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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A Justiça Divina






(Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência. A reprodução total ou parcial é permitida, desde que citada a fonte) 



De repente, caiu morto, deixando inconsolável seu enorme rebanho. 

 _É o fim dos tempos!  – costumava pregar aos fieis, exortando-os ao arrependimento – E só quem estiver sem pecado é que herdará a Nova Terra. Quanto aos feiticeiros, às prostitutas, aos sodomitas, todos serão lançados no lago de fogo e enxofre!...Vão queimar por toda a eternidade!... Vão sofrer as piores torturas! Aleluia, Senhor!

E a multidão explodia em gritos. Tanto que a vizinhança se perguntava que mal fizera a Deus, para merecer tamanho castigo.

Pior quando havia algum “endemoniado”. Os xingamentos a Satanás faziam com que as crianças das casas vizinhas desatassem a chorar. Idosas tinham piques de pressão. E qualquer pessoa equilibrada, mentalmente sã, ficava perplexa diante de tantos insultos.

Daí que não é de estranhar o foguetório que se ouviu na rua, quando se soube do falecimento de Paulo Fentusiano. “Agora deve de tá é atormentando o capeta, lá no quinto dos infernos”, disse um morador mais revoltado.

Mesmo assim, o enterro do pastor de alma puríssima, que Deus arrebatara na flor da idade, tornou-se um acontecimento memorável, com direito até a selfies com o defunto.

Milhares de fieis arrancavam as roupas e os cabelos, enquanto gritavam “Puxa, Lord!, Puxa, Lord!”, tomados por impressionantes tremores corporais.

Afinal, como poderiam viver sem aquelas ardentes pregações, capazes de provocar um prazer orgástico?

Quando voltariam a experimentar aquela paz sanguissedenta, a certeza de atroz castigo dos ímpios, para aplacar todo o rancor que sentiam?

Da Humanidade, de si mesmas e até de Deus, por permitir que tantos pecadores continuassem a viver, muitas vezes sorridentes, ao lado de famílias felizes, estimados pela sociedade, verdadeiramente amados, com uma atenção e reconhecimento que eles, os Santos, os Puros, os Bons, jamais receberiam, nas vidas miseráveis e amarguradas que levavam.

Mas Deus quis assim. De sorte que a alma puríssima de Fentusiano fora chamada a postar-se diante do Trono, para bendizer o Senhor dos Exércitos, pelos séculos dos séculos...


..........

Quando se deparou com a porta do Céu, Fentusiano achou aquilo tudo muito esquisito.

Não havia anjos para barrar os infiéis e tangê-los às profundezas infernais.

A bem da verdade, nem porta havia: era apenas um arco de mármore, encimado por enormes flores de maracujá.

Ao redor, uma floresta a perder de vista, com flores e frutas as mais perfumadas: rosas, jasmins, graviolas, mangas, cajus.

Fentusiano ficou extasiado com tamanha beleza, mas estranhou não haver nem sinal do inferno. “Vai ver que fica bem distante, para que os gritos dos pecadores não incomodem os justos”, pensou. E gritou mais uma “Aleluia”, pelo cuidado de Deus com os Santos.

Olhou a enorme escadaria a sua frente e pôs-se a subir, e subir, e subir, e subir, e subir.

No topo, um campo de girassóis, cercado por montanhas de ametistas. O céu era uma abóbada de quartzo hialino, na qual reluziam safiras, citrinos, rubis.

Ao longe, Fentusiano avistou um lago esverdeado, que mais parecia uma enorme esmeralda.

Ouviu vozes, risos e se encaminhou para aquelas águas (Os Justos devem estar se confraternizando por lá).

Mas quando chegou ao local, teve o maior susto de sua morte: homens e mulheres trepavam selvagemente: homens com homens, mulheres com mulheres, homens com mulheres. Casais, trios, seis, oito, dez, cinquenta!... Em posições nunca imaginadas!... Embaixo da água, acima dela, nas margens, rolando na areia amarelo-brilhante, de finíssimo pó de ouro. Os corpos nus, suados, molhados, lambuzados, ofegantes...

_Deus do Céu, o que é isso?!!! - gritou Fentusiano, paralisado de horror.

E estava prestes a desmaiar, quando foi arrebatado para o Grande Palácio do Juízo Final.


................

Nas paredes douradas do palácio, toda sorte de quinquilharias: tapetes, vitrais, altares, joias, espelhos.

