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terça-feira, 9 de janeiro de 2007

fragmentos IV

Fragmentos Biográficos IV


O coração navegante ansiava lançar-se ao mar. Sempre adiante, sempre adiante... A mergulhar nas ilhas inexploradas, para encontrar-se, quem sabe, no infinito.

Quieta, trancava portas e janelas. Em vez do sol, o negrume. Em vez dos pássaros, das ondas, do vento, era o silêncio. Tão denso e profundo, que calava a alma. E o horizonte desmanchava em dor...

Por que ficaria ali – ali ou em qualquer lugar? Por que criar raízes, se gente foi feita para andar? Se o oculto, o encoberto, promete sempre mais que o que se tem?

Ainda que os pés sangrassem, que se fizessem desertos os campos do mundo, ainda assim, queria seguir.

Para buscar, entre espinhos, a flor. O oásis. A face do deus que se esconde em cada deus.

Não fosse assim, de que adiantaria viver? Para arrastar-se como se arrasta toda a gente, a temer a morte que já é?

Queria o coração acelerado. O olhar brilhante da descoberta. Os sentidos escancarados ao mundo. A vida em zilhões de tempestades. O caos primordial.

Lembrou da primeira vez em que partiu. A mochila nas costas, uns vinte e poucos anos.

Os rios, as matas. E a casinha branca emoldurada pela imensidão da floresta. Quem viveria ali, tão possuído e distante? Quem seria a parte que se fez todo?...

As gentes, que olhara com a curiosidade das gentes. Como a procurar o liame, o elo. A essência por trás das palavras, dos sonhos, dos gestos.

A quantos amara e matara, em palavras, gestos e pensamento? E em quantos resistiria, na alegria e na dor?

No coração, eram tantos os perfumes, que se embriagara deles. Já não tinham rosto. Eram alma e cheiro entranhado nos poros. Pele sob a pele.

E os castelos, os rios, as casas, as matas eram o universo que se fez retina. O Verbo a conceber a luz.

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