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sábado, 22 de junho de 2013

A culpa é das esquerdas. E do Marco Feliciano.




As esquerdas são em grande parte responsáveis pelo caos que tomou conta do país, nas manifestações realizadas, anteontem, de Norte a Sul.

É verdade que não quebraram nem sequer uma janela, ou depredaram qualquer prédio público.

Pelo contrário: militantes de partidos de esquerda e dos movimentos sociais foram é alvo de toda sorte de agressões.

Levaram socos, pontapés.

Outros tiveram arrancadas as suas bandeiras, que foram queimadas ou até transformadas em “troféus” de uma guerra tribal.

Mesmo assim, as esquerdas continuam a ter enorme parcela de responsabilidade em tudo o que se viu. 

Simplesmente porque permitiram a ocupação de espaços consideráveis, nesse movimento, por grupos de direita e até nitidamente fascistas.

Ora, qualquer militante político, por mais básico que seja o seu conhecimento, sabe muitíssimo bem que em política não há lugar para o vácuo.

Há que ocupar espaços – e mantê-los. Do contrário, outros o farão.

Por um erro crasso, no entanto, as esquerdas não perceberam a importância de entrar nesse movimento.

As exceções foram o PSOL e o PSTU, que, no entanto, até pelo seu reduzido número de militantes, pouco puderam fazer.

Já os petistas, talvez por terem se deixado burocratizar por tantos anos de poder, ficaram apenas a criticar esses jovens, tachados de tudo um pouco: alienados, massa de manobra da direita, mauricinhos e patricinhas.

Ao que parece, os petistas partiram do pressuposto surrealista de que esses jovens não têm motivo nenhum para protestar.

Que estão nas ruas porque não têm mais nada para fazer.

Ou, simplesmente, porque “cansaram” do Facebook.

Esses meninos foram, assim, subestimados em sua capacidade de compreender e mobilizar.

Como se jamais fossem olhar ao redor e dizer: “mas que porra de país é este, que não me dá perspectiva de um futuro melhor”.

E, a partir daí, buscassem derrubar as estruturas, os muros que os aprisionam.

E o resultado é isso que estamos vendo.

Uma espécie de “expectativa da espera”, coisa que nem dá para explicar o que é.

E o temor dessa Hidra que sempre se levanta no horizonte em ocasiões como essa, especialmente, nos países latino-americanos.

E que conhecemos tão bem no Estado Novo e em 1964.

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Ainda haverá tempo para resgatar o espaço conquistado pela direita?

A onda humana refluirá por si mesma, ou se tornará ainda maior?

Ou, ainda, obrigará a Democracia a ir ao limite, para defender-se?

E, se for assim, no que isso resultará?

E, em qualquer caso, quais as consequências para a necessidade urgente que temos de mobilização popular para a aprovação de reformas que terão de ser arrancadas a fórceps neste país escravocrata, como é o caso da democratização da comunicação e da reforma política?

Ao longo da História, nunca se conseguiu estabelecer um padrão, uma “aritmética”, para as resultantes desses momentos em que as ondas humanas tomam as ruas de um país.

E mesmo que tivéssemos conseguido fazê-lo, esses padrões provavelmente já estariam obsoletos, tendo em vista as características originais, no mais amplo sentido, desses movimentos que se propagam no Brasil e em boa parte do mundo.

A acumulação, democratização e velocidade de disseminação da informação e do conhecimento; a exaustão dos modelos de representatividade política; e até a quantidade de alimentos disponíveis para a espécie humana são alguns dos fatores que tornam este momento histórico absolutamente singular.

No entanto – e isso é o pouco que sabemos - o embate político no interior dessas ondas vai deixando sinalizadores, acerca da dimensão e do rumo desses fenômenos.

Daí as perspectivas sombrias que muitos começam a externar, já que, nesse embate, um dos lados maciçamente se omitiu.

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O pior é que até anteontem boa parte dos petistas não dava sinais de que fará a necessária autocrítica, para, enfim, “correr atrás do prejuízo”.

Nas redes sociais, continuavam apenas a criticar esses jovens. E não se via ninguém a tentar estabelecer um diálogo, uma ponte.

O divórcio dos movimentos sociais e a consequente burocratização parecem ter levado o PT a não entender nem mesmo o porquê do desencanto desses jovens, em relação aos partidos políticos.

Não, eles não consideram o PT o partido mais corrupto do mundo e entendem muito bem que a corrupção está entranhada na própria cultura da sociedade brasileira.

Por mais incrível que pareça a alguns intelectuais de esquerda, esses meninos pensam, leem e escrevem com muita clareza.

Daí que esse desencanto não tenha como alvo um partido específico ou seja “apolítico”.

Na verdade, é um desencanto profundamente politizado, que advém da crítica implacável às práticas tenebrosas dessas agremiações, inclusive a leveza com que costumam trair o que pareciam ser compromissos programáticos.

E se aqueles R$ 0,20 centavos foram o estopim da revolta, é bem possível que a gota d’água para esse desencanto tenha de ser buscada um pouco mais atrás: na entrega da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ao homofóbico e racista Marco Feliciano.

Esses jovens acompanham atentamente tudo o que acontece na política brasileira.