Todas, no entanto, embelezadas com enormes pênis, e bundas, e vaginas arreganhadas, em desenhos, bordados, alto relevo; bronze, prata e outros metais.

Havia, também, quadros e estátuas com cenas de sexo explícito – gay, bi, hétero.

No chão de mármore, um longo tapete vermelho levava a uma pequena escadaria.

No cimo, dois tronos: um ocupado por um homem de túnica colorida e longos cabelos negros; o outro, vazio.

Fentusiano intuiu que se tratava de Nosso Senhor Jesus Cristo. Caminhou apressado e caiu de joelhos diante do trono.

_ Aleluia, Senhor!
_Pera lá!... Pode parar!... Levanta daí mais é, ô Fê! - posso te chamar de Fê, né? Em primeiro lugar, eu detesto essa coisa de puxa-saquismo. Não te ajoelha, não me beija a mão, não grita “Aleluia”, pelo AMOR de Deus! Essa coisa sebosa me enche de curuba, ok? Em segundo lugar, eu não sou o Senhor teu Deus. Meu nome é Lúcifer! Mas podes me chamar de Lu!
_Sangue de Jesus! Sai, em nome de Jesus!
_Ô Fê, para mais é com esse piti!... Respeito é bom e eu gosto, “visse”? Tu estás no MEU palácio, ok?
_Teu palácio?!... Aqui é o inferno?!!!... Bem que eu desconfiei!... Com aquele bando de pecadores, naquele lago, e esse monte de imoralidade, aí nas paredes!... Olha só aqueles traseiros!... Olha só aqueles pênis enormes ali!...
_Gostaste de algum?
_Sai, Satanás!
_Ô Fê, solta a franga, Fê!
_Eli, Eli, lamá sabactani?!!! O que foi que eu fiz, Senhor, pra merecer tudo isso? Qual o pecado que cometi, Senhor, pra me mandares pro inferno junto com esse capiroto - e ainda por cima um GAY?!!!
_Pra mim já chega!... Lili! Lili!

(entra um senhor de túnica, barba e cabelos brancos, longos e desgrenhados)

_Que é que foi, Lu?
_É melhor atenderes esse bofe, porque eu não tenho paciência pra isso!
_Deves ser o Paulo Fentusiano. Nós estávamos a tua espera.
_ E quem és, outro capiroto?
_Capiroto? Não. Eu sou o Senhor teu Deus!
_Prova!
_Quê?!!!
_Desde quando Deus se chama “Lili”?
_Na verdade, tenho muitos nomes: Eli, Adonai, Jeová... Lili é o apelido carinhoso que a Lu me deu.
_ “Lili”!... “Lili”!... Isso é coisa de GAY, isso sim! E desde quando Deus viveria num palácio cheio de imundície?
_Imundície?!... Ô Lu, a Gabi e a Rafaela não limparam o palácio hoje?
_Te liga, Lili! A “imundície” que ele tá falando é SEXO!
_Ah!...
_Se ainda não percebeste, o Fê é uma bichona toda melindrada com essa história de sexo.
_Bichona? Quem é bichona? Eu sou é homem, “visse”, Satanás!
_E insiste em me chamar de Satanás, capiroto e sei mais o quê... BICHONA! Bichona-bichona-bichona-bichona! E bichona PRRREGADA no armário!
_Sangue de Jesus! Eu sou é homem! E homem que deita com homem é abominação - tá escrito na Bíblia!
_Bíblia?! Que diabo é isso?
_Ô Lu, ele tá falando daquela biografia não autorizada que fizeste de mim!
_Ah!...Mas tu não estás mais zangado comigo, não é, chuchu?
_Não, claro que não! A gente tinha brigado e estavas furiosa... Só que agora todo mundo lá na Terra fica achando que aquilo tudo é verdade...
_Em parte é, né, Lili?
_Como “em parte” já?
_Tu eras um sujeito zangado, mal-humorado... Na verdade, eras um tremendo brutamontes!
_Brutamontes, eu?!!!
_Eras sim! Vivias com ódio da Humanidade! Tudo pra ti era só impureza e pecado: desde sexo até menstruação! O sujeito não podia nem coçar o pé, num dia de sábado, porque lá vinhas tu, com aquele teu mau humor, mandando que ele fosse morto.
_Mas o Senhor Deus estava certo: os pecadores não merecem viver!
_Larga mais é de ser doido, ô Fê! Quem pensas que és pra dizeres o que é certo ou errado pra toda a gente? Quem achas que és, tu que não sabes nem mesmo o que te acontecerá daqui a pouco? Não sabes se morreste, se vives, se sonhas...Não sabes o quanto de irrealidade existe naquilo que te parece tão real!... Não sabes nem mesmo quem és, ô Fê!... Um ser criado à imagem de Deus? Um animal que desceu das árvores e evoluiu? A grande obra do Criador? O grande erro da Criação? Uma alma com apenas uma chance de se salvar? Um espírito que vai evoluindo de encarnação em encarnação? Quem és tu, afinal? Quem pensas que és pra dizer: este vive, aquele morre; este se salvará; aquele, não? Que amor é esse, que gritas aos quatro ventos que tens a Deus, quando persegues e odeias o teu irmão? E quando foi, afinal, que o desejo de ocupar o lugar de Deus começou a crescer nesse teu cobiçoso coração? 

