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domingo, 22 de fevereiro de 2009

redação


Um caso de amor



Redação de jornal é a minha cachaça. Sempre foi.



Há, como naquele fado, uma estranha forma de vida a pulsar numa redação.



Não, caro leitor, não pense que estou a dizer que somos espécie de “alien” – embora, é verdade, com ele nos pareçamos na capacidade corrosiva...



Mas, prefiro nos imaginar uma comunidade meio esquisita, é verdade. Mas, em perfeita simbiose com a sociedade.



Talvez por isso não haja lugar que se compare, em ansiedade, a uma redação de jornal - a não ser pronto socorro de série televisa...



A gente mexe e remexe o “paciente”, a informação.



“Intuba”, massageia, fura em tudo que é canto. E só sossega quando, no dia seguinte, vem a certeza: habemus notícia!...



Quer dizer, é uma coisa meio enlouquecida. Mas, a gente só se aquieta com a certeza de que demos tudo o que os outros deram. E, principalmente, o que os outros não deram, também.



A notícia quente, fresquinha, exclusiva, quase que em forma de oração...



Redação que é redação sempre será assim. Apesar da instantaneidade da notícia – ou, quem sabe, mais ainda por causa dela...



E sempre terá, também, uma fauna extraordinária, a síntese do vulgar e do transcendental.



Dentre os tipos que não podem faltar há o “enigmático” foca.



O sujeito que, egresso ou não de uma faculdade, apenas inicia a longa jornada da informação...



Aliás, Deus deve ter inventado o foca num dia de boníssimo humor.



Só assim para entender criaturas tão empenhadas na produção do insólito.



Lembro do “causo” de um grande jornalista, hoje, um dos mais brilhantes redatores que conheço.



Quando foca, foi cobrir aquela matança de porcos, durante a peste suína. Aí, tascou: “E os porquinhos olhavam melancólicos para os seus algozes...”



Nada contra a poesia que já então se revelava nesse grande redator.



Mas, graças a Deus, os anos o ensinaram a suprimir tais projeções...



Eu também já fui assim – é, caro leitor, não nasci “dinossáurica”...



Certa vez, tasquei: “E fulana morreu na segunda das quatro operações a que foi submetida...”



Quer dizer: operei um “presunto”!...



Todos passamos por essa fase. De muitos enganos, é verdade. Mas, também, de dulcíssimas ilusões...



Porque, quando focas, quando na infância do jornalismo, ainda cultivamos alguma esperança nos grandes veículos de comunicação.



Ainda não enxergamos – e há quem passe a vida sem enxergar!... – os interesses por trás da notícia, por vezes, desde o nascedouro, que são as fontes...



E também pensamos, nessa gênese do jornalista, que faremos, individualmente, alguma diferença nessa disputa pela posse de um bem que é de extrema importância social.



Daí que as redações também se assemelhem a um teatro de operações.



Há os que cruzam a fronteira do jornalismo para a pura e simples militância.



Há os que, pragmaticamente, apenas jogam, sem mais ilusões que não a de permanecer na mesa de jogo.



E há aqueles que o duro cotidiano das redações faz esquecer aquilo que, um dia, os moveu – o amor pela informação...



Quando comecei em jornal, há quase três décadas, era esse o principal atrativo de uma redação: o amor pela informação...



Não, não apenas o “poder” que muitos imaginam que essa profissão traz ou trará – eis que essa capacidade, bem mais que em qualquer outra posição social, é pura ilusão.



Mas, a paixão, mesma, pela notícia. Pelo arrepio, o frio na espinha, o bater acelerado do coração que só um belíssimo “furo” é capaz de proporcionar...



(Coleguinhas, atenção: recolham as garras do alien; nada de sacanagem!...)



Por isso, caro leitor, redação que se preze também é um laboratório de insanidade; a loucura em condições aparentemente controladas.



Terreno fértil a todas as neuroses e psicoses.



Um estresse permanente, o gatilho para inúmeras doenças letais.



Até pelos muitos “vícios” que vamos adquirindo, com o cafezinho farto, o cigarro, o álcool, a alimentação nociva, os antidepressivos...



Mas, pergunte se algum de nós quer largar essa cachaça...



Uns até se afastam, permanecem algum tempo em assessorias, que dão mais dinheiro, menos trabalho e nem a metade das dores de cabeça de uma redação.



Mas, jornalista que é jornalista tem as assessorias como mera questão de sobrevivência – e, para mim, assessoria de imprensa nem é função de jornalista, mas, de relações públicas.



Jornalista que é jornalista faz de tudo para permanecer nesta “cachaça”.



Para sorvê-la até a última gota, ao teclado de um computador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ana

Muito legal este teu texto. O episódio dos porquinhos me fez recordar o repórter piromaníaco que deu corda no no avicultor para tocar fogo nos pintos de um dia, em Santa Izabel do Pará. O cara não era um foca, mas um esperto, interessado apenas no furo.

Luciane Fiuza disse...

Ana Célia, muito boa sua análise e dá para perceber o quanto vc é fiel e apaixonada pela nossa profissão. Concordo que esse vício do jornalismo diário é extremamente prazeroso, entretanto, acho que vc deveria rever um pouco seus conceitos sobre o assessor de imprensa e seu papel nos dias atuais. Basta pensar, por exemplo, na comunicação interna da empresa. Notícias de utilidade pública também partem, muitas vezes, destas assessorias. A função do Relações Públicas é totalmente diferente. Sei de amigos totalmente realizados em assessorias e não só pelos salários, que algumas vezes tb são vergonhosos.
Bom, já trabalhei dos dois lados e por isso me atrevi a deixar este comentário.
Abraço!
Luciane.