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terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Hippolito

Não quis publicar. Me atentaram. Publico. Nem li.

O impecheament de Ana Júlia

I


É incrível essa tendência de algumas forças políticas, do Pará e do Brasil, para o golpismo.
Há meses, tentaram isso em relação ao presidente Lula. Mas, acabaram desistindo. Porque a arrogância, o elitismo e a indolência jamais lhes permitiram a mínima inserção no movimento popular.
Agora, diante do caso da menina de Abaetetuba, lá vêm elas, de novo, com o mesmo lári-lári.
E o alvo é a governadora Ana Júlia, legitimamente eleita, num pleito duríssimo, contra todo o poderio da máquina pública.
Realmente, é preciso reconhecer que dá trabalho fazer oposição...
Inexiste o dinheiro público que permite aprisionar o imaginário popular numa espécie de “ilha da fantasia”, através das fartas verbas da propaganda.
Inexiste a possibilidade de nomear as mulheres e ex-mulheres, os filhos, os primos e até a empregada que serve o cafezinho em casa, para assessorias fantasmas.
Inexiste, enfim, o fisiologismo, o compadrio, o toma-lá-tua-cesta-básica-me-dá-cá-teu-voto, com que tais forças se acostumaram a trabalhar, à custa do nosso dinheiro, do nosso suor.
Daí a necessidade que sentem de retomar o controle da máquina, mesmo que seja através do golpismo.
O problema é a cuíra que sentem pelos salamaleques do Poder e o dinheiro que isso proporciona.
Pouco lhes importa a reprodução de milhares, e até milhões, de menininhas como aquela de Abaetetuba.
Não importa que nossos meninos e meninas não tenham acesso a direitos básicos.
Que sejam violentados, todo santo dia, pelo mundo cão das ruas das nossas cidades.
Pela falta de saúde, de educação, da afetividade de uma família e até pela falta de esperança – o bem maior depois da vida.
Para tais forças essas meninas e meninos, numa “oportunidade” como essa, não passam de bucha de canhão...
Pera lá! É preciso colocar alguma ordem nessa espelunca!...
É certo que o Governo do Estado errou ao não agir tão rapidamente como deveria.
É certo que os companheiros petistas têm uma tendência horripilante a debates intermináveis, que, por vezes, vão do nada a lugar algum.
Mas, tucanamente falando, isso poderá até ser enquadrado como pitoresca tendência à pedagogia...
Jamais como cumplicidade à violação de direitos básicos, humanos e constitucionais.
Em 27 anos de política, já conheci petistas vaidosos e radicais - no mau sentido.
Conheci até petistas com práticas complicadíssimas, para a obtenção de poder, para o partido ou para o grupo que representam.
Conheci petistas com os quais era até difícil entabular um simples bate-papo, quanto mais uma discussão.
Mas, nunca conheci petista que não fosse um rebarbado, visceralmente rebarbado, em relação às injustiças sociais. Especialmente em se tratando de um quadro partidário.
Por isso, tenho certeza – e todos os que militamos na política sabemos que é assim – que se um único petista tivesse conhecimento, de fato, do que se passava em Abaetetuba, com aquela menininha, já estaria armado o barraco.
O sujeito ou a sujeita iria para a porta da delegacia, com as clássicas faixas, camiseta e boné e de lá só sairia quando a menininha fosse libertada.
Afinal, petista que é petista não perde uma manifestação...


