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sexta-feira, 7 de março de 2008

Algodoal

E antes que vocês, gentalha!, digam alguma coisa: sim, a maconha era da boa...

Mas, sinceramente, que já nem preciso de maconha: eu já vivo, permanentemente, num estado alterado de consciência...






Maiandeua



I



Abro as janelas e dou de cara com o mar.
Não há mais belo que acordar em frente ao mar!...
A ver a poesia a conceber o infinito...
Como Deus a beijar a língua de Adão...
Fecho os olhos e me deixo levar por essas ondas...
A alma inteira embriagada de mar!...
É um bem-te-vi a cantar em minha janela.
O sol que se esparrama em minha cama.
A mesma cama em que as estrelas me embalaram até dormir.
E eu volto à infância, nuns olhos acesos de céu.
Com o mistério desses bichinhos que surgem da areia molhada, a cada passo que dou.
Magicamente, me deito nas águas, a ver passar as almas aprisionadas nas gentes...
Procissões e procissões à procura de um paraíso encantado.
Um lago encantado, por uma princesa encantada...

Algodoal é um delírio!...
O ventre místico do mundo...



II

O mar é um deus a conceber-se perpetuamente.
Sem dores, sem lágrimas, tão somente a se multiplicar.
É a criança que distribui, sem pecados, toda a existência.
E que nos convida a ser enquanto a vida
Canta e rodopia ao redor de nós...



III

A rede pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...

O cigarro aceso, a cerveja gelada, um risco de nuvem no céu.

Passa o carroceiro. Homem e cavalo vergados pelo sol causticante.

_Ei, carroceiro! – penso em chamar, porque não sei o nome do combalido Quixote, em seu combalido Rocinante.

Queria visitar a Princesa. O mar da Princesa. O lago de onde emerge brilhante, toda vestida de sol, de lua, de estrelas, de mar...

Mas, o grito, deixei-o ficar na garganta.

Preferi meu cavalo de nuvens, que me transporta, em segundos, a lugares magicamente concebidos.

A lendas maiores que a Rainha Sereia, que se alevanta daquelas águas, impossivelmente escuras e transparentes...



IV

_Ei, jornalista! – e alguém me traz de volta a este mundo.
A falar-me dos pássaros e camaleões caçados à extinção, por gatos trazidos de Belém.
Da vegetação que não vinga, porque devorada, ainda em broto, pelas vacas.
_Vacas?!!! Mas, aqui, em Algodoal?!!!
_Pois, veja só, “dôtora”, aqui é uma APA que tem vaca, gato abandonado e até pesca de arrasto...
E o homem se põe a chorar pelas andorinhas que chegam, por vezes, sem uma das pernas, devido ao peso dos anéis de metal, colocados, no Canadá, por cientistas preservacionistas...
Outras gentes vão chegando ao lugar em que estive a escrever sozinha, a tentar, sozinha, decifrar esse mar.
_Ei, jornalista! – me disse o homem.
E eu atentei à identidade que me une aquele carroceiro e seu cavalo, neste sol causticante da existência...



V

Dormi e acordei com o murmúrio das ondas a bater-me à porta, docemente.
Não liguei o som que trouxe de Belém – e eu fico a pensar na inutilidade de tamanho peso...
Por todo canto, em minha casa, há móveis repletos de música.
Trouxe algumas.
Mas não encontrei maior que a melodia desse mar...
O cantar do bem-te-vi na minha janela...
A carícia dos ventos nas folhas dos coqueirais...



VI

Também não encontrei beleza que pudesse aprisionar em fotografia.
Pus-me a “canoar” entre os manguezais, os olhos emprenhados de raízes aéreas, passarinhos, caranguejos, aves pernaltas, tralhotinhos que nadavam ao alcance das minhas mãos.
Vamos eu, o canoeiro e o guia, que vai me contando as histórias de Algodoal. Os tesouros de Eldorado e dos conquistadores enlouquecidos...
Os “greis”, acinzentados, esqueléticos, de cabeças enormes e enormes olhos azuis, que perambulam pela floresta, depois que a espaçonave despencou...
E eu penso que os mistérios de Maiandeua comportam os sonhos e os pesadelos de todas as raças e de todo o universo...



VII

Ontem, à noitinha, espantei-me com o céu estrelado.
Eram tantas as estrelas, que mais pareciam corações apresados na escuridão.
Corações que convidassem a tocar com os olhos do coração...
Lembrei-me da “dança das estrelas”, nos céus de Algodoal.
Os Ufos que alevantam vôo, tão logo o dia se deita.
Raças e raças intergalácticas, no ventre místico do mundo.
Onde homens, extraterrestres, princesas, caranguejos, camaleões, andorinhas, coqueirais e raízes aéreas se assemelham a partículas desgarradas de um mesmo espírito...
Como vida que tateia a procura do Caos primordial...



VIII

Deslizei para dentro do mar.
E como que revi toda a existência, desde o ventre de minha mãe.
Invoquei a Terra, o Fogo, a Água e o Ar.
E decifrei o mistério dessa noite que se esconde em tuas mãos.
Feito um manto mágico a ocultar o infinito.
O desejo que imprime vida ao que é, apenas, potência.
E eu me vi em teus braços como Adão nos braços de Deus...



IX

Deslizei para dentro do mar.
Para as conchas,
Os peixes,
Os átomos de tudo o que há.
Transcendi a forma; retornei à essência.
Fiz-me, de novo, um projeto...
Na prancheta do Criador...



X

Vejo o mar para além do mar.
A imensidão que vivi e que sonhei viver.
E todas as perguntas se me resumem
Nesses peixes, ridículos e transparentes,
Que fogem, em cardumes, quando aproximo meus pés...




XI

Vi as águas...
Vim, para ver as águas.
Para encarar o que não sei, mas, que é parte de mim.
Como quem retorna ao que foi sem ter sido.
O grito que conteve.
A frase que cessou.
As voltas das pernas, em volta das próprias pernas.
A supressão de um desejo que não se quer suprimir.
Vim para me perder em luzes dispersas, em luzes dispersas...
Vim, para me lançar de encontro à praia...
Como se me lançasse ao encontro de ti...




XII

Terei pensado em ti?
Sim, mas como o bicho que não soubesse decifrar...
A nave que despenca dos céus...
A busca de um eldorado não havido...
O pescador que tecesse, em princesas, um luar.
E eu te vi na Algodoal da juventude.
Inesquecível, porque pertence.
Envolto num riscado de nuvem,
Que concebi na limpidez do meu céu.
E eu te aprisionei em fotografia.
Chorei, beijei e fechei teu álbum.
E o mar imenso se abriu diante de mim...


Algodoal, julho de 2007
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Um comentário:

Anônimo disse...

Que saudade!