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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Inverno

O inverno

Entra ano, sai ano e nada muda em Belém.


Todo inverno, milhares de famílias pobres perdem tudo aquilo que, com um esforço danado, conseguiram juntar.


O ventiladorzinho que compraram – ou que ganharam da “patroa” – o sofá, o armário, a geladeira velha, quando há.


Tudo vai, literalmente, por água abaixo.


E, o que é pior, essas pessoas e seus filhos se vêem expostas a toda sorte de doenças, pelo contato com a água infecta, que leva, também, qualquer esperança que a informação sanitária possa proporcionar.


A chuva é parte de Belém, é Belém. É a poesia que nos embala da infância à sepultura.


A chuva nos remete a algumas das melhores lembranças: quem, dentre nós, não tem uma história de chuva para contar?


É parte desse rio imenso que somos, todos, belemenses, amazônidas.


No entanto, nas baixadas, essa mesma chuva se transforma em maldição.


É um tempo de perdas dolorosas, até daquele mínimo de Cidadania que se julgou possuir.


É um tempo em que se percebe que todo o esforço que se fez, para “conquistar”, honestamente, um mínimo de conforto – como o ventiladorzinho ou a geladeira velha – não significa rigorosamente nada, diante da miséria a que se está condenado...


A chuva, em nós, classe média, lava as dores e até os pecados...


Mas, na nossa gente, que subvive nas baixadas, obriga a uma viagem aos confins do inferno.


Não deveria ser assim.


Porque tudo o que precisamos para que não seja assim é de um prefeito que cumpra, minimamente, com as suas obrigações.


Já nem estou falando em honestidade, em compromisso com a coletividade, que, com a nossa história, isso é até querer demais.


Qual a última eleição em que votamos em quem merecesse, de fato, o nosso voto, a confiança, o respeito dos cidadãos?


Eu, sinceramente, aos 47 anos, não me recordo de uma mísera eleição em que tenha votado num candidato em que dissesse: esse sim, é honesto, é competente e tem compromisso com a maioria da população de Belém.


Votei, sempre, por exclusão; quer dizer, no menos pior. E como eu votaram milhares de cidadãos.


Já nos habituamos a isto. Não a escolher o melhor; aquele que pudéssemos, de fato, chamar de “o melhor”.


Mas, naquele que menos prejuízo nos possa causar.


É certo que também votaram, votamos, naqueles que distribuíam óculos, cestas básicas, a comida, o direito – à alimentação, à saúde, à educação – que raramente se vê.


A vaga na escola pública, a consulta ao “dotô” que enormes filas transformaram em “benesses”, em “presentes”, quando são, na realidade, direitos inalienáveis de todo e qualquer Cidadão, de todo e qualquer ser humano, de uma cidade ou de um país que seja, de fato, minimamente humano e civilizado.


E o que custa, meu Deus, a esse eleito, ao menos, manter a cidade limpa?


Recolher o lixo, desentupir os bueiros, para que as nossas ruas não se transformem em rios – que nós até podemos poetizar, mas, que quem os vive nem tem por que poetizar, nem por que achar graça alguma?...


Sempre – e nunca vi diferente – todos jogam a culpa na nossa população.

Como se fosse suja, porca, desinformada, poluidora militante e juramentada...


É engraçado. Parece até que não pagamos impostos. E que uma das finalidades dos impostos não é, justamente, a educação das pessoas.


Se não sabem o que fazer com o lixo, que o Poder Público, com os impostos de todos nós, lhes ensine isso.

E se a coerção não é suficiente, que se intensifique a coerção. Pois, que temos, também, vereadores pagos para isso.


Mas, cá para mim, esse tipo de desculpa carrega, além de confortável justificativa para a incompetência e a inoperância, uma dose cavalar de preconceito.


É muito fácil dizer que pobre é porco.


Ou, como me disse uma peruona, daquelas impensáveis, a própria Antonieta diante do brioche: “Que bom que você cheira bem! É assim mesmo que eu lhe quero! Que gostoso esse cheirinho regional!” – e eu envolta numa nuvem do Boticário...


E o que eu antevejo, neste inverno, fora de brincadeira, é algo muitíssimo doloroso: mais que nunca o nosso povo acreditará que o drama que vive é resultado da própria imundície.


Afinal, é larga a baixa auto-estima da nossa gente e fartas – imensas! – as verbas da propaganda que a pilantragem já está a distribuir...


Nossa gente, nosso povo – que são iguaizinhos a nós, nas mesmas necessidades, no mesmo esforço, no mesmo sonho – haverá de bater no peito, a proclamar: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa...


E esse prefeito pilantra, safado, ladrão, bandido, canalha - e a corja que o cerca - continuará livre e bacana, a roubar até esse restinho de esperança da nossa gente, dos nossos irmãos, do nosso povo...

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