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sábado, 6 de janeiro de 2007

Ao pó

Ao pó



Não me convidem para enterros.
Não me convidem a velar os mortos.
Permitam que chore na solidão de meu quarto,
Os risos e as histórias de quem partiu.

Enterros existem para esquecer.
Cemitérios, para visitar.
Há coisa mais impessoal que aquele amontoado de sepulturas?
Há anonimato maior que o da terra a receber um corpo?

Cemitérios são monumentos à finitude.
Avivam a consciência de que tudo retorna ao pó.
Não apenas em materialidade.
Mas nos confins do que chamamos tempo.

A cada era, apaga-se um coração.
E embora renasça em luz, entre as estrelas,
E embora respire no corpo, no cheiro, de quem ficou,
Cala, aos poucos, na lembrança,
Até que a pequenina lembrança - e aquele que lembra
Também se acabem em pó.

E a alma que torna ao criador
Daqui, nem o corpo a levar,
Também já não é aquele coração
Pois que os corações são feitos de sangue, esperança e suor.

Enterro é a morte vívida do coração que se amou.
Um filho, um amigo, o pai...
Cobre de luto a imensa vida ali tão perto.
E que se fez mais amada que a vida que ficou.

A paixão atiça o calor daquele corpo,
Mas o choro que se levanta
É a realidade do frio que se tornou.

E não há força que possa animá-lo.
Nem música, nem poesia que o vão buscar às profundezas da terra.

Não, não me convidem para enterros,
Nem esperem que a eles compareça.

Prefiro a memória em festa,
A lembrança que cheira, ri, salta, acaricia...
Que arde no peito em carne e osso
Até que o peito em outro peito retorne
À luz, ao tempo, ao pó.

Belém, 06 de janeiro de 2007

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