Ban

terça-feira, 8 de julho de 2008

Profundamente

Profundamente


Por que tanto medo de sentir?
Sentir profundamente...
Como se, de repente,
Tudo ao redor se dissolvesse
E ficasse de nós, simplesmente,
Um sentimento em estado bruto.


Sem pele, sem sangue, sem músculos!


E a alma a mergulhar nos abismos
Imponderáveis da existência!...


Por que essa ânsia daquilo que é certo?
Essa busca do “equilíbrio dos imortais?”...
A vida que começa e termina
Na reta que é comum...


Como quem reescreve, infinitamente,
Um belo discurso.
Apenas para deixar à posteridade
Um belo discurso!...


Como quem bate o ponto, manhãzinha.
E volta a bater na hora da partida.
Com o mesmo rigor profissional...


E a alma apresada
Amordaçada,
No relato impessoal de um capataz.


A alma apresada,
Amordaçada,
Sem poder, como é dado às almas,
Voar!...E voar...!


E quando alguém nos diz:
_Olha só que horizonte!
Olha só que azul a chamar!...


_Olha as flores, os passarinhos,
E o mar e as estrelas e o sol e o luar!...


Ficamos com a mesma sensação do passante
Diante de um profeta enlouquecido.


E a vida se vai, incompreensível e repentina.
Na ata da reunião, no livro de ponto.
No relato impessoal do capataz.


Mas, os vermes e o túmulo, certamente,
Dirão ao futuro:
_Esse daí?... Esse, sim, foi, de fato, um justo!...



Belém, 08 de julho de 2008.




Pesadelo

Quando um muro separa, uma ponte une.
Se a vingança encara, o remorso pune.
Você vem me agarra, alguém vem me solta.
Você vai, na marra, ela um dia volta...
E se a força é tua, ela um dia é nossa!
Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando...
Que medo você tem de nós!...
Olha aí!...


Você corta um verso, eu escrevo outro.
Você me prende vivo, eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo,
Perturbando a paz, exigindo o troco!...
Vamos por aí, eu e meu cachorro,
Olha o verso, olha o outro,
Olha o velho, olha o moço chegando...
Que medo você tem de nós!...
Olha aí!...


O muro caiu, olha a ponte,
Da liberdade guardiã.
O braço do Cristo, horizonte,
Abraça o dia de amanhã!
Olha aí!...


(Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro)

Nenhum comentário: