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terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Mística


Amansando as Águas




Vou às águas.

Assim, peço: “a bênção, Senhora!”

Que a Senhora me proteja das ondas, das pedras, do além mar.

Que a Senhora esteja comigo.

E com todos os que me acompanhem.

Que as ondas me reconheçam

E que eu seja parte do teu mar...

Que as tuas ondas me conduzam.

Como fazem à espuma do mar.

Que estejas comigo, Senhora!

E que me protejas, Senhora!

E que me protejas, Senhora!

E que me protejas, Senhora!



Meu Pai Oxalá


Atotô Abaluayê
Atotô babá
Atotô Abaluayê
Atotô babá

Vem das águas de Oxalá
Essa mágoa que me dá
Ela parecia o dia
A romper da escuridão
Linda no seu manto todo branco
Em meio à procissão
E eu, que ela nem via
Ao Deus pedia amor e proteção

Meu pai Oxalá é o rei
Venha me valer
O velho Omulu
Atotô Abaluayê

Que vontade de chorar
No terreiro de Oxalá
Quando eu dei com a minha ingrata
Que era filha de Iansã
Com a sua espada cor-de-prata
Em meio à multidão
Cercando Xangô num balanceio
Cheio de paixão

Atotô Abaluayê
Atotô babá
Atotô Abaluayê
Atotô babá


(Vinícius de Moraes/ Toquinho)

Jonas

No ventre da baleia!



Este é o último post deste ano – se conseguir escrevê-lo.


É introspectivo, como a Perereca tem sido. Quer gostem ou não.


Mais que informação, adoro reflexão.


Adoro o pensamento que se volta sobre si mesmo e pergunta: que pensas, afinal?


Adoro as mentes que se deixam possuir pelo Infinito...


Pela impossibilidade de sermos. Pela “circunstância” que é o Ser.


Sei que, às vezes, avôo tão alto que é difícil de alcançar.


Por isso, tenho procurado tornar este blog saboreável, digamos assim.


Sem mais perguntas acerca dessa máxima filosófica: que é isto que é?


Tenho buscado corresponder-me, comunicar-me.


E assim vou sonhando os sonhos de todos vocês.


Tento ser parte da manada; estar com ela, mesmo quando se faça o abismo.


Tenho, em suma, tentando comportar-me.


Para ser aceita, sem mais indagações...


E eu só desejo, neste último post, é que estejamos juntos em 2008.


Eu tentando compreender vocês. E vocês a tentar compreender a mim...


Beijinhos, queridinhos!


E aí vai a minha última canção de 2007!


A última e permanente revolução da Perereca!



Vossa Excelência



Estão nas mangas
Dos Senhores Ministros
Nas capas
Dos Senhores Magistrados
Nas golas
Dos Senhores Deputados
Nos fundilhos
Dos Senhores Vereadores
Nas perucas
Dos Senhores Senadores...

Senhores! Senhores! Senhores!
Minha Senhora!
Senhores! Senhores!

Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão! Senhores!
Filha da Puta! Bandido!
Senhores! Corrupto! Ladrão!...

Sorrindo para a câmera
Sem saber que estamos vendo
Chorando que dá pena
Quando sabem que estão em cena
Sorrindo para as câmeras
Sem saber que são filmados
Um dia o sol ainda vai nascer
Quadrado!...

Estão nas mangas
Dos Senhores Ministros
Nas capas
Dos Senhores Magistrados
Nas golas
Dos Senhores Deputados
Nos fundilhos
Dos Senhores Vereadores
Nas perucas
Dos Senhores Senadores...

Senhores! Senhores! Senhores!
Minha Senhora!
Bandido! Corrupto
Senhores! Senhores!

Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão! Senhores!
Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão!...

-"Isso não prova nada
Sob pressão da opinião pública
É que não haveremos
De tomar nenhuma decisão
Vamos esperar que tudo caia
No esquecimento
Aí então!
Faça-se a justiça!"

Sorrindo para a câmera
Sem saber que estamos vendo
Chorando que dá pena
Quando sabem que estão em cena
Sorrindo para as câmeras
Sem saber que são filmados
Um dia o sol ainda vai nascer
Quadrado!...

-"Estamos preparando
Vossas acomodações
Excelência!"

Filha da Puta!
Bandido! Senhores!
Corrupto! Ladrão!

Filha da Puta!
Bandido! Corrupto! Ladrão!

Filha da Puta!
Bandido! Corrupto! Ladrão!

Filha da Puta!
Bandido! Corrupto! Ladrão!...

(P. Miklos, T. Bellotto, C.Gavin)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

festa

É Festa!!!!



A Perereca ainda espera fazer mais um post neste ano, neste final de semana.


Depois, vai juntar as tralhas e embarcar, de mala e cuia, para uma praia, com um pescador parrudaço - que ninguém é de ferro, pois, pois...


Mas, quer ir logo deixando os seus republicáveis votos de fim de ano.


Para o caso de ser antecipadamente alcançada pela perdição...



Feliz Eleição 2008!


2007 chega ao fim, vem aí mais um ano eleitoral.


Novamente, iremos nos estapear, distribuir bicudas, cada um a defender aquilo que lhe parece justo, certo, melhor.


Para todos nós que amamos a política, há bem poucos momentos tão bacanas...


Essa, como já disse alguém, “é a hora da onça beber água”...


É o momento em que olhamos para trás, a ver os erros que cometemos – e que podem ser usados contra nós.


Mas, principalmente, é o momento em que colocamos, em cima da mesa, o cacife que conseguimos ajuntar.


A todos os parceiros desse jogo e desse amor imenso que é a política - em qualquer lado que estejam, qualquer que seja o partido ou o “sonho” que representem... - um 2008 repleto de “batalhas” inesquecíveis!


Com aquele drible, aquele passe, aquele chutão, aquela “bicicleta”... Simplesmente memoráveis!...


Que possamos lutar com garra, coragem, determinação, fé, lealdade – com AMOR!... – por aquilo que consideramos o certo, o justo, o melhor.


Que consigamos ser, para todos os nossos companheiros, mais que uma alegria: que sejamos o ombro que está ali, firme, diante de qualquer temporal...


Que agarremos, com força, as mãos dos nossos companheiros. E que consigamos semear a esperança, por pior que pareça, de repente, o horizonte...


Que vença, através de nós, mais uma vez, a sociedade, o eleitor, a vontade popular.


Que vença o Pará e o nosso povo, em cada um dos 143 municípios paraenses.


E que Deus não permita, jamais, que esqueçamos que qualquer eleição, por mais aguerrida, é, tão somente, o limiar, o começo...


A todos vocês - queridinhos!... - companheiros ou adversários, um 2008 absolutamente magnífico!


Com saúde, paz, amor, dinheiro, felicidade, carinho, sonhos... – tudo o que cada um possa desejar...


E, principalmente, um 2008 com tudo em cima – e ponha em cima nisso - para 2010!...


FUUUIIIII!!!!



Porto Caribe



Quem vai querer, vai querer
Vai querer desarrumar
Quem vai querer, vai querer
Vai querer lambadear

Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe o seu porto de mar
E sei pelos discos do velho Cugat
Que yo, ay yo no puedo vivir sin bailar

Lambada, Nêga, vem cá
Neguita, Nêga me dá
Me dá que eu dou
Te dou aquele fungá
Das ilhas de bom chamar amor

Calar, eu me calei
Agora vou falar
Paris se cheguei vou ficar
New York, Moscou, Berlin e Bogotá
Eu sou mandinga do meu Pará

Lambada, Nêga, vem cá
Neguita, Nêga me dá
Me dá que eu dou
Te dou aquele fungá
Das ilhas de bom chamar amor

Deixa eu bailar, deixa eu bailar, deixa eu bailar...

(Paulo André e Ruy Barata)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Millôr




Das Matemáticas






Hoje, a vagar pela internet, dei com um poema, no blog da Franssinete, que, há tempos, não via.



Lembrei-me da adolescência, do primeiro livro de português.


E pus-me a sonhar, na velocidade da luz, entre o que ensinam as matemáticas e aquilo que a vida intui.


Lembrei-me do certo, condizente com toda a formalidade.


Lembrei-me das paralelas - que jamais se tocarão, por maior que seja o infinito.


Vi-me reduzida a uma Hipotenusa, à espera de qualquer cateto...


E descobri-me mulher, maior, bem maior, que qualquer Racionalidade. Ou Irracionalidade...


Adoro esse poema. Publico. Com vocês, Millôr Fernandes:





Poesia Matemática



Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

(Millôr Fernandes)




E Se


E se eu me fosse de ti
E de tudo o que nos fez um só?
A esquecer que estás em mim
Como segunda alma, segundo corpo...
Braços, pernas, sangue, músculos, pele, desejo, suor...
Se fosse, apenas fosse, a caminhar por entre as gentes...
A perder-me em outro mundo, em outro céu, em outro amar...
E se te encontrasse no mar e me bastasse o além?
E me ficasses em espécie de delírio, nas palavras que se perderam de nós?...
E se não fosses – nunca mais!... - esta dor em meu peito?...
Se te arrancasse de mim como quem muda o perfume, a roupa, a cor dos cabelos...
Se não fosses o verbo, o verso, o poema, a música, a voz, a canção...
E se houvesse vida distante de ti, ainda que em sonhos?
Entre as nuvens que me permitem voar sem a outra asa
E pulsar... Sem a metade deste teu coração!...
Se não respirasse o teu desejo e tu, o meu desejo...
Quando os teus olhos repousam em meus olhos
E as tuas mãos se aninham... Nas palmas das minhas mãos...


Lisboa, 26 de março de 1996

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Almir


O Longo Adeus



I




Os jornais deste domingo, 16, trouxeram, ambos, matérias sobre a despedida de Almir Gabriel da vida pública.



Se verdadeira, é um triste ocaso para alguém com a história pública do velho cacique tucano.



Até pelo alívio que traz a muitos de seus correligionários, que querem voltar a exercitar uma capacidade básica da política: a negociação.



Almir já é parte da História do Pará. E não, apenas, por ter sido governador duas vezes, senador constituinte e prefeito da capital.



Ele marcou, principalmente, por verbalizar um ideal ético do trato da coisa pública.



E por ajudar a recuperar, em muitos de nós, a capacidade de sonhar com num Pará melhor.



Mas, também por isso, Almir será lembrado, ainda, como um exemplo da distância que existe entre o discurso e a prática, neste imenso território profano que é a política.



É possível que tenha sido, de fato, um homem à frente de seu tempo, como dizem alguns.



Até porque incorporou, definitivamente, ao discurso dos que o sucederem, preocupações cruciais no trato da coisa pública: o controle de gastos, o equilíbrio fiscal, a necessidade de superação do extrativismo e de investimentos economicamente estruturantes; a moralidade que precisa nortear a administração da máquina pública.



Mas Almir também errou feio na prática, especialmente nas duas vezes em que comandou o Governo do Estado.



A personalidade autoritária e birrenta não lhe permitiu enxergar que vivia, de fato, em uma república - e não num império.



Que não poderia, simplesmente, querer, poder e mandar. Ou, como o célebre rei francês, incorporar o próprio Estado.



É pena que tenha sido assim.




II




O primeiro erro de Almir, devido, justamente, a essas complicadas características pessoais, foi o de imaginar que poderia fazer política com o fígado, sem ter de pagar, e levar o PSDB a pagar, um alto preço por isso.



O “velho”, que parecia, em tanta coisa, à frente de seu tempo, portou-se, exatamente, como o velho que pretendia combater.



Incorporou o personalismo, o messianismo, o coronelismo, o fisiologismo, a arrogância, a desestimular a crítica e o nascimento de novas lideranças.



Perseguiu adversários, como se fossem demônios a destruir.



Não viu, ou não quis ver, que todos os agentes políticos têm direito de defender os próprios interesses e convicções, dentro dos limites da legalidade e da democracia.



