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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

artistas

Os artistas



Estou a escrever três coisas ao mesmo tempo: uma crônica, muito, muito bacana; um poema, lindo, lindo; e o décimo capítulo da festa do apê, uma peça, que nunca mais que quer sair, mas, que tá ficando bem bacana...


Sou assim: não gosto de me fixar. Nem no que escrevo, nem no que leio – três, quatro, cinco, seis livros ao mesmo tempo.

É bacana. A gente viaja, rumina... A gente faz interagir.

A gente pega a imaginação e faz rodar no papel, como roda na nossa cabeça...

Às vezes, vou andando pela rua e me vem uma idéia. E eu pego e anoto.

Porque, se não o fizer, fico angustiada, porque é uma idéia que se perdeu...

Creio que, para todos os que “vivemos nas nuvens” , os dias e as noites são assim...

Os fantasmas não assombram: viram poema, canção.

E o sol nunca será, simplesmente, o sol. Nem a chuva. Nem o mundo.

Todos terão um “quê” de mistério, de além, de indecifrável.

Todos serão uma experiência, que não dá pra conter nessa coisa pobre que são as palavras, as imagens, as notas musicais.

Serão as musas?

Ou, tão somente, a criança que subsiste em nós?

A criança que não morre. Por mais que cresçamos. E que o mundo se transforme ao redor...

Mas, que diabo de experiência é essa?

De crescer, no sentido da sensibilidade?

E do não-crescer, no sentido de decifrar o mundo?

Como se, ao jogo da amarelinha, se associasse a lógica, pensadamente.

E o que é que fica em nós, para nós?...

Isso está a ficar muito divagativo... Vou terminar a crônica.

Queria precisar de álcool ou maconha, para imaginar.

Mas, eu só os utilizo quando quero paralisar essa minha imaginação alucinada.

E aí não penso mais, não vejo mais, não sinto mais.

O vento me leva. E só.




Na Carreira


Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função
Rezar, cuspir
Surgir repentinamente
Na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade
Pra se apaixonar
Querer casar
Pedir a mão

Saltar, sair
Partir pé ante pé
Antes do povo despertar
Pular, zunir
Como um furtivo amante
Antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia
Ali já foi feliz
Criar raiz
E se arrancar

Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir

Chegar, sorrir
Mentir feito um mascate
Quando desce na estação
Parar, ouvir
Sentir que tatibitati
Que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade
Para enlouquecer
O bem-querer
O turbilhão

Bocas, quantas bocas
A cidade vai abrir
Pruma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar

Voar, fugir
Como o rei dos ciganos
Quando junta os cobres seus
Chorar, ganir
Como o mais pobre dos pobres
Dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco
E não olhar pra trás
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus

(Chico Buarque e Edu Lobo)

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