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segunda-feira, 20 de maio de 2013

A incrível história de Onde Judas Perdeu as Botas (Parte 2)



(Leia a primeira parte da Incrível História de Onde Judas Perdeu as Botas: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/10/a-incrivel-historia-de-onde-judas.html). 


 
O Eminente e Douto Marqueteiro de Onde Judas Perdeu as Botas era mais conhecido como 171.

O apelido viera de um costume peculiar.

Menino pobre, mas sedento de poder, logo descobriu o poder da ilusão - a “mercadoria” mais apreciada pelas gentes, em qualquer tempo e lugar.

Assim, passou a carregar consigo toda sorte de bugigangas: malabares, balões, apitos, estrelinhas, serpentinas, brinquedinhos para fazer fumaça e bolhas de sabão.

E enquanto deslumbrava os coleguinhas, rapelava figurinhas raras, as mais belas petecas, as melhores propriedades do Banco Imobiliário. 

Bem mais tarde, já como Eminente e Douto Marqueteiro daquela República Imperial, elevou à glória as técnicas de hipnose coletiva.

Em megaespetáculos televisados, o presidente imperial aparecia ora como Moisés-no-Mar-Vermelho, ora como Jesus-na-Batalha-de-Armagedom.

Tudo em meio a jogos de luzes, tambores, flautistas de Hamelin, dançarinos zulus, odaliscas, lambadas e guitarradas, acrobatas, encantadores de serpentes, trapezistas e engolidores de fogo.

Era assim: de uma grande cartola mágica (diz que herança de seu tatatatatatatatatataravô, o Mago Merlin), 171 fazia ressurgir o caos primordial.

O céu enegrecia e era cortado por relâmpagos e trovões.

Vulcões derramavam lavas pompeanas.

E o exército do faraó, as pragas do Egito, os fariseus, escribas e saduceus, a Besta, o Falso Profeta, os quatro cavaleiros do Apocalipse, São Cipriano, as bruxas de Salém e HAL 9000 se juntavam às legiões demoníacas, comandadas por Lúcifer, Asmodeu, Astaroth e Belfegor, com a retaguarda da Matinta Perera, da Moça-do-Táxi e da Mula-Sem-Cabeça, a prenunciar o fim dos tempos...

Mas eis que então 171 retirava da cartola o Herói, o Salvador.

E as ruas de Onde Judas Perdeu as Botas, repletas de lixo, barracos, palafitas e esgotos a céu aberto, viravam belíssimos e perfumados bulevares parisienses.

E os ratos, moscas, mosquitos, ladrões, puxa-sacos, vigaristas, as pragas e os patifes de toda ordem que empestavam aquela ilha, transformavam-se em lindos coelhinhos, mimosos beija-flores, resplendentes querubins ungidos...

É verdade, caro leitor, que bastaria que alguém abrisse a porta de sua casa, para que todo aquele ‘admirável mundo novo’ se desfizesse.

O problema é que permanecia no distinto público a convicção de que o Messias, sabe-se lá por que, havia rrrealmente decidido renascer em Onde Judas Perdeu as Botas...

E que o “futuro radiante”, ao qual a ilha estava “predestinada”, já começara, de fato, a se concretizar.

Até porque, nos megaespetáculos de 171, até os anjos exaltavam as qualidades que nem a ilha nem os seus habitantes possuíam, mas, imaginavam possuir: tudo em Onde Judas Perdeu as Botas era “novo”, “extraordinário”, “fantástico”, “insuperável”, “magnífico”, “grandioso”...

E todos os seus habitantes eram tão virtuosos, mas tão virtuosos que fariam até um mórmon parecer um desregrado...

Assim, não cansavam de repetir: “ó, como somos grandes!”, “ó, como somos ricos!”, “ó, como somos únicos!”, a bater no peito e a proclamar o orgulho de se nascer em Onde Judas Perdeu as Botas...

E enquanto permaneciam imersos nessa leseira, nesse surto psicótico, mais e mais os vigaristas se sucediam no comando daquela ilha; mais e mais a plebe morria nas filas de autênticos chiqueiros, apelidados de “hospitais”.

Bandidos surrupiavam a merenda escolar e assaltavam até a polícia, em plena luz do dia.

E tudo era lama – em sentido real e figurado.



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A capacidade ilusionista de 171 acabou por transformá-lo em uma das maiores fortunas daquela República Imperial.

Porque, além de adestrar a plebe como nenhum outro, também possuía invejável talento para fraudar licitações, sonegar impostos, lavar dinheiro e traficar informações.

E era aqui, em verdade, que assentava o poder do Eminente e Douto Marqueteiro: uma rede de serviçais espalhados em pontos estratégicos, para cascavilhar tudo o que acontecia em cada palmo daquela ilha – nos palácios, nos casebres, nos bares, nas cozinhas, nas alcovas e, ao que se diz, até nos cemitérios...

Isso lhe permitia não apenas conhecer em detalhes todos os planos dos adversários.

Mas, sobretudo, como eram esses adversários na intimidade, sem a infinidade de máscaras públicas.

Assim, podia prever as suas ações e reações futuras.

