Ban

domingo, 7 de janeiro de 2007

Debate I

Um debate tucano I

A tática e a estratégia

I

Enquanto escrevo – e nem sei por que escrevo – vou ouvindo Amália, em “Foi Deus”, e Elizeth, em “Três Apitos”. Vozes e canções tão diferentes, mas, belíssimas, quais as sensações que despertam, no corpo e na alma.

A música é um aprendizado. Não no sentido de claves, pautas. Mas, no sentido de conhecer e amar a harmonia por trás da diversidade aparente. Ou, como diria certo filósofo, essa convivência necessária e extremamente bela entre o arco e a lira.

O começo “divagatório”, por incrível que pareça, vai dar em política.

Simplesmente, não consigo odiar ou desrespeitar quem pensa diferente de mim.

Já fui o oposto, é verdade, mas, na juventude. Na época, admirava os paredões a que mandaríamos toda a burguesia. E tomava o proletariado por angelical. Enxergava no Estado um Leviatã. Não fazia a mínima idéia do significado da sociedade civil.

Rezava, sem saber, rezava. E foram necessários muitos anos para compreender, afinal, essa promiscuidade insistente (e nefasta) entre política e religião.

É por isso que me vejo, às vezes, boquiaberta, diante do ódio que alguns tucanos cultivam em relação a mim.

Se publicasse todos os comentários ofensivos e anônimos que recebo, praticamente todos os dias, as pessoas minimamente equilibradas ficariam, certamente, tão espantadas como eu.

Essa coisa de satanização é pequena demais. Revela ignorância, intolerância e até uma certa ingenuidade: a incapacidade de compreender o que significa o poder e, sobretudo, a conquista do poder.

Nenhum de nós – tucanos, petistas, peemedebistas, pefelistas – somos anjos ou demônios. Mas, simplesmente, agentes políticos. Pessoas exercendo a Cidadania, como, aliás, todos deveriam fazer.

Parece tatibitati. E é. Mas, às vezes, é preciso ser pedagógico. Até no sentido primordial da palavra: aquele que conduz o menino pela mão.

É fato que os sentimentos interferem na possibilidade de escutar o outro. Assim, ouvimos, atentamente, as pessoas com quem simpatizamos. E nos fechamos ao discurso daqueles com quem antipatizamos. Mas, quem sabe, agindo didaticamente, consigamos obter da platéia a necessária atenção.


II

Partido é um ajuntamento de cidadãos que caminham na mesma direção; que pensam, interpretam o mundo, da mesma forma. E querem, ao fim e ao cabo, a mesmíssima coisa.

É claro que, em meio a isso, há divergências. Mas não posições estratégicas - de fundo, de horizonte, de futuro, de objetivo - diametralmente opostas. Até porque isso resultaria, fatalmente, em outro partido.

O que há são diferentes compreensões táticas; visões diferentes de uma determinada conjuntura, de uma realidade, e da ação que sobre ela é preciso exercer, para alcançar aquele objetivo comum.

Esse é, pois, o primeiro ponto a fixar: a diferença entre tática e estratégia. A diferença entre o que se pretende, de fato, lá adiante, e o que se faz, aqui e agora, diante do que está posto, para se chegar ao fim pretendido.


III

E como é que isso se traduz no dia a dia? É mais ou menos assim: você e eu queremos chegar a Roma. Ou porque amamos a História; ou porque temos Roma como “o” roteiro turístico. Ou porque, talvez, acreditemos na propaganda da “Roma, Cidade Eterna”. Não importa o porquê. O fato é que eu, você e tantos outros queremos chegar a Roma.

Pois, muito bem. Como somos “companheiros” ou, quem sabe, amigos, decidimos viajar juntos. Sonhamos, planejamos juntos. E até parece que nunca nos separaremos, não é? Em nossa imaginação, já até organizamos a festança em Roma – a nossa Roma. Nossa e só nossa! Sem cristãos a arrombarem a nossa alegria pagã. Onde inexiste pecado – original ou adquirido.

Mas, lá pelas tantas, nós, apesar de mantermos o mesmo amor pela mesma Roma, começamos a divergir. Você diz que é melhor pegar um avião até Recife e daí se mandar para Madri ou Barcelona. E, por barco, trem, ônibus ou avião, chegar, afinal, a Roma.

