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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Belo Monte para quem?


Até onde podemos ir na busca pelo “desenvolvimento” econômico, sem inviabilizarmos a sobrevivência da nossa própria espécie e deste planeta?



Até que ponto a qualidade da água que bebemos, do ar que respiramos e o verde que nos alimenta e sombreia não são direitos tão fundamentais quanto a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a liberdade de expressão?


Neste século em que, como nunca na História, tomamos consciência de que somos, visceralmente, parte de um meio; em que tomamos consciência da importância de tudo o que vive e respira, até quando insistiremos em projetos como Belo Monte, especialmente numa região como a Amazônia, tão exuberante e, ao mesmo tempo, tão delicada?


Qual, afinal, o retorno que têm trazido, para nós e nossos filhos, em termos de qualidade de vida, todos esses “grandes projetos”?


Numa análise fria, levando em conta apenas a relação custo/benefício, qual a vantagem tão extraordinária que esses projetos trouxeram à totalidade da nossa população, para justificar a magnitude das agressões por eles causadas à Amazônia e ao mundo em que vivemos?


Ao tempo da ditadura militar, a Amazônia e particularmente o estado do Pará foram invadidos por projetos “desenvolvimentistas” de toda ordem: rasgaram-se estradas, construíram-se fabricões, implantaram-se projetos agrícolas.


Atraiu-se para cá levas e levas de migrantes, que aqui diz-que encontrariam uma espécie de “paraíso perdido”, povoado por índios, pretos e caboclos, todos sem alma. Ou, no máximo, com uma alma “diferente”, como se dizia na Idade Média.


E o fato é que todos esses megaprojetos e essa visão “desenvolvimentista” - que se baseia apenas no lucro, na propriedade de bens e na acumulação de capital – acabaram cravando em nosso rosto uma face absolutamente repugnante.


Por um lado, nos trouxeram ruas asfaltadas, telefones, computadores, internet, shoppings centers, grandes redes de supermercados, escolas, hospitais, cinemas, museus.


Tudo, enfim, que a gente convencionou chamar de “progresso”, quando se entende progresso, basicamente, pela simples possibilidade de pendurar uma TV de LCD na parede da sala.


No entanto, esses grandes projetos também nos trouxeram o horror – e o horror aqui não é feito simplesmente da falta de coisas, de bens, ou do sinal ruim de um telefone celular.


Mas, um horror que é feito de pessoas; da forma subumana como vivem milhões de pessoas em nosso estado; milhões de paraenses e milhões de amazônidas.


Todos esses grandes projetos, toda essa visão “desenvolvimentista” nos trouxeram a fome, em níveis nem sequer imaginados pelos nossos pais e avós.


Trouxeram a morte de milhares de criancinhas, por subnutrição, por doenças medievais.


Trouxeram a prostituição e a exploração sexual até de meninos e meninas.


Agudizaram o trabalho escravo e geraram a tortura e a morte de milhares de pequenos agricultores e trabalhadores rurais.


Nosso IDH melhorou? É verdade. Nós, classe média, temos até boas escolas e universidades para os nossos filhos.


Temos, é verdade, computadores da hora, geladeiras que só faltam falar, celulares bacanas que fazem de tudo - até telefonar, por incrível que pareça...


Mas temos, também, mais de 70% dos nossos eleitores que mal sabem ler e escrever; 70% dos nossos eleitores possuem, quando muito, o primeiro grau completo.


Temos milhões de paraenses e de amazônidas que vivem em casebres deteriorados e imundos, sem água potável, sem luz, sem saneamento básico. Gente que morre nas filas dos hospitais – quando há hospitais para se morrer à porta!...


Gente que carrega espécie de maldição, espécie de “marca da miséria”, para transmitir às futuras gerações, pela falta de educação e de direitos elementares de Cidadania.


Famílias inteiras – cerca de 40% da nossa população – em que cada integrante tem apenas a metade de um salário mínimo, no máximo, para sobreviver. Quer dizer: pra comer, pra morar, pra comprar remédio, pra pagar passagem de ônibus.


É o caso de se perguntar: qual, afinal, a “grande revolução” que esses “grandes projetos” trouxeram à vida do nosso povo?


Qual a “extraordinária” mudança, na qualidade de vida da nossa gente, que Belo Monte irá trazer?


Vejam bem: não estou a falar do benefício que a usina de Belo Monte trará para as grandes empresas, especialmente as grandes empresas mineradoras, que há anos arrancam daqui as nossas riquezas, sem nos deixar nada em troca.


Também não estou a falar das empresas de outros estados que vão bamburrar com a nossa energia.


Estou a falar de pessoas, do nosso povo. De nós, os paraenses!


Durante anos e anos populações inteiras da região da Transamazônica viveram sem energia elétrica.


O linhão da hidrelétrica de Tucuruí passava praticamente por cima das casas delas.


Mas esses paraenses – de nascimento ou por adoção – viviam à luz de velas.


E os donos de estabelecimentos comerciais – gente pobre que, sabe-se lá como, conseguiu montar um comércio – tinham de viajar a cidades próximas, para comprar gelo que eles estocavam sob serragem, dentro de isopores, de modo a ter uma bebida gelada para oferecer ao freguês.


Durante anos essas pessoas viveram literalmente no meio da mata escura - apesar da hidrelétrica de Tucuruí.


Naquela época, como agora, o Governo Federal estava se lixando para os paraenses.


O que se pretendia, exatamente como se pretende agora, era simplesmente garantir energia barata às empresas que exploram os nossos minérios.


E essa é, certamente, uma das partes mais dolorosas de toda essa história: qual o retorno que nos dão tais empresas, ao menos em termos de impostos? – impostos que são para construir escolas, estradas, hospitais!...


O que é que fica pra nós, e para os nossos filhos, netos e tataranetos, de toda a riqueza que essas empresas retiram daqui?


Belo Monte vai mexer com uma extensa área intocada, numa das poucas regiões intocadas deste Pará e desta Amazônia tão maltratada!...


Essa usina – uma Usina da Morte! – destruirá grandes extensões de floresta e dizimará milhares de animais.


Destruirá patrimônios biológicos e arqueológicos que nem sequer conhecemos.


Levará a fome às populações indígenas e ribeirinhas – a fome que aqueles índios e aqueles ribeirinhos nunca conheceram!


Tudo em nome de um “progresso” que nunca chegará de verdade para o nosso povo, enquanto formos, apenas, este grande armazém de recursos naturais.


Passadas décadas – quarenta anos! – dos primeiros “grandes projetos”, ainda continuamos meros exportadores de matérias-primas.


Tudo o que recebemos foi mais e mais miséria.


E uma floresta tão devastada, que, sabe Deus!, se os nossos bisnetos e tataranetos, um dia, conhecerão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Interessante que o professor Francisco, o chiquito do NAEA, revela em seus estudos que o crescimento econômico é menor que o desgaste ambiental, ou seja na corrida entre a construção de riqueza monetária e destruição do maior bem da amazônia, estamos perdendo também.