segunda-feira, 17 de setembro de 2018

“O sangue do teu irmão clama a mim desde a terra”





Quero pedir desculpas a vocês se tenho andado afastada do front.

O problema é que já não acredito em soluções pacíficas para o Brasil. Creio que o que vem por aí é um banho de sangue, qualquer que seja o resultado destas eleições.

Se Bolsonaro ganhar, teremos um dos períodos mais violentos da História deste país, contra mulheres, negros, homossexuais, jornalistas, intelectuais, e até mesmo contra religiosos que não rezem pela cartilha dos xiitas que apoiam esse cidadão.

Se Bolsonaro perder, é possível que tenhamos um novo golpe, muito pior do que o de 1964.

E em qualquer dos casos, não se pode descartar uma guerra civil.

Tudo isso tem me deixado muito angustiada. Até porque, ao contrário dos defensores do fascismo, tenho uma profunda crença em Deus, a quem amo de todo o meu coração.

No passado, tive uma relação muito tumultuada com Deus. Mas em 2002, quando já não acreditava em coisa alguma, sofri um acidente em que quase morri.

E foi aí que senti a mão de Deus a me segurar.

Desde então, voltei a acreditar Nele.

E, a partir de 2011, essa relação foi se tornando cada vez mais forte.

É que vim morar em uma casa, ao redor da qual plantei muitas árvores, flores e cipós. Ao redor da qual há sempre passarinhos, borboletas e insetos de todos os tipos.

E foi nesta casa, através de toda essa explosão de vida, que Deus me mostrou toda a grandiosidade das maravilhas que Ele criou.

Tenho uma profunda gratidão a Deus, por jamais ter desistido de mim, apesar de todos os meus erros e defeitos.

Ele é de fato o Bom Pastor, que vai buscar as suas ovelhas, onde quer que se encontrem. A Sua luz ilumina os nossos caminhos. E Ele nos dá vida – e vida com abundância!

E é por isso que eu sei que onde Ele está não há lugar para o ódio.

A presença de Deus, quando preenche o nosso coração, afasta as trevas, afasta os espíritos que querem nos manter distantes do Criador.

E se você, meu irmão, odeia o seu próximo a ponto de querer vê-lo até torturado e morto, Deus, com certeza, não está no seu coração.

Esse ódio que você sente, com certeza, não vem de Deus.

E ainda que você fale em línguas e ande com a Bíblia debaixo do baixo; ainda que você grite aleluias e se imagine o mais santo entre os santos; ainda que você ore todos os dias e tente conquistar mais e mais almas para Jesus, ainda assim, se você não tiver amor, NÃO poderá estar na presença de Deus.

Só um caminho conduz a Deus. E esse caminho é a maior expressão de amor do Universo: é Aquele que morreu de forma horrenda em uma cruz, apenas para salvar esse bando de pecadores que somos todos nós.

Jesus nos deixou dois mandamentos, que resumem todos os demais: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a nós mesmos.

Por isso, fique certo, meu irmão: tudo o que disso passar provém do maligno.

Porque não é amar dentro de determinadas condições; não é amar apenas aqueles que me agradam ou que se parecem comigo: é amar a todos, como amamos a nós mesmos, com todas as nossas qualidades e imperfeições.

E isso significa não fazer ao outro o que não queremos que nos façam.

Queremos apanhar? Queremos ser violentados? Queremos ser torturados? Queremos ser espancados, presos e mortos apenas por nossa maneira de ser ou pelas nossas convicções?

Então, como podemos querer fazer tudo isso ao nosso irmão e ainda dizer por aí que somos cristãos?

Nós, cristãos, temos uma importante missão neste mundo: temos de refletir o amor e a misericórdia de Deus.

E o desafio que nos foi lançado por Jesus (de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a nós mesmos) pode até parecer extremamente simples.

No entanto, amar assim, apesar de todas as imperfeições humanas, exige um esforço e um vigiar constantes, todos os dias, todas as horas, por toda a vida. E é por isso, meu irmão, minha irmã, que é estreito o caminho que conduz ao Nosso Senhor.

