segunda-feira, 4 de julho de 2022

A PEC do Desespero



 

A PEC 1/2022, apelidada de “PEC do Desespero”, é sim uma astuciosa jogada política.

Irresponsável, antidemocrática, inconstitucional, tentativa descarada de compra de votos, capaz de arrebentar com a Responsabilidade Fiscal e com a legislação eleitoral, é verdade.

Mas nem por isso menos astuciosa.

Tanto assim, que emparedou as oposições no Congresso Nacional, obrigando-as a votar a favor dela.

No Senado Federal, o resultado foi acachapante: apenas um senador (José Serra) votou contra.

Mas sem querer passar pano para os senadores oposicionistas, é o caso de se perguntar: como eles poderiam votar contra esse projeto, quando temos 33 milhões de brasileiros passando fome, e os nossos caminhoneiros em pé de guerra?

Além disso, mesmo que votassem contra, essa PEC seria aprovada, já que Bolsonaro e o Centrão detêm a maioria dos votos no Congresso.

Então, penso que foi preciso respirar fundo e engolir essa “coisa”, para evitar maiores prejuízos.

Porque o foco é derrotar Bolsonaro e eleger Lula, junto com o maior número possível de deputados e senadores oposicionistas, a fim de garantir-lhe condições de governabilidade.

E se as oposições perderem o foco, Lula talvez nem consiga se eleger ou acabar o seu mandato. E aí, teremos décadas e décadas de autoritarismo, destruição do Brasil e matança do nosso povo.

Por isso, também é preciso muito cuidado com as reações contra essa PEC.

Reagir com o fígado pode acabar queimando os deputados e senadores oposicionistas, ou até inflando o “Serrismo”, uma das paixões dos grandes veículos de comunicação, banqueiros, empresários&afins, sempre em busca de uma “terceira via”.

Além disso, reações impensadas podem acabar contribuindo para emparedar, também, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Desde 2019, o STF e o TSE estão sitiados pelo bolsonarismo.

E o que eles menos precisam, nos próximos meses, é da ira da população mais pobre e dos caminhoneiros, e de um embate com o Congresso, cujo resultado pode ser desmoralizante para esses tribunais.

Afinal, se esse caso chegar ao TSE e ao STF, eles só terão três alternativas: colocar essa PEC em banho-maria, até depois das eleições; referendá-la e, por conseguinte, à toda a violência que ela representa contra a Constituição, a legislação eleitoral e a responsabilidade fiscal; e restabelecer o império da Lei.

Todas as alternativas são péssimas. Mas a última, que pode despertar a ira de grande parte da população e levar a um embate com o Congresso, talvez seja o ganho colateral pretendido pelo bolsonarismo e pelo Centrão.

É verdade que essa PEC foi como um soco no estômago das oposições, já que ela cria um vale-tudo eleitoral, incluindo uma escancarada tentativa de compra de votos, como creio que nunca vimos, desde a redemocratização.

Mas de nada adianta ficar chorando em alguma sarjeta.

Quando tudo isso acabar, abra uma grade de cerveja e chore copiosamente, ao som do “Garçom”, por tudo o que Brasil teve de engolir, para ganhar esta eleição.

Até lá, é preciso reagir, e reagir como um exército muito bem treinado, por todas as eleições já enfrentadas até aqui.

É preciso mostrar à população que essa PEC é só para Bolsonaro tentar ganhar a eleição. É esse o ponto principal.

Afinal, tudo acaba em dezembro. E se ele conseguir se reeleger, serão mais quatro anos de fome e de abandono.

Esse tipo de esclarecimento não é nenhuma novidade ou mistério para os oposicionistas.

E para reforçar esse trabalho, há até o fato de que Bolsonaro e o Centrão nunca fizeram nada pela população mais pobre e pelos caminhoneiros, apesar do enorme aumento dos combustíveis e da quantidade de gente na “fila do osso”, e até catando restos de comida em carros de lixo.

Mas é preciso é explicar toda essa história com palavras que a população domina, e não em economês e juridiquês.

Vale sempre lembrar os números do TSE: em 2020, 43,11% do eleitorado brasileiro possuía, no máximo, o fundamental completo.

Eram 6,572 milhões de analfabetos (4,44%); 11,574 milhões de pessoas que apenas liam e escreviam (7,82%); 35,771 milhões com o fundamental incompleto (24,18%); e 9,859 milhões com o fundamental completo (6,67%).

