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segunda-feira, 1 de maio de 2006

A questão Ademir: esclarecimentos finais

Sobre Ademir I


Essa foi uma semana de muitos questionamentos, de anônimos, colegas e amigos muitos queridos, acerca de minha atitude em relação à prisão do ex-senador Ademir Andrade.

Por isso, resolvi tecer algumas considerações a esse respeito. Até fugindo ao estilo deste blog.

Conheci Ademir em meados dos anos 80. Na época, eu era simpatizante do PRC (Partido Revolucionário Comunista) e repórter de O Liberal. Participamos, juntos, da luta contra a ditadura e pelas eleições diretas, para a Presidência da República. Mas nunca tivemos maior proximidade.

Só vim a conhecer, mesmo, Ademir, em 1999, quando fui trabalhar com ele (era senador).

Eu havia me estressado com A Província do Pará e com o PSDB, partido pelo qual nutria, como ainda nutro, uma simpatia quase irrefreável (e que eu preciso racionalizar, todo santo dia, para não cair em tentação. Até pelas pressões de alguns dos meus maiores amigos).

O estresse vinha do fato de eu haver publicado, na Província, uma série de matérias sobre o Ipasep e uma empresa chamada Mediserv.

Descobrira que a empresa, que ganhara a adubada concorrência para a assistência médica aos 120 mil servidores públicos estaduais, havia sido reativada às vésperas da licitação. E que tivera, em seu quadro societário, um dos diretores do Ipasep que, inclusive, comandara, se não estou enganada, o processo licitatório.

Também descobri que a empresa não tinha qualquer experiência efetiva na oferta desse tipo de serviço e em tão larga escala. Na verdade, os contratos que afirmava possuir, com entidades respeitadas, como a OAB, ou eram insignificantes ou nem chegaram a existir.

Faltava-lhe, em suma, estrutura e experiência no setor. Além do que, pelo menos duas das cinco empresas que participaram da concorrência não eram da área e pertenciam a parentes dos administradores da Mediserv.

Era repórter especial de política de A Província e o meu dever era publicar o que havia descoberto. Meu estresse, com o jornal, veio da súbita suspensão das reportagens, no bojo de um acerto publicitário.

Com o PSDB, estressei-me devido aos questionamentos havidos pela minha decisão de investigar o escândalo.

Na época, tinha o coração ainda mais amarelo. E fui me abrigar com Ademir, até a tempestade passar. Seria, apenas, o tempo de o partido digerir meu “mau comportamento”...


Sobre Ademir II

Ocorre que acabei nutrindo por Ademir uma simpatia imensa. E me tornei uma de suas principais assessoras, apesar de ele saber da minha opção partidária.

E ele tomou conhecimento disso, já na minha segunda semana de trabalho.

Estávamos indo, à noite, para uma reunião do PSB, em Ananindeua. Como, na época, minha filha era pequena e eu não tinha com quem deixá-la, levei-a comigo.

Lá pelas tantas, ela se virou pra ele e disse: “sabe, Ademir, eu queria votar em ti e no Lula, mas a mamãe me obrigou a votar no Fernando Henrique e no Almir Gabriel”.

Ele se virou pra mim, com os olhos arregalados e disse, com a sua voz nasalada: “Ana Célia, você votou no Fernando Henrique???!!!”.

Aí, não dava pra recuar. Ergui o queixo e respondi: “Votei, sim. E fiz campanha, no primeiro e no segundo turnos”.

“Mas, Ana Célia” – disse ele – “veja o que o Fernando Henrique está fazendo com os trabalhadores do campo, olha as mortes...” E se pôs a desfiar um longo rosário oposicionista.

Como havia feito um trabalho, para o Governo do Estado, sobre os assentamentos realizados pelo FHC, respondi, algo exaltada: “O governo do Fernando Henrique foi o que mais assentou trabalhadores, na história recente do País. Pode somar os números do Itamar, do Collor, de todo mundo”.

Aí, Ademir não se conteve e exclamou: “Ana Célia, como você é tucana!!!”

Pensei comigo: “Pronto, lá se foi o meu emprego”.

Mas, o que aconteceu, foi, justamente, o oposto. Nasceu, aí, na verdade, uma relação de simpatia, amizade e de respeito mútuo que perdura até hoje.