Nós, cristãos, se é que somos cristãos de fato; se é que verdadeiramente amamos a Deus, não podemos nos permitir odiar a quem quer que seja. Não podemos dar ouvidos aos falsos profetas, aos fariseus semelhantes aqueles que torturaram e crucificaram Jesus.

Um pastor ou um padre que prega o ódio, de forma alguma pode falar em nome de Deus.

São apenas cegos, a guiar outros cegos. São apenas almas que desconhecem o amor de Deus, e que, por isso mesmo, dizem aos irmãos: “espanquem!”, “persigam!”, “matem!”, “odeiem!”. Quando, na verdade, disse Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. E orai até por aqueles que vos perseguem!”.

E disse mais o Senhor: “quem vive pela espada, morrerá pela espada!”.

O Senhor conhece o coração de cada uma de suas criaturas e sabe o tempo exato de cada qual.

Nada do que existe dentro de nós escapa aos olhos de Deus.

E é só a Ele que compete dizer quem vive ou morre.

É só a Ele que compete condenar ou absolver.

É só a Ele que pertence todo o poder e toda a glória.

E quem somos nós, seres de pó e alma imperfeita, para querermos ocupar o lugar de Deus?

Como podemos imaginar ter o poder de dizer: "este vive, aquele morre!"

Que é o Homem diante Daquele que a tudo criou?

E eu oro, meus irmãos, para que Deus tenha piedade do Brasil. Oro para que Ele não permita que o ódio incendeie este país.

“O sangue do teu irmão clama a mim desde a terra!”, disse o Senhor a Caim.

Que Deus NÃO permita que acabemos todos por ter nas mãos o sangue dos nossos irmãos.

FUUUIIIII!!!!   

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Candidato VV




Diz um manuscrito do Mar Morto, que numa galáxia e num tempo muito, muito distantes, havia um cidadão, chamado Alck-Mon, que queria porque queria ser rei.

Alck-Mon havia metido na cabeça que fora “ungido” pelos deuses, para reinar naquele pitoresco país.

O problema é que ele não tinha o menor carisma e ninguém apostava um dedal de mel coado nele.
Mas Alck-Mon, que só acreditava no seu Oracular Umbigo, afirmava que chegaria lá.

Tão impressionante era a ilusão que acalentava, que amigos e inimigos, já compadecidos, resolveram apelida-lo de “Chuchu’s Picolé’s”.

_Vai ver que agora ele se manca! – disse um amigo de longa data.

Mas Alck-Mon continuou a dar ouvidos apenas ao seu Umbigo, que, à semelhança do espelho da Malévola, vivia dizendo que ele era a maior maravilha do mundo.

O problema é que Alck-Mon encasquetou com aquela história de “Chuchu’s Picolé’s”.

Por que já esse negócio? – perguntava a todos que o cercavam, como se o apelido não fosse autoexplicativo.

Até que o Umbigo, também penalizado, disse-lhe: “Isso é um elogio, Alteza! Significa que Vossa Majestade não fede nem cheira; não tem, rigorosamente, gosto de nada! Pior, mermo, é o que já tão chamando pra um certo candidato, lá da Província do Já Teve: Picolé de Sardinha!”

_Picolé de Sardinha?!!! – espantou-se Alck-Mon.

_E não é, Alteza? O sujeito é intragável: faz picolé de chuchu parecer até manjar dos deuses! Parece até VV – Viagra Vencido! Não tem o que alevante o coitado! Nem pagando pesquisa fuleira, ele consegue dar uma subidinha! Um horror, Alteza, um horror!...

_E quem é esse candidato já? – quis saber Alck-Mon.

_É o seu correligionário, Alteza – respondeu o Umbigo – Aquele pobre coitado que o Jate-Mon escolheu pra boi de piranha. E o pior é que o coitado acreditou, Alteza! Ele acreditou!!!

_Ele acreditou no Jate-Mon?!!! – espantou-se Alck-Mon.

_E não é, Alteza? O sujeito é tão burro e vaidoso que até acreditou no pilantra dos pilantras, no capo di tutti capi – disse o Umbigo. E olha que até as pedras sabem que quando aquele Jate-Mon bate no ombro de alguém e diz: “caboco, eu preciso de ti!”, pode contar que bobeatus sunt, enrabatus est!

_Coitado do VV!... – suspirou Alck-Mon, meneando a cabeça.

E lá se foi o nosso rei-que-nunca-foi, todo contente, já que havia candidato em bem pior situação.

Quanto ao seu Oracular Umbigo, conta-se que resolveu fazer um ThetaHealing básico com o umbigo do VV.

Afinal, nunca, jamais, em tempo algum conseguira encontrar tamanha capacidade ilusionista em um congênere.

FUUIIIIIII!!!!

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Almas excessivas




Éramos muito moleques – jovens e muito moleques...

Para você ter ideia, caro leitor, uma das nossas brincadeiras favoritas era apertar as campainhas das casas de uns pobres coitados e sair correndo.

Em geral, era alta madrugada e estávamos pra lá de bêbados.

(E eu fico imaginando a raiva que deviam sentir os donos daquelas casas, cujas campainhas aqueles cavalões resolveram apertar...)

Não havia “recanto sórdido” desta cidade que não frequentássemos: Lapinha, Bar do Parque e até um tal de Bar do Francês, que ficava em plena Riachuelo, e que eu acho que nem existe mais.

Certa vez, lá no Bar do Francês, demos até para escrever poesias – e poesias, obviamente, pornográficas.

Era proibido? Era maldito? Ah, mas nós adorávamos todas as proibições e maldições!

Elas como que nos faziam sentir viva a alma; elas como que nos aproximavam dos malditos de todos os tempos, que tanto admirávamos.

Éramos todos profundamente excessivos: bebíamos demais, transávamos demais, trabalhávamos demais...

Precisávamos devorar a vida, antes que ela nos devorasse...

Embora jovens, havia em nós uma urgência difícil de explicar.

E junto a ela, entrelaçada com ela, uma profunda descrença em quase tudo o que nos rodeava.

Hoje, olhando para trás, penso que o que nos irmanava, em verdade, era a dor de estar vivo, coisa que a maioria passa pela vida sem nem mesmo perceber, mas que nós compreendíamos tão bem...

Como gostávamos de ler, pensar, escrever, tínhamos, ainda jovens, a perfeita noção de nossa própria efemeridade, e de tudo o que muitos imaginam “eterno”...

De certa forma, descemos às entranhas do mundo, da História e das gentes. E não, não gostamos do que vimos, inclusive, em nós.

É daqueles tempos vorazes que me lembro do Euclides Farias, que ontem partiu para junto de Nosso Senhor.

Éramos uma turma grande, quase todos jornalistas do jornal O Liberal.

Tínhamos uns 20 e poucos anos e estávamos praticamente a iniciar nessa profissão, que, certamente, nenhum de nós imaginava o quanto nos cobraria...

Confesso que, nos últimos anos, quase nem falava com o Euclides, pouquíssimas vezes o vi. Assim como há muitos anos também não vejo todos os que faziam parte daquela nossa molecada.

Nossas vidas, por vezes, tomaram rumos improváveis.

Para começo de conversa, sobrevivemos, e bem mais que o esperado, às nossas almas excessivas: viramos papais e mamães, vovôs e vovós, além de profissionais tarimbados.

E, é claro, nunca mais saímos por aí apertando as campainhas alheias, até porque o reumatismo já não nos permite...

No entanto, apesar da distância, sei que todos nos levaremos pro túmulo, nas lembranças daqueles tempos tão fantásticos...

Agora mesmo, enquanto escrevo, quase que consigo enxergar o Euclides, o nosso “Urubu Malandro”, bêbado que nem um cacho.

Aliás, vou até tomar umas quantas, em homenagem a ele, ao som do nosso amado Noel.

Até breve, cumpadi. Até breve, Urubu.

FUUUIIIII!!!!!