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sexta-feira, 8 de setembro de 2006

O Mar

Nunca entendeu por que amava tanto o mar. As ondas, o cheiro, o murmúrio... O mistério primordial. A força de empurrar-se adiante e espalhar-se infinitamente. As profundezas que nem a luz conseguia penetrar.

Não, nunca tivera medo ao mar. E até sentira como se pudesse, apenas, deitar-se, a deixar-se levar. Como se fora parte daquelas ondas, em eterno desassossego. Daquele coração – um imenso e selvagem coração. Que se abrisse não para a morrer, mas para ninar...

Costumava enxergar o mar mesmo nos desertos. A palpitar em pedra e em pó. Represado nas folhas que se entregavam à terra. Eternamente reproduzido. A erguer-se à procura dos céus...

Por vezes, se perdera a olhá-lo, para compreender-se nesse mistério. Das águas que mergulhavam urgentes e partiam mais depressa ainda. Que lhe arrastavam a terra, a casa, as árvores. Mas que semeavam tudo isso em algum lugar.

E imaginava que já fora esse mar. Em outra Terra, em outra vida, até. A embalar em cada barco todos os sonhos do mundo.

Quem sabe, até, se perdera naquelas águas. E amara tanto as tempestades que se tornara nelas. A onda revolta diante do raio, que lhe revela a escuridão...

E, no entanto, olhava, olhava, mas já não via o mar. Como que sorvido pelas próprias entranhas.

E mesmo os olhos lhe ficaram desertos.

Feito um pedaço daquela paisagem, que à coisa alguma permitia frutificar.

Quisera ir-se ao encontro dele. Nem que tivesse de atravessar o sol, o frio, a fome, a dor.

Mas, a encontrá-lo, o que encontraria, afinal? Seria o mesmo mar? E o mar que pensara mar seria, de fato, o mar? E se nunca houvera, enfim?

Quem sabe não passara de um desejo? A flor dessa angústia que lhe velava o peito. Um grito... Que não soubesse de onde vem nem para quê.

Talvez fora o medo. O medo de se perceber, ali, entre as pedras, à espera de um oceano que jamais viria.

Quem sabe quisera, apenas, sentir-se mais que um fantasma a vagar entre fantasmas. A purgar os pecados havidos, sabe-se lá onde.

O mar lhe trouxera vida. Mas e se toda essa vida estivera dentro dela, enfim? Quieta, escondida, nos abissais da alma?

Que lhe trouxera, então, o mar, além da própria partida? E da dor dessa ausência do que foi sem ter sido?

Para além dos desertos que floresciam e da vida a pulsar no pó, que lhe ficara dessas ondas que a embalaram, feito a menina que se aperta ao peito?

Mas lembrou-se do tempo, o grande senhor do mundo!... E de todo o infinito que correra, sempre mais longe, sempre mais longe, sempre mais longe...

E das flores que se deitavam na terra, para vivê-la.

E de todos os mares que passaram por seu corpo, feito as águas dos afluentes.

E da criança que lhe batia à porta, a cada manhã.

E nem o mar, nem o que partiu, nem o que deixou, mereceu uma lágrima.

E pôs-se a dormir, a pensar que era Deus.


Belém, 07/09/2006

Um comentário:

Anônimo disse...

VOCÊ PAGOU COM TRAIÇÃO A QUEM SEMPRE LHE DEU A MÃO...