E que é preciso conviver com isso, lidar com isso, negociar com isso, de forma rigorosamente desapaixonada.



Lembro de uma longa entrevista que fiz, certa vez, com o “Dr. Almir”, na qual ele disse uma coisa em que acredito visceralmente: não há, entre nós, anjos nem demônios, mas, simplesmente, seres humanos.



E hoje, olhando para trás, não posso deixar de pensar na contradição entre esse dizer e a postura do “Dr. Almir”.



Almir pode ter sido não apenas inteligente e “lido”, mas sábio.



Mas, é bem possível que também tenha sido o sábio que se perdeu no Nirvana do próprio umbigo...




III




O segundo erro de Almir foi fechar os olhos ao que faziam os acólitos e o filho, Marcelo - e que era do conhecimento de toda a corte.



Foi o de achar – e novamente por conta de sua complicada personalidade – que o público poderia ser tratado como extensão do seu quintal.



E que, para isso, bastava, simplesmente, amordaçar as instituições e distribuir fartas verbas de propaganda.



Almir acreditou que os cidadãos – os perseguidos e os não-perseguidos – nem de longe poderiam ameaçar o paraíso artificial, virtual, que criava ao redor do próprio umbigo.



Não viu, como um Narciso, a insatisfação que o seu comportamento gerava.



A indignação - com a corrupção, o autoritarismo e a miséria da população - que ia tomando conta até de correligionários.



Não foram poucos os tucanos que ajudaram, com informações fundamentais, na última campanha. E que até votaram em Ana Júlia Carepa.



A Almir, portanto, também pertence esse legado: o de ter encarnado, na última campanha, em seu canto de cisne, a imagem do retrocesso.



Que descanse em paz.


E que permita ao PSDB voltar a viver.



Pererecando




Lua de Mel I





Fonte do Palácio dos Despachos estranha as especulações em torno de uma “crise” na aliança entre o PT e o PMDB.



“O PMDB nunca esteve tão bem” – observa – “Tem o Detran, a Sespa, a Cosanpa, a Paratur, a Presidência da AL e por aí vai. Mais do que isso: o governo não persegue o PMDB. Os prefeitos do partido não estão sob pressão, nem os deputados”.



E acrescenta: “Mesmo se o governo tirasse tudo do partido e só deixasse a Loterpa, ainda assim o Jader continuaria feliz, porque o governo não o está perseguindo. Pelo contrário: o PMDB é tratado, neste governo, muito melhor do que foi pelo Jatene”.



A fonte recorda que o PMDB até ampliou a bancada na AL, coisa que não acontecia há muito tempo. E pergunta: “Que motivo teria o PMDB para brigar com o PT?”


Lua de Mel II


A mesma fonte prevê que as disputas municipais que se avizinham não devem respingar na aliança estadual.


É fato, observa, que PMDB e PT vão se digladiar na maioria dos municípios, especialmente os grandes, no ano que vem.


Mas, assinala, embates municipais têm, sempre, configuração e repercussão localizadas.


Até porque são aquele momento em que todos os partidos querem mais é se cacifar, para a mesa de negociações.


“Eleição municipal não é motivo de ruptura. Se isso acontecer, será um fato novo”, resume.


Para a fonte, próxima de Ana Júlia, “se tudo continuar como está, a tendência é que estejamos juntos, novamente, em 2010”.


Ana e Lula...


Pesquisa encomendada por liderança petista aponta que o presidente Lula e a governadora Ana Júlia Carepa serão os grandes cabos eleitorais, nas próximas eleições à Prefeitura de Belém.


Pela pesquisa, que ouviu 900 pessoas no final de novembro, Lula tem 80% de aprovação, na RMB, e Ana, 70%.


O partido “mais querido”, em Belém, ainda continua a ser o PT, com 26% das preferências, seguido do PMDB, com 10%, e dos tucanos, com algo em torno de 7%.



Edmilson e Valéria...



Porém, os candidatos mais cotados, a PMB, pela mesma pesquisa, são Edmilson Rodrigues, Valéria Pires Franco e Duciomar Costa, nessa ordem.


Segurança pública, com 32%, é o que mais inquieta a população, seguida da saúde.



E Mário e Regina...



Entre os nomes do PT listados na pesquisa, como possíveis candidatos do partido à Prefeitura, estão Regina Barata, Waldir Ganzer, Suely Oliveira, Carlos Bordalo, Edilson Abreu e Mário Cardoso.


Mas é esse último que aparece em melhores condições para a disputa, com 19% das preferências, nesse universo específico.


Mário é seguido de perto por Regina Barata, com 15% das intenções de voto.



Esperando Godot I



Petista militante e juramentado, com larga influência no partido, diz que o PT rachará de cabo a rabo, na capital, caso a governadora Ana Júlia Carepa resolva apoiar a reeleição de Duciomar Costa.


Ele acredita que Ana ainda está à espera da manifestação do presidente Lula, para decidir o que fará em relação a Belém.

Lembra que, em política, “nada é descartável” – daí a possibilidade de Lula optar por Dudu.

Mas, observa, se Ana tiver de engolir “o aru”, o apoio a Dudu terá de acontecer na surdina, bem por debaixo dos panos...



Esperando Godot II



O mesmo petista militante e juramentado não acredita que Ana Júlia possa, eventualmente, apoiar Edmilson Rodrigues, hoje no PSOL, à corrida da PMB.


“Há até uma questão pessoal envolvida aí” – comenta – “Você deve se lembrar que, no segundo mandato de Edmilson, toda a família da Ana fez campanha contra ele. Só a Ana é que o apoiou”.


Além disso, acrescenta, “o Nery (senador José Nery, do PSOL) votou contra a CPMF”.

Daí não acreditar que Edmilson possa contar com a boa vontade da governadora e do partido, principalmente a nível nacional.



Alta temperatura I



O clima promete esquentar nos quartéis, nesta semana, devido à carta-resposta enviada, neste domingo, pelo major Walbert Wolgrand ao jornal O Liberal.


Na carta, Wolgrand faz sérias acusações ao comandante da PM, coronel Luiz Ruffeil, inclusive de nepotismo e de “fraqueza” de comando.


No Palácio dos Despachos, tem-se como improvável a prisão administrativa de Wolgrand, que é major da reserva, embora não se descarte essa possibilidade.


“Acho que isso é improvável, devido a Wolgrand se encontrar na reserva” – diz uma fonte do Governo – “Mas a orientação que tem sido dada ao comandante da PM é de qualquer caso, independentemente do que for ou de quem envolva, seja tratado com o procedimento administrativo pertinente”.


Daí que, segundo a fonte, tudo dependerá da decisão do coronel Ruffeil.



Alta temperatura II



A fonte também nega a existência de crise na PM.

“É claro que esse não é caso de Wolgrand, mas tem muita gente reclamando porque, agora, vai ser obrigada a trabalhar nas ruas, quando já estava acostumada com o gabinete de ar refrigerado. São as ‘viúvas’ que perderam os privilégios”, observa.


Ele recorda que a governadora Ana Júlia Carepa já solicitou, há um mês, que o Tribunal de Justiça do Estado, o Ministério Público e a Assembléia Legislativa disponibilizem pelo menos a metade do efetivo da PM que ali se encontra, para que esses policiais possam retornar às ruas.


Garante que Ana vai manter Ruffeil no comando da PM e nega, inclusive, que exista disputa de poder no interior da corporação.

“Disputa de poder entre quem?” – indaga – “Os dois mais importantes cargos da PM são o Comando Geral e a chefia da Casa Militar. Mas, o chefe da Casa Militar está na dele e não interfere em nada na PM”.


Alta Temperatura III



O mais problemático de todo esse imbróglio é que Wolgrand não parece disposto a recuar.


“O sentimento que expressei naquela carta, de que a PM está acéfala, é compartilhado por muitos, na corporação” – disse o major, neste domingo, à Perereca.


E acrescentou: “Há uma grande dificuldade do coronel Ruffeil se dirigir a PM, de se impor como comandante. Muitos oficiais resistem às ordens dele. E isso acontece, muitas vezes, até quando são mandados para o interior”.


Por incrível que pareça, afirmou, também, o major: “Nunca pensei que fosse dizer isso. Mas, nesse aspecto, a gente acaba até sentindo saudades do coronel Vieira (coronel João Vieira, o ex-comandante da PM). As pessoas sentiam a força do comando dele. Ele deixava coronel na porta da sala dele, esperando duas horas para falar com ele. Mas, hoje, na PM, cada um faz o que quer”.


Wolgrand diz, também, que não teme ser preso, em função das suas declarações: “Não fiz nada que possa se caracterizar como transgressão disciplinar e também sustentei, teoricamente, tudo o que disse. Além disso, o comandante também transgrediu a disciplina”.



A Perereca na arquibancada



O major Wolgrand garante, também, que o jornal O Liberal não publicou, na íntegra, a carta que encaminhou.


O jornal teria cortado a referência à utilização de homens da PM no Parafolia e no serviço à Companhia Vale do Rio Doce.


A Perereca, que noticiou o início de todo o embate (veja post anterior sobre a denúncia de Wolgrand em relação ao Parafolia, o que já ensejou abertura de procedimento administrativo pela PM) vai, agora, sentar, na arquibancada e assistir a tudo, com pipoquinha e coca-cola.


Até porque disse, mais cedo, ao major, a quem admira: “O senhor é ralado...”. E porque tem, igualmente, enorme consideração pelo coronel Ruffeil...


A Resposta de Ruffeil



Em entrevista à Perereca, há pouco, o comandante geral da PM, coronel Luiz Ruffeil, disse que será aberta sindicância, ainda nesta semana, para confirmar a autoria da carta publicada pelo jornal O Liberal e se o major Walber Wolgrand incorreu em transgressão disciplinar.



Só aí, observa, se poderá falar em punição. “Além disso, será preciso verificar a punição que a lei determina, uma vez que ele (Wolgrand) é oficial da reserva”, explicou o coronel. Daí ter evitado comentar a possibilidade da prisão disciplinar do major.



Ruffeil também negou a existência de crise na PM e mesmo de uma acirrada disputa de poder. “Até porque numa instituição que tem como pilar a hierarquia, não há como ter disputa de poder: o comandante toma providências de ofício”, comentou.



Segundo ele, “infelizmente, há algumas pessoas que se aproveitam dos canais de comunicação, para fomentar discórdia na PM. Hoje, estamos com policiamento nas ruas, mais viaturas e atuamos em todo o estado do Pará. Não existe, portanto, qualquer ‘clima’ nos quartéis. O que pode haver é que algumas pessoas, que gostariam de ter alguns ganhos pessoais e estão se sentindo prejudicadas, estejam tentando fomentar isso”.



Logo mais tem mais



Para não atrasar a atualização do blog, a Perereca publica esta edição do jeito que está.


Mas, tem um bocado de material que só deve postar à noite.


Aí incluída uma entrevista exclusiva e bacana com um promotor de Justiça.


Desculpem o atraso da domingueira, que se transformou em segundeira, leitores.

É que uma bebedeira fenomenal ( e uma ressaca idem) me impediu de atualizar o blog mais cedo.

Daqui a pouco eu volto. FUUUUIIIIII!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Extra! Extra!



Incrível, mas verdadeiro

Justiça paraense condena
um por improbidade



Alberto (o nome é fictício, porque ele pediu para não ser identificado) não tem parentes importantes, nem mansões ou carrões.

Na casa dele, aliás, tudo o que um oficial de Justiça encontrou foram móveis e eletrodomésticos típicos da classe média: um aparelho de TV de 29 polegadas, uma geladeira, um freezer, um microondas, um fogão antigo, sofás, uma mesa de jantar e algumas cadeiras.

Ou seja, nada que, ao ser leiloado, alcançasse o valor que deve ao erário.

Mesmo assim, esse dentista de 38 anos, casado, pai de dois filhos, já fez história.