(entra uma drag queen).

_Bravo! Bravíssimo, mamãzita querida! Tu vais nas chagas, mamãzita!
_E quem é esse aí já?
_Esse é o meu filho, o Jê.
_Quem?

_Muito prazer, Paulo Fentusiano. Eu sou Jesus!


..................

_Não, não, isso não é possível! Eu não morri: estou é dormindo e tendo um pesadelo! Desde quando Jesus pode ser gay - e ainda por cima um travesti?!!!
_Calma, Fentusiano, que estás é confundindo tudo! Eu estou vestido de drag pra uma peça da Madá, que começa daqui a pouco.
_Madá? Quem é Madá?
_A Maria Madalena, minha mulher. Nunca leste o Dan Brown, não? Então, Fentusiano, apesar dessa roupa de drag, eu sou hétero. Gays são os meus pais, a Lili e a Lu.
_Graças a Deus! Aleluia, Senhor! E eu que pensei que aqui só tivesse pederasta!
_Olha, Fentusiano, a bem da verdade, a maioria do pessoal aqui no Céu é gay, lésbica, trans ou bi. Além dos meus pais, também os anjos são gays: a Gabi, a Rafaella, a Michaella... Tem também os santos: Paula, Petra, Francisca, Rita... E até vários profetas: Elias, Ruth, Jeremias... E há, ainda, os bi, como é o caso do Davi e do Salomão.
_O Davi e o Salomão, não! Não me venhas com lári-lári, que eles foram é muito machos! O rei Davi vivia guerreando e até mandou matar o Urias, pra ficar com a mulher dele. E o Salomão tinha um enorme harém, e até encantou a rainha de Sabá!
_Ô Fentusiano, o problema é que acreditas demais no Antigo Testamento! Conta pra ele, mãe!
_Escuta aqui, ô Fê: naquele tempo, além de eu estar muito zangada com a Lili, que andava arrastando as asas praquela tal de Jô...
_Jô?
_O Jó, como vocês chamam lá na Terra... Uma sujeita péssima, aquela!... E a Lili ainda ficava me provocando: ‘‘viste, por acaso, a minha serva Jô? Olha só como ela me ama!” Aí, eu disse pra ela: “pudera, deste tudo praquela lambisgoia! Terras e mais terras e até uma biga do ano! Mas tira tudo isso dela, pra veres se ela ainda te ama! É uma falsa, Lili!’’...
_Ô mãe, não perde o foco!
_Pois muito bem, Fê: naquele tempo, além de eu estar muito zangada com a Lili, eu também vivia em permanente Woodstock, “sacou”? Aí, troquei as bolas várias vezes, até porque já nem me lembrava direito dessas histórias do arco-da-velha. Ao contrário do que escrevi, o Davi nunca mandou matar o Urias: quem ele mandou matar foi a Betsabá! Porque o Davi tava era de quatro pelo Urias! Sabes aquele rala-rala dos Templários? Pois é! Depois de guerras pra lá, acampamentos pra cá, Davi e Urias encontraram a sua Brokeback Mountain... E aí, queriam ficar juntos forever! Só que a Betsabá, que era uma sujeita péssima, ameaçou botar a boca no trombone, pra que eles fossem apedrejados. Vai daí...
_E quanto ao Salomão, que tinha até um harém?
_Tornou-se bi depois de conhecer a Rainha de Sabá, na verdade, um belíssimo travesti!
_NÃO!... Não, Satanás, tu não vais me convencer dessa loucura! Aliás, aposto que tudo isto – este palácio, aquele lago e até esses dois aí – tudo isso não passa de uma ilusão criada por ti! Queres é que eu peque, que é pra me arrastares pro fogo do inferno, né, Satanás?... Queres é arder comigo no fogo infernal!
_Escuta aqui, ô Fê: eu pedi pra fazeres alguma coisa? Te fiz alguma proposta? Te convidei pra algum rala-rala?
_Lu!
_Calma, Lili! Não precisas ficar com ciúme, tá? Não que o Fê não seja até um gatinho, com essa maquiagem da hora... Aliás, quem é que faz a tua make-up? Égua, que essas tuas sobrancelhas são um arraso! Olha que eu passo um tempão ajeitando as minhas, mas não ficam tão perfeitas...
_É porque tu precisas de uma pigmentação fio a fio. Olha aqui, ó, não fica uma falha!...
_Égua, mas já me disseram que isso dói um bocado!...
_Bobagem!... Dói um pouquinho, mas dá pra aguentar.
_E nos olhos, tu fizeste maquiagem definitiva, é?
_Mãe!
_Ô macharada chata! Sangue do Jê! Mas como eu estava dizendo, Lili, não precisas ter ciúme. Aliás, já te disse várias vezes: não tenho vocação pra carpinteira! E de armário já me basta aquele em que viveste por quatro mil anos.
_A Lili, quer dizer, o Senhor Deus, também vivia no armário?
_Vivia, Fê!... Pra veres como é que é que são as coisas!...
_Ah, agora eu entendi: tu, capiroto, é que corrompeste o Senhor! Mas isso tem cura, Senhor! A gente pode se internar...
_A gente, é?
_Não tô falando contigo, Satanás!
_Lili, não sei quanto a ti, mas eu não suporto mais essa biba mal resolvida!
_Quem é biba, seu capiroto imundo?
_Epa, mas respeito aí com a minha mãe!
_Mas, Jesus, como é possível que sejas filho do demônio? Não vês que ele está a te enganar? Isso deve ser mais uma armação dessa serpente!... Tipo a maçã que ela deu pra Eva...

