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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

os jornalistas




Nós, os jornalistas

Que seria do Jornalismo se nós, os repórteres, parássemos de perguntar?



O que seria do Jornalismo sem essa coisa de procurar debaixo do tapete; de fuçar a limpeza da cozinha, de onde vem o cheiro maravilhoso da comida?



Ou sem essa coisa de tocar fogo no circo, para que até os palhaços sejam obrigados a arrancar as máscaras e parar de rir?



E o que seria da sociedade sem Jornalismo? Sem aquele sujeito chato, enjoado pra porra, que fica dizendo: “olha, tem alguma coisa errada aí; olha, tem alguma coisa errada aí”... Enquanto tá todo mundo pra lá de feliz, numa grande bacanal?



Que seria de nós, repórteres, linha de frente do Jornalismo, se nos limitássemos, apenas, a pedir a bênção do entrevistado?



Certamente, chegaria a hora em que o arguto, sapientíssimo leitor, diria: “Esse sujeito tá é doido, ou tá se fazendo!... Como é que ele diz que acredita que aquele outro foi pra Lua, se nem conseguiu sair de lá de Cametá?”



Jornalismo que é Jornalismo não se detém diante de barreiras, concretas ou imaginárias, naturais ou artificiais.



Jornalismo que é Jornalismo tem de expandir o território em que se faz, em que se realiza.



Tem de ambicionar contemplar o mundo, toda a gente.



Tem de ser a síntese entre o Céu e o Inferno, com o Purgatório e a Terra pelo meio, até como parâmetros, a mediar essa exegese chamada notícia.



Jornalismo que é Jornalismo instiga, faz pensar.



E faz sonhar, também.



Com a confluência das divergências.



Com o possível, que agora nos parece impossível.



Com a grande valsa que dançarão, um dia, todos os integrantes da sociedade...



E a gente tudo descansado, naquele boca-livre total!...



Jornalismo que é Jornalismo não se contenta com o mais fácil, com a simples declaração.



Jornalismo que é Jornalismo, aspeia – mas, interroga.



Revira a lata de lixo e até “cafunga” o entrevistado, para aferir o quanto de Humanidade existe nele.



Jornalismo que é Jornalismo, olha nos “zóio”; estuda e compreende as expressões, o não-dito.



O não-dito, vírgula: aquilo que se berra pela mais simples expressão corporal; pelos “atos falhos” das expressões corporais...



Porque o jornalista é, ao fim e ao cabo, um animal solto, livre, selvagem, que vive bem mais do instinto do que da racionalidade.



Que cheira, toca, perscruta com o olhar.



É o sujeito que quer saber, com uma curiosidade infantil.



Que quando lhe dizem: “Vovô viu a uva”, ele pergunta: “Mas, de que cor é que era a uva?”, “E onde foi que o vovô viu a uva”, “E o que é que ele fez quando viu a uva?”, “Mas, a uva era no sentido concreto ou figurado?”, “Mas, quando o vovô viu a uva ele já usava óculos, é?”, “E, afinal, quando o vovô viu a uva ele estava com fome ou era um tarado?”



Jornalista que é jornalista é um sujeito chato pra porra, um sujeito insuportável!...



Tão insuportável que a maioria dos jornalistas quer é distância de outros jornalistas.



Mais ainda pra casar.



Já imaginaram um jornalista interrogando outro jornalista, acerca da cueca ou da calcinha que ele ou ela usava quando saiu de casa?



As pessoas têm de entender que jornalista é um sujeito pior que bêbado.



Porque bêbado ainda tem a desculpa de ter enchido a cara. Enquanto que o jornalista vive em estado aparentemente etílico, em tempo integral!



É o sujeito que vê o que ninguém mais vê. E que quando vê uma visagem, ainda tem o descaramento de perguntar: “Pô, mano, mas você por aqui? Mas o que é que você tá achando lá do inferno? Quantos graus é que faz lá, à sombra?”



Jornalista é o sujeito que chega com a sogra e diz que o genro não presta; que chega com genro e diz que a sogra não presta; e que ainda rouba o pirulito da criança endiabrada, só pra ver a reação da sogra, e do papai e da mamãe que se diziam exemplares...



É um sujeito tão insuportável que, geralmente, não tem nem amigo jornalista.



Mas, geralmente, sai com outros jornalistas só pra ter informação e falar mal... Da "catiguria", de tudo que é coleguinha e de quem mais aparecer!...



Jornalista é uma praga – e eu digo isso com conhecimento de causa, visse?



Mas, que seria de nós, se, simplesmente, exterminássemos aqueles que olham debaixo do tapete; que olham a limpeza da cozinha, apesar do cheiro maravilhoso do peixe?



Que seria de todos nós se, simplesmente, nos livrássemos de seres tão absolutamente neuróticos e desprezíveis?



Certamente, que, por uns tempos, todos viveriam na maior felicidade, sob as palmeiras aonde cantam os sabiás...



Mas, também chegaria o momento em que a sujeira debaixo do tapete seria tamanha que seria preciso jogar fora o tapete, a casa, as pessoas e até a rua e o país onde esteve, um dia, aquele tapete.



Chegaria o momento em que não apenas o peixe estaria estragado – mas, o óleo, a farinha, a cozinha, o cozinheiro, os utensílios e tudo o mais.



Jornalismo e jornalistas somos, afinal, a linha de frente de uma fiscalização permanente e enjoada, que precisa existir.



Até para que se possa apreciar o peixe.



Até para que se possa, apenas, mandar aspirar o tapete e continuar a viver...




FUUUUIIIIIIIIII!!!!!!

2 comentários:

Anônimo disse...

ótima análise, a cara dos jornalistas... srsrs

Ana Célia Pinheiro disse...

Obrigada, rsrsrs.