Num estado que contabiliza centenas de "causos" cabeludos, ele é o único cidadão condenado, em definitivo, por improbidade administrativa, nos últimos cinco anos - e, talvez, em toda a história do Pará.

E, para tornar ainda mais incrível a sua trajetória, terá de devolver aos cofres públicos exatos R$ 11.428,00 – é isso mesmo: onze mil e quatrocentos e vinte e oito reais.


Só ele!


Segundo dados da Promotoria de Direitos Constitucionais e do Patrimônio Público, do Ministério Público Estadual, desde 2002 foram ajuizadas 21 ações por improbidade administrativa, na Justiça paraense.

Dessas, apenas uma transitou em julgado – justamente a de Alberto.

Antes daquele ano, explica uma funcionária, só eram protocoladas ações civis públicas, mas, do tipo “obrigação de fazer”. Dessa família de processos há 43 em tramitação.


A bem do serviço público


A ação de improbidade contra Alberto foi ajuizada pelo Ministério Público, no final de outubro de 2002, em decorrência de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), encaminhado por uma secretaria estadual.

A acusação: ele teria recebido os vencimentos de novembro e dezembro de 2000 sem trabalhar e sem justificar a ausência ao batente.

Consta que teve negada a prorrogação de uma licença de saúde e que, naquele período, se encontrava em Aracaju, a realizar uma especialização em Odontologia.

O PAD concluiu, então, que deveria ser demitido “a bem do serviço público”, o que aconteceu através de decreto governamental, em janeiro de 2002.

A sentença judicial saiu em junho de 2004.

Nela, o juiz considerou que a conduta do servidor causou despesa ao erário, prejuízo à sociedade e, também, à moralidade administrativa, “pois a população e os próprios funcionários públicos observaram o desrespeito ao aparelho estatal, que já vem sofrendo grandes prejuízos à sua imagem, já que cada vez mais cresce a corrupção e a falta de idoneidade de seus agentes prestadores de serviços”.

E acrescentou: “O Estado, portanto, por meio de seus entes funcionais (Executivo, Judiciário e Legislativo) deve restabelecer a ordem pública através de seu Poder uno, punindo os seus agentes, que no agir prejudicaram a funcionalidade do sistema”.

Daí ter condenado Alberto à perda de função pública, suspensão dos direitos políticos por cinco anos, pagamento de multa civil de igual valor ao dano causado ao erário, proibição de contratar com o Poder Público e de receber incentivos ou benefícios fiscais ou creditícios, pelo prazo de cinco anos, e ainda que por meio de empresa em que, eventualmente, figure como sócio.

Entre salários corrigidos, multa e honorários a conta de Alberto, que era agente administrativo, ficou em R$ 11.428,00, que ele, como bom representante da classe média, vai pagar em parcelas, já que não possui bens penhoráveis.

O processo consumiu 290 páginas.


O Único dos Moicanos


No afã de levar aos seus leitores a informação “Top de Linha” a Perereca saiu pererecando em busca do ímprobo doutor, que teria “enriquecido” à custa do erário com esses R$ 11.428,00.

Encontrou-o assoberbado de trabalho, num consultório apinhado de clientes.

E entre uma obturação e outra, obteve rápida entrevista. Ei-la:

Perereca: Como é que o senhor se sente sendo o único cidadão paraense condenado por improbidade administrativa?
Alberto: Eu me sinto tranqüilo, porque não considero que tenha sido improbidade. No início, eu pedi demissão, não consegui. Fui fazer um tratamento fora, fui fazer uma especialização. Como ia demorar muito tempo, acabei ficando pra lá. E quando voltei é que eu resolvi ajeitar essa situação toda.

Perereca: Mas o senhor recebeu o dinheiro que dizem que o senhor recebeu?
Alberto: Olhe, vou lhe ser sincero, eu não tenho certeza. Mas, se recebi, foi coisa de R$ 700,00. Mas, não que eu fosse roubar R$ 700,00 do Estado – pra quê?

Perereca: Como é que o senhor encara o fato de ter sido condenado a devolver R$ 11 mil aos cofres públicos, num Estado em que há tantas histórias de funcionários fantasmas e de gestores acusados de corrupção que permanecem soltos?
Alberto: Na verdade, o culpado de tudo isso é o Ministério Público em si, porque, se fosse fazer uma pesquisa a fundo, não era só eu que estava nessa situação. Agora, acho errado e não acho... Se cometi o erro, tenho de pagar. Era para eu ter arrumado logo toda a situação, acabado com isso. Eu é que deixei rolar, mesmo. Como diz a minha advogada: eu fui o errado e estou pagando por aquilo que errei.

Perereca: Mas o senhor não se sente indignado com essa situação?
Alberto: Não, porque foi um erro meu. Se eu tivesse seguido os trâmites normais e tudo...Eu sou até leigo no assunto... Mas, como eu falei agorinha: eu estou pagando por aquilo que fiz.

Perereca: Quantos anos o senhor trabalhou no serviço público?
Alberto: Dez anos.

Perereca: Sempre no mesmo órgão?
Alberto: Sim. E até hoje tenho amigos lá. Se chegar lá e perguntar, todo mundo sabe quem sou.

Perereca: Quanto é que o senhor ganhava por mês? Eram R$ 1.900,00?
Alberto: Não. Eram uns R$ 700,00, eu acho.

Perereca: Mas havia algumas vantagens, não é?
Alberto: Não, era isso, se não me engano. Mas, faz tanto tempo que já nem me lembro...



Hasta la vista!



E a Perereca vai ficando por aqui, porque, depois dessa, só pode é encher a cara...

Mas, promete aos seus exigentes leitores que voltará a esse empolgante tema, hoje ou amanhã – mas, certamente, no final de semana.

Com notícias e uma entrevista pra lá de bacana.

FUUUIIIIII!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Quartéis


A agitação nos quartéis


Na última sexta-feira o major Walber Wolgrand protocolou ofício a governadora Ana Júlia Carepa contra o uso de militares na segurança do Parafolia.

“Ocorre que o Parafolia” – diz o documento – “é um evento de natureza privada, realizado por uma empresa privada e em local privado, tendo como principal objetivo a obtenção de lucro pecuniário”.

Daí o major entender que a utilização desses militares, cerca de 200, caracterizou “desvio de finalidade”, uma vez que a PM é paga com dinheiro público, para efetivar a segurança pública.

No documento, Wolgrand acusa um coronel da PM e outros oficiais que coordenaram a operação de usarem as forças da segurança pública e as patentes, para auferir benefícios pessoais.

Centra fogo no comandante-geral da PM, coronel Luiz Ruffeil, que nada teria feito para impedir a ilegalidade ou para responsabilizar quem a praticou, “demonstrando total conivência com o emprego ilegal de integrantes da corporação militar em serviço particular remunerado”.

Segundo o major, os militares usados no Parafolia foram pagos pelo serviço – no caso de soldados e cabos a remuneração teria sido de R$ 50,00 por dia.

E observa: “Temos assim a caracterização de uma verdadeira comercialização da coisa pública, tudo sob os olhares complacentes das autoridades que deveriam reprimir tal conduta”.

E o “inusitado ou, talvez, tragicômico”, salienta Wolgrand, é que eles ainda teriam sido lesados pelo coronel que comandou a operação, já que a organização do Parafolia teria repassado, na verdade, R$ 100,00 per capita, para o pagamento de cabos e soldados.

Tão ou mais grave, porém, é que outros militares lhe teriam afirmado que foram escalados, para o serviço, com a promessa de receberem “complementação de jornada operacional”, pagamento conhecido como “bico legalizado”.

“Em outras palavras, o erário público paga o serviço de policial militar para que empresas particulares se beneficiem dos mesmos”, escreve o major.

E, fulmina: “A grande contradição é que durante o período do Parafolia, no dia 24 de novembro, moradores das adjacências da avenida Mário Covas interditaram a referida avenida, sob protesto, em razão da falta de segurança no bairro do Coqueiro. Eis que o que falta à população, sobeja para os particulares, que podem pagar por um serviço que tecnicamente é indisponível, mas que um grupo inescrupuloso de oficiais, com a aquiescência do Comando Geral, ‘vende’ em benefício próprio”.

Wolgrand assina o ofício como presidente da Associação em Defesa dos Direitos dos Militares do Pará (ADDEMIPA).


II


Essa denúncia do major Wolgrand é, na realidade, a complementação de outra, que ele encaminhou, em agosto último, à governadora Ana Júlia, à secretária de Segurança Pública, Vera Tavares, e ao Ministério Público Estadual.

A denúncia de agosto diz respeito ao envolvimento de coronéis da PM com empresas de segurança privada, das quais alguns seriam até proprietários ou ex-proprietários – e inclusive com a utilização de soldados da corporação, nesses empreendimentos.

Tudo em afronta à Constituição e ao Código de Ética da PM, que, lembra o major, proíbem a participação de militares em empresas de segurança privada.

A denúncia de agosto, aliás, é duríssima. E a carga que faz contra o comandante-geral Luiz Ruffeil é muito mais pesada do que a do recente ofício.

Além disso, investe contra outro problema já bem conhecido: o emprego do parco efetivo da PM como força privada de políticos e instituições, aí incluídos outros Poderes, como o Legislativo e o Judiciário, e até, quem diria, pelo “xerife” – quer dizer, o Ministério Público.


III


É essa guerra surda na Polícia Militar paraense que está, provavelmente, por trás da manchete, deste domingo, do jornal O Liberal.

Não é uma crise, como se tenta vender, mais uma acirrada disputa de poder, decorrente dos novos tempos. Mas que, provavelmente, não é nem maior, nem menor, que as anteriores.

Uma disputa de poder que também não difere em muito daquelas que acontecem em todas as organizações da sociedade brasileira.

Até porque o que divide a PM é o mesmo que fraciona a sociedade: o velho e novo.

Quer dizer, as mentalidades e as práticas que, se eram vistas como “normais” em outras épocas, hoje se mostram totalmente inadequadas, frente às novas exigências da ética democrática.

De um lado está uma parcela significativa de oficiais, habituada a fazer o que bem entende, mesmo que ao arrepio da Lei.

Do outro, uma jovem e promissora oficialidade, que pretende uma PM mais proba e cidadã.

No meio, um grupo de oficiais, que vive, hoje, do sapateado de catita e do passo double de rato.

Porque, se entende que as mudanças são necessárias, também compreende que elas têm de ser realizadas de acordo com a efetiva capacidade de transformação que se detém.

Quer dizer, pari passu com o que permite o jogo das forças em disputa no âmago da sociedade, sob pena de se detonar uma guerra, de resultados imprevisíveis.

Até pela instituição de que se trata e dos vastos interesses externos envolvidos nessa disputa...


IV


Nenhum desses oficiais é “Taleban” ou joga no bloco do “eu sozinho”.

Todos possuem boa inserção, em todos os níveis da tropa, por diferentes motivações.

Aí incluída a dureza do cotidiano dos soldados, que ganham mal, se expõem a toda sorte de perigos, cochilam no chão, sobre pedaços de papelão, e têm de se contentar com um “boião” frio e ruim – quando não têm de suportar, simplesmente, a fome e a sede, em eventos como os jogos do Mangueirão.

Mas, também, o dinheirinho extra que pinga nas carteiras dos soldados e dos oficiais, e até o status de que gozam, no trabalho em instituições públicas, do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, e nos “bicos” em eventos privados.

Óbvio que é dificílima a situação do comandante geral Luiz Ruffeil, que tem de administrar essa guerra.

É torpedeado pelo centro-avante Wolgrand e pelos oficiais que integram o grupo ao qual pertence.

Mas, sofre, também, violentas pressões dos coronéis – e um exemplo é a matéria deste domingo.

É que na mesa de Ruffeil estaria um procedimento administrativo, para apurar possível transgressão disciplinar de Wolgrand, que permanece na reserva, para a qual foi mandado pelo ex-comando da PM.