(Lili, Lu e Jê caem na gargalhada)

_Mas do que é que vocês estão rindo?
_Escuta, meu filho: acreditas em mim, o Criador, não é?
_Eu acreditava, Senhor!... Mas agora já nem sei mais...
_Crê, meu filho: fui eu que criei todo o universo! Mas esse negócio de Adão, Eva, serpente é tudo invenção da Lu, que adora uma terapia!... Aliás, sempre estranhei esses teus longos passeios em Antares, com aquele tal de Jung.
_Desencana, Lili! Eu já te disse trocentas vezes que o Ju e eu somos apenas bons amigos.
_É “mermo”? Tu juras que nunca rolou um beijinho ou ao menos um amasso?
_Bem, isso aí eu já não posso jurar...
_Mas eu não tô dizendo?! Quer dizer que andaste dando uns amassos naquele tal de Jung?!
_Ô Lili, isso já faz tanto tempo! Foi uma coisa tão sem importância!... Foi assim: nós estávamos sentados na beira de uma linda cratera lunar. Aí, o Ju começou a falar sobre o simbolismo da Lua. E eu fiquei tão encantada que sapequei um beijinho nele. Mas aí, apareceu o chato do Freud, que foi logo dizendo que tínhamos problemas contigo. E aí, ele e o Ju começaram a se estapear. E eu acabei concluindo que nenhum dos dois é bom da bola.
_Nunca vou entender o que viste naquele tal de Jung!
_Ele é inteligente, charmoso, criativo...
_Criativo?! Mais do que eu, que criei todo o universo?!
_Ô chuchu, não sejas tão ciumento!... Confesso que até me deixas envaidecida por sentires tanto ciúme, mesmo depois desses bilhões de anos juntos... Ainda te lembras de como a gente se conheceu?
_E como é que eu poderia esquecer, se foi o dia mais espetacular de toda a Criação?! A noite, o dia, os anjos, os mundos, toda a minha imaginação ganhara vida! E eu apenas dissera: “Faça-se!”... Lembro-me de ficar até angustiado, ao perceber a extensão do meu poder... E de sofrer, com medo de que toda a minha criação me achasse apenas temível... E aí, não sei por que, olhei para o grande lago de esmeralda - e lá estavas tu!... Tão magnífica quanto aquelas águas!... Uma deusa corporificada!...Uns olhos de loba... um pescoço de garça... uns lábios...