II

Li as declarações da “colega” Lúcia Hippólito, que se dispôs a externar, sabe-se lá pelo que, esse “palpite infeliz” acerca do impeachment de Ana Júlia.
Sinceramente, senti-me até pequeninha para tentar rebatê-la.
Afinal, a “colega” desfila uma enormidade de títulos: é jornalista, historiadora, cientista política...
Enquanto que a mim, vejam só, que não possuo sequer um diploma para pendurar na parede ou para carregar debaixo do braço, restou-me, apenas, o poder da razão...
E eu pensei, cá com os meus botões ignorantes e aleijados: como posso, ao menos, pensar em copidescar as declarações de tão “titularesca” criatura?
Pode até parecer coisa de paraense, de papa-chibé.
Mas, quando vejo esses “dotores” e “dotoras” do Sul e Sudeste se enveredarem por essas bandas, me dá um arrepio na espinha.
É engraçado. Nunca vi nenhum desses “dotores” e “dotores” se indignarem com a miséria do nosso povo.
Nunca os vi, ao menos, murmurando: “olha, é preciso acabar com essa desigualdade. É preciso mandar algum dinheiro para aquele povinho do nariz furado, para que possam, ao menos, discutir conosco”.
Nunca os vi clamando para que nos devolvessem, em impostos, as matérias-primas que o Sul e Sudeste levam daqui: a madeira, o minério, as pedras preciosas e semi-preciosas.
Ou, ao menos, para que se tivesse um mínimo de respeito em relação a essa mão de obra que vai daqui, os “cabeças-chatas”, para “servir” nas mansões do baronato.
Nunca vi esses “dotores” e “dotoras”, em geral ricos, bacanas, a clamar por uma universidade forte, nesta região (Por que será?).
Nunca os vi a clamar contra a malária, a hanseníase e outras doenças medievais que dizimam o nosso povo.
Contra a fome e a falta de saneamento básico, e até de água potável (que, Deus do céu!) são regras aqui.
Somos, em geral, para esses “dotores” e “dotoras”, as cobaias das teses que adoram desenvolver, para se amostrarem aos seus colegas “diplomáticos”...
E as cobaias que só têm vez quando se ultrapassa, a esses “dotores” e “dotoras”, o que eles consideram de “limite do patamar civilizatório”.
Quando os costumes da “indiaiada braba”, dos “aborígenes”, ultrapassam os limites do refinadíssimo bom-gosto que aprenderam a cultivar...
Mas, para nós, que vivemos entalados entre o terceiro milênio, que nos chama, e o escravismo que nos imobiliza, que é civilização? Qual o limite “aceitável” do que se chama barbárie?
Não, que não venham esses dotores e dotoras com as suas universidades de ponta, erguidas
sobre a espoliação amazônica.
Que não nos venham com as suas hipócritas lições de moral; a moralidade que só possuem quando tomam aquele bordozinho básico, com o dinheiro que subtraíram de nós...
Aqui, dotora Lúcia Hippólito (tem que ser com dois “p”, né mermo?, para não ofender a tal...), infelizmente, nos debatemos com a incivilização – categoria que é preciso buscar no anedotário dessa coisa que a senhora, no seu sofá bacana, branco e limpo, vive, certamente, aí...
A mesmíssima incivilização dos bairros da periferia de São Paulo, que, pelo visto, Vossa Excelência nunca visitou e pela qual, nenhuma raquítica vez, pediu o inpeachment do Maluf ou do Alckmin.
Custa-me a crer, sinceramente, que uma “dotora” se preste a isso.
A portar-se como uma baranga de discussões provincianas.
Afinal, “dotora”, Vossa Excelência “intui”, né mermo?, que é um absurdo trancafiar uma menina, ou uma mulher, ou uma anciã numa cela com um punhado de homens.
E os seus pares, com certeza, “intuem” o mesmíssimo.
Mas, se vossa excelência ou os seus pares conhecessem, minimamente, o Brasil, saberiam que, aqui, ainda estamos suando a camisa para convencer a sociedade de que isso é um absurdo.
Afinal, não apenas “intuímos”: sabemos, pela realidade, pela prática, muito além de qualquer teoria, que isso é um absurdo, né mermo?
Deixe-nos em paz, dotora Lúcia, vá conversar com o FHC. Vá se atucanar em São Paulo, onde existem tantas lutas bacanas, sem tantas tragédias a se viver.
Onde os pobres, creio, não têm de beber água da chuva para não morrer de sede, como acontece aqui.
A senhora e os seus pares não têm idéia, entre essas suas teses bacanas de doutorado, o que é viver e tentar melhorar uma sociedade assim.
Dê seu contributo a tudo que é veículo internacional, mas nos esqueça. Ou, tenha coragem, dignidade de vir viver aqui.
Depois de uns meses longe da metrópole e a viver na colônia das colônias, tenho certeza de que o seu pensar, a par de todos os títulos, será infinitamente diferente...


