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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Orgia I

Vou publicar. Se não estiver bacana, amanhã corrijo!







Orgia no Rangão I





(A Perereca chega esbaforida e descabelada ao Rangão. Entra por uma porta giratória no primeiro andar. Mas, o Rangão tem dois andares. À direita e à esquerda, grandes escadarias de mármore; a estrutura é em ferro; as paredes, envidraçadas. No alto, há grandes lustres de cristal, como aqueles dos palácios de antigamente. Mas o chão é de madeira e tem de parecer velho, sujo, podre. Todo o ambiente – nos quadros, mesas, plantas, enormes estátuas e até num chafariz, à direita, tem de ser uma mistura de vários estilos. E muita, muita ornamentação – um “cult” do exagero... Depois de a Perereca entrar e se dirigir ao centro do palco, para falar com a Correspondente, os personagens e figurantes que estavam no Ap também vão entrando no Rangão.)






_Égua, que eu nem acredito que tive de me jogar pra esta lonjura do Rangão!... Ô cumadizinha!...Ô cumadizinha, cadê você?...
_Ô comadre, graças a Deus que você achegô!...
_Eu só espero, animal, é que você tenha uma boa razão pra me fazer vir, às três da matina, aqui pro Rangão!... E pra mais com esse bando de doidos que você convidou para aquela “festa no meu Ap”...
_Ô comadre, se acalme mais é!...Égua, que você só avive estressada!...Inté parece que anunca mais que deu uma!...
_O que é que foi que aconteceu agora?
_Ô comadre, você ajura que num abriga comigo?
_O QUE É QUE FOI?
_Ajura que num me ademite do asseu blog, ajura?
_Vamos lá, cumadizinha, fale logo, caramba!...
_Bom, comadre, você assabe que eu lhe idolatro, né mermo?... Tenho por você uma aconsideração aenooooorrrrmeee, né mermo? Por isso, me adesculpe... Mas a gente adecidimos atransferir a festança do seu Ap aqui pro Rangão...
_A “gente decidimos”?...
_É, comadre, é que a gente estamos atomando umas aulas de “garamáticas” com o asseu Tirésias!...Pra modo de encarar, assabe comadre, essa anova arreforma ortográfica...
_ Bem se vê!...E por que, já, transferir a festa do meu Ap aqui pro Rangão? Você não sabe, cumadizinha, que tudo aqui custa os olhos da cara?
_Pois, então, comadre!... Se afoi aporisso mermo que o asseu Tirésias assugeriu o Rangão, ué!...Ele adisse que aqui atem uns “osfitarmulugista” da marca dele!... - uns acumpinchas dos zômi, ó, ó!... - que afazem atodo mundo aficá que nem a dona Ajustiça!...Além do mais, o asseu Tirésias adisse que tudo aqui é “atrês chinqui”!... É tudo pra modo de “atrês chinqui”, comadre!...
_Como é que é?
_ “Atrês chinqui”... Aquele negócio abacana dos franceses, ué!...
_Ô cumadizinha!...Olhe que eu até que tento “aconjuminá” o Tico e o Teco, só pra lhe entender... Mas dessa vez – sinceramente! - você aloprou!... Quem é, me diga, cumadizinha!... Quem é que vai pagar por essa festança no Rangão?!!!...
_Mas se aé de graça, ué!...
_De graça?... Aqui no Rangão?!!!...
_Pois intoncis, comadre!...Como adiria o asseu Tirésias, a gente afizemos “uns tar de convenhos” com as diretorias do Brejo... E elas é que avão acaí com a bufunfa!...
_Ô cumadizinha, mas isso não é dinheiro público?
_Ô comadre, alá avem você com esse asseu apreciosismo!...Arrelaxe, mais é!... Acontemple esse ambiente agrandioso!...Tão avant-garde, tão art nouveau!...Um amonumento à Era do anosso inesquecível Barão de Inhangapi!... E que a Plebe Rude, comadre, está aconservando nos amínimos detalhes!... Na alegria... e na tristeza; na assaúde.... e na doença; na assoberba... e na assujidade!...
_Ô animal!... E como é que você fez, já, pra firmar um convênio com as diretorias do Brejo?
_Eu usei o asseu blog, ué!...
_Quê?!!!...
_É comadre!... Eu afalsifiquei a sua “sinatura” na Perereca, que agora atá adevidamente conveniada com atudo que é diretoria do Brejo!...
_Eu não acredito, cumadizinha, eu não acredito que você fez isso comigo!...
_Ô comadre, arrelaxe mais é, que você num aprecisa nem apegá na bufunfa!...
_Quê?!!!...
_É, comadre!...As diretorias do Brejo avão apassá a bufunfa alá pra sede do asseu blog, a Perereca Incorporation, alá nas ilhas Tanamão!... E assó adilá é que a bufunfa avorta, pra se escafeder no Rangão!...
_Pelo amor de Deus, cumadizinha!... Isso dá cadeia!!!...
_Mas aooooonnnnnde, comadre!... Mas se a moda, agora, é alavá a bufunfa, ué!... Tá todo mundo alavando, comadre!... É um esfrega, esfrega pra cá, um esfrega, esfrega pra lá!...O Brejo inteiro, comadre, atá que nem um agrande afestival de Q-Boa: inté a alma, comadre, adeve de aficá branquinha, branquinha...
_Pera lá!... E que negócio é esse, já, de Perereca Incorporation? E desde quando que o meu blog tem sede nas ilhas Tanamão?
_Ô comadre, a gente acriamos, ué!...