(os dois se beijam apaixonadamente)

_Mas isso é uma pouca vergonha!!! Santo Deus, como é possível?!!! Vocês não veem que isso é antinatural? Não veem que é sujo, imoral e contra as leis de De...
_As leis de quem, Fê? As leis da tua amargura?
_Vocês vão é arder no fogo do inferno! Os dois! E se ninguém mais fizer isso, eu mesmo vou lançar vocês dois no lago de fogo e enxofre!
_Onde?!
_Como se não soubesses, Satanás: o lago de fogo e enxofre, onde queimarão todos os pederastas! Onde as torturas serão impensáveis! Onde haverá choro e ranger de dentes! Aleluia, Senhor!
_Ô Lili, desculpa, tá?, mas eu não tenho mais paciência pra esse GUARDA-CU: trata mais é dessa “criança”, que o filho é teu. FUUUUUIIIIIII!!!!! Simbora, Jê!
_É, pai, a ideia foi tua.
_Ideia? Que ideia?
_É que eu havia resolvido te dar mais uma chance, Fentusiano. Afinal, passei quatro mil anos no armário, e sei muito bem como é que te sentes. Mas começo a pensar que a Lu tem razão: és um caso perdido!... Quer dizer que gostarias de lançar a mim, aquele que te criou, num lago de fogo e enxofre, é? Quer dizer que sentes prazer com a tortura daqueles que são diferentes de ti?!...
_Mas, Senhor!...
_CALA-TE!

Fentusiano ainda tentou falar, mas não conseguiu. A boca se movia, mas as palavras se transformavam em saraivadas de peidos infernais, que empestavam o ar com uma fumaça densa e horripilante; um fedor que mais parecia uma sopa primordial de cadáveres em decomposição, gambás assustados, ovos podres, caganeira infecciosa e peido de cachorro.

_ (tapando o nariz e abanando o ar com a outra mão) Ô Lili, tu não achas que esse castigo é um tanto quanto escatológico?
_Na-na-ni-na-não! Agora as imundícies que ele sempre pregou vão é sair pelo devido lugar!
_Mas, Lili!...Assim não tem perfume que dê jeito! (borrifando perfume no ar).
_(Olhando pela janela) Ô pai, tem gente passando mal lá fora! A Petra acabou de desmaiar, e a Gabi tá vomitando no lago de esmeralda!
_Não se preocupem que o Fentusiano não vai ficar aqui: ele voltará à vida, eis que tenho importante missão para ele. Queres fazer as honras, meu filho?
_É claro, papai! Vai, Fentusiano! Levanta e anda!


............

Eram sete da noite e Zé das Almas estava mais cansado do que de costume. Fora um dia barulhento, aquele, com milhares de crentes a inundar o cemitério com gritos desesperados, pela morte de seu pastor.
Zé das Almas – assim chamado por sua capacidade de ver e ouvir espíritos – só pensava em ir para casa. O problema é que precisava terminar a sepultura de Fentusiano.
_Não quero nem saber a que horas você vai fazer isso: meia-noite, de madrugada!... Mas você só sai daqui depois de jogar concreto em cima dessa cova, ouviu?... Ponha bastante cimento e espere secar um bocado! – ordenara o prefeito – Vai que algum malandro resolve profanar esse santo corpo...
E lá estava o Zé, misturando cimento e maldizendo a vida, enquanto tentava se livrar da profusão de espíritos que buscavam um dedo de prosa.
Súbito, sentiu um fedor insuportável vindo daquela cova. Era como se tivessem destampado milhares de fossas, repletas da merda mais fedorenta. Gritos de horror, nas sepulturas vizinhas, gelaram-lhe a espinha.