É claro que, democraticamente, ele nunca perdia a chance de me espicaçar, sempre que o Governo do Estado pisava na bola: “Taí o seu partido. Quero ver você defender isso agora” – costumava repetir. E o pior é que, às vezes, eu era obrigada a ouvir calada – até porque era eu que investigara a história. Como hoje bem sabe o PT, é duro ser vidraça...


Sobre Ademir III


Em meados de 2000, finalmente, voltei ao ninho: fui trabalhar como adjunta da Assessoria de Comunicação do Governo do Estado. Até pra ajudar a pensar a reestruturação do organismo.

Pouco depois, em janeiro de 2001, fui transferida para a assessoria de imprensa do então secretário especial de Produção, Simão Jatene.

No entanto, meu espírito democrático não bateu com o dele. Em reuniões de seu núcleo estratégico, eu era, aliás, a única voz dissonante.

O problema é que Jatene queria ser unanimidade. Queria o estádio, o juiz, os bandeirinhas, a torcida. E que nem tivesse time adversário.

Eu pensava e penso diferente: pra mim, jogo só presta se for pra valer. Não dá, simplesmente, pra impedir o adversário de jogar. A gente é que tem de jogar melhor.

Ademais, detesto comandante que fica querendo ter crise existencial no campo de batalha. Quando o pau come, quem comanda tem de ter firmeza. Porque o “coletivo”, que está dando e levando pernada, também tem medo. Mas nem por isso fica naquela coisa do “ser ou não ser”. Crise existencial, no meio de uma guerra, só no banheiro. Com a luz apagada e a porta trancada.

De sorte que, em 2001, após uma temporada de seis meses no inferno, acabei indo trabalhar com o então vice-governador, Hildegardo Nunes.

Eu e a minha rebeldia: fui excomungada para todo o sempre!


Sobre Ademir IV


Em setembro de 2002, tive um acidente de carro e quase morri. Meu joelho esquerdo foi, literalmente, estraçalhado. Fiquei sete meses em cadeira de rodas; levei um ano pra voltar a andar, sem a ajuda de equipamentos.

E foi então, quando eu ainda estava em cadeira de rodas, aparentemente indefesa, que experimentei a fúria do Barão de Inhangapi.

Todos os meses, tomava conhecimento de articulações, para a minha demissão; pra ser jogada, literalmente, na rua da amargura. Mas sem, é claro, que a mão do verdadeiro verdugo estivesse aparente. Porque é esse o seu modus operandi.

Dos amigos e ex-companheiros, alguns com décadas de convivência, me sobraram só uns três. Perdi, aliás, a noção de quantos telefonemas fiz, sem receber retorno. E das desculpas esfarrapadas que outros me deram. Todas as portas estavam trancadas, devido à ira divina, como me confidenciou um bom amigo. Só não passei fome, junto com a minha filha, porque minha família me trazia, toda semana, arroz e feijão.

E foi naquele momento de profunda aflição, que o socorro veio de onde eu menos esperava: de Ademir Andrade.

Quando eu ainda estava hospitalizada, aliás, seus assessores já haviam se oferecido pra tentar me transferir para o Rede Sarah, em Brasília.

E quando eu estava em cadeiras de rodas, ao procurá-lo, ele foi se virar pra me conseguir trabalho. Junto com ele, novamente. E apesar de saber que eu continuava tão tucana quanto antes.

E foi aí que cometi, talvez, a maior burrice da minha vida: aceitei convite pra permanecer na Vice-Governadoria, agora com Valéria Pires Franco, recusando tanto o trabalho que me foi arranjado por Ademir, quanto a oferta que me foi feita, à época, por Jader Filho (um sujeito com o coração do tamanho da humanidade), para o Diário do Pará.

Burrice, não por causa de Valéria, de quem aprendi a gostar, nem pela intermediação de Orly, que fez a ponte. Mas porque, ao permanecer no Governo, acabei, sem perceber, permanecendo, também, ao alcance das bicudas dos asseclas divinos.

Na época, Ademir ficou bastante magoado – e andou até arredio. Mas eu acreditava, então, que seria possível recompor a minha relação com o PSDB. E tive de roer uma pupunha até perceber que essas coisas são que nem cristal: quando parte, tem de jogar fora.

Ou, como me disse, certa vez, um grande amigo petista: “tu e essa tua mania tucana de tentar conciliar o inconciliável”.


Sobre Ademir V


E essa é a história da minha relação com Ademir.

Há mais, porém. Durante o tempo em que trabalhei com ele, nunca tomei conhecimento de nada que o desabonasse. Pelo contrário: enfrentamos, juntos, empresários, juízes e um monte de gente poderosa, para garantir direitos de cidadãos fumados.

Apesar da proximidade que tínhamos (eu era quase que o seu braço direito), em momento algum o vi pestanejar diante da defesa dessas pessoas.

E olha que, se ele quisesse fazer maracutaia, aquela seria a ocasião propícia. Porque as pessoas ricas e poderosas, às quais incomodávamos, dariam qualquer coisa pra escapar à ação de um senador da República. Que, por não ocupar o Executivo, tinha muito mais espaço de manobra pra esse tipo de transação.

Também nunca vi, em Ademir, sombra de medo – e essa é outra qualidade que admiro nele. Aliás, quem se mete nisso tem de ter coragem. Porque o jogo é pesadíssimo. Mas a sociedade que nos pariu, merece que sejamos capazes de oferecer, em retorno, o melhor de nós.

É claro que ele tem defeitos. O pior é a quase incapacidade de controlar a língua, o que traz inimizades viscerais e desnecessárias, porque acaba magoando profundamente as pessoas – e ele sabe disso muito bem.

Também, às vezes, entra naquela arrogância do “quero, posso e mando”, não querendo escutar ninguém - o que não deixa de ser um paradoxo em pessoa com tamanha capacidade de conviver com o diverso.

E é vaidoso à beça – defeito, aliás, que está bem presente em quase todas as figuras públicas que conheci. Mas que, por vezes, embaça a visão.

Apesar do afeto que nos une, não creio, porém, que venha a votar nele, caso se candidate ao Governo do Estado – já tenho candidato a esse cargo; já escolhi o lado em que estarei na guerra que se avizinha. Aliás, já até calcei as chuteiras e entrei em campo...

Mas, para qualquer outro cargo, cravo o meu voto nele, sem pestanejar. Porque ele foi um dos melhores senadores que o Pará já teve. E a sua atuação, no Parlamento, faz uma falta danada.

Aos atuais acusadores dele, portanto, que provem aquilo que afirmam. Porque é a eles que cabe o ônus da prova.


Sobre Ademir VI


Por tudo o que está dito acima, claro está que não me filiei ao PSB por questões ideológicas. Se assim fosse, a minha escolha teria sido, certamente, o PSDB.

Minha filiação ocorreu em 2003 – e eu informei isso à Valéria, quando fui trabalhar com ela. Da mesma forma que, quando trabalhei com Mário Cardoso, toda a sua equipe sabia da minha simpatia pelos tucanos.

Aliás, eu e alguns companheiros petistas até travamos debates exaltados. Porque eu insistia – como ainda insisto – que PT e PSDB são a tampa e o penico: profundamente iguais na intolerância em relação aos demais partidos; na arrogância do pressuposto, falso e religioso, da onisciência; no uso de práticas políticas arcaicas, que não condizem, absolutamente, com o discurso da ética e da moralidade pública.

Mas são, também, o que nós, sociedade brasileira, conseguimos produzir de mais avançado, em muitos anos de luta política.


Sobre Ademir VII

Nunca havia sido filiada, antes, a um partido político – mesmo do PRC fui, apenas, simpatizante. Também nunca militei em outra faixa política que não fosse a esquerda.

O maior motivo de minha filiação foi o desejo que sentia de candidatar-me a um cargo eletivo – e isso, se não fosse o meu acidente, teria acontecido em 2004, para a Câmara Municipal de Belém (eu até havia dado uma senhora guaribada na lataria!...).

Nunca consegui entrar nessa coisa de que jornalista é apartidário. Nunca aceitei me resignar à condição de cidadã pela metade.

Desde os 20 anos, tenho bem claro que nós, jornalistas, não somos máquinas desprovidas de ideais, nem inocentes úteis nas mãos de um patrão ou de um sistema iníquo.

Temos um papel importantíssimo no avanço das lutas sociais. Porque lidamos com um bem coletivo – a informação – que está na base de todas as grandes transformações históricas.

A informação nunca é inocente – o repórter, por vezes, é que é ingênuo. Ela sempre servirá a algum lado, na disputa das forças societárias.

Cabe ao jornalista, o operário da informação, descobrir o lado em que se encontra.

Sem se deixar seduzir pelo poder, apesar de transitar pelos corredores do poder e de conviver, por vezes, até com o todo poderoso de plantão.

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