_Quê?!!!...
_É, comadre!...Como adiria o asseu Tirésias, a gente afalsifiquemus umas “sinatura” numas pilhas assim, ó,ó, de papel!... E aí amolhamos o pé da planta aqui, amolhamos o pé da planta acolá... E anasceu a Perereca Incorporation!... Num é alindo, comadre?...
_Égua, que eu, rrrealmente, cometi um grande pecado na outra encarnação!... Meu Deus do Céu, meu Jesus Cristo Crucificado!... O que foi que eu fiz pra merecer esse castigo?!!!...
_E tem mais, comadre!...Aprepare o asseu espírito!... (atá apreparado?): a gente adecidimos atransformá a sua festança!...
_Quê?!!!...
_É que a “Rausi” do Rangão, assabe, comadre?, adecidiu que esse negócio de festa é coisa de “probi”, comadre, é coisa de “probi”!...É coisa de agentalha de lá da vila da barca!... Aquinem arroz de galinha, copo de “prástico” e acamiseta do Guevarão!...Adaí que a gente adecidimos achamá a nossa festança de Orgia, comadre!...Pra adá um acerto... “tcharmme”!..., assabe comadre? Aquele estilo “crássico” que tudo que é rico do Brejo adora!...
_Égua, quer dizer que virou a “Orgia no Rangão”?...
_Tá avendo, comadre, que quando você aqué inté que aconsegue atê um ataque de inteligência?...
_(...)
_E atem mais, comadre.
_Mais?!!!...
_A gente adecidimos adispensá você?
_Quê?!!!...
_É comadre... Por adecisão da adona do Rangão você num apode aparticipá da anossa orgia!...
_E quem é essa dona, já?
_A senhora dona baronesa Juanita du Vatumanurroskofsky!...
_O quê?!!!
_A baronesa Juanita du Vatumanurroskofsky!... É o anome dela, comadre!...A senhora dona baronesa Juanita du Vatumanurroskofsky é a última adescendente das zelite dos apovos anômades agermânicos que acolonizaram as Zaméricas!...
_Como é que é?!!!
_Ô comadre, assabe qual que é o asseu “pobrema”? É que você num assiste o Adiscovery!...Mas, num se avexe, num se avexe, que eu avô é achamá os maiores especialistas em Vatumanurroskofsky!... Ô asseu Sudão, ô asseu Barão, se acheguem aqui!...
_Ô querida!...Há quanto tempo, não é isso?
_Pois é, né, asseu Sudão?...Adesde aquele adécimo capítulo da Afesta no Ap!...
_Caboca, dê cá um beijo, caboca!
_Ô, asseu Barão, o sinhô assempre com a sua viola, né mermo?
_É que agora eu vivo disso, caboca!...
_Num abrinque, asseu Barão!...
_É caboca, é que o mar não tá pra peixe!...Agora, eu dou uma canja aqui, uma canja acolá - e o Jujuba passa o pires!...
_Acredo, asseu Barão!...
_É caboca... Pra você ver como são as coisas: até dono de boteco eu já virei!...
_ E o sinhô, asseu Sudão, apor que é que atá aí avestido de amanobrista do Rangão?
_É o meu novo emprego, certo?
_Assério, asseu Sudão?...
_É querida... Hoje, eu arrumo um carro aqui, um carro acolá, pra ir ganhando a vida, não é isso?...Até a minha Sudolândia, quem diria, virou estação de férias pra pingüim!... Sinal dos tempos, não é isso, querida? Sinal dos tempos!... Como diria Napoleão, certo?: “A Fortuna é como a lágrima que o vento leva e cedo se esvai!...”
_Me desculpe, caboco, mas Napoleão nunca disse isso!...
_E desde quando, certo?, que você virou um especialista em Napoleão?
_Eu, pelo menos, caboco, não fico colocando besteira na boca dele...
_Besteira?!!!... O seu problema, meu caro Barão, é que lhe falta um mínimo de sensibilidade, não é isso?, até pra tocar que preste essa viola!...
_Apodem apararem! Apodem apararem, os dois!... Se acomporte, asseu Barão!...E o sinhô, asseu Sudão, acaladinho, visse?...Que isso daqui num aé aquele afurdunçu do ap da comadre!...Isso daqui aé um ambiente “atrês chinqui”!... “atrês chinqui”, visse?
_Ora, ora, ora... Quem diria, não é isso?, meu caro Barão, que até a nossa querida Correspondente acabaria, certo?, deslumbrada com o Rangão!...
_Confesso, caboco, que isso até que me deixa envaidecido!...
_Ah, é?...
_Mas é claro, caboco!... Você tem de perceber a nova e extraordinária cadeia contemplativa de tudo isso daqui!... As luzes, o brilho, os ferros, os vidros, toda a imponência desse lugar nos remetem à insignificância do ser humano perante a Natureza!... (a correspondente e o Sudão se entreolham; o Barão prossegue)... Toda essa imponência nos faz meditar acerca da pequenez de cada um de nós, individualmente, diante do coletivo!... Este lugar sagrado, cabocos, onde a bufunfa fica que nem uma água de tapioca!... Este lugar, cabocos, é o novo e extraordinário paradigma dessa nova e extraordinária Belle Époque que estamos vivendo!... (a Correspondente e o Sudão olham boquiabertos para o Barão...)... Juntos somos fortes, cabocos!... Juntos, conseguiremos transformar antigos sonhos em novíssima realidade: a Brejo’s Lave e Leve, cabocos!... A maior e mais democrática lavanderia da história do nosso Brejo... Pelo poder del pueblo!... Liberté!...Fraternité!...Egalité!...




