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domingo, 7 de outubro de 2007

Infância

A infância



Voltar à infância.
Ver a barca, o carneirinho.
O chapéu azulzinho que era feito de mar.
Muito além dos rios,
Ir buscar o chapéu da Espanha.
Com Nossa Senhora a abençoar.
Ser o mundo num corrupio.
E pular.
Uma casa, duas, três...
Arrodear o bosque.
As almas que vinham de longe.
Que viam de longe.
Fazer das almas um bem.
Fechar os olhos.
Esconder-se debaixo da cama.
E fazer do monstro um amigo.
Cheio de medo também.
Entender o pato.
As encrencas em que se metia.
Tornar-se um peixe.
Para mentir à água fria.
Porque sem ela é impossível viver.
Ver o arco-íris bordado de girassóis.
Muito além do infinito.
Repleto de tantas petecas e tantos bombons
Que era impossível não querer.
Ser um instante.
E num instante não ser.
Pegar nas mãos o bichinho,
Selvagem e docemente.
A carregar um peito de passarinho,
Que só quisesse voar.
Achar o mistério da grama.
Da chuva, do cheiro, das borboletas e caracóis.
Entregar-se ao riso como quem vai ao circo.
E revelar na boca todo o coração.
Ver o poente como alguma coisa que se põe.
O instante que se vai porque o instante tem de ir.
Indagar da metafísica o que é, afinal.
Fazer da inocência a indefinição.
Querer e apenas querer.
Como quem quer o mundo, o computador turbinado, o carro de último tipo, a Gisele, o botox, o castelo de caras e qualquer mise en scene – ou sabe-se lá como isso se escreve e como se escreve como se escreve.
Ir por aí. E transgredir.
Os passeios, as pontes, as muradas.
As leis e a gramática.
Os símbolos e os sinais.
Ser além do ponto de interrogação.
Pois, que tudo é torrente.
E voltar ao jogo de amarelinha.
Sim, ao jogo de amarelinha, mais uma vez voltar.

Belém, 07 de outubro de 2007.

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