Leem, opinam, compartilham, assinam abaixo-assinados, se mobilizam voluntariamente em prol de causas coletivas.

Já estavam até aqui com absurdos como Belo Monte, com a corrupção, a impunidade e os privilégios das Vossas Excelências.

Mas – e essa é a minha opinião – ainda acreditavam que este ou aquele partido pudesse agir de forma diferente; pudesse não rifar até a própria mãe, em troca de poder.

No entanto, quando viram que, para a maioria das Vossas Excelências, nem mesmo os direitos humanos valem ao menos R$ 0,20, perceberam que a sem-vergonhice dos partidos brasileiros é muito maior do que se poderia imaginar.

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É esse desencanto que está na raiz dessa postura (profundamente antidemocrática, diga-se de passagem) de não permitir as bandeiras dos partidos nas manifestações.

Uma parte deles, por influência, talvez, do pensamento anarquista, questiona até a mediação partidária.

Outra (talvez a minoria) simpatiza ou milita em partidos políticos, mas não enxerga, no atual sistema, a possibilidade de mudar o comportamento das Vossas Excelências e o toma-lá-dá-cá das negociações político-partidárias.

Quer dizer: não foi a direita a “criar” esse apartidarismo.

Ela está apenas a se aproveitar desse sentimento, não apenas para aguçar o “horror” às bandeiras partidárias, mas até em relação a quem milita em partidos.

E não apenas a direita: simpatizantes não-assumidos do PSDB também se aproveitam desse sentimento, para “blindar” o movimento contra a participação do PT.

E o PT, atacado por uma impressionante cegueira, tem feito desses jovens a leitura que essas forças políticas esperavam: a de que eles são “apolíticos”.

E, por consequência, despolitizados e desmiolados.

E, por consequência, facilmente “manobráveis” e já “definitivamente capturados” pelas forças mais retrógradas deste país.

Com isso, essas forças vêm conseguindo jogar praticamente sozinhas, o que lhes permite apresentar algumas reivindicações direcionadas apenas a desgastar os petistas.

Se tivesse se dado ao trabalho de se debruçar sobre as reivindicações desses jovens; e de acompanhar os debates que travam nas redes sociais, o PT jamais teria caído nesse engodo.

Porque teria percebido que boa parte desses jovens é extremamente crítica – daí a dificuldade que as forças tucanas e da direita, mesmo jogando sozinhas, têm tido para se aproveitar, na extensão que gostariam, desse movimento.

Daí que quando a extrema direita “incendeie” as cidades não consiga a adesão maciça desses garotos, a partir de um “efeito manada” ou de “contágio”.

É que esses jovens ou rejeitam o uso da violência para a transformação social – e preferem se espelhar em um Mahatma Gandhi – ou sabem que o uso da violência nas transformações sociais tem projeto, hora e lugar – como no caso do herói do filme V de Vingança.

Além disso, eles parecem majoritariamente perceber que a cidade é um bem coletivo. 

Por tudo isso, acredito que apresentam enorme potencial para apoiar reformas que têm a possibilidade real de transformar o Brasil – e que a direita tem feito de tudo para emperrar.

Mas, para isso, é preciso apresentar e debater tais propostas dentro do movimento. E se preparar para teclar e teclar.

Porque não pensem que qualquer um convence esses meninos, habituados a debater quase tudo (ainda ontem, por exemplo, eles estavam a discutir a necessidade de uma coordenação para o movimento, a amplitude dela e a extensão dos poderes representativos de que poderá dispor).

Resta agora é o PT, o maior partido de esquerda da América Latina, resgatar as suas raízes populares e entrar nesse movimento, o que, diga-se de passagem, não será nada fácil.

É que o PSDB e essas forças de direita já estão ativíssimos lá dentro, inclusive, sob a capa de “apartidários”.

E, certamente, gritarão aos petistas e a qualquer outro partido de esquerda: o movimento é nosso, ninguém tasca, a gente viu primeiro.

FUUUIIIIII!!!!!!

2 comentários:

Anônimo disse...

Uma coisa é certa, os partidfos ditos de "esquerdas" estão caindo no descrédito. Veja por exemlo a turma que assumiu o cargo na câmara dos vereadores, eles não rejeitaram os vales-refeição e muito menos a ajuda de custo para os gabinetes. Ficaram no velo discurso do bato e arrebento e não fizeram nada.

radiocunha disse...

vc está CORRETA em muitos pontos, creio que a burocratização do Partido dos Trabalhadores e o possivel "esquecimento" de manter o debate com a juventude, tenha propiciado este movimento anti-PT por partidários dos partidos de direita. De fato, faltam politicas publicas, principalmente para os jovens. Entretanto, muitas das conquistas que esses mesmos jovens hoje usufruem firam e são conquistas onde tiveram a participação ativa dos partidos de esquerda, notadamente do PT, como a meia passagem nos transportes coletivos, por exemplo. Agora, não se tira o mérito dessa juventude que teve coragem de ir as ruas e sair de frente das telas dos computadores. A internet é uma excelente ferramenta de mobilização, porém quem leva as pessoas às ruas são suas pernas e suas vontades de lutar por ideiais e não apenas os Facebook ou twitter da vida. Que o movimento seja apartidário (para todos), nunca antipartidários.