_Mas o que é que você pensa que está fazendo? – perguntou o espírito de um empresário.
_Mas eu não fiz nada!... Só tô misturando o cimento.
_Você tem certeza de que não quebrou algum cano aí embaixo? – perguntou a alma de um engenheiro.
_Não, seu dotô, não passa cano aí, não.
_Não é melhor dar uma olhada, pra ver o que é que tá acontecendo? – sugeriu o repórter investigativo local.
_Pra trás, pra trás, todo mundo pra trás! – ordenou o delegado Armando Bezerro, convocado às pressas pelo administrador espectral do cemitério, junto com o escrivão Caminha e um batalhão de bombeiros.
_Quando foi que enterraram o presunto?
_Foi há pouco, seu dotô, não tem nem uma hora – respondeu Zé das Almas – O enterro tava marcado pras quatro, mas foi tanto chilique, sermão e discurso, que só deu pra enterrar depois das seis.
_Então, como é que pode estar fedendo desse jeito?
_Pode ser um processo acelerado de decomposição, fenômeno raro, mas factível, devido às condições climáticas da região - comentou o médico legista.
_Eu já disse que é melhor dar uma olhada, em vez de ficar especulando – insistiu o repórter - Querem que eu vá?
_Caminha!
_Sim, doutor delegado!
_Desce aí na cova e vê o que é que tá acontecendo com esse presunto!

Caminha se transportou para dentro do caixão, à maneira fantasmagórica. Mas soltou um grito aterrorizante e reapareceu ainda mais lívido do que de costume.

_Doutor! Doutor!... O MORTO TÁ VIVO!!!
_COMO É QUE É?!!! – perguntaram todos.
_É sim! Tá vivinho da silva!... Os zolhões arregalados, as mãos socando a tampa do caixão...
_Mas como é que ninguém ouviu nada? – perguntou o repórter.
_Silêncio! Todo mundo, silêncio! – ordenou o delegado.

Foi então que todos conseguiram ouvir os murros de Fentusiano, além de um barulho estranho que mais parecia uma metralhadora.

_Mas o que é que é isso? O presunto tá armado, Caminha?
_Não, doutor. Acho que isso foi uma saraivada de puns!...
_Puns?!
_É, doutor!... O homem tá se peidando todo!...Tá um fedor horrível lá embaixo!... Quase que eu morro novamente!...
_Tudo isso deve ser apenas um equívoco – disse o legista – O que você deve ter visto foram espasmos post mortem. Afinal, como é que iam enterrar um sujeito vivo?
_Vivo não, seu dotô! – protestou Zé das Almas – Porque até se me obrigaram a abrir o caixão, um pouco antes do enterro, pra colocar a Bíblia dele. E posso lhe jurar que o homem tava era mortinho! Aliás, já tava até meio inchado...
_Eu não disse? Espasmos post mortem!
_Volta lá, Caminha!
_Mas, doutor!...
_Volta lá! Rasga!

Caminha retorna ao caixão, mas solta um grito ainda mais pavoroso.

_Sangue de Jesus! – disse o escrivão à multidão de espíritos – O sujeito tá vivo, sim! Mas já tá quase é sufocando na própria fedentina!...

Zé das Almas enrolou a camiseta em torno da boca e do nariz, pegou uma pá e começou a cavar. 
À medida que ia retirando a terra, o fedor ia se tornando mais e mais forte. 
Quando, finalmente, abriu o caixão e desconcentrou o bodum, fantasmas fugiram em massa do cemitério, invadindo casas, ruas, praças.
Gritos de vivos e mortos tomaram conta de Belém e de toda a região metropolitana. 
As forças armadas foram convocadas às pressas; equipes da Cruz Vermelha montaram hospitais improvisados; igrejas realizavam missas e cultos de meia em meia hora, eis que era grande a clientela - daqui e do além.
O Planeta inteiro tremia de medo, já que até mesmo no Facebook havia consenso: começara o Juízo Final.
E um Juízo Final jamais profetizado: uma gigantesca e indestrutível nuvem de fedor, que ia espalhando tempestades de merda; enormes toretes aguados, que, quando atingiam um infeliz, levavam à loucura ou até à morte instantânea.
Tudo, é claro, transmitido ao vivo pelas redes sociais e por corajosos repórteres televisivos, depois enterrados envoltos em merda, mas com honras de heróis.
Felizmente, para os belemenses, os ventos carregaram a nuvem para os Estados Unidos, Europa, Ásia, eis que a sua “anima” parecia especialmente atraída pelas nações mais belicosas.
No entanto, permaneceu em Belém a fonte de todo aquele Mal. E o seu potencial destrutivo era infinitamente superior.


................................