Diz-se, nos bastidores, que Ruffeil teria tentado transferir o ônus desse ato a governadora Ana Júlia, ao enviar-lhe o procedimento, para que fosse ela a assinar.

Mas, Ana, espertamente, teria devolvido o documento, observando que o comandante da PM, se quiser, tem poderes suficientes para levá-lo adiante.


V



Se isso for verdade, Ana agiu corretamente, da mesma forma que quando evitou meter a colher para reintegrar Wolgrand à ativa.

Tenho por Wolgrand enorme respeito, admiração até.

Mas o fato é que é difícil se meter nessa barafunda da PM sem sair chamuscado.

O problema é que a disputa de poder na PM vem se acirrando de tal forma, que promete arrastar cada vez mais gente para o olho do furacão.

Não gostaria, por nada deste mundo, de estar na pele do coronel Ruffeil.

As práticas de muitos coronéis, de seus pares, são, de fato, muitas vezes ilegais.

Até porque a mentalidade da "briosa", assim como a mentalidade predominante na sociedade brasileira, não apenas permite, mas até abençoa determinadas práticas.

Mas, o que fazer? Mandar todos esses coronéis e demais oficiais, de uma vez, para a reserva?

Quem garante que, os que viessem depois, não herdariam algumas dessas práticas complexas, para dizer o mínimo, até porque ainda vistas como "naturais"?

E quem administraria as forças externas que lucram, em maior ou menor grau, com tudo isso?

É uma situação que não tem por onde se lhe pegar, como tudo, aliás, que diz respeito a PM.

A corporação, de fato, mereceria uma ampla faxina, com muito sabão e água sanitária.

Mas, como fazê-lo, aqui e agora, sem desencadear – aí, sim – uma crise astronômica?

É ver que bicho vai dar...


Direto no bolso


Resolução do Tribunal de Contas do Estado, publicada na última sexta-feira, salgou as multas para quem não prestar contas de dinheiro público.

Agora, as multas decorrentes de atrasos nas prestações de contas podem atingir até 20% do total conveniado, desde que não ultrapassem o limite de R$ 28 mil.

E as autoridades que não emitirem laudo conclusivo de execução do convênio – ou, o que é pior, que assinarem um laudo que não corresponda à realidade – poderão ser multadas em até 100% do valor do ajuste.

Quer dizer, ficou mais salgado, também aos gestores, o hábito de fazer vista grossa ao mau uso do dinheiro público.

Entre janeiro e setembro deste ano, o TCE aplicou, no geral, 418 multas, que somaram quase R$ 150 mil.

Na maioria, não ultrapassaram R$ 400,00; apenas nove atingiram mil reais e somente uma alcançou o dobro disso.

E no entanto, estima um funcionário graúdo do TCE, que prefere não se identificar, mais da metade dessas penalidades tem origem, justamente, na falta de prestação de contas.

"A falta de prestação de contas é a irregularidade mais comum e gera multa, irrecorrivelmente, mesmo que as contas, afinal, estejam corretas" – observa o funcionário – "E o TCE entendeu que a multa, devido aos baixos valores, não estava sendo suficientemente pedagógica: havia um descumprimento excessivo da obrigação de prestar contas".

Outra novidade é a normatização da "responsabilidade solidária", já prevista em resolução anterior do TCE.

Ela significa que o gestor do órgão que repassa o dinheiro terá de fiscalizar de fato; fazer funcionar o controle interno para acompanhar a utilização dessa verba, sob pena de acabar pesadamente multado também.

"O TCE gostaria de não ter de aplicar multas, que não houvesse irregularidade. Há, inclusive, todo um trabalho de orientação das pessoas. Mas, há gente que não se interessa em prestar contas, que não dá a mínima, apesar de o dinheiro que recebeu não pertencer a ele, mas a todos" – diz o ex-deputado estadual e conselheiro Cipriano Sabino, o autor da proposta de atualização dos valores das multas.

A tais pessoas, observa, o aumento da sanção permitirá punir na mesma proporção "do equívoco, do erro ou da má-fé".

Cipriano considera "inaceitável" que uma entidade ou instituição não se preocupe em, ao menos, prestar contas da verba pública que recebeu. "Eu não vejo motivo para o gestor não prestar contas no tempo correto", observa, para acrescentar: "O que nós estamos fazendo é buscar mecanismos para que os recursos públicos sejam usados corretamente".

E salienta que o esforço do TCE, nesse sentido, já começa a ultrapassar a mera questão formal. "Hoje" – comenta – "nós já estamos começando a acompanhar, também, o resultado efetivo de uma obra ou de um serviço, para uma determinada comunidade. Estamos olhando não apenas a correção formal, mas, a eficácia, o impacto daquilo que se pagou com dinheiro público na melhoria da qualidade de vida".


Pererecando



Dá-lhes, Tereza!



Evento no Hotel Sagres, amanhã (segunda, 10), a partir das 8h30m, marcará a passagem do Dia Internacional de Combate à Corrupção, em Belém.

A programação é uma parceria da Auditoria Geral do Estado (AGE) e da Controladoria Geral da União (CGU).

A AGE, em prédio novo, com mais verbas e mais gente, aliás, promete encaminhar, ainda neste mês, à Procuradoria Geral do Estado (PGE), cerca de 30 auditorias que passaram a limpo vários contratos dos governos tucanos.

Há irregularidades cabeludas, inclusive no FDE.


Inadimplência


Falar na PGE: fonte de lá relata que o Governo do Estado apareceu como inadimplente no Cadastro Único de Convênios (CAUC), nada menos que quatro vezes, ao longo deste ano.

Tudo por conta de irregularidades do governo anterior – aí incluído o Alvorada e o superfaturamento na construção de uma penitenciária.

Só através de liminares do Supremo Tribunal Federal (STF) é que o atual governo pôde voltar a firmar convênios com a União. Inclusive os últimos que Ana Júlia assinou com o presidente Lula.


Com manteiga


E a tapiocaria do Couto, hem, xentes? Sumiu até do guia da Veja das melhores lanchonetes de Belém...

Sentado no 1,5 milhão de votos que recebeu, Couto, ao que parece, vai azeitando a bateria para disputar o governo do Estado, em 2010.

Com abre-alas do Arco-Íris. E eventual apoio do PMDB.

Sorte deles. Azar nosso...

E segura aí que eu vou fazer uma fezinha na esquina e já volto...

Infiéis


O tempo vai fechar, nas próximas semanas, para uma parcela considerável dos “infiéis”, com a decisão do procurador regional eleitoral, José Potiguar, de reaver, na justiça, os mandatos de quem abandonou o partido pelo qual se elegeu.

Segundo levantamento do advogado Inocêncio Mártires já são 72 os vereadores paraenses que respondem a ações de perda de mandato, além de oito suplentes que também abandonaram as agremiações originárias.

Inocêncio acredita, porém, que nem a metade dessas ações terá sucesso. Muitas, diz ele, serão arquivadas sem apreciação do mérito.

Porque impetradas ou pelos diretórios municipais ou por suplentes.

O prazo de ajuizamento de ações pelos partidos encerrou em 30 de novembro e Inocêncio garante que só os diretórios estaduais é que estavam legitimados para isso.

“O TSE ao editar a resolução estabelecendo o rito para a perda de mandato indicou a competência dos tribunais regionais eleitorais. Logo, os diretórios estaduais é que têm competência para ajuizar essas ações”, explica o advogado. E indaga: “Quem pode formular consultas ao TRE não é o diretório estadual?”

Inocêncio diz que, se vingar a defesa que fez de um vereador do PMDB de Breu Branco, mostrando justamente a ilegitimidade dos diretórios municipais, só isso já salvará da degola 65% dos infiéis.

No caso dos suplentes, o raciocínio é igualmente simples: se o mandato pertence aos partidos, observa Inocêncio, então suplente não é parte para pleitear perda de mandato.

Daí que o caminho possível aos suplentes interessados na perda de mandato dos infiéis é o Ministério Público.

Além do MP, Inocêncio diz que ainda têm legitimidade, até 30 de dezembro, para requerer a perda de mandato, as coligações partidárias.

Exemplo: vereador eleito por uma coligação entre o PSDB, o PTN e o PL se mudou de mala e cuia para o DEM.

Mas, até 30 de novembro, o PSDB simplesmente “se esqueceu” de requerer essa vaga.

Mas, como o suplente é do PTN, esse partido poderá fazê-lo, até 30 de dezembro.

A Perereca publica, abaixo, tabela razoavelmente atual, elaborada com a ajuda de Inocêncio, acerca dos vereadores já ameaçados de degola, bem como dos suplentes que já respondem a ações.

Em tempo: o leitor certamente se lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no início de outubro, que os mandatos pertencem aos partidos – e não aos políticos.

Mas que, também, “anistiou” quem trocou de legenda até 25 de março deste ano, o que beneficiou boa parte dos proporcionais.

Então, haverá de perceber que, na tabela abaixo, há gente, como é o caso de vereadores de Belém, cujas ações de perda de mandato têm parcas chances de vingar.


VEREADOR MUNICÍPIO LEGENDA ATUAL QUEM PEDE

Antonio Rocha da Costa Benevides PSC PTB
João Maria Alves da Silva Santa Izabel Não consta PSL
Wilson Ferreira da Silva Curionópolis PMDB PMN
Wenderson Azevedo Chamon Curionópolis PMDB PSDB
Walter Antonio da Cruz Portel Não consta PSDB
Walter da Silva Cordeiro Portel Não consta PSDB
Maria Vanda do Nascimento Costa Portel Não consta PRTB
Antonio Ribeiro dos Santos Breu Branco Não consta PT
Manoel da Silva Barbosa S.João do Araguaia Não consta PT
Marcelo Pierre Rimes Acácio Capanema PMDB PP
Wilmar Vieira Zanardini Nova Ipixuna PR PSDB
Lucidalva Batista da Luz (1 Suplente) Nova Ipixuna PDT PSDB
Manoel Odinaldo da Silva Marapanim PMDB PV
Adenor Ferreira da Silva Marapanim PMDB PV
Márcia Lopes do Nascimento Rio Maria PDT PMDB
Emanoel Guilherme Amaral da Rocha Marituba Não consta PMDB
Fernando Vilhena Marapanim Não consta DEM
João Maria da Silva Pau D’Arco Não consta PPS
Valdir Gonçalves Pena Igarapé-Miri Não consta PPS
Emiliano Bouolhosa Ribeiro Ponta de Pedras PT PPS
Marcelo Oldakoski Pau D’Arco Não consta PPS
João Martins Costa Oeiras do Pará PRB PPS
Francisco Vieira Água Azul do Norte Não consta PPS
Reinaldo José da Silva Lisboa Bonito PTN PT
José Francisco do Rosário Bragança Não consta PV
José Antonio C.da Rocha (Bispo Rocha) Belém PMDB PSDB
Armênio Wilson C. de Moraes Belém PMDB PSDB
Joareis Rodrigues Sousa Vitória do Xingu PMDB PT
Manoel Borges dos Santos Juruti Não consta DEM
Edjânio Printes Figueira (Peruano) Juruti Não consta PMDB
José Maria de Freitas Caldas Cametá PSDB PMDB
Jorginey Arnaud Rodrigues Cametá DEM PMDB
Fernando Alexandre de Souza Navarro Bragança PR PMDB
José Raimundo da Silva (suplente) Bragança PP PMDB
Carlos Queiroz da Cunha (suplente) Bragança PP PMDB
Paulo Sérgio Torres de Medeiros (suplente) Bragança PP PMDB
José Ataíde Pereira (suplente) Bragança PP PMDB
Hildemar Demis Silva da Costa Santarém Novo Não consta DEM
Raimundo Aurenilson da Silva Marques Bagre Não consta DEM
Raimunda Crisolete Almeida Monteiro Almeirim Não consta PMDB
Samuel Silva Portilho de Melo Almeirim Não consta PMDB
Raimundo Feitosa Mendonça (1 Suplente) Almeirim Não consta PMDB
Maria da Glória Silveira Silva Tracuateua Não consta PTB
José Américo Contente Magno Jr. Barcarena PSL PMDB
João Maciel Batista Barcarena PDT PMDB
Francisco Chaves Pereira Barcarena PDT PMDB
Djalma Alves dos Santos Altamira Não consta Reginaldo Silva
Evandro B Nascimento da Silva Tracuateua Não consta DEM
Osmarina Gonzaga Silva Tracuateua Não consta DEM
Maria Edinéia Moreira Manço Acará Não consta DEM
Paulo Sérgio Araújo da Silva Acará Não consta DEM
Anderson de Sousa Pereira Jacundá Não consta PV
José Wilson Faustino (suplente) Jacundá Não consta PV
Carlos Begot da Rocha Ananindeua Não consta PTB
Jorge Fernandes Gomes (suplente) Ananindeua Não consta PTB
Paulo Sérgio de Lima Batista Rondon do Pará PMDB PPS
Luiz da Silva Nobre S.Caetano de Odivelas Não consta PPS
José Mário Alves Monteiro Sto Antonio do Tauá PMDB PPS
José Orlando Paulino de Souza Capitão Poço Não consta PPS
Odacy Pompeu da Silva Peixe-Boi Não consta PSB
Gedeon de Souza Moreira Uruará Não consta PSB
Manoel Brasilino da Fonseca Paragominas Não consta PSB
Elvio Elpídio Massutti Redenção Não consta DEM
Francelino Batista de Lima Uruará Não consta Édson Lopes
Frutuoso Saraiva Barros Peixe-Boi Não consta PSB
Lucídio Rezende da Silva Junior Peixe-Boi Não consta PSB
Ossias Rodrigues da Silva Peixe-Boi Não consta PSB
João José da Silva Conceição do Araguaia PDT Geovani Vaz Tavares
Ronivaldo Fernandes do Carmo Cametá Não consta Emanoel Wanzeler
Luís Mendes da Conceição Anajás Não consta Amauri Ribeiro

