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segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Cidade Oculta

Ah, saudade dos becos!




Shirley Sombra


Onde anda Shirley Sombra?

Em Naishpur ou Babilônia
Alguma taça, ou amarga ou doce
Verte o vinho da vida, gota a gota
Vão-se as folhas da vida, uma a uma
Ah! Vem, vivamos mais que a vida, vem
Antes que em pó nos deponham também
E sob o pó pousados, pó seremos
Sem cor, sem sol, sem sonho - sem.

(Arrigo Barnabé - recriação de Augusto de Campos da versão inglesa de Edward Fitzgerald do Rubayat de Omar Khayam)



Balada do Ratão


Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita
Indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante

(Arrigo Barnabé, sobre fragmento inicial do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa)



Ronda 2


Na noite alta os ratos rondam
E no asfalto os carros roncam

Bares e clubes luzem, sinais
Gangues de punks lúmpens demais
E prostitutas passam ao léu
E viaturas surgem no breu

Quando nas casas os justos dormem
Quando não matam os brutos morrem

Os seus olhos filtram letras
Luminosos, faroletes e holofotes
Nos seus olhos se reflete
Todo o lume do negrume dessa noite

Cena de bangue-bangue, faróis
Tiras, bandidos, anti-heróis
Tiros e gritos, cante mortal
Cena de sangue, lance normal

E pelas ruas, peruas rugem
Se abrem alas e as balas zunem

De repente você treme
E a sirene passa entre automóveis
Em suspense você pensa
O que pode com o ódio desses homens?

(Arrigo Barnabé e Carlos Rennó)



Cidade Oculta


Na cidade só chovia
Noite imensa, só havia
Luminosos, agonia
E a vida escorria pela escuridão

Nossas ruas eram frias
Como os homens desses dias
Engrenagens tão sombrias
Esquecidas pelos deuses
A pulsar em vão

Misteriosamente uma andróide
Gritou docemente
Me mostrou a vida
Me encheu de cores
Desenhando um holograma em meu coração
Com seus olhos foi pintando um dia
Reinventando a alegria, brancas nuvens de verão
E a poesia de repente volta a ter razão

(Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin e Roberto Riberti)

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