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quarta-feira, 18 de março de 2015

Meditações sobre o 15 de Março – Parte 2: Sob o domínio do ódio.





No domingo, o publicitário Rafael Esteves resolveu almoçar na casa de uma amiga, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. E como a amiga é fã de “Friends”, vestiu uma camiseta com a logomarca do seriado. Ele só não imaginava é as hostilidades que enfrentaria por causa de algo tão corriqueiro - a escolha de uma roupa.

O metrô estava apinhado de manifestantes do 15 de Março. E a camiseta de “Friends” era vermelha, a cor do petismo e de todas as esquerdas. Enquanto caminhava, Rafael notou que lhe olhavam de forma esquisita e só se tocou do que se tratava quando ouviu o primeiro “vai pra Cuba”. Em uma das estações, veio o pior: além de insultos, ouviu a ordem:  “ou tira a camiseta ou vai ser expulso do vagão”.

O rapaz explicou que não é petista, apontou a logomarca de “Friends”,  argumentou que o Brasil é uma Democracia - e nada. No meio da confusão, uma senhora de 74 anos saiu em defesa dele e disse ser petista. A idosa acabou expulsa, aos gritos, do vagão. (https://www.facebook.com/faelesteves/posts/877603128965204).

Naquele mesmo dia, à tarde, em Porto Alegre (RS), a estudante Sara Menezes estava em uma esquina, observando a passeata. E como vestia uma camisetinha vermelha, teve de ser protegida pela polícia. "Eles começaram a gritar com um rapaz ao meu lado, e quando viram que eu estava com uma camiseta vermelha vieram pra cima, e a policia logo apareceu pra me proteger", contou a garota. (http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/rs-com-roupa-vermelha-jovem-e-hostilizada-em-manifestacao,aa952651bee1c410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html) 

No Rio de Janeiro, um homem caminhava pela praia de Copacabana, quando foi abordado por manifestantes, também pelo fato de estar com uma camiseta vermelha – e, “pra piorar”, com uma estampa da foice e martelo. O homem recusou-se a tirar a camiseta ou a ir embora da praia. Bateu boca com os manifestantes, disse que votou em Dilma Rousseff e que as ruas são de todos. Foi chamado de “viado” e insultado com toda sorte de palavrões. Tentaram até espancá-lo. Teve que sair dali em uma viatura policial. (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1603255-homem-com-camiseta-da-foice-e-martelo-e-hostilizado-em-copacabana.shtml).

Ainda em Copacabana, o fiscal da Fazenda Sérgio Moura, que é morador da área resolveu gritar para os manifestantes um “vai pra Miami”. Foi cercado e agredido. "Me agrediram, jogaram cerveja, me deram chute", relatou. "Não vou ficar calado. Vocês querem que tenha um golpe militar para todo mundo ficar calado? Eu defendo o meu direito de ser democrático. Vai para Miami, vai atrás do teu dinheiro", repetia, indignado, após a agressão.

Já o mecânico Rogério Martins apenas passava de bicicleta pela avenida Atlântica, também em Copacabana, com uma bandeira vermelha do Movimento Nacional de Luta pela Moradia enrolada no pescoço. Foi chamado de “ladrão”, “comunista” e empurrado da bicicleta até cair. Teve de ser escoltado pela polícia, para deixar o local. "Eu não fiz nada e tentaram me espancar", disse, espantado, o mecânico. (http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2015/03/acompanhe-os-protestos-pelo-pais.html)

Os casos acima são apenas algumas das agressões ocorridas durante a Manifestação de 15 de Março, considerada “pacífica” e “ordeira” pelos grandes veículos de comunicação.

Eles refletem um ódio impressionante a tudo o que lembre o petismo e todas as esquerdas. Um ódio que não poupa ninguém: nem mesmo uma idosa de 74 anos ou uma garota que poderia ser sua filha, caro leitor.

Em comum entre as vítimas, além da roupa vermelha, há apenas o exercício de direitos democráticos, constitucionalmente garantidos: ir e vir, liberdade de expressão.

Em comum entre os agressores, a ideia de que podem suprimir na marra os direitos alheios; que podem ofender,  ameaçar e até espancar outros cidadãos; que podem determinar aos demais até o que vestir.

O ódio aos “comunistas” (a denominação a que são reduzidos por essa gente todos os esquerdistas, e não só) não é um fenômeno novo no Brasil.

Experimentou picos durante o integralismo e a ditadura militar, mas sempre esteve presente em todo o século passado.

Nos últimos anos, no entanto, parece vir crescendo de forma célere, e ninguém sabe dizer em que acabará.

Nas jornadas de junho de 2013, foram várias as agressões a militantes de esquerda, já que grupos fascistas tentavam expulsá-los daquele movimento.

Na campanha eleitoral do ano passado, também ocorreram agressões - a mais impressionante a um deficiente físico: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2014/10/19/enio-petista-conta-a-agressao-que-sofreu/ 

Agora, ao que parece, o ódio se dissemina pelo país e atinge até mesmo quem nem militante é: apenas comete o “pecado” de usar uma determinada cor.

Certeza de impunidade? Provavelmente.

Coisa que explica, também, o fato de até pedirem abertamente um golpe militar, enquanto semeiam esse ódio doentio entre as massas que invadem as ruas do Brasil.

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