III

A senhora tem idéia, dotora Lúcia, do que encontramos aqui, quando assumimos o Governo do Estado?
Vou lhe dar uma idéia.
Segundo o IBGE, a população paraense, por força dos fluxos migratórios, cresce o dobro, anualmente, da população brasileira.
Pois, muito bem.
Entre 1995 e 2006, nos doze anos de governos do PSDB no Pará, não tivemos sequer um concurso sequer para a Polícia Militar.
E isso, como o seu animus dotorístico deve fazer intuir, quer dizer que a nossa razão, a nossa média, entre policial militar e grupo de cidadãos a proteger tornou-se infinitamente menor que a média brasileira e até que o internacionalmente recomendável.
Não, dotora, não estou a tenta-la sensibilizar. Mas, simplesmente, a lhe mostrar o que o seus colegas tucanos fizeram no Pará.
Eles, simplesmente, delegaram à iniciativa privada, um poder que é indelegável no Estado democrático: a segurança pública.

E parei aqui, caros leitores, na resposta a dotora que nos assombrou. Pois, que tudo que é doto nos assombra, né mermo?
Não posso retomar neste momento: a dotora bebe vinho bacana e eu bebo, quando dá, o tal do Galioto.
A tal da dotora é comedida, respeitável, enquanto que eu nem tenho medida, nem sou respeitável, muito pelo contrário.
A tal da senhora pensa que sabe. Mas eu vivi todas as teses de mestrado, de doutorado, que ela, um dia, pensou em escrever.
Enquanto ela se quedava na doçura da USP, eu, humanamente, estava aqui no chão. A vivenciar o dia a dia do nosso povo.
Vou continuar a beber. Não quero mais me importar com dotores de merda, que só conhecem este inferno por ouvir dizer.
Seja feliz, dotora Lúcia, com o seu minutinho parco de fama.
Nós aqui continuaremos a tentar fazer deste inferno um lugar que dê, ao menos, para sobreviver.
FUUUUIIIIII!

2 comentários:

Anônimo disse...

Célia, só não esqueça de considerar que Abaetetuba tem governo petista, do Prof. Luíz Lopes e seu grupo. A cidade tem uma história de luta, com forte movimento e participação popular, e, particularmente, nesse episódio, não sei o que tem acontecido para que a prefeitura mantenha-se distante, como se isenta fosse de responsabilidade no acontecido.

É engraçado como ninguém fala (nem mesmo a grande mídia) na parcela de responsabilidade do governo municipal no cuidado que "deve ter" com suas crianças e adolescentes, na medida em que é legalmente o "braço" do Estado no local, enquanto ente federado e autônomo, e que desenvolve várias ações de municipalização de políticas públicas voltadas à assistência e proteção de minorias, tais como: mulheres, crianças, adolescentes, idosos....

Anônimo disse...

Leio seu blog e também o blog da Lúcia Hippólito.
O parágrafo do tal impeacheament é parte do texto, não o assunto principal.
Permita-me dizer que , na minha modesta ótica, acho sim que houve uma cadeia de incompetência no caso.
Desde o delegado, promotor, juiza até secretário(s) e governadora, ninguém se indignou como deveria ter feito de imediato.
E as tentativas posteriores de explicar foram ainda mais terríveis, até culminar com a palavra do delegado-geral.
Isso é fato.
Quanto a comparações entre petistas e tucanos, não tenho estômago pra isso.
Não suporto mais ler e ouvir expressões tipo "herança maldita".
Um não faz por que o outro deixou de fazer.
Tudo igual.

em tempo: parabéns, seu texto tem toda a indignação que as "otoridades" presentes e passadas não tem nem tiveram.