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domingo, 2 de abril de 2006

Carta às comadres

Toque de recolher. É isso que o Pará vive, hoje. Tudo para que o PSDB possa apresentar boas estatísticas às próximas eleições. Possa dizer, mentirosamente: "olha, a violência diminuiu”. E depois de outubro, volta tudo a ser como era antes. Até porque ninguém é de ferro. A gente sabe como é que é...

O desespero da gente chega a ser engraçado. Tenho uma filha de 16 anos. Tá na idade do tá que tá. E eu pergunto: quem vai, quem leva, quem traz, a que horas chega. Todos fazemos isso. Como se tais informações garantissem alguma coisa.

Fazemos um sacrifício danado, para vivermos em condomínios com alguma segurança, muito além das nossas posses. Devemos, por vezes, até a alma. A Deus e ao mundo.

E vêm eles, agora, com a tal da lei seca. Como se nossos filhos bebessem desbragadamente. Ou andassem numa bodega qualquer. Bêbados e enlouquecidos. São os culpados... Quem diria!... Nem nós, comadre, nem nós!!!!

Que coisa mais absurda: transformar a vítima em vilão. Até com apelação a nós, mulheres (até parece que quem apanha, só apanha porque tem bar funcionando. E o cervejão em frente a TV? E o sexo de qualquer jeito? E a condição fumada de quem se permite apanhar, né, comadre?).

Égua da crueldade! Tudo por uns milhares de votos. Mas política é assim mesmo, não é? Até entidades fantasmagóricas, de apoio ao governo, aparecem. E nós, comadre? Vamo que vamo, sem pai, nem mãe.

Essa gente bem que podia ter investido na polícia, né, comadre? Mas não fez. E agora, vem com essa desculpa furada, de que é pobre que bebe demais e faz e desfaz. Pra se ver, comadre. Vá lá ver se os bares deles fecham. Que nada! Estão abertos. E nós é que somos os bandidões.

O pior é que todo esse espetáculo para eleitor ver, acaba em outubro. E vamos continuar na mesmíssima situação. Sem podermos andar em paz pelas ruas. Ou passear nas praças com nossos filhos. Com medo, muito medo. Até dentro de casa.

Mas eles não sabem o que é isso, comadre, porque vivem cercados de seguranças. Pagos, aliás, com o nosso dinheiro. Estivessem eles um dia, na nossa pele, para ver o que é bom. Com certeza, não viriam com essa cara de pau, tentando fazer de conta que a violência só atinge quem anda em bar de noite. Quer dizer, para eles, o morto é que procurou.

Que coisa, né, comadre, que coisa!

Um comentário:

Val-André Mutran disse...

É muito preocupante todo esse processo.
Longe de mim bancar o Oráculo da sabedoria, há gente na Praça com tal intento, e quem sabe, competência.
Mas, não vejo a longo curso um desenho de política inclusiva.
Vou ser mais claro.
Não temos políticas inclusivas(derivadas das políticas sociais do welfare-state).
O que assistimos em Belém e em todo o Pará, são conseqüências históricas, diretamente relacionadas à regulação da exclusão do território que é um grande desafio às políticas publicas. Se em Belém existem políticas de ordenamento, de desenvolvimento, mas estas por vezes provocam exclusão, então o desenho está errado e o reflexo disso é noestrato social.
Muita violência, promiscuidade, prostituição, drogas e um movimento de ciclo vicioso. Veja:
* Camponeses > cidades
* Favelados > periferia
Movimento pendular:

De acordo com estudos do professor Marcel Bursztyn, do Centro de Desenvolvimento Sustentável
da Universidade de Brasília, a Pobreza = a uma força espontaneamente centrípeta e a Regulação pública da pobreza = uyma força centrífuga.
É muita pobreza e amontoamente de pessoas Ana.
Nosso território está d0iante de:
Lugares sem Estado;
Pessoas sem lugares;
Pessoas em lugares errados, mas com “consentimento legitimador”.
Quer mais...?
Val-André Mutran
Jornalista
http://blogdovalmutran.blogspot.com