Fentusiano ficou tão feliz em sair do caixão que quis agradecer a Zé das Almas com a sua mais bela pregação. Mas os gases que expeliu foram tão medonhos que o coveiro caiu morto ali mesmo, na cova reservada ao pastor.
Ao redor do cemitério, as ruas haviam se transformado em um caos, com merda, fantasmas, corpos e loucos por todo lado. Fentusiano se aproximou de um guarda, para pedir ajuda, mas acabou fazendo mais uma vítima: o sujeito caiu duro, apesar da máscara antigás.
Foi assim, aliás, por todo o percurso entre o cemitério e uma igreja próxima: a pestilência do pastor ia deixando atrás dele uma trilha de cadáveres.


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O templo estava repleto de fieis, tomados por um impressionante frenesi. Afinal, chegara a hora da vitória dos Justos! A hora da ceifa, em que o joio seria lançado no fogo infernal! Homens, mulheres, velhos, crianças, todos arderiam por toda a eternidade, enquanto eles, os Justos, poderiam delirar de prazer diante dos gritos dos pecadores. E de pé, diante do trono, pelos séculos dos séculos, louvariam Aquele que lhes proporcionara tão inebriante vingança, de fazer inveja a Vlad, o Empalador.
A chegada de Fentusiano agitou ainda mais os Santos. Ouviram-se gritos de “Milagre!”, “Ressuscitou!”. Diáconos abriram caminho no meio da multidão, para conduzi-lo ao púlpito. Todos queriam saber qual a mensagem que Deus lhes enviara através daquele Santíssimo Homem, que até ressurgira dos mortos, à semelhança de Jesus.
Qual a surpresa, no entanto, quando Fentusiano ficou ali, parado, apenas a olhar o imenso rebanho. Em coro, começaram a gritar: “Fala! Fala!”, mas ele continuava mudo. Pastores e diáconos o cercaram, perguntando se estava bem, como fora a Santa Ressurreição.
E foi aí que aconteceu o desastre.
O coral da igreja atacou: “Glória, Glória, Aleluia!/ Glória, Glória, Aleluia!/Glória, Glória, Aleluia!/ Vencendo vem Jesus!...” A multidão explodiu em aleluias. E Fentusiano, mecanicamente, tentou gritar uma “Aleluia!” também. O rebanho inteiro caiu morto, em meio a gritos aterrorizantes.
Consternado, o pastor começou silenciosamente a rezar (Tem misericórdia de mim, meu Deus, tem misericórdia... O que foi que eu fiz pra merecer tamanho castigo? E o que fizeram eles, pra perecerem dessa forma?)

_Quer dizer que agora pedes misericórdia, Fentusiano?

E assim como caíram as escamas dos olhos de Saulo, também cessaram os puns de Fentusiano, que recuperou a voz.

