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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Meditações sobre a histórica passeata de 17 de junho. O PT terá peito para acelerar as reformas que podem acalmar as ruas do Brasil?


Foto: Mídia Ninja


Peço desculpas aos leitores por esta postagem estar indo ao ar tanto tempo depois da histórica passeata de anteontem.

Bem que tentei escrever alguma coisa de madrugada e ontem de manhã, mas, estava exausta.

E até acabei tendo de dar razão à minha filha: “mãe, cai na real. Tu não tens mais condições físicas pra isso”.

De fato, caro leitor, houve momentos em que imaginei que ia desmaiar de dor e que não ia conseguir chegar ao Entroncamento.

Mas, não me arrependo.

E agora quero é dividir com vocês algumas impressões acerca daquela passeata e de tudo o que estamos vivendo neste momento histórico, em todo o Brasil.

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A passeata de anteontem não foi uma passeata qualquer.

Ela foi, em verdade, uma das maiores manifestações políticas que já assistimos em Belém, nos últimos 40 anos.

A Polícia Militar diz que havia ali mais de 13 mil pessoas. Mas organizadores do movimento falam em 20 mil. E é possível que os segundos tenham razão.

Perguntei ao coronel Roberto Campos, comandante do Policiamento da capital, se ele já havia visto tanta gente numa passeata.

A resposta dele: “que eu me lembre, não”.

Ele observou, no entanto, que pode não ter assistido manifestação maior  por estar viajando a serviço, por exemplo.

Mas o coronel tem 24 anos de PM. E o fato de não se lembrar de nada parecido é, sim, revelador.

Às proximidades do Entroncamento, quando já estava indo embora, encontrei o Charles Alcântara, presidente do Sindifisco.

Perguntei pro Charles, que acompanha manifestações de rua desde a década de 1980, se ele já havia visto algo assim. Ele também disse que não.

E só ficou em dúvida quando lhe perguntei: “mas nem na época do impeachment do Collor”?

E comentou: “A diferença fundamental é que isso aqui não está sendo dirigido por partidos. Há muita gente ligada a partido aqui no meio, mas essas pessoas não trouxeram bandeiras. O movimento tem, inclusive, resistência aos partidos. O que significa que os partidos enfrentam uma séria crise”.

E acrescentou: “Hoje, há uma hegemonia da representação política por partidos políticos. Mas vivemos uma transição. E ninguém sabe no que isso vai dar”.

Agora, as memórias desta própria blogueira.

Cobri, como repórter, as grandes manifestações de rua pelo direito de morar, na década de 1980.

Não posso falar do impeachment de Collor porque, naquela época, morava em Portugal.

Mas só encontro comparativo com o que vi anteontem nas manifestações pelas Diretas Já. Só que há diferenças fundamentais, como bem notou o Charles.

Na época das Diretas, tínhamos no comando um partido enorme, o PMDB, o único então permitido, salvo engano, além da Arena, PSD – alguma dessas coisinhas da direita.

E junto com o PMDB, e até dentro dele, tínhamos os partidos comunistas, que possuíam grande inserção no movimento estudantil.

Quer dizer: tínhamos um grande partido não apenas no comando, mas, também, mobilizando a população – nas universidades, nas fábricas, nos bairros.

Além disso, a partir de um determinado momento, passamos a contar com o apoio de boa parte da imprensa, inclusive da Rede Globo (ou você já se esqueceu dos apresentadores do telejornal que traziam sempre um lenço amarelo no pescoço?).

Anteontem, no entanto, esses meninos e meninas colocaram nas ruas de Belém umas 20 mil pessoas, sem a participação dos grandes partidos, que, na verdade, estão tão perplexos quanto qualquer um de nós.

Esses meninos e meninas, que também não foram para as portas das fábricas, nem foram distribuir panfletos dentro das universidades, também não tiveram um apoio decisivo da grande imprensa.

Parte dela apenas se rendeu à força do inocultável (e passou a noticiar os fatos), enquanto o restante, na maioria, ou trata essa garotada como “vândalos e baderneiros”, ou como “massa de manobra”.

A meninada fez tudo sozinha através da internet e das redes sociais – e isso em um estado de enorme exclusão digital.

Discutiram, teclaram à beça, para construir um consenso mínimo.

E conseguiram inserir o 17 de junho de 2013 na História do Pará.

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É claro que havia “titios” e “titias” na manifestação.