Mas, eu digo que assim fica mais caro e distante. Que o melhor é pegar o avião em Belém até Lisboa. E, a partir daí, pegar outro avião. Ou, quem sabe, comprar a passagem direta, com escala no Rio ou em São Paulo. Mas, o certo, é que, também, continuo querendo chegar a Roma.

É claro que o dinheiro e o tempo que cada um de nós gastará dependerá da realidade que vemos – e, também, dos meios à nossa disposição.

E o que é essa realidade? Nada além das informações que possuímos – ou não possuímos – e que nos fazem pensar assim ou assado.

E o que são os meios? O dinheiro, o cacife, que possuímos – ou que possui um amigo, um parente, um aliado – e até os aviões, barcos, trens, ônibus e tudo o mais que existe no lugar em que nos encontramos. Ou seja, tudo o que podemos usar, para vencer a distância entre o “aqui” e o lugar aonde pretendemos chegar.

É claro que o resultado da decisão que tomamos - em função dessa “realidade compreendida” e dos meios disponíveis - dependerá de vários fatores. Pode ser que, objetivamente, a decisão mais respaldada, advinda, oriunda, “parida” de dados concretos me leve a chegar mais barato e rapidamente.

Mas, é possível, também, que uma greve, uma tempestade, um defeito no avião, no trem, no barco, ou qualquer outro acidente, me leve a ficar retida em algum lugar, dias, semanas a fio, enquanto você chega a Roma, todo bacana – e saboreia um sorvete, depois de comer uma bela macarronada e apreciar o Coliseu...

E, é claro, que, entre tantos companheiros que se dispuseram a ir conosco, haverá sempre aquele (ou aqueles) que ficará especado em Belém. Porque não entendia nada de geografia. E imaginava que Roma era logo ali. E que bastava apanhar o Icoaraciense...

Mas, ao fim e ao cabo, fazemos parte, todos, do mesmo balaio. Você, que chegou tão depressa; eu, que fiquei tempos, perdida em algum lugar; e o sujeito que nunca chegou – até porque o ônibus demora à beça e o motorista, embora carcamano, nem é capaz de dizer: “Vê se te manca, ô meu! O busão só vai até Icoaraci”...


IV

Bom, já vou na sexta ou sétima dose de vodka. E, definitivamente, estou escrevendo outras coisas. Hoje, já escrevi um poema, cheguei à metade do “Festa no Meu Apê VI” e estou, aqui, tentando traduzir alguns dos conceitos mais difíceis de compreender na política: tática, estratégia, imponderabilidade. Mas, que são, rigorosamente, fundamentais, qual o conceito de “areté”. Por isso, peço vênia aos leitores para beber em paz, neste final de noite, ouvindo, depois de Amália e Elizeth, um excelente pagodão.
Volto a esse assunto mais adiante. Amanhã, vou concluir a Festa no Apê. Ciao!

Um comentário:

Anônimo disse...

Caríssima e Belíssima Perereca,
A democracia moderna surge a partir da industrialização.
Antes houve regime democrático em Atenas, cidade-estado grega, para os proprietários, adultos, homens, dentro de uma sociedade escravista.
No mundo industrializado só existem duas elites:
- os trabalhadores;
- os empreendedores.
Assim é que no mundo inteiro, só existem dois partidos que detém a hegemonia:
- o Partido trabalista, na Inglaterra, o Democrata, nos EEUU etc;
- o Partido Conservador, na Inglaterra,o Republicano, nos EEUU etc.
Os demais partidos existem, mas sãodiminutos e não influenciam nos rumos.
No Brasil,até pouco tempo atrás só o PT, representava efetivamente o Trabalhador, comn base.
Não havia Partido para os Empreendedores, apesar de serem numerosos: um sapateiro, por conta própria,ou taxista e quaisquer um que trabalhe para sí e empregue ou não outros, são Empreendedores.
Imaginou-se que o PMDB, após a ditadura, poderia vir a ser o representante dos Empreendedores, mas esse partido tornou-se o que são a maioria dos partidos brasileiros;VERDADEIRAS QUADRILHAS.
Assim é que, talvez o PSDB venha a ser esse representante dos empresários. Tomara que ele assuma isso, aí, sem constituir-se em quadrilhinhas, com marcelos, abeis e outros e tal, aí o Brasil já estaria cumprindo um grande avanço.

Pererequíssima, famos nos falando, por enquanto!
Do seu, para sempre, operúdenatal.