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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Luísa1

Luísa



Capítulo I



Da janela, Luísa contemplou as imensas ondas a quebrar na praia. O céu quase sem nuvens, o horizonte a envolver a paisagem e a própria vida. O sol, a abrasar-lhe o corpo. O vento quente, a acariciar os longos cabelos negros.



Sentiu falta das mãos de Armando. As mãos macias que navegavam em seus seios, em seu ventre, até aportarem, docemente, entre as coxas.



E então, ele as abria, como quem abre janelas ao mar...

Impacientemente, abruptamente, para respirar. E a penetrava profundamente. Com a sofreguidão de um animal.



Luísa pensou em como a vida era engraçada, afinal. Há dois anos, quem diria que estaria ali, sozinha, a contemplar o mar?



E até se pôs a filosofar, acerca do grande mistério da vida.



Lembrou-se das gaivotas que, de manhãzinha, se lançavam sobre as ondas, em busca de peixes. E pensou que sempre haveria mais gaivotas e mais peixes, nas águas que se sucediam perpetuamente, a cada manhã.



O telefone tocou.



_Dona Luísa, dona Luísa...
_O que foi Carol?
_A Polícia teve aqui; saiu agorinha. Tão atrás da senhora... Perguntaram se eu sabia onde é que a senhora tá... Eu disse que não sabia; que a senhora foi embora há dois anos... Aí, eles perguntaram o que é que eu tava fazendo no seu apartamento. Aí eu disse que a sua mãe me manda limpar o apartamento, todo fim de mês. Aí eles foram embora, atrás da sua mãe...
_Se acalme, Carol, se acalme... Eles perguntaram pelo doutor Armando?
_ Perguntaram, sim senhora... Perguntaram se eu conhecia o seu Armando, como é que ele era, se vocês se davam bem... Eu disse que vocês se amavam muito... Aí disseram que acharam o resto dele... Sabe aquele esqueleto que encontraram nas matas da Ceasa, aquele que até apareceu na TV?
_Pegue as suas coisas, Carol, e desapareça daí... Pare num cyber, como eu lhe ensinei, e acesse a minha conta do Bradesco. Saque o que puder e se esconda no sítio...
_Eles vão me encontrar, dona Luísa.
_Se acalme, Carol, que não vão, não... Eu comprei o sítio antes de tudo aquilo; nem tá no meu nome. E o dono era um velhinho sem família, que nem tem TV... E você só vai ficar lá por uns dois dias, enquanto eu dou um jeito de lhe mandar mais dinheiro, ok? Você sabe que vai ter de sair do Brasil, não é?
_Sei, sim senhora...
_Como é que está a sua filhinha? Você tem levado a Jéssica à doutora Fátima?
_Tenho, sim senhora... Mas, não tem jeito dela se livrar daquele sonho mau... Toda noite ela acorda gritando, dona Luísa... E aquilo já tem dois anos!...Será que a minha filhinha nunca vai se curar?...
Pôs-se a chorar. Luísa falou brandamente, mentindo, como a uma criança.
_É claro que a Jéssica vai ficar boa... Se acalme, pare de chorar, Carol... Seja forte, pela sua filhinha; ela precisa de você... Você não confia em mim?...
_Confio, sim, dona Luísa... Sempre confiei e sempre vou confiar... Mais ainda depois daquilo... A senhora é uma mulher de fé!...
_Obrigada, Carol...
_E pode deixar que eu vou fazer tudo direitinho, do jeitinho que a senhora me ensinou, viu?
_Obrigada, querida!...



Desligou o telefone e voltou a contemplar o mar. E como que viu o rosto de Armando, a se levantar das ondas, sorrindo, sarcasticamente, para ela.



Despertou-lhe a filha, com o barulhão que sempre fazia ao entrar na casa.



_Olha só, mammy, quantos caranguejos eu peguei!...



A menina, de 13 anos, estava coberta de lama, da cabeça aos pés.



_Ô Mariana, mas o que é que você pensa que está fazendo?... Olhe só pra você, tem lama até na sobrancelha!... E tá sujando a casa inteira!... Você vai limpar tudinho isso, ah, se vai!... Já pro banheiro, já!, sua moleca!...Sape daqui!...



A menina correu pro banheiro e Luísa desatou a rir. Lembrou-se das vezes que chegara em casa, com os joelhos em petição de miséria e ensopada de chuva.



Lembrou-se dos sermões da mãe, dona Maria do Carmo: “Você parece um moleque, isso lá é jeito de menina!... Assim, você nunca mais que vai casar!...”

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