No entanto, o que mais chamava a atenção era a quantidade de jovens – muitos tão novinhos que deveriam ter menos de 20 anos.

Não, não eram “patricinhas” e “mauricinhos”.

Havia, é claro, os razoavelmente bem vestidos, cabelinho bem cortado.

Mas era enorme a quantidade de meninas e meninos morenos, franzinos, vestidos de maneira bem simples: camisetas, shorts, jeans e até havaianas.

(Embora, é verdade, os mais antenados tenham é ido de tênis, que dá um jeito danado na hora de fugir da polícia - acredite, caro leitor...).

Um desses meninos me disse que era de uma escola pública de Belém e que uns duzentos colegas dele também estavam na manifestação. Foram liberados mais cedo pela diretora, porque queriam participar da passeata.

Alguns dos garotos traziam tambores, nariz de palhaço e até fantasias de super heróis da Marvel. Mas o que mais se via eram as máscaras brancas do filme “V de Vingança”, um Cult entre a garotada.

Nos cartazes e faixas, os protestos eram vários: o BRT, Belo Monte, a roubalheira que grassa no Brasil.

Nos “gritos de guerra”, também: contra a Rede Globo, o prefeito Zenaldo Coutinho, o “inesquecível” ex-prefeito Duciomar Costa, a Copa do Mundo, a presidenta Dilma Roussef e o senador Jader Barbalho – quando, para azar de Jader, a manifestação passava em frente ao Diário do Pará...

Cantaram o Hino Nacional, o “sou brasileiro, com muito orgulhooooo...”, gritaram slogans repletos de palavrões: “Puta que pariu/ cadê o BRT?/ Ninguém sabe/ ninguém viu”.

Mas os gritos mais ouvidos foram mesmo o “Vem pra rua!”, repetido a quem passava; e o “sem partido, sem partido”, quando o radicalíssimo PSTU erguia suas bandeiras, no meio da multidão (pra ver onde pode chegar, caro leitor, o encanto radical dessa meninada...).

No entanto, se comportaram direitinho, seguindo à risca as orientações da PM, inclusive parando com a gritaria e passando em silêncio na frente dos hospitais.

Garotos, nem a forte chuva que caiu por volta das 19 horas conseguiu afastá-los das ruas.

Alguns, é verdade, ainda tentaram se abrigar.

Mas logo correram ao encontro dos colegas, quando viram que estavam ficando para trás.

No Entroncamento, onde, seguindo a orientação da PM, a manifestação se  dispersou, ainda estavam molhados, mas, orgulhosos.

Alguns diziam: “quero é ver agora se tal e tal coisa não vai mudar”.

E haja a comprar cigarros a retalho, água mineral, salgadinhos e guloseimas dos camelôs.

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Que eu visse, só houve dois momentos de alguma tensão.

O primeiro, por volta das 19 horas, quando um forte estrondo fez com que alguns pensassem se tratar do lançamento de uma bomba (na verdade, foi apenas o estouro de um transformador).

O segundo, quando a passeata já se encontrava às proximidades da Tavares Bastos.

Dois meninos se desentenderam. E, segundo quem estava por perto, os manifestantes chegaram a abrir um clarão ao redor deles dois.

Quem vinha mais atrás começou a gritar: “Sem violência, Sem violência”. E alguns até tentaram correr.

“Mas aí a gente chegou junto pra acalmar”, contou-me um soldado.

E esse foi outro ponto positivo da manifestação de ontem: a inteligente ação da PM.

Como os soldados não hostilizaram, também não foram hostilizados. Assim, puderam circular sem problemas, ao redor e até dentro da manifestação.

Isso permitiu que controlassem rapidamente (e sem violência, como gritavam os garotos) o que poderia ter se transformado em um desastre.

No fundo, o clima foi tão cordial que um policial até tirou fotografias junto com um ou dois manifestantes, quando a passeata se encontrava em frente à Delegacia do Marco.

Ao fim e ao cabo, ninguém estava a fim de onda.

Os garotos só queriam mesmo é exercer um direito que lhes é garantido pela Constituição.

Além, é claro, do direito inalienável de sonhar.

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Um fantasma ronda as esquerdas brasileiras: a onda humana.

Unem-se contra ela jornalistas, sindicalistas e ativistas comprometidos há trocentos anos com as lutas sociais.

E, por incrível que pareça, até mesmo militantes do PT, um partido que nasceu e galgou o poder justamente a partir de ondas assim.

Por que as esquerdas brasileiras são tão peculiares que conseguem chegar à postura paradoxal de temer o povo nas ruas?

Por que, como já li tantas vezes, alguns respeitáveis esquerdistas não cansam de criticar essa garotada, tentando carimbá-la como mera massa de manobra?

Por que não tentam ao menos ouvir o clamor dessa meninada?

Será que se esqueceram de que já tiveram essa mesmíssima idade e que também foram pras ruas em busca de direitos, liberdade e de uma sociedade melhor?

O que aconteceu com a esquerda brasileira, e em especial com o PT, que não consegue enxergar a oportunidade oferecida por esses jovens para aprofundar as mudanças sociais, econômicas e políticas deste país?

Esses meninos querem retrocesso?

Querem acabar com o Bolsa Família, com as cotas, com o ProUni, com a democratização digital?

Acaso defendem o monopólio da comunicação por meia dúzia de famílias e o fim da criminalização do racismo?

Defendem massacres indígenas, homofobia e os latifúndios dos ruralistas?

A violência, a corrupção, a impunidade?

Nunca vi, ouvi ou soube que pedissem isso - muito pelo contrário.

As reivindicações deles são por um sistema de transportes públicos livre dessa feroz exploração capitalista e dessas máfias que dominam o setor.

São por Saúde e Educação realmente dignas desses nomes.

E, por mais que não o expressem, são por outro tipo de sociedade.

Que não esmague o indivíduo e não mantenha na miséria a maioria da população.

Que permita realmente a participação de todos nas decisões que a todos dizem respeito.

Esses meninos e meninas, por mais que titios e titias pensem o contrário, fazem conexões certeiras entre os vários fios que compõem a realidade.

Daí as críticas à Rede Globo e à grande imprensa como um todo, que participa ativamente dessa dominação.

Nós, os titios e titias, somos filhos de um sistema educacional no qual tudo o que se “aprendia” era pura e simples decoreba; e quase toda a informação que nos chegava vinha através dos veículos tradicionais de comunicação.

Já esses meninos e meninas vêm de um sistema educacional que vai paulatinamente reaprendendo a ensinar a pensar.

E a quantidade de informações a que têm acesso é infinitamente maior do que alguma vez conseguimos sonhar.

Difícil, portanto, é que acabem simplesmente transformados em “massa de manobra”, quer pela direita, quer pela mídia.

Porque esses garotos e garotas veem o noticiário dos grandes veículos, mas compartilham, na mesma hora, dezenas, centenas de imagens sobre o que de fato ocorreu – e debatem acerca disso; e formam as suas opiniões; e “blindam” as suas opiniões em relação às ficções midiáticas.

É claro que as manifestações que realizam são objeto de uma feroz disputa político-partidária – como acontece, aliás, em qualquer manifestação.

No entanto - e é isso que o PT não parece perceber – não há partido na oposição que possa aplacar o clamor dessas ondas.

Porque o que esses jovens querem são profundas e urgentes reformas, em prol da Cidadania.

E o que ofereceria o PSDB a esses jovens, se estivesse no Palácio do Planalto?

Mais duas ou três privatizações?

Mais balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, como fez o Alckmin?

Mais e mais propaganda sobre um “Brasil lindinho”, como faz Simão Jatene em relação ao estado do Pará?

Talvez por perceberem isso, aliás, é que os tucanos estejam tentando inflar bandeiras artificiais no movimento desses garotos, como é o caso das críticas à Copa do Mundo.

Trata-se, simplesmente, de hipocrisia e oportunismo.

Hipocrisia porque, se estivessem no Poder, os tucanos também estariam realizando a Copa do Mundo no Brasil, haja vista as críticas de Simão Jatene, na campanha eleitoral de 2010,  à então governadora Ana Júlia Carepa, “por ter feito o Pará perder a possibilidade de também sediar esses jogos”.

Oportunismo porque o eventual cancelamento da Copa do Mundo no Brasil matará dois coelhos de uma só cajadada: desgastará profundamente a presidenta Dilma Rousseff e, mais ainda, o movimento desses jovens, devido à paixão do brasileiro pelo futebol.

Ontem, aliás, o jornal O Liberal modificou até o slogan desses meninos.

O que era “Não é por R$ 0,20. É por direitos”, virou “Não é pelos R$ 0,20. É pelo fim da corrupção”.

E até o senador Mário Couto discursou no Senado pelo fim da corrupção – logo ele, que teve os bens bloqueados pela Justiça, por suspeita de envolvimento no monumental rombo da Alepa.

