha mulher reclamava muito: que era fumaça demais, que era muita rã..., não é isso? Imagine que ela até me deu um ultimato: ou essas rãs ou eu!...
_Num abrinque, seu Sudão!...
_E aí eu disse: Sudão, Sudão... Você já esteve em saias justas bem piores, não é isso?... Contemple, certo?, do alto de mil pirâmides, este Napoleão que existe em você!...
_E o sinhô afalava sozinho, é? E na terceira pessoa, é? E se aimaginava Napoleão, é?
_Por que, certo?, você acha isso, como direi, problemático?
_Mais ou menos, seu Sudão, mais ou menos... Mas aprossiga, ômi, aprossiga!...
_Bom, também chamei a Beijoca lá em casa, à meia-noite, certo?, e mandei bater um tambor. Aí rezei aquela prece poderosa que você recomendou...
_Ah, a oração da Acabra Preta!...E acorreu tudo nos trinques, seu Sudão?
_ Confesso, certo?, que houve um momento em que a Beijoca me olhou meio que espantada, não é isso?
_Ué, e como é que afoi isso já, seu Sudão?
_Foi quando eu acendi uma vela, peguei numa faca de ponta e comecei a girar ao redor dela, batendo os pés e dizendo assim, ó: “Com dois eu te vejo, com três eu te prendo, com caifás, satanás, ferrabraz”...
_Num abrinque, seu Sudão!...
_Mas o pior, certo?, é que ela se levantou da cadeira de rodas e todo mundo começou a gritar: Aleluia! Aleluia! Milagre! Milagre!...
_Égua, afoi mermo, seu Sudão?
_E aí, ela começou a se tremer todinha - assim, ó - como se estivesse incorporada, certo?
_Vixe Maria, mas que ababado forte!...
_E aí, ela botou a mão no meu ombro e disse: “Caboco, eu preciso de ti!”...
_Acredo, seu Sudão, e o sinhô num assentiu um frio no espinhaço, não?
_Confesso, certo?, que fiquei hirto, não é isso? Fiquei hirto!... Mas o pior ainda estava por vir, certo?...
_Égua, ômi, e o que afoi que aconteceu?
_Ela fez um longo discurso sobre a superação do extrativismo do Brejo, não é isso?, e disse que precisava da minha “parceria”, para um projeto “novo e extraordinário”, certo?
_E que aprojeto que é esse, seu Sudão?
_A inauguração de uma cadeia produtiva de rãs, não é isso?, lá pras bandas de Curralinho, num lugar chamado “a tonga da mironga do kabuletê”...
_Égua, seu Sudão, e o que afoi que o sinhô afez?
_Bem, primeiramente eu esclareci que não gostaria de ir pra tão longe, certo?... Mas disse que eu poderia mandar pra lá aquele meu parente problemático...
_Ah, o lorde Zangado!... E ela atopou, seu Sudão?
_Abriu um sorriso de orelha a orelha, não é isso?, um sorriso de orelha a orelha...
_O sinhô atá vendo, seu Sudão? A dona Beijoca, quem diria, acabou incorporando a alma de Inhangapi...
_E permanece assim até hoje, não é isso?, e permanece até hoje....Bem, mas depois de toda essa emacumbação, certo?, eu estou me preparando para abrir aquela franquia que você recomendou...
_Ah, a Ghost Delivery!...
_Isso, querida!...E até me associei ao Jujuba, que está inventando as receitas, certo? Teremos rã frita, assada, cozida, para todos os gostos, não é isso? Desde o churrasquinho e feijoada, até um imaginativo caviar...
_ Ô seu Sudão, eu afico muito assatisfeita que o sinhô ateja curado. Mas, me amate uma curiosidade básica: o que é que o sinhô atava afazendo nesse disco avoadô?
_Ah, isso?... Confesso que não faço a mínima idéia, não é isso? Eu estava conversando com a Lollobrígida...
_A sua mulher?
_Não, a minha rã de cabeceira, certo?...
_E o sinhô aconversa com as suas rãs, é? E dá nomes a elas, é?
_Todos os dias, não é isso?, e com cada uma das noventa mil, porque as dez mil se multiplicaram, certo?
_Ué, mas acomo é que o sinhô afaz pra aconversá com elas, já?
_Eu criei um novo idioma, certo?, uma espécie de esperanto do reino batráquio: o ranês. Graças a ele, converso com rãs e pererecas e até com sapo barbudo, certo?...