(Estátua!... Jogo de luzes. Sobe a introdução da Marselhesa... Depois, o Barão, montado num cavalo imaginário e com um braço erguido, como se empunhasse uma espada, grita: “eia, eia, meu bucéfalo!”... E deixa o palco cantando “Gracias a La Vida”...)




_Assabe, asseu Sudão... Eu acho que o asseu Barão num atomô o arremédio dele...
_Não, querida!... O pior é que ele é assim, não é isso?...
_Égua, que se me afez inté alembrá da Aplebe Rude!...
_Sem tirar nem pôr, não é isso?... Sem tirar nem pôr!...
_Égua, que adeve de assê, então, alguma de assina do Brejo: assó dá doido, égua!...
_Um carma, querida!...Um triste e doloroso carma, não é isso?...
_E aparece inté que o sinhô atá assofrendo com isso, né mermo, asseu Sudão?...
_E eu sofro muitíssimo, querida!... Todo santo dia, certo?...
_Assério?...
_Sério, querida!...Você não imagina a dor que eu sinto, nas profundezas da minh’alma, não é isso?...
_Ué, e apor que, já?
_É que eu me sinto, como direi, uma verdadeira ilha de sanidade, certo?, neste mar de loucura em que se transformou o nosso Brejo!... Como diria Napoleão, certo?, é como se eu fosse uma mente lúcida e brilhante cercada por torrentes e torrentes de camisas- de- força!...




