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domingo, 4 de junho de 2006

Sábado ou domingo, sei lá!

Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


(Fernando Pessoa)


Poema em Curva

(a Fernando Pessoa)

Esta será a última vez que rirão de minha cara.
Este será o último dia que caminharei pelas ruas feito um criminoso,
Em que me cobrirei de luto em homenagem a mim mesma.
Esta será a última vez que abrirei as mesmas portas,
para recontar às mesmas gentes as mesmas histórias.
Estas serão as últimas lágrimas
pela dor de não saber a razão de tanta dor...

Quem ouvirá as minhas preces?
Quem sabe um deus cercado de pudores?
Mas esta será a última vez que minha mãe baterá à porta de meu quarto e perguntará:
_Não desejas comer?

Esta será a última noite que olharei minha cama feito um cadafalso,
que suportarei pontapés sem um gemido, cuidadosamente dentro das etiquetas.
A última, sim a última, em que esmurrarei a porta do banheiro
para não quebrar a cara de alguém.

Eu dormirei, enfim.
Mas ficarei nas terras verdes, retintas de morte.
Eu serei o silêncio das bocas amordaçadas, no desejo de tornar-me um grito.
A mão que se levanta para o soco. A faca na mão do suicida.

(Não, não lerás as minhas entrelinhas,
porque elas se acham perdidas até de mim mesma...
Parto, tão silenciosamente como nasci.
Já nem consigo recordar meus últimos passos,
tão distantes como o dia em que comecei a engatinhar...)

E eu, que tenho sido uma fortaleza imbatível,
Um prado de cortantes ironias,
temo, hoje, olhar-me ao espelho.

Meu coração é um nervo exposto.
Nunca as paredes foram tão vivas e exatas.
Morro, me contorcendo de dor.
Mas rindo da miséria do mundo.

Belém, 1986.




Na Carreira

Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função
Rezar, cuspir
Surgir repentinamente
Na frente do telão
Mais um dia, mais uma cidade
Pra se apaixonar
Querer casar
Pedir a mão
Saltar, sair
Partir pé ante pé
Antes do povo despertar
Pular, zunir
Como um furtivo amante
Antes do dia clarear
Apagar as pistas de que um dia
Ali já foi feliz
Criar raiz
E se arrancar
Hora de ir embora
Quando o corpo quer ficar
Toda alma de artista quer partir
Arte de deixar algum lugar
Quando não se tem pra onde ir
Chegar, sorrir
Mentir feito um mascate
Quando desce na estação
Parar, ouvir
Sentir que tatibitati
Que bate o coração
Mais um dia, mais uma cidade
Para enlouquecer
O bem-querer
O turbilhão
Bocas, quantas bocas
A cidade vai abrir
Pruma alma de artista se entregar
Palmas pro artista confundir
Pernas pro artista tropeçar
Voar, fugir
Como o rei dos ciganos
Quando junta os cobres seus
Chorar, ganir
Como o mais pobre dos pobres
Dos pobres dos plebeus
Ir deixando a pele em cada palco
E não olhar pra trás
E nem jamais
Jamais dizer
Adeus
(Chico Buarque e Edu Lobo)

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