_E como é que é isso de ranês, já?
_É simplíssimo, certo?... Um roac significa sim; um roac, roac quer dizer não... Você quer tentar?
_O que, já?
_Falar ranês?
_ (...)
_Vamos lá, é fácil! Eu pergunto e você responde... Olhe bem para os meus olhos... Você está se sentindo bem?
_Arroac!...
_Você está com fome ou com alguma dor?
_Arroac, Arroac!...
_Viu como é fácil?
_É mermo, seu Sudão!... E eu que nunca que apensei que havia até de afalá ranês...
_Isso é porque você é uma ranzinha muito inteligente e muito bem apessoada, certo?...
_ARRROAC!...
_Aliás, devo confessar, certo?, que eu sempre achei você uma ranzinha muito interessante...
_ARRRROAC!
_Não sei se você sabe, mas, recentemente, operei a tiróide e o médico me garantiu mais dez mil anos de vida...
_ARRRRROAC! ARRRRROAC!
_E eu estou me sentindo, certo?, um sessentão turbinado, não é isso?.. Você quer que eu passe a mão no seu dorsinho, quer?
_ARRROAC! ARRROAC! ARRROAC! ARRROAC! ARRROAC!... Aqué dizê... Ô seu Sudão, o sinhô num acha ameio que esquisito esse negócio de aficá afalando com rã?
_Ora, mas não foi você mesma quem disse, certo?, que eu devia conversar com os meus fantasmas?
_Ô ômi, mas isso aera força de expressão! O que eu aquis adizê foi que o sinhô havia de aconversá consigo mermo, ué!, pra modo de aexorcizá os seus fantasmas!...
_Você sabe que era isso mesmo que eu estava dizendo pra Lollobrígida, certo?, quando apareceu esse disco voador?
_Assério, seu Sudão?...
_Eu conversava com ela sobre a incompreensão deste mundo, certo? E dizia: (o Sudão puxa uma rã de plástico do bolso e segura numa das mãos, em frente ao corpo, tipo Hamlet com a caveira; iluminação diferente; música de fundo bem melosa) “Você está vendo, Loló, como este mundo é injusto com as rãs?... Ninguém acredita na sua existência, Loló!... Ninguém acredita que dentro desse corpo de plástico também bate um coração!... Mas eu sei, Loló, o quanto você é real, na imensidão da Sudolândia!... Nesse paraíso encantado, com tantos projetos e tantos ranários e tantos pupunhais que não caberiam nem em mil planetas, Loló, nem em mil planetas!...E eu me lembro das noites mal dormidas que passei ao seu lado, Loló! Ó, Loló!... A aflição que eu senti quando você adoeceu, por causa de um PF ordinário!... Porque essa gente, Loló, essa gente é a quintessência da maldade, não é isso, Loló?... E agora, Loló, o que será de nós, com o mundo inteiro a lhe imaginar uma alma penada?... This broked my heart, Loló!.. Ó tempora, ó mores!...To be or not to be, Loló!... To be or not to be!...
_Ô seu Sudão, o sinhô atem acerteza de que num abateu com a cabeça nesse disco avoadô?
_Agora que você perguntou, certo?, devo confessar que não me lembro direito o que foi que aconteceu...
_Égua, mas como é que o sinhô afoi apará lá dentro?
_Eu estava conversando com a Lollobrígida, certo?, e de repente... zás! Uma luz vermelha me arrebatou, não é isso?
_E não lhe afizeram uns exames, aqueles trecos esquisitos, que os ETs afazem com o pessoal abduzido?
_Confesso que não me lembro, certo? Mas isso nem é tão espantoso, não é isso? Afinal, desde a mocidade que eu padeço de amnésia seletiva, certo?... Aliás, onde é que nós estamos?
_Em Inhangapi.
_Quê?
_Ô seu Sudão, a gente atá num empreendimento novo e extraordinário: um mega campo de ufoturismo da Ufoturismo Business Inhangapienses Corporation!...

(De repente, soam as sirenes. Jogo de luzes, som de tambores. Voltam os nativos gritando, freneticamente, Kong! Kong! Surge uma terceira nave no céu. E dela desce... o Star People...)


(continua)

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