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terça-feira, 12 de junho de 2007

A Queda II

A Queda de Carlos Guedes II


A exoneração de Carlos Guedes, confirmada pelo Governo do Estado na noite de ontem, é a primeira grande baixa no governo de Ana Júlia. E eu torço, sinceramente, para que não venha a se configurar em verdadeiro desastre, a médio prazo.

Já comentei a crise que envolveu a permanência ou não do ex-secretário. E o desfecho de ontem não surpreendeu. Afinal, era quase certo que ele sairia. Até pelo enfraquecimento que sofreu, a partir do momento em que a queda de braço no interior da Democracia Socialista (DS) se tornou pública.

É certo, também, que a saída de Guedes não provocará convulsões políticas no governo. O poder continua repartido da mesmíssima forma entre as tendências petistas e os partidos que integram a administração estadual. E o ex-secretário não é liderança expressiva de qualquer dessas tendências ou partidos. É muito mais um técnico, com excelente trânsito político.

Logo, os problemas que podem ser gerados com a saída de Guedes são de outra ordem. Não conheço seu substituto, José Júlio. Sei que tem formação acadêmica invejável e alguma experiência de gestão pública, no âmbito municipal. Mas, temo que lhe falte tarimba, para atravessar o terreno pantanoso da máquina pública, num estado das dimensões do Pará, em termos de geografia e de mazelas sociais.

Livros são excelentes para moldar a ampliar a visão de mundo. E as discussões acadêmicas também são maravilhosas nesse sentido, até porque funcionam como espécie de bálsamo, diante dos obstáculos à transformação da sociedade.

Mas é preciso bem mais que isso para cruzar o oceano de mumunhas do Estado, onde um erro aparentemente insignificante porque gerar uma tsunami. Nunca é demais lembrar, aliás, o “escândalo da cabeleireira”, que poderia ter sido evitado com um simples contrato de prestação de serviços...

Deus queira que me engane, mas creio que a minha xará no governo cometeu uma grande burrada, daquelas que a gente só percebe tarde demais e quando os estragos são tantos que já nem vale a pena juntar os cacos.

Carlos Guedes era, certamente, o melhor quadro técnico do atual governo. Talvez o único em condições de enfrentar a oposição cerrada dos tucanos, numa área crucial para o equilíbrio financeiro. Possuía a necessária vivencia de 15 anos de serviço público, para saber, ao menos, para onde apontar a lupa, em vez de perder-se a procurar agulha num palheiro - ou numa profusão de divagações filosóficas.

Foi-se, porém, antes de completar seis meses – e antes que se saiba, com certeza, se os tucanos não deixaram pelo caminho, outras cascas de banana, além daquelas já descobertas e que poderiam ter provocado verdadeiros desastres, ainda no primeiro mês da nova administração.

Uma delas foi o não pagamento de serviços essenciais, como, por exemplo, o fornecimento de combustível. Outra, um déficit que comprometia até a possibilidade de novos financiamentos.

Guedes teve a agilidade, o conhecimento, a competência necessária para aparar todas essas bolas, ao mesmo tempo em que jogava de centro-avante em outro terreno escorregadio – o planejamento participativo.

E a dificuldade de articulação genuinamente popular nas políticas públicas foi um dos fatores que mais contribuiu para o desgaste do ex-prefeito Edmilson Rodrigues, junto aos formadores de opinião. Nunca é demais lembrar disso. O PT, aliás, deveria fazer disso um exercício cotidiano de memorização.

Por isso, não apenas alguns grupos da DS comemoram a saída de Guedes – mas, principalmente, os tucanos e pefelistas devem estar soltando um senhor foguetório. Afinal, a mexida pode provocar uma hecatombe numa área crucial, que abrange, ao mesmo tempo, o equilíbrio financeiro e a participação popular, no novo governo.

Torço para que este não seja mais um daqueles tiros no pé que o PT já se habituou a dar. Aliás, durante a campanha eleitoral, me disse, pasmo, um promotor de Justiça: os petistas nem precisam de inimigos. Basta que se coloquem, todos, num mesmo compartimento, para que se matem mutuamente...

É pena que ele, aparentemente, tivesse razão.

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