_Senhor Jesus! – e caiu de joelhos, diante daquele ser todo de branco e de rosto resplandecente.
_Quer dizer que ainda não compreendes que tudo isso é resultado do ódio que semeias em meu nome?
_Mas, Senhor Jesus!...
_Sabes, Fentusiano, a maior obra que fiz foi no coração de meu Pai. Ele queria acabar com a espécie humana, porque havia se convencido de que vocês foram o único erro de toda a Criação. Afinal, que outro ser tortura o seu semelhante, e até mata por prazer? Que outro animal tem toda essa ânsia destrutiva por tudo o que vive? Aliás, já houve até quem comparasse o ser humano a um vírus... Mas o ser humano, Fentusiano, é muito pior do que um vírus! Porque um vírus não pensa. Já o Homem, mesmo tendo consciência de toda a dor que provoca, não cessa de corromper e destruir.
_Mas, Senhor, foi assim que fomos feitos: sujeitos a todas as tentações da carne. Somos todos pecadores, imperfeitos. Somos demasiado fracos para resistir ao Mal...
_Não, Fentusiano, não me venhas com desculpas esfarrapadas! Nem venhas culpar o meu Pai pelas atrocidades que vocês cometem. Livre arbítrio não é apenas PODER fazer o Mal. É, sobretudo, QUERER e FAZER o Bem. Livre arbítrio é optar pelo sorriso de uma criança, pelo socorro a um bichinho indefeso, pelo respeito a uma árvore, a uma flor. É ansiar por fazer o Bem, com toda a alma, com todo o coração! No entanto, vocês vivem apenas para escravizar, torturar, matar!... E não me venhas dizer que tudo isso é obra de algum “gênio maligno”!... Não, Fentusiano: quando se trata de fazer o mal, o ser humano não precisa de ajuda!... Pra fazer o mal, o ser humano é autossuficiente!...
_Mas, Senhor Jesus, tu morreste por nós! Então, algo de bom tem de haver em nosso coração...
_É verdade, Fentusiano, há muito de sublime no espírito humano! Nenhuma outra espécie possui essa característica admirável que é a solidariedade. Vocês são os únicos que arriscam a própria vida pra salvar um desconhecido ou até um animalzinho de outra espécie. Também possuem enorme capacidade de amar, brincar, rir, criar. O problema é que apenas uma minoria valoriza tais qualidades. E, dessa minoria, uma parte o faz por mera vaidade: dá centavos de esmola, apenas para receber milhões de homenagens... O restante, ou seja, um grão de areia no oceano, é chamado até de lunático, quando tenta fazer o que é bom e justo.
_Mas, Senhor, nós podemos aprender com o teu exemplo!...
_Meu exemplo já tem mais de dois mil anos! - e o que foi que vocês aprenderam, afinal? ... Dize-me, Fentusiano, o que foi que TU aprendeste?
_Aprendi a orar, a amar o meu semelhante, a combater o Mal, a viver em santidade, a pregar a tua palavra, a conduzir outras almas ao caminho do Bem!..
_Combates o mal?! Amas o teu semelhante?! Tu?!!!... Ora, Fentusiano, as tuas pregações são puro ódio e terror! Se pudesses, mandarias torturar e matar todos os que pensam diferente de ti! E se nem mesmo respeitas o teu semelhante, o direito de ele existir e ser, como é que podes amá-lo?! E desde quando essa coisa que pregas é a minha palavra? Esqueceste que mandei amares o próximo como a ti mesmo? Esqueceste que eu disse para não julgares nem condenares o teu irmão? Dize-me, então, Fentusiano: onde é que está escrito que mandei perseguir gays, mulheres, umbandistas?
_Mas, Senhor...
_Não, Fentusiano!...  Cansei de te ouvir perverter as minhas palavras! Cansei de te ver enganar multidões em meu nome! Tudo o que fizeste, em tua miserável existência, foi usar a mim e ao meu Pai, por ganância e vaidade, e para satisfazeres todo esse ódio que tens no coração. Mas agora, Fentuasiano, tu e todos os iguais a ti conhecerão a Justiça de meu Pai!


Soaram, então, as trombetas tocadas por sete anjos, enquanto um telão ia exibindo o Whatsapp divino.
E disse o Senhor: deixai vir a mim todos os perseguidos, torturados e mortos, em todos os tempos, apenas por serem diferentes ou mais frágeis! E que, apesar de perseguidos e torturados, não se permitiram odiar o seu irmão! Deixai vir a mim todos os que lutaram por respeito, para si mesmos e para tudo o que vive! Deixai vir a mim todos aqueles que os defenderam, lutaram por eles, rezaram por eles, porque compreenderam o valor da Vida e da Tolerância! Deixai vir a mim aqueles que de fato me amam, eis que amam, incondicionalmente, todas as maravilhas que criei!
E, de repente, multidões de homens e mulheres - velhos, jovens, crianças; gays, héteros; negros, brancos; ricos, pobres - e animais de toda a Terra, dos oceanos, dos ares; e árvores e arbustos, flores, cipós elevaram-se ao imenso portal brilhante em que se transformara o céu.
Depois, tudo escureceu.
Então, as nuvens de merda e fedor se multiplicaram, despejando toretes em profusão nos campos, nas cidades, nas montanhas, nos mares.
E Fentusiano e os seus iguais (aqueles que só sabem odiar e semear o ódio) foram obrigados a aturar uns aos outros, por toda a eternidade, já que agora imortais.
E tudo aquilo que pensam, e que pensam uns dos outros, é imediatamente revelado, em letreiros luminosos que surgem acima de suas cabeças.
E tudo aquilo que dizem, as imprecações de suas almas pútridas, transforma-se em peidos medonhos e em mais e mais tempestades de merda.
Todos os dias nela são sepultados. E todos os dias dela ressurgem, eis que é da própria merda que se alimentam.
Pelos séculos dos séculos.
Amém!

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