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segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia em que o Brasil viu a cara do Brasil.






É tentador imaginar que o que vimos, ontem, na Câmara dos Deputados, seja apenas o resultado de um sistema eleitoral falido, ou até de conspirações.

Fala-se que Eduardo Cunha teria ajudado nas eleições de vários deputados - e as listas da Odebrecht apontam nesse sentido.

Além disso, há o lobby dos evangélicos, dos ruralistas etc&tal.

E, é claro, a tendência do PMDB de se aglutinar, quando estão em jogo os interesses partidários, como vemos agora, com a possibilidade da ascensão de Michel Temer à Presidência da República.

Seria realmente muito mais simples se aquela Câmara fosse apenas o resultado de uma grande conspiração.

E se o que tivesse faltado ali fossem cargos ou dinheiro, para comprar todas aquelas vestais.

No entanto, o problema é muito mais complexo.

No ano passado, houve uma onda de protestos, nas redes sociais, contra um beijo gay entre as atrizes Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, em plena novela das 8.

A onda foi tão forte que até a poderosa Rede Globo teve que recuar.

O escândalo foi maior, é verdade, porque o beijo foi entre duas idosas.

Daí que não podia nem mesmo servir às fantasias sexuais do distinto público, restando apenas o amor gay nu e cru.

Quem olhou atentamente aquele episódio, viu, é claro, um retrato da hipocrisia nacional.

Afinal, as mesmíssimas pessoas que reclamavam por terem seus filhos “expostos” a um beijo de amor, nada diziam sobre a exposição deles à incitação à violência, que grassa em toda a imprensa, sob a máxima de que “bandido bom é bandido morto”.

Ontem, a “família brasileira”mostrou, novamente, o quanto é ignorante, conservadora e hipócrita; o quanto a sua “moral e bons costumes” está contaminada pela imundície.

Papais e mamães, vovôs e vovós, tão orgulhosos de sua descendência, até citavam os nomes de seus filhinhos e netinhos, quando proferiam o voto a favor do impeachment da presidenta.

A mesa dos trabalhos era conduzida por um corrupto notório; réu em processo que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF); e que mentiu, na cara dura, aos congressistas, ao afirmar que não possuía contas no exterior.

Corruptos de todos os matizes, acusados de toda sorte de crimes, revezavam-se no microfone, em discursos inflamados contra a mesmíssima corrupção de que são acusados.

Houve até quem elogiasse a tortura, um crime hediondo, ao dedicar o seu voto golpista a um dos piores torturadores da História do Brasil: o coronel Brilhante Ustra, o comandante dos animais do DOI- Codi, que estupravam mulher com cassetete e espancavam até grávidas.

Mesmo assim, papais e mamães, vovôs e vovós, dentro e fora do Plenário, entendiam que estavam diante de um episódio dignificante, e até mesmo pedagógico, para os seus pimpolhos.

Em suma: amor gay não pode. Mas pode todo aquele espetáculo pornográfico que o Brasil teve que assistir no dia de ontem.

O que realmente assusta é que tais deputados não são ETs. Tampouco, e por incrível que pareça, emergiram do inferno.

Todos são cidadãos eleitos pela maioria da população brasileira, para representá-la.

E não em uma Câmara de Vereadores, que é, digamos assim, o grupo escolar da política. Mas, na Câmara dos Deputados, uma das instâncias mais importantes do Legislativo, e onde é necessário ter milhares e milhares de votos, para conseguir entrar.

Aquele discurso que ouvimos repetidamente, ontem, “em nome de Deus, da tradição, família e propriedade” (e que é o mesmíssimo de 1964) deve ter sido usado nas campanhas eleitorais desses deputados.

Ou seja: seus eleitores apoiam esse pensamento conservador.

Porque são extremamente permissivos quanto à corrupção, que serve apenas de “mote útil” contra adversários, mas "zelosos" de seus “valores familiares” (até que sejam apanhados é, claro, em “flagrante adultério”, ou até na exploração sexual de crianças e adolescentes...).

Não é crível que tais deputados tenham sido eleitos apenas pela classe média e pelas elites, que formam uma parcela muito pequena do eleitorado – embora, é claro, com enorme poder de “convencimento” eleitoral.

Bem mais lógico é que esse pensamento perpasse toda a sociedade brasileira: ricos, pobres, remediados; brancos, negros, pardos; homens e mulheres; jovens e idosos.

E é bem possível que seja a construção da tolerância o maior incômodo desses milhões de brasileiros, em relação às esquerdas.

Uma tolerância que não contempla apenas os homossexuais. Mas também o direito das mulheres sobre o próprio corpo e a própria vida; o direito dos negros à Educação e à ascensão social; o direito de crianças e adolescentes de serem vistos como cidadãos, e não apenas como “patrimônio” paterno.

No fundo, é a revolta da família patriarcal. É uma questão ideológica.

Daí a dificuldade de um governo de esquerda ou de centro esquerda em negociar com um Congresso desses.

O que é que vamos lhes oferecer?

Eles são corruptos, mas não querem apenas cargos. Eles querem, na verdade, é submeter toda a sociedade à sua cartilha intolerante.

Como, então, negociar com cidadãos assim, que parecem extraídos de um museu do século XVII?

E isso é outra coisa importante que a votação de ontem mostrou.

Primeiro: nenhum governo de esquerda ou de centro esquerda terá condições de governar com aquela Câmara.

Segundo: Eduardo Cunha é o virtual presidente da República do Brasil.

É ele quem dá as cartas, na Câmara e, talvez, até no Senado e no STF.

E apenas por distribuir benesses a vários políticos? Não. Isso pesa, é claro. Mas pesa, também, o fato de ele ser, hoje, a maior liderança desse pensamento conservador.

Cunha acuou Dilma. E enquanto ela e o PT não mexeram com os  interesses dele, nada aconteceu.

Mas bastou que Dilma desarticulasse um esquema de corrupção do qual ele era beneficiário, e que o PT se juntasse aos que pedem a sua cassação, para que mostrasse o poder de fogo que possui.

Portanto, o que vimos, ontem, foi, sobretudo, uma demonstração de força. 

Nenhuma agenda avançada passará, na Câmara, enquanto Cunha for o seu presidente. 

E todos os direitos trabalhistas e das minorias estarão em risco, ainda que Dilma consiga se manter no poder.

Ao que parece, a sociedade brasileira chegou a uma esquina em que o confronto será, simplesmente, inevitável.

FUUUUUUIIIIIIIII!!!!!!!!

2 comentários:

Anônimo disse...

Guardadas as proporções. Se hoje Jesus Cristo viesse viver no Brasil, seria execrado por essa turba, como o foi em Israel 2 mil anos atrás.

Anônimo disse...

E ele seria preso por delegado de polícia, como foi o INRE de Índia. Lembram? Que pegou o cara é jogou no São José? Claro que o INRE e chamado de impostor. Mas paremos pata pensar : e se os céus resolvesse mandar o INRE, em forma de pegadinha, heim!?