Pedro Mesquita Soares Anajás Não consta Amauri Cardoso Ribeiro

Altemir Barbosa Gonçalves Salvaterra Não consta Cirano Brito
Maria Selma Martins dos Santos Salvaterra Não consta Cirano Brito
Mário Alves da Silva Canaã dos Carajás Não consta Gilson Campos
Edelson oliveira de Souza Canaã dos Carajás Não consta Gilson Campos
José Paulino da Silva Canaã dos Carajás Não consta Gilson Campos
Gilvan da Silva Pinheiro Canaã dos Carajás Não consta Gilson Campos
Raul Nélson da Conceição Neto Terra Santa PMDB Francisco Feitosa
Luís Manoel Pantoja Ferreira Terra Santa PMDB Francisco Feitosa
Munique Maciel Carvalho Terra Santa PMDB Francisco Feitosa


Editorial


A Perereca produziu esta edição com muito carinho. Mas, talvez, ainda não esteja à altura das edições de outrora e de seus exigentes leitores. (E ponha exigentes nisso, né, gentalha?)

Mas, assumo o compromisso de, com ou sem serotonina, recolocar o blog nos trilhos, de onde nem deveria ter saído, aliás.

Creio que atrelei meu destino demasiadamente a um jornal.

Errei, como todo mundo erra, afinal.

Mas o fato é que, nesse ínterim, as excelentes fontes que possuo ficaram, a bem dizer, abandonadas.

Talvez porque, erroneamente, tenha preferido um espaço que me proporciona milhares de leitores, ao invés deste cafofo onde só vêm uns poucos. E que, no entanto, valem, certamente, por esses milhares...

Mas, tenham certeza, isso não decorreu tão somente de eventual deslumbramento.

Mas, da situação financeira periclitante em que até já me habituei a viver.

Creio, porém, que chegou a hora de retomar meu espaço na blogosfera.

E se essa domingueira não agradar, tenham certeza de que farei o possível e impossível para que a próxima seja bem melhor.

Mas, claro está, que nem isso livrará a gentalha das minhas contumazes bebedeiras...

E por falar nisso, vou encher a cara. FUUUUUIIIIIII!

Musiquinha bacana, para encerrar...





A Voz do Dono e o Dono da Voz


Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós, de entrega e de abandono
De guerra e paz, contras e prós
Fizeram bodas de acetato de fato
Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz, a voz resulta um prato
Que gira para todos nós
O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes
Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó
Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E, rouca, regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes
Enfim a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar, queria ser um prato
Girar e se esquecer, veloz
Foi revelada na assembléia-atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel, trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: Minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém

(Chico Buarque)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

pensando

Pensando, pensando...


Não quero mais seguir nessa coisa de opinar.


Quero criar.


Traduzir em palavras todos os girassóis do mundo!


Ouvir estrelas a contar-me em minha cama todas as histórias do infinito...


Voar, querer voar... E capturar o indizível.


O problema é que mergulho nos abissais e vou aos píncaros da glória num minuto.


Nessa bipolaridade, mania, depressão - sei lá o quê...


Sou um louco com consciência de si.


O louco que se deita no divã e também indaga: que tens, louco, hoje a me dizer?


E eu penso que, ao fim e ao cabo, somos todos assim.


Pois, que sabemos de nós? E do que somos e do que seremos e de tudo aquilo que deixaremos de ser?


O que, afinal, nos possui?


É o dinheiro, a fama, a superação, a transcendência?


Mas, que é o dinheiro, a fama, a superação, a transcendência?


E o que é que isso aplaca, resume, conclui?


A Bíblia tem umas coisas bacanas. Ela diz que somos tão somente o pó que, um dia, ao pó retornará.


Não sei. Acho que li demais a Bíblia.


“De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma?"

"Olhai os lírios do campo!... Eles não trabalham nem fiam...Mas não há, no mundo, vestimenta igual...”


Ouço Nana Mouskouri; adoro essa belíssima voz...


E quando Deus me perguntar – como perguntará a todos – “o que fizeste da vida que te dei?”


Responderei de pronto: ouvi Nana Mouskouri!


E viajei por toda a beleza, por todo o maravilhoso, por tudo aquilo que é fato sublime.


Mergulhei nas profundezas de mim. E compreendi a vida como o porto desejado, ansiado, magnífico!... Mas, infinitamente breve...


Abracei a vida docemente. Vivi cada segundo com a intensidade de zilhões de estrelas, mares, poemas, corpos que se dão.


Fui o átimo que se fez chama.


E só.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Inverno

O inverno

Entra ano, sai ano e nada muda em Belém.


Todo inverno, milhares de famílias pobres perdem tudo aquilo que, com um esforço danado, conseguiram juntar.


O ventiladorzinho que compraram – ou que ganharam da “patroa” – o sofá, o armário, a geladeira velha, quando há.


Tudo vai, literalmente, por água abaixo.


E, o que é pior, essas pessoas e seus filhos se vêem expostas a toda sorte de doenças, pelo contato com a água infecta, que leva, também, qualquer esperança que a informação sanitária possa proporcionar.


A chuva é parte de Belém, é Belém. É a poesia que nos embala da infância à sepultura.


A chuva nos remete a algumas das melhores lembranças: quem, dentre nós, não tem uma história de chuva para contar?


É parte desse rio imenso que somos, todos, belemenses, amazônidas.


No entanto, nas baixadas, essa mesma chuva se transforma em maldição.


É um tempo de perdas dolorosas, até daquele mínimo de Cidadania que se julgou possuir.


É um tempo em que se percebe que todo o esforço que se fez, para “conquistar”, honestamente, um mínimo de conforto – como o ventiladorzinho ou a geladeira velha – não significa rigorosamente nada, diante da miséria a que se está condenado...


A chuva, em nós, classe média, lava as dores e até os pecados...


Mas, na nossa gente, que subvive nas baixadas, obriga a uma viagem aos confins do inferno.


Não deveria ser assim.


Porque tudo o que precisamos para que não seja assim é de um prefeito que cumpra, minimamente, com as suas obrigações.


Já nem estou falando em honestidade, em compromisso com a coletividade, que, com a nossa história, isso é até querer demais.


Qual a última eleição em que votamos em quem merecesse, de fato, o nosso voto, a confiança, o respeito dos cidadãos?


Eu, sinceramente, aos 47 anos, não me recordo de uma mísera eleição em que tenha votado num candidato em que dissesse: esse sim, é honesto, é competente e tem compromisso com a maioria da população de Belém.


Votei, sempre, por exclusão; quer dizer, no menos pior. E como eu votaram milhares de cidadãos.


Já nos habituamos a isto. Não a escolher o melhor; aquele que pudéssemos, de fato, chamar de “o melhor”.


Mas, naquele que menos prejuízo nos possa causar.


É certo que também votaram, votamos, naqueles que distribuíam óculos, cestas básicas, a comida, o direito – à alimentação, à saúde, à educação – que raramente se vê.


A vaga na escola pública, a consulta ao “dotô” que enormes filas transformaram em “benesses”, em “presentes”, quando são, na realidade, direitos inalienáveis de todo e qualquer Cidadão, de todo e qualquer ser humano, de uma cidade ou de um país que seja, de fato, minimamente humano e civilizado.


E o que custa, meu Deus, a esse eleito, ao menos, manter a cidade limpa?


Recolher o lixo, desentupir os bueiros, para que as nossas ruas não se transformem em rios – que nós até podemos poetizar, mas, que quem os vive nem tem por que poetizar, nem por que achar graça alguma?...


Sempre – e nunca vi diferente – todos jogam a culpa na nossa população.

Como se fosse suja, porca, desinformada, poluidora militante e juramentada...


É engraçado. Parece até que não pagamos impostos. E que uma das finalidades dos impostos não é, justamente, a educação das pessoas.


Se não sabem o que fazer com o lixo, que o Poder Público, com os impostos de todos nós, lhes ensine isso.

E se a coerção não é suficiente, que se intensifique a coerção. Pois, que temos, também, vereadores pagos para isso.


Mas, cá para mim, esse tipo de desculpa carrega, além de confortável justificativa para a incompetência e a inoperância, uma dose cavalar de preconceito.


É muito fácil dizer que pobre é porco.


Ou, como me disse uma peruona, daquelas impensáveis, a própria Antonieta diante do brioche: “Que bom que você cheira bem! É assim mesmo que eu lhe quero! Que gostoso esse cheirinho regional!” – e eu envolta numa nuvem do Boticário...


E o que eu antevejo, neste inverno, fora de brincadeira, é algo muitíssimo doloroso: mais que nunca o nosso povo acreditará que o drama que vive é resultado da própria imundície.


Afinal, é larga a baixa auto-estima da nossa gente e fartas – imensas! – as verbas da propaganda que a pilantragem já está a distribuir...


Nossa gente, nosso povo – que são iguaizinhos a nós, nas mesmas necessidades, no mesmo esforço, no mesmo sonho – haverá de bater no peito, a proclamar: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa...


E esse prefeito pilantra, safado, ladrão, bandido, canalha - e a corja que o cerca - continuará livre e bacana, a roubar até esse restinho de esperança da nossa gente, dos nossos irmãos, do nosso povo...

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Hippolito

Não quis publicar. Me atentaram. Publico. Nem li.