Fora outros 22,9 milhões (15,48% do eleitorado) que possuíam o ensino médio incompleto.

São pessoas que tiveram de largar os estudos para trabalhar e para criar os filhos.

Fora de sua área de trabalho e de seu cotidiano, elas possuem, é claro, um universo de palavras e de conhecimentos muito limitado.

Então, o esforço de comunicação tem de ser, principalmente, das oposições, com formatos de comunicação e linguagem bem simples.

Essas pessoas serão o principal alvo do bolsonarismo e de suas redes de fake news, na tentativa de virar esta eleição.

E se as oposições perderem a batalha da comunicação, aí sim o bicho vai pegar...

Acredito que os professores, principalmente os que atuam no ensino fundamental, podem ter um papel extraordinário nessa batalha.

E que é preciso apostar, cada vez mais, em vídeos e postagens com ilustrações, fotografias e pouquíssimo texto, porque, em geral, bem mais eficazes.

Muitos vídeos que circulam na internet são muito bons.

Outros, porém, pecam porque não trazem um título, uma pergunta forte e chamativa, para despertar a curiosidade das pessoas, ou até porque o autor se utiliza de palavras difíceis, ou busca abordar tanta coisa, que acaba em um emaranhado.

É verdade que a “PEC do Desespero” pode melhorar a situação eleitoral de Bolsonaro.

Já tínhamos os bilhões distribuídos aos parlamentares do Centrão, via emendas do relator, para as campanhas eleitorais deles.

Agora, teremos mais de R$ 41 bilhões para uma tentativa de compra de votos, na cara dura.

Tudo isso pode empurrar a eleição para o segundo turno.

E, no segundo turno, fazer com que Lula vença Bolsonaro por uma reduzida diferença de votos.

Tais hipóteses são ruins, já que ajudariam a turbinar os questionamentos bolsonaristas, acerca das eleições.

No pior dos cenários, a PEC do Desespero, os bilhões liberados para o Centrão e outras medidas que ainda virão, podem até levar à reeleição de Bolsonaro e à eleição de um Congresso ainda pior do que o de hoje, se é que isso é possível, sem a ressurreição das múmias do Egito...

No entanto, pelo que já li, parece-me bem mais possível que essa PEC acabe se revelando um tiro no pé.

Isso porque os gastos com ela ultrapassarão o limite (o “teto”) das despesas do Governo Federal para este ano, sem que se saiba ao certo de onde virá o dinheiro para esse gasto extra.

É um fato que gera desconfiança entre empresários, banqueiros, investidores.

Daí que o dólar tende a subir. E, com ele, os combustíveis, a inflação, a comida etc...

Ou seja: os efeitos perversos de toda essa armação podem é acabar empurrando ladeira abaixo as candidaturas de Bolsonaro e de seus parças do Centrão.

Então, é importante não morrer de véspera, que nem peru: não ficar entrando em pânico, a cada nova armação desse pessoal.

Já disse aqui várias vezes: Bolsonaro não vai dar golpe, simplesmente porque não há condições objetivas para isso. Se houvesse, já teria dado.

O que ele quer é fraudar as eleições, e vai fazer de tudo para isso.

Ele e os seus parças têm a máquina na mão.

E o poder da máquina pública, especialmente a federal, é semelhante ao do Império, em Guerra nas Estrelas: ameaça, compra, subjuga, prende, arrebenta.

Assim, é preciso estar espiritualmente preparado para o que ainda vem por aí.

Não dá para ficar imaginando, por causa dos resultados das pesquisas eleitorais, que esta eleição será fácil.

Pelo contrário: será é dramática até o fim.

Mas também não se pode desanimar: as oposições têm condições, sim, de vencer esta eleição.

E acredito, sim, que vencerão.

Contra a máquina, contra todo o dinheiro, contra todas as ameaças, contra todas as armações e maracutaias.

Mas para isso é preciso ser ágil: estar sempre pronto a contra-atacar, em vez de sentar e chorar.

Espelhe-se no Lula, esse senhor de cabeça já branquinha, que enfrentou tantas perdas, tantos perigos, mas que além de nunca desistir, é rápido e certeiro no contra-ataque.

Ou, em último caso, siga o conselho do combativo companheiro Alckmin: respire fundo, abra as janelas e deixe entrar a luz.

FUUUIIII!!!!

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