No entanto, acredito que esses garotos estão atentos e fortes às tentativas de manipulação do movimento, por partidos que não têm rigorosamente nada a lhes oferecer.

Aliás, pelo que vi nas ruas e tenho visto, também, nas redes sociais, esses garotos estão convictos de que nenhum partido político tem coisa alguma a lhes oferecer – nem mesmo o radicalíssimo PSTU.

Como já vivenciam uma espécie de democracia direta através da internet, eles querem é participar da política sem a intermediação partidária.

Não me parece que já tenham se posicionado à esquerda ou à direita, embora as suas bandeiras sejam todas de esquerda.

(Quer dizer: do tempo em que as esquerdas brasileiras podiam, de fato, ser chamadas assim...).

Além disso, penso que confundem os partidos políticos, entidades tão legítimas quanto as redes sociais, com cidadãos que eventualmente se apropriam dos partidos, para se locupletar com dinheiro público.

Por isso, em vez de ficar apenas criticando essa garotada, o PT tem é de aproveitar para pisar no acelerador.

Eles querem passe livre? Estatizem o sistema de transportes. E deem a gratuidade. Por que não?

Eles querem o fim da corrupção? Acelerem a reforma política, o financiamento público das campanhas e as propostas de redução dos salários e dos privilégios dos parlamentares.

Eles reclamam da manipulação da mídia? Coloquem na ordem do dia do Congresso a quebra do monopólio da Comunicação.

A hora é agora, é já!

A juventude voltou às ruas e delas dificilmente sairá.

Esses meninos e meninas não defendem o atraso, mas, o avanço.

Resta saber se o PT terá peito para fazer o que só as suas raízes populares, o seu conhecimento das ruas, pode, enfim, concretizar.

7 comentários:

Toquinho disse...

Tão logo começaram as manifestações país afora, e a imprensa golpista imediatamente providenciou selecionar algumas "lideranças" para entrevistar e encontrou uma pauta específica para divulgar, como: a redução das tarifas em algumas capitais; ou a educação e Belo Monte, no Pará. Isto é, qualquer assunto que remeta o problema para a esfera federal, deixando de lado algumas pautas específicas locais, como: a corrupção desenfreada (Alepa e Detran); ou o caos da saúde e o descaso com a cidade, patrocinado pelos governos ZenalDUDU. Por isso, que eu considero uma das principais bandeiras desse movimento: a democratização dos meio de comunicação, para o povo ter o direto de formar opinião. CHEGA DE DESINFORMAÇÃO E MANIPULAÇÃO! DESGLOBALIZE-SE! INFORME-SE!

Osorio Pacheco disse...

Os mais oportunistas, se pudessem, criariam um novo partido político, o PDSP Partido dos Sem Partido.
A dificuldade é de se comunicar com as lideranças, quem são as lideranças?
Encomendariam um software que pudesse fazer reuniões na internet, com lista de presença, secretaria que pudesse liberar a palavra a quem se inscrevesse e com deliberações, tipo aquela dos petistas, "vamos encaminhar",
Surgiria então o primeiro partido digital.

Anônimo disse...

Te segura zenaldo!

Anônimo disse...

A verdade é que muitos adultos frustrados passaram a subestimar e reclamar da meninada, encarnado que ela não tinha disposição de sair da tela do computador e ir até a cozinha fritar um ovo. Ledo engano. A mulecada tava articulando um puta salto de qualidade, mesmo que difuso ( por culpa dos mesmos adultos que esqueceram de deixar como legado a organização politica). Pena não ter surgido bandas como as de rock nacional como as da decada de 70 e 80, mas essa mulecada e Phoda e tá dando uma lição à hipocrisia alheia!

Anônimo disse...

Palavra mais falada pelos reporteres da globo: vandalismo.

Anônimo disse...

Aos poucos,a globo et caterva estão querendo desqualificar esta ebulição que ainda não entendemos, mas que não é à toa. A mulecada está dando de mil a zero no "quarto poder" e quem não tem o que dizer, fala abobrinhas , né Osório?
Isto só está começando.

Anônimo disse...

Exatamente anônimo das 11:31, isso está apenas começando. Faltan os excluídos das periferias pelos governos. Ou o judiciário toma vergonha na cara, e bota o dedo no suspiro, ou melhor, bota os corruptos na cadeia, ou o bicho vai pegar. Aí a rede bobo e suas afiliadas vão ver o que é vândalo.