(Nisso, volta o Barão, em seu cavalo imaginário. Vem acompanhado de um exército de mendigos...)




_(O Barão, para a Correspondente e o Sudão): Cabocos, começou a Comuna de Paris!...
_(A Correspondente e o Sudão, em uníssono): O quê?...
_As ruas do Brejo estão cheias de barricadas, cabocos!...O Xerife Federal, o Zé da Pedreira e o Príncipe de Rangelim estão vindo prá cá, cabocos, pra derrubar esta Bastilha da razão humana!*...




(Som de canhões, tambores de guerra, trovões. Jogo de Luzes. Nos altos das escadarias surgem a Baronesa Juanita du Vatumanurroskofsky e o Conde de Bota Bem (um à direita, outro à esquerda. E o foco tem de coincidir com cada um dizendo: “Money”). Em cada lado das escadas, há garçons com champanhe e lagostas, nas bandejas. Juanita traja um vestido vermelho, curto, tomara que caia, todo cheio de lantejoulas, estrasses, paetês e folhos de renda, em camadas – tem de ser bem brega, bem exagerado... O complemento é espécie de peruca de enormes flores vermelhas e muito brilho – os sapatos, vermelhos e altíssimos, têm de acompanhar o estilo da peruca. Nos braços, luvas de renda, folhos e brilho. E uma espécie de echarpe de plumas, também vermelha, enrolada no pescoço - e que desce, de ambos os lados, até a altura das coxas, para o número de dança. Ela e o Bota-Bem (com roupa branca e prateada, cartola e bengala) cantam e dançam, cercados pelos garçons e mendigos, sob uma chuva de purpurina e notas de dinheiro (falso, é claro!). Os mendigos, sentados no chão em semicírculo, tentam ajuntar o dinheiro; os garcons atrás do casal. A música é “Money”, do filme Cabaret: “ (Money, Money)/Money makes the world go around/The world go around/The world go around/Money makes the world go around/It makes the world go 'round/A mark, a yen, a buck, or a pound/A buck or a Pound/A buck or a pound/Is all that makes the world go around/That clinking clanking sound/Can make the world go 'round/Money money money money money money/Money money money money money money/Money money money money money money/Money money/If you happen/To be rich/.......Ooooh/And you feel like a/Night's entertainment/...Money/You can pay for a/Gay escapade/Money money/Money money/Money money/Money money/If you happen to/To be rich/......Ooooh/And alone, and you/Need a companion/...Money/You can ring-ting-/A-ling for the maid/If you happen/To be rich/.....Ooooh/And you find you are/Left by your lover/...Money/Though you moan/And you groan/Quite a lot/Money money/Money money/Money money/Money money/You can take it/On the chin/.....Ooooh/Call a cab/And begin/...Money/To recover/On your fourteen-/Carat yacht/Money makes the world go around/The world go around/The world go around/Money makes the world go around/Of that we can be sure/(....) on being poor/Money money money/money money money/Money money money money money money/Money money money money money money/Money money money money money money/Money money money money money money/If you haven't any coal in the stove/And you freeze in the winter/And you curse on the wind/At your fate/When you haven't any shoes/On your feet/And your coat's thin as paper/And you look thirty pounds/Underweight/When you go to get a word of advice/From the fat little pastor/He will tell you to love evermore/But when hunger comes a rap/Rat-a-tat, rat-a-tat at the window.../At the window.../Who's there?/Hunger!/Ooh, hunger!/See how love flies out the door.../For/Money makes/The world.../...Go around/The world.../...Go around/The world.../...Go around/Money makes the/.... Go around/...Go around/That clinking/Clanking sound of/Money money money money money money/Money money money money money money/Get a little/Money money/Get a little/Money money/Money money/Money money/Money money/Money money/Mark, a yen, a buck/Get a little/Or a pound/Get a little/That clinking clanking/Get a little/Get a little/Clinking sound/Money money/Money money.../Is all that makes/The world go 'round/Money money/Money money/It makes the world go round!





*Com a permissão do genial Machado de Assis.

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