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domingo, 3 de setembro de 2006

Promessa de Casamento


Eu serei aquela que se enrosca em tuas pernas
E te acorda na madrugada
A mão suave no peito nu

Não serei teu corpo,
Mas a terra que o recebe.
Eu serei os beijos que te enxugam o dorso
Nos dias e noites de febre.

Eu serei os galhos em que brincas
Os frutos que lanças na terra
As sementes que te eternizam

Eu serei a esperança e o pesadelo
E o desejo irrespondível e imenso
Que pé ante pé adentra o peito.

(Belém, 1986)



Canção do Amor Partido

Pois é, eu parti de nós.
Fiz-me livre e forte a correr o horizonte,
Pensando teu mundo exausto,
A remoer sem cessar o ontem.
Mas quando tornei ao meu passado,
Tu não estavas lá.
Havias partido n’aurora
A cavalgar teu próprio mundo.
E fiquei, eu, assim, na noite,
A recortar a poesia,
Enquanto, lá fora,
A cidade reluz e canta.

Eu parti de nós.
Tramei cada passo, cada gesto, cada olhar.
Vi-me senhora de tuas entranhas,
Combustão repentina!
Tu, que num pulsar, explodes a Geometria,
Eu, que nunca rio, pra não acordar a noite.

Tu, que tens no nome a paixão e a saudade.
Eu, a possuir-te etéreo, canção da irrealidade.

Chove. E eu que rejeito esse arquivo amargo
Sofro com sofreguidão renovada.
Rediviva vontade de estilhaçar-me ao infinito
Fragmentando em mim teu fantasma.
Tu, seminova que semeias vida.
Eu, guerreira cansada.
Voltei pra desejar tornar a terras e braços distantes
Mas que iludem esse canto, inútil e desventurado.
Voltei só pra mostrar-te essa canção tão triste
No silêncio inerte dessa hora última
Tu, nome rebelde em meus lábios.

(Belém, 1986)



Poema inacabado

Deixemos como está.
Sejamos, um do outro,
O outro lado do mar!
Não ajuntemos o que partiu.
O que se foi por acaso
O barco no horizonte,
Que não nos leva ninguém.
O tempo esquecerá!
E mesmo o que julgamos... indizível
Será a poeira que se refaz em estrada.
A história que a sorrir se reparte
Porque não dói de fato e enfim
Assim como está, está bem.
Ao menos, já não te penso.
E posso pensar o mundo.
Retornar aos mares de onde vim
A perder-me no azul profundo
Sempre tão longe e inacessível.
Mas acima e ao redor de mim!...

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