O impecheament de Ana Júlia

I


É incrível essa tendência de algumas forças políticas, do Pará e do Brasil, para o golpismo.
Há meses, tentaram isso em relação ao presidente Lula. Mas, acabaram desistindo. Porque a arrogância, o elitismo e a indolência jamais lhes permitiram a mínima inserção no movimento popular.
Agora, diante do caso da menina de Abaetetuba, lá vêm elas, de novo, com o mesmo lári-lári.
E o alvo é a governadora Ana Júlia, legitimamente eleita, num pleito duríssimo, contra todo o poderio da máquina pública.
Realmente, é preciso reconhecer que dá trabalho fazer oposição...
Inexiste o dinheiro público que permite aprisionar o imaginário popular numa espécie de “ilha da fantasia”, através das fartas verbas da propaganda.
Inexiste a possibilidade de nomear as mulheres e ex-mulheres, os filhos, os primos e até a empregada que serve o cafezinho em casa, para assessorias fantasmas.
Inexiste, enfim, o fisiologismo, o compadrio, o toma-lá-tua-cesta-básica-me-dá-cá-teu-voto, com que tais forças se acostumaram a trabalhar, à custa do nosso dinheiro, do nosso suor.
Daí a necessidade que sentem de retomar o controle da máquina, mesmo que seja através do golpismo.
O problema é a cuíra que sentem pelos salamaleques do Poder e o dinheiro que isso proporciona.
Pouco lhes importa a reprodução de milhares, e até milhões, de menininhas como aquela de Abaetetuba.
Não importa que nossos meninos e meninas não tenham acesso a direitos básicos.
Que sejam violentados, todo santo dia, pelo mundo cão das ruas das nossas cidades.
Pela falta de saúde, de educação, da afetividade de uma família e até pela falta de esperança – o bem maior depois da vida.
Para tais forças essas meninas e meninos, numa “oportunidade” como essa, não passam de bucha de canhão...
Pera lá! É preciso colocar alguma ordem nessa espelunca!...
É certo que o Governo do Estado errou ao não agir tão rapidamente como deveria.
É certo que os companheiros petistas têm uma tendência horripilante a debates intermináveis, que, por vezes, vão do nada a lugar algum.
Mas, tucanamente falando, isso poderá até ser enquadrado como pitoresca tendência à pedagogia...
Jamais como cumplicidade à violação de direitos básicos, humanos e constitucionais.
Em 27 anos de política, já conheci petistas vaidosos e radicais - no mau sentido.
Conheci até petistas com práticas complicadíssimas, para a obtenção de poder, para o partido ou para o grupo que representam.
Conheci petistas com os quais era até difícil entabular um simples bate-papo, quanto mais uma discussão.
Mas, nunca conheci petista que não fosse um rebarbado, visceralmente rebarbado, em relação às injustiças sociais. Especialmente em se tratando de um quadro partidário.
Por isso, tenho certeza – e todos os que militamos na política sabemos que é assim – que se um único petista tivesse conhecimento, de fato, do que se passava em Abaetetuba, com aquela menininha, já estaria armado o barraco.
O sujeito ou a sujeita iria para a porta da delegacia, com as clássicas faixas, camiseta e boné e de lá só sairia quando a menininha fosse libertada.
Afinal, petista que é petista não perde uma manifestação...


II

Li as declarações da “colega” Lúcia Hippólito, que se dispôs a externar, sabe-se lá pelo que, esse “palpite infeliz” acerca do impeachment de Ana Júlia.
Sinceramente, senti-me até pequeninha para tentar rebatê-la.
Afinal, a “colega” desfila uma enormidade de títulos: é jornalista, historiadora, cientista política...
Enquanto que a mim, vejam só, que não possuo sequer um diploma para pendurar na parede ou para carregar debaixo do braço, restou-me, apenas, o poder da razão...
E eu pensei, cá com os meus botões ignorantes e aleijados: como posso, ao menos, pensar em copidescar as declarações de tão “titularesca” criatura?
Pode até parecer coisa de paraense, de papa-chibé.
Mas, quando vejo esses “dotores” e “dotoras” do Sul e Sudeste se enveredarem por essas bandas, me dá um arrepio na espinha.
É engraçado. Nunca vi nenhum desses “dotores” e “dotores” se indignarem com a miséria do nosso povo.
Nunca os vi, ao menos, murmurando: “olha, é preciso acabar com essa desigualdade. É preciso mandar algum dinheiro para aquele povinho do nariz furado, para que possam, ao menos, discutir conosco”.
Nunca os vi clamando para que nos devolvessem, em impostos, as matérias-primas que o Sul e Sudeste levam daqui: a madeira, o minério, as pedras preciosas e semi-preciosas.
Ou, ao menos, para que se tivesse um mínimo de respeito em relação a essa mão de obra que vai daqui, os “cabeças-chatas”, para “servir” nas mansões do baronato.
Nunca vi esses “dotores” e “dotoras”, em geral ricos, bacanas, a clamar por uma universidade forte, nesta região (Por que será?).
Nunca os vi a clamar contra a malária, a hanseníase e outras doenças medievais que dizimam o nosso povo.
Contra a fome e a falta de saneamento básico, e até de água potável (que, Deus do céu!) são regras aqui.
Somos, em geral, para esses “dotores” e “dotoras”, as cobaias das teses que adoram desenvolver, para se amostrarem aos seus colegas “diplomáticos”...
E as cobaias que só têm vez quando se ultrapassa, a esses “dotores” e “dotoras”, o que eles consideram de “limite do patamar civilizatório”.
Quando os costumes da “indiaiada braba”, dos “aborígenes”, ultrapassam os limites do refinadíssimo bom-gosto que aprenderam a cultivar...
Mas, para nós, que vivemos entalados entre o terceiro milênio, que nos chama, e o escravismo que nos imobiliza, que é civilização? Qual o limite “aceitável” do que se chama barbárie?
Não, que não venham esses dotores e dotoras com as suas universidades de ponta, erguidas
sobre a espoliação amazônica.
Que não nos venham com as suas hipócritas lições de moral; a moralidade que só possuem quando tomam aquele bordozinho básico, com o dinheiro que subtraíram de nós...
Aqui, dotora Lúcia Hippólito (tem que ser com dois “p”, né mermo?, para não ofender a tal...), infelizmente, nos debatemos com a incivilização – categoria que é preciso buscar no anedotário dessa coisa que a senhora, no seu sofá bacana, branco e limpo, vive, certamente, aí...
A mesmíssima incivilização dos bairros da periferia de São Paulo, que, pelo visto, Vossa Excelência nunca visitou e pela qual, nenhuma raquítica vez, pediu o inpeachment do Maluf ou do Alckmin.
Custa-me a crer, sinceramente, que uma “dotora” se preste a isso.
A portar-se como uma baranga de discussões provincianas.
Afinal, “dotora”, Vossa Excelência “intui”, né mermo?, que é um absurdo trancafiar uma menina, ou uma mulher, ou uma anciã numa cela com um punhado de homens.
E os seus pares, com certeza, “intuem” o mesmíssimo.
Mas, se vossa excelência ou os seus pares conhecessem, minimamente, o Brasil, saberiam que, aqui, ainda estamos suando a camisa para convencer a sociedade de que isso é um absurdo.
Afinal, não apenas “intuímos”: sabemos, pela realidade, pela prática, muito além de qualquer teoria, que isso é um absurdo, né mermo?
Deixe-nos em paz, dotora Lúcia, vá conversar com o FHC. Vá se atucanar em São Paulo, onde existem tantas lutas bacanas, sem tantas tragédias a se viver.
Onde os pobres, creio, não têm de beber água da chuva para não morrer de sede, como acontece aqui.
A senhora e os seus pares não têm idéia, entre essas suas teses bacanas de doutorado, o que é viver e tentar melhorar uma sociedade assim.
Dê seu contributo a tudo que é veículo internacional, mas nos esqueça. Ou, tenha coragem, dignidade de vir viver aqui.
Depois de uns meses longe da metrópole e a viver na colônia das colônias, tenho certeza de que o seu pensar, a par de todos os títulos, será infinitamente diferente...


III

A senhora tem idéia, dotora Lúcia, do que encontramos aqui, quando assumimos o Governo do Estado?
Vou lhe dar uma idéia.
Segundo o IBGE, a população paraense, por força dos fluxos migratórios, cresce o dobro, anualmente, da população brasileira.
Pois, muito bem.
Entre 1995 e 2006, nos doze anos de governos do PSDB no Pará, não tivemos sequer um concurso sequer para a Polícia Militar.
E isso, como o seu animus dotorístico deve fazer intuir, quer dizer que a nossa razão, a nossa média, entre policial militar e grupo de cidadãos a proteger tornou-se infinitamente menor que a média brasileira e até que o internacionalmente recomendável.
Não, dotora, não estou a tenta-la sensibilizar. Mas, simplesmente, a lhe mostrar o que o seus colegas tucanos fizeram no Pará.
Eles, simplesmente, delegaram à iniciativa privada, um poder que é indelegável no Estado democrático: a segurança pública.

E parei aqui, caros leitores, na resposta a dotora que nos assombrou. Pois, que tudo que é doto nos assombra, né mermo?
Não posso retomar neste momento: a dotora bebe vinho bacana e eu bebo, quando dá, o tal do Galioto.
A tal da dotora é comedida, respeitável, enquanto que eu nem tenho medida, nem sou respeitável, muito pelo contrário.
A tal da senhora pensa que sabe. Mas eu vivi todas as teses de mestrado, de doutorado, que ela, um dia, pensou em escrever.
Enquanto ela se quedava na doçura da USP, eu, humanamente, estava aqui no chão. A vivenciar o dia a dia do nosso povo.
Vou continuar a beber. Não quero mais me importar com dotores de merda, que só conhecem este inferno por ouvir dizer.
Seja feliz, dotora Lúcia, com o seu minutinho parco de fama.
Nós aqui continuaremos a tentar fazer deste inferno um lugar que dê, ao menos, para sobreviver.
FUUUUIIIIII!

domingo, 2 de dezembro de 2007

secho!

Sexo (oba!)


O grande mistério do sexo talvez seja o fato de o sexo ser cercado de tanto mistério.

Por que, afinal, uma coisa básica, uma necessidade tão natural, acabou cercada de tamanha ritualização?

É certo que há toda uma explicação histórica para isso.

O nascimento da propriedade privada e blá-blá-blá. A religião e blá-blá-blá. E até a biologia, com a união interpares, tem o seu blá-blá-blá a oferecer.

Mas, ainda assim, permanece a incógnita inicial: o que leva um animal pensante, senhor de si, como o ser humano, a vincular o prazer a qualquer espécie de convenção, interesse ou ritualização?

Há anos, tenho cá comigo que isso talvez tenha a ver com uma necessidade de superação da própria animalidade.

De repente, o ser humano, ciente de si e do mundo, viu-se e viu os demais parceiros deste mundo: mais proximamente, os demais primatas.

Havia descido das árvores, mas, estranhamente, ainda assim pensou: ora bolas, o que é que me faz diferente deles?

Havia descido das árvores, mas, ainda assim, transformou toda espécie de prazer em tabu, para desvincular-se do que lhe parecia, simplesmente, animal.

Para o Humano, a fuga da animalidade transformou-se em necessidade existencial.

Por isso, quanto mais transcendente se torna a espécie, mais desprazerosa tem de se tornar a vida.

Não, que não se confunda prazer com exibicionismo, vaidade, poder ou qualquer coisa assim.

Prazer é muito mais que isso.

É uma sensação que preenche e que fica, que marca a memória em forma de lembrança recorrente, a nos acompanhar por toda a vida.

É a lembrança de uma comida ou de uma trepada que se provou e que não encontramos similar.

Alguma coisa específica, com um “perfume” específico.

Como quando caminhamos descalços na terra e captamos essa sensação.

Como um banho de chuva, com o cheiro, o gosto e o frescor da chuva a escorrer pelo corpo.

Prazer é aquele momento em que nos desprendemos do entorno e nos damos a nós mesmos e, eventualmente, ao outro que está conosco.

É uma viagem particular, subjetiva. Na maioria das vezes vivida a dois, num gesto, num olhar.

Mas, é alguma coisa pra lá de íntima, que nada tem a ver com o que os outros vão pensar de nós.

Até porque, em tal momento, inexiste essa preocupação com o mundo, que deixa, simplesmente, de existir.