E até conduzi-los às ações e reações que lhe fossem mais convenientes.

Em suma, como bem poderiam ter ensinado Sócrates e Maquiavel: conhece profundamente o teu inimigo, para levá-lo a trabalhar por ti...



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No entanto, o mais impressionante dessa rede de futricas nem era a visão estratégica, mas, o talento do marqueteiro para fraudar até a personalidade alheia.

Porque o toque de gênio consistia em misturar informações verdadeiras a mentiras compatíveis e disseminar, insistentemente, tal engodo, até que virasse uma espécie de revelação espiritual.

Assim, até São Francisco de Assis podia se transformar, aos olhos públicos, em um discípulo de Satanás  - e ao ponto de até ele, São Francisco, começar a se perguntar se as suas ações não seriam, em verdade, inspiradas pelo demônio... 

Ao mesmo tempo, todas as patifarias do presidente imperial – um chefe de quadrilha preguiçoso, incompetente, acanalhado e bilé - viravam ações épicas, até abnegadas, típicas de um espírito sublime.

E, por incrível que pareça, toda essa lavagem cerebral era paga com dinheiro público: através de fraudes licitatórias e contábeis e de generosos benefícios fiscais, milhões e milhões eram subtraídos ao erário e injetados na docilidade dos veículos de comunicação daquela ilha.

E nos pasquins que o Eminente e Douto Marqueteiro fazia circular ilegalmente, durante as Eleições Gerais, para enxovalhar as principais lideranças oposicionistas.

E nas revistas, blogs e jornais editados apenas e tão somente para elogiar o presidente imperial: seus “magníficos dotes vocais e poéticos”, seu “grandioso espírito público”, sua “inimitável capacidade empreendedora”, seu “indisfarçável amor pelo trabalho”.
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Os operadores da rede intrigas de 171, muitos deles jornalistas, padeciam de verdadeira compulsão pela intriga e compadrio.

Especialistas em retorcer informações, bisbilhotavam até as cuecas das lideranças oposicionistas, para transformar qualquer coisa em escândalo.

E quando nada encontravam, simplesmente, inventavam.

Bastava um copo de uísque em um bar para que o sujeito virasse um “alcoólatra”; um comentário incisivo, para que virasse um “desequilibrado cheio de ódio”.

E como consideravam que mulheres eram apenas vaginas (e tinham de se contentar em serem apenas vaginas), reservavam às oposicionistas uma perseguição implacável: eram chamadas de  “piranhas”, “vagabundas”, “prostitutas”, arrastadas pelas ruas e apedrejadas em praça pública.

No entanto, esses pitorescos guardiões da moral e dos bons costumes nada diziam sobre as amantes do presidente imperial, todas mantidas com dinheiro do erário, nem sobre as suas perversões e milionárias falcatruas.

E, em verdade, não havia serviço imundo que recusassem, sempre em busca de uma babugem, um michê: uma sinecura para o filho, o irmão, marido, esposa, cunhado; o pagamento de pensão alimentícia para a ex-mulher; uma homenagem nas academias de meia pataca que abundavam naquela ilha; um “furo” pré-fabricado de reportagem; uma cesta de vinhos, um simples peru de Natal.

Por isso, também exibiam diante do marqueteiro um comportamento dulcíssimo: não diziam nem ai quando ele desatava a humilhá-los com toda a sorte de impropérios, em gritos histéricos, alucinados, que eram ouvidos até na vizinhança.

E era esta a característica mais reveladora do caráter do marqueteiro: diante do presidente imperial e de qualquer pessoa que lhe pudesse arranjar uma fraude a mais, até a voz dele se transformava, assumindo um tom servil.

No entanto, bastava que alguém estivesse apenas um milímetro abaixo dele, para conhecer-lhe a face doentia, que se comprazia em humilhar.

Em tais ocasiões, 171 sentia-se um deus, com o poder de esmagar aquela criatura repulsiva, que quase lhe lambia o ânus em busca de um favor, uma fraude, um “presente”.

E, no entanto, havia entre eles uma profunda e indisfarçável identificação.

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A Perereca adverte: esta obra é de ficção, sem a mínima semelhança com a realidade, como bem sabe o arguto leitor.

Assim, só serão aceitos comentários na mesma linha.

A blogueira informa, aliás, que está até pensando em transformar em livro a Incrível História de Onde Judas Perdeu as Botas.

Claro está, se conseguir o patrocínio da Secult...

3 comentários:

Anônimo disse...

Maninha eu acho que essa obra de ficção está falando do Marcos Valério. Dá logo para identificar rsrsrs Não esqueça nunca que "nada como um dia ...", isso vale para todo mundo, até para os que se acham. rsrsrs

Anônimo disse...

Mas, mesmo ipnotisado pelo douto marqueteiro da república imperial de onde o judas perdeu as botas, o povo do sul e sudeste da república vai gritar em praça pública ao imperador: "governador, aqui o forasteiro é o senhor.

Anônimo disse...

Sugiro um nome para o livro, que vai interessar a literatura infantil:" O Menino Malvadinho!". O que achas?