Mas, sinceramente, já não sinto qualquer prazer em continuar me debatendo com vocês.

Prefiro tomar as minhas em paz. FUUUIIIIIII!

Circe

Circe


Às vezes é preciso refazer caminhos. Confrontar-se consigo. Ir buscar a própria alma.. Nas nuvens, na terra, nos abissais.

É preciso possuir-se, num caso de amor profundo. Como quem decobre que é a origem de tudo o que é.

Abrir as cortinas, bater os tapetes e pendurá-los ao sol.

Mover-se. Reencontrar aquilo que importa; o sonho que nos conduz.

Mergulhar...Uma vez, duas, três...Recobrar o fôlego e, novamente, mergulhar e mergulhar e mergulhar.

Descobrir que a vida é feita de Circes, que nos seduzem a cada porta.

E ver além da neblina.

Ver-se num gigante, parir-se num gigante, a espiar além dos desertos e das colinas verdejantes, o porto que deixamos para trás.

E seguir em frente, com novos barcos e novas velas, com outros marujos, em um novo mar...

Mover-se e mover-se sempre.

Sempre que a Circe se torne previsível...



Nasce Selvagem

Mais do que a um país
que a uma família ou geração
Mais do que a uma passado
Que a uma história ou tradição

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
A uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
que a uma equipa ou religião

Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
De ninguém

(Delfins)

domingo, 25 de novembro de 2007

Noel


Com Que Roupa?


Agora vou mudar minha conduta
Eu vou pra luta,
Pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar,
Pois esta vida não está sopa,
E eu pergunto: com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Agora eu não ando mais fagueiro
Pois o dinheiro
Não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar,
Eu já corri de vento em popa
Mas agora com que roupa?

Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou

Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo
Desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo,
Eu vou acabar ficando nu,
Meu paletó virou estopa
E eu nem sei mais com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Seu português agora foi-se embora
Já deu o fora
E levou seu capital
Esqueceu quem tanto amava outrora
Foi no Adamastor pra Portugal
Pra se casar com uma cachopa!
E agora, com que roupa?

Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou
Com que roupa eu vou?
Pro samba que você me convidou.

(Noel Rosa)

sábado, 24 de novembro de 2007

menina1


Um caso escabroso



A história dessa adolescente que ficou presa durante dias entre duas dezenas de homens é um caso escabroso; não há por onde se lhe pegar.


Confesso que se trata de uma situação tão brutal e tão constrangedora que deixa a gente até sem palavras.


É uma história tão selvagem, tão absurda, que parece impossível de acontecer no Ocidente, em pleno século XXI.


Não fosse adolescente, fosse anciã; não fosse uma garota, fosse uma prostituta; não fossem vinte homens, mas apenas um ou dois - ainda assim não haveria justificativa ou atenuante possível para o que aconteceu.


Eu, pelo menos, não consigo encontrar.


Ainda agora me custa crer que isso não tenha decorrido de maldade, de vingança, de alguma questão pessoal, mas, de incompetência pura e simples.


E de uma mentalidade do tempo das cavernas, que (Deus do Céu!) parece predominar em nossas polícias e em nosso Judiciário - e até, pelo visto, em muitos insuspeitos doutores.


A mentalidade que vê direitos humanos como “privilégios” de alguns.


Não há o que fazer, não há justificativa a apresentar; perdão que se peça à sociedade e a essa garotinha, que possa, de alguma forma, diminuir o horror que viveu e que, provavelmente, jamais esquecerá.


Um horror que, certamente, marcou, a ferro e fogo, o mais profundo da alma...


Mas, mesmo assim, é preciso ter a grandeza de pedir perdão, porque isso é o mínimo que espera sociedade.


Era preciso que o Governo do Estado tivesse tido essa grandeza, desde o começo. E não apenas o Executivo, mas, o Ministério Público e o Judiciário, também.


Desde o primeiro momento, era preciso que os companheiros tivessem olhado nos olhos da sociedade e expressado a dor e a revolta que sentiam, por não terem conseguido evitar que uma coisa assim acontecesse a um ser humano, e o que pior, a uma garotinha.


Era preciso que deixassem claro, desde o primeiro momento, que não compactuam com algo assim; e que jamais deixarão barato algo assim; que irão às últimas conseqüências, para apurar e punir. E, sobretudo, para evitar que algo assim possa se repetir.


Essa coalizão que hoje comanda o Governo do Pará é feita de pessoas que têm uma história de vida, em defesa dos direitos humanos e constitucionais.


Tanto no PT, quanto no PMDB, quanto no PSB são milhares os companheiros que, mesmo diante de ameaças à própria integridade física, jamais recuaram na defesa de pessoas presas, torturadas e violentadas.


Temos, todos, uma história de luta que se agiganta, diante de alguns daqueles que, oportunisticamente, hoje se aproveitam desse episódio, apenas, para acusar – mas que são os mesmos que defendem, muitas vezes, a diminuição da maioridade penal.


Os mesmos que serviram, ciosamente, a uma ditadura, que prendia, matava, arrebentava.


Os mesmos que ficaram caladinhos diante do massacre de Eldorado dos Carajás e de tantos outros massacres ocorridos em nosso estado, ao longo dos últimos doze anos.


Mesmo assim é preciso admitir os erros trágicos, desse episódio.

E o maior deles foi não termos tido a capacidade de sofrer, de nos comovermos, desde o começo, junto com a sociedade.


Porque os companheiros que estão no governo preferiram agir, em primeiro lugar, como governo, preocupando-se, em primeiro lugar, com o aproveitamento do caso pela oposição, ao invés de agirem como sempre agiram: como cidadãos.


Sinceramente, fiquei perplexa ao constatar a insensibilidade de alguns, ao tomarem conhecimento do caso.


Por um erro brutal – para dizer o de menos – tratou-se, primeiro, de tentar transformar a vítima em algoz.


Ficou-se dizendo que a menina não era menor; era maior; que não era “moça direita”. Em suma, que pertencia a uma categoria criminosa incriada, no Estado democrático de direitos, porque passível de ser, simplesmente, atirada aos leões...


Não sei o que se passou nas mentes “brilhantes” que pensaram algo tão absurdo.


Talvez que essas pessoas não tenham nem mães, nem filhas, nem irmãs, nem, ao menos, conhecidas do sexo feminino.


Ou, se forem mulheres, talvez que ao invés de se orgulharem, tenham é vergonha do sexo que carregam entre as pernas.


Só sei é que tal estratégia, se assim pode ser chamada, gerou uma catatonia cujo resultado é essa bola de neve que aí está.


E que tenta nos transformar em vilões de um Estado que recebemos desmantelado, porque pacientemente desmantelado, em doze anos de tucanato.


Creio que mesmo se vivesse mil anos jamais poderia compreender como é que um ser humano, especialmente dessa categoria tão ciosa da própria inteligência – os doutores – pode raciocinar de forma tão abestalhada.


Como é possível que alguém possa ao menos imaginar a possibilidade de justificar a prisão de uma menina ou de uma mulher, entre dezenas de homem, por ela ser puta, “safada”, ou o que quer que valha?


Mas será que não houve um único cérebro, uma única alma neste governo que não visse logo que isso é um atentado tremendo a direitos humanos fundamentais?


Minha xará deveria ter sido firme, no discurso e na ação, desde o primeiro momento.


Se as informações eram parcas e desencontradas, deveria ter mandado imediatamente a Abaetetuba, que fica logo ali, pessoas de sua confiança – as secretárias de Segurança e de Justiça e Direitos Humanos, por exemplo.


E afastado de bate pronto todos os possíveis envolvidos, até o resultado da apuração.


Num momento como esse, se os companheiros me permitem, não dá, simplesmente, para ficar punhetando.

É preciso fazer desde logo o básico. E, se for o caso, errar – mas, pelo que se fez a mais, e não, simplesmente, pelo que se deixou de fazer.


E agora me dêem licença que vou sair com a minha garotinha, a filhinha que é a coisa mais preciosa que Deus me deu.


Quero “lamber a cria”, abraçá-la muito, dizer-lhe do meu amor, como faço todos os dias.


E erguer as mãos para os céus por não ter sido ela...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Julgamento 2


A Vergonha da Década




I



O julgamento do caso Novelino, que ontem terminou, é uma dolorosa vergonha para a sociedade paraense.

Primeiro porque, depois de todos os recursos materiais e humanos que mobilizou, revelou-se inócuo: os quatro principais réus, cujas penas individuais são de 80 anos, terão direito a um novo julgamento, que acontecerá, possivelmente, no ano que vem.

Segundo porque o tribunal do júri, no dia de hoje (20/11/2007), assemelhou-se bem mais a um circo do que aquilo que nós, sociedade, imaginamos de um tribunal.

Na condição de cidadã estou convicta de que tenho direito de cobrar do juiz Raimundo Moisés Flexa e do Tribunal de Justiça do Estado uma explicação plausível para o que aconteceu.

Afinal, os meritíssimos não passam de meros cidadãos iguais a mim, com, apenas, um diferencial de função: são pagos para administrar a Justiça. E só.

Mas, será que foi feita Justiça? Será que, hoje, um pouco mais do que ontem, sabemos o que de fato se passou na Service Brasil, no fatídico 25 de abril deste ano? Será que sabemos, de fato, o que se oculta por trás desses crimes?

Não creio. E não creio, justamente, porque o ilustre magistrado permitiu que se transformasse o “seu” tribunal – como ele tantas vezes enfatizou; como se fosse do próprio bolso dele que saíssem os recursos para custear toda aquela estrutura... – numa escabrosa mistura de dramalhão mexicano com auto de fé.

Não estou aqui para defender Chico Ferreira, Luiz Araújo, Sebastião Cardias e José Augusto Marroquim dos crimes de que são acusados.

A meu ver, todos, em maior ou menor grau, contribuíram para a perversidade que cercou esses assassinatos.

Mas, daí a não lhes permitir chance de defesa, vai enorme distância.

Se não deram, de fato, chance de defesa às vítimas, nós, sociedade, com muito mais razão, deveríamos lhes conceder isso.

Até para mostrar que nos encontramos num patamar civilizatório superior. E que, de fato, temos todo o direito de lhes impor essa cobrança sócio-judicial.

Por diversas vezes o ilustre meritíssimo, Raimundo Moisés Flexa, enfatizou que não permitiria que a família Novelino fosse posta em julgamento.

Corretíssimo, talvez, do ponto de vista humano. Questionável, no entanto, do ponto de vista do pleno direito de defesa, uma vez que as práticas dos Novelino eram um ponto essencial da defesa dos réus, como possível motivação dos assassinatos.

Afinal, havia, até, em declarações de réus, referência a seqüestro do familiar de um deles, para quitação de uma dívida de agiotagem – que, até onde eu sei, é uma ilegalidade.

Mas, tudo bem. Façamos de conta que, apesar de questionável, a decisão do ilustre meritíssimo foi correta.

O problema é que o Dr. Raimundo Flexa, se não permitiu que a conduta das vítimas fosse minimamente questionada no “seu” tribunal, também não deveria ter permitido que fossem santificadas. Mas, foi isso, exatamente, o que aconteceu.

Em um filme, de um ou dois minutos, de repente e não mais que de repente, surgiram as vítimas, Ubiraci e Uraquitan, falando do amor que devotavam ao pai, segundo eles, um “espelho”, um “exemplo” de vida.

Seguiram-se, então, imagens chocantes dos crimes – uma bela edição. E, como se poderia esperar, a emoção explodiu na platéia: ouviram-se soluços altos dos familiares e viram-se lágrimas até em quem não deveria lacrimar...

Não questiono o trabalho dos assistentes de acusação, Roberto Lauria e Antonio Neto, pois, que realizaram magistralmente o que deles se esperava.

Agiram como os brilhantes advogados que são. E, talvez, até um pouco mais: como escolares inteligentíssimos, topo de linha, aos quais fosse permitida uma interessantíssima experiência, em que fôssemos as cobaias, acerca do predomínio da emoção sobre a razão, na espécie humana...

Quem eu questiono é o “professor”, o juiz, que permitiu o desenrolar de tal “experimento” numa coisa tão séria como um processo penal.

E vejam que não posso conceder ao ilustre magistrado Raimundo Moisés Flexa sequer o benefício da dúvida, porque isso seria demasiado ofensivo – a ele e a nós, sociedade.

Afinal, qualquer marqueteiro “rasca” e qualquer rábula sabem que as emoções são “trabalhadas” pelo sistema límbico, a área mais primitiva do cérebro humano. E que, contra o predomínio da emoção, não há razão possível.

O exemplo clássico é o predomínio da emoção hitlerista sobre a Nação alemã. E as exceções que ali restaram não passam disto: exceções.

Além do que, todo e qualquer rábula também conhece, de cor e salteado, uma coisa chamada “falácia” e, dentre aquelas existentes nessa larga família de “pensamentos truncados”, uma falácia poderosíssima chamada de “apelo à piedade”.

Ao permitir a exibição daquele filme o ilustre magistrado – inconsciente ou conscientemente – permitiu – e, portanto, se acumpliciou – um processo de “satanização” dos réus. Como que pré-julgou – se assim me permite dizer o ilustre – e ainda permitiu pré-julgar...

Na minha humilde opinião de cidadã negou aí, aos réus, toda e qualquer chance de defesa, ou seja, o devido processo legal.

Pois, que permitiu, através de um silêncio acachapante, que, nos senhores jurados, com razoável grau de certeza, tendo em vista todos os experimentos psicológicos nesse sentido, a emoção passasse a imperar.

E que passassem os senhores jurados, portanto, a estarem movidos, apenas, pela empatia que os sobrepujava.

Sem condições, portanto, a partir desse momento, de “ver”, realmente, as provas técnicas e os depoimentos existentes naquele processo, que deveriam embasar, de fato, a importante decisão social que tomariam.

Ora, daquele filme surgiram as vítimas como verdadeiros titãs de alguns dos papéis mais caros à sociedade.

Eram pais e filhos amantíssimos – e, “por conexão” - maridos, amigos, amorosos; enfim, cidadãos exemplares; “pacatíssimos” seres humanos...

Surgiram, enfim, gigantescos, em relação à pequenez da “bandidagem”...

Afinal, como sabe todo e qualquer rábula – e daí não acreditar que um douto magistrado não o saiba – a mente humana funciona, justamente, nesse tatibitati maniqueísta, que, por geral e persistente, talvez tenha até alguma função biológica...

Ora, esse filme tornou extremamente sensível e solidária às vítimas, num grau muito maior que o recomendável, a totalidade do tribunal.

E a impressão que ficava a quem tentava “racionalizar” tudo isso era a de estar diante de uma turba que, ao mínimo sinal, se mostraria disposta a “justiçar” os acusados.

Ora, júri e juiz não são pagos para ser, simplesmente, solidários às vítimas. A solidariedade social já está expressa na própria estrutura judiciária, com suas leis e tribunais.

Júri e juiz não são pagos para chorar, se descabelar, tomar partido, consuetudinariamente falando.

A eles compete seguir o rigor da lei, ao cobrar a dívida social de um cidadão e pagar, a outro cidadão, o que lhe deve a sociedade.

E isso implica, necessariamente, o predomínio da razão. A capacidade de ver, de fato, se, num dado processo, numa dada denúncia, se apresentam todas as condições exigidas pela lei, por essa criação societária, para a absolvição ou condenação.

Óbvio que tal se torna impossível, quando se permite que o tribunal se transforme em mera reunião de acionistas da Kleenex. Ou, o que é pior, em catarse de torquemadas.

Vence a vaidade, a imagem histórica do magistrado que atuou no processo, com as atas que raramente revelam todos os meandros processuais.

Perde, fragorosamente, a civilização e a sociedade que sustenta o douto juiz.


II


O julgamento do Caso Novelino é um tapa na cara da sociedade paraense, também, por toda a riqueza que o cercou.

Se me permitem os doutos magistrados do TJE e até os doutos promotores – alguns dos quais tenho como amigos, pessoas de quem realmente gosto – tal processo é até uma afronta ao princípio da isonomia.

No ano passado, se bem me recordo, no início do ano passado, duas garotinhas foram assassinadas, barbaramente, em Ananindeua.

Elas não tinham 1,90 metros de altura, nem considerável largura.

Ou um histórico de ataque e defesa a deixar muita gente de cabelo em pé.

Eram criancinhas, tão somente criancinhas... Duplamente protegidas pelo Estado, dado o Estatuto da Criança e Adolescência (ECA).

E, no entanto, o que foi feito do processo que apura os assassinatos dessas crianças?

Que é feito dos processos que apuram as mortes de tantos e tantos cidadãos anônimos, pobres, pretos, semi-analfabetos, mas, igualmente cidadãos?

Lembro de ter ficado a olhar os “manifestantes” do Caso Novelino.

Sim, senhor, isso é que eram manifestantes!...

Muitos deles louros, de pele clara, robustos, bem vestidos, com pulseiras de meio quilo nos braços.

Armaram tendas assépticas, na praça em frente ao tribunal; dentro, tinham pizza e refrigerante, para matar a sede a fome.

Tinham até ônibus para levar os mais pobres, que alguns até chamariam de massa de manobra...

E eu pensei: quem dera que, um dia, todos os manifestantes sejam assim...

Talvez que a justiça ande tão rápida, tão “flash” quanto andou nesse processo.

Talvez que tantos cidadãos, que hoje amargam a dor da espera dessa Justiça parida de um cágado, dessa Justiça-Jabuti, dessa Justiça tão brasileira, tão desigual, possam, quem sabe, antes de morrer, receber o pagamento daquilo que lhes devemos...

Todos os dias, centenas, milhares de cidadãos morrem na periferia das grandes cidades.

A muitos, se reza a missa de sétimo dia, sem que se tenha encontrado o corpo.

A muitos se sepulta na memória, sem que os culpados por esses crimes sejam chamados a responder pela dor que causaram.

É engraçado. No julgamento do Caso Novelino ouvi alguém a tentar justificar a celeridade desse processo pelo “trauma” que esses assassinatos causaram à sociedade.

Que, como naquele caso dos Riechfstal, ou sei lá como se escreve, mas, daquela moça que assassinou os pais, apesar de “bem nascida”, tivesse o condão de provocar altas incursões filosóficas na burguesíssima classe média.

Foi assim: um advogado contou que, depois dos assassinatos dos pais, por aquela moça, bacana, loura e rica, um cliente passou até a fechar a porta do quarto em que dormia, desconfiado que ficou.
Ora, tal sobressalto, em relação a todos, é comum na periferia – ou o desconhece o douto advogado?

Na periferia das nossas urbes até o botequim tem grades...

Há muito, inexistem amigos, familiares; há muito que a nossa gente sobrevive porque Deus – e não o Estado – permite sobreviver.

A classe média é um bicho, de fato, curioso.

Pega um caso que lhe diz respeito e faz dele a invenção da roda, o despertar do mundo.

E logo a classe média, que, apesar de toda a informação e do poder que detém como que “abona” esse estado de coisas...

E eu fico pensando na dor dos pais, dos familiares, dos amigos daquelas menininhas, estupradas e mortas num terreno baldio, em Ananindeua...

Vocês não gostam tanto de emoção? Pois, elas não foram nem algemadas, nem amordaçadas, porque, simplesmente, não precisava: elas nem por sombra representavam uma ameaça. Por natureza, eram inermes.

Mas, até hoje, não sei que fim levou o processo delas.

Ou daquele pai que chorou sobre o corpo de um filho jovem, morto na Cremação.

Ou de qualquer outro pobre sem identidade – sim, porque nesta sociedade em que vivemos, ser pobre significa, também, ser sem identidade.

São milhares, milhões de rostos negros e morenos, caboclos, que, muitas vezes, nem podem entrar no Palácio da Justiça.

Hoje, aliás, até eu quase que fui barrada, por um oficial PM que, incrivelmente, não conhecia.

Mas, eu sei me defender. Tive o “privilégio” à Educação, num país em que pouquíssimos têm esse “privilégio”...

Mas, infelizmente, neste país escravocrata, nem a dona Maria, nem o seu José sabem se defender...


III


Por último – por hoje, é claro - causou-me espécie o “carão” público do meritíssimo Raimundo Moisés Flexa ao advogado Djalma Farias.

Tudo porque Djalma disse, em entrevista ao Diário, que esse processo, justamente, era uma casa da mãe Joana, um saco de gatos – e eu assino embaixo das declarações dele, Dr. Flexa.

Estranhei a maneira incisiva como o douto Raimundo Moisés Flexa se dirigiu ao Dr. Djalma, de longe o melhor advogado daquele tribunal.

Apesar do vocabulário ultrapassado, datado, frente a um jovem e turbinado Lauria; como um Francisco Alves frente a um Roberto Carlos, Djalma, mesmo assim, conseguiu ser instigante, ao revelar a fragilidade até da perícia técnica, ao localizar na base da coluna um osso, que na realidade, se situa no pescoço; ao não encontrar nos cadáveres marcas clássicas de asfixia – e mesmo assim determinar que as mortes dos Novelino se deram por asfixia.

Volto a isso amanhã, se der, porque já bebi um pouco a mais, estou cansada e preciso dormir.

Mas, a mim pareceu “inconsistente” o comportamento do douto magistrado.

Afinal, abraçou e conversou, docemente, com os pais das vítimas – como se fosse pago para isso, por nós; como se fosse justo um juiz se dar assim com quem, por tantas “insinuações” deveria era investigar – ao passo que, a um homem de mais de 70 anos, com mais de 30 anos de advocacia, como Djalma, preferiu passar um carão.

Não nutro qualquer simpatia por Djalma Farias – muito pelo contrário; nos confrontamos, se ele não se lembra, eu me lembro, no processo dos padres franceses.

Ele havia sido contratado, como dizíamos, pela ditadura, para jogar os posseiros contra os padres; eu, era do PRC e o criticava até não mais poder.

Mas, hoje, causou-me revolta a covardia – sim, meritíssimo – a covardia de ofendê-lo no “seu” tribunal sem chances de defesa.

Se eu fosse da OAB, o senhor, certamente, meritíssimo, estaria perdido.

Porque eu iria aos confins do inferno para lhe obrigar, excelência, a respeitar um princípio básico do Direito, que é o direito de defesa, que todo rábula conhece, aliás.

Vossa Excelência, se é permitido a um mero cidadão dizer tal, vossa excelência abusou do poder que lhe foi socialmente concedido.

O Tribunal não é seu, excelência – é da sociedade.

E nele inexiste hierarquia entre Vossa Excelência e as Vossas Excelências que são o Ministério Público e os advogados de defesa.

Todos são partes legítimas e necessárias do processo legal.

Se Vossa Excelência não gostou das declarações do Dr. Djalma Farias à imprensa, deveria tê-lo contestado na imprensa.

E não esperado, covardemente, data vênia, estar placidamente sentado na cadeira de juiz do “seu” tribunal, para fazê-lo.

Sinceramente, como cidadã, senti vergonha pelo senhor.

Afinal, não trombeteio o respeito aos costumes sociais, como o senhor trombeteia.

Não me faço os elogios que o senhor se faz.

Mas, aprendi, desde pequena, a respeitar os mais velhos. A ter pelos mais velhos uma deferência imensa, por tudo o que podem nos ensinar.

Ao Dr. Djalma – e a mulher a à filha dele que estavam naquele tribunal, no “seu” tribunal – deixo, aqui, a minha solidariedade.

Quem dera que o senhor tivesse tido em relação a ele metade da deferência que teve, sabe-se